Aventuras de Dico Saburó
1 O bebê solto no ar
Notas iniciais
- Esse menino está com um febrão danado! — Disse a mãe, contrariada, mostrando ao marido o filho deitado no berço.
Mergulhada na ignorância da vida vegetativa ( havia menos de uma semana que deixara o útero materno ), a criança permanecia alheia a tudo. Um barulho qualquer vindo de fora entrou pela janela, e, por instinto, os pais viraram o rosto para aquela direção. Dez segundos depois, olharam de volta. Então se assustaram: o menino já não estava mais no berço... Evaporara-se ali mesmo à frente deles!
- Dico, meu filho! Onde está Dico? — gritava a mãe, revolvendo o berço com mãos voazes, ainda sentindo o resto de calor que o corpinho deixara nos panos, e a umidade que escorrera da fralda molhada. Ninguém entrara no quarto — Isso eles podiam garantir! No auge da aflição, o pai e a mãe desandaram a correr pela casa, que estava deserta, porque era dia de Carnaval, e a cozinheira havia ido à cidade para ver o povo sambar e cantar pelas ruas de Diamantina. E Dina, a filha mais velha, passava as férias no sítio de parentes. Chegaram até o quintal da chácara, e não encontraram ninguém, muito menos o menino. Alheios a tudo, em sua indiferença de vegetais, apenas lá estavam os pés de manga e de jabuticaba, as laranjeiras e os abacateiros.
Soluçando, a mãe voltou para dentro. Mal entrou no quarto, soltou um grito, apontou para o teto e dobrou os joelhos caindo desfalecida no chão. O marido não sabia se desviava os olhos para baixo e acudia a mulher, ou se continuava com a cabeça voltada para cima, siderado pelo que seus olhos estavam vendo. O fato é que, envolto em mantas, quase colado ao teto, bem rente às tábuas, se achava imóvel e solto no ar, o filho de cinco dias. Três minutos se passaram, até que o pai percebesse o que realmente estava acontecendo: o bebê tinha... Levitado! Dois minutos depois, e sem conseguir despregar os olhos do que via (esquecera-se até da mulher desmaiada no chão), o homem notou que o recém-nascido veio baixando lentamente, sempre na mesma direção, até se encaixar de novo no próprio berço! Perplexo, o pai chegou perto e tocou de leve na mão do bebê. Tanto bastou para que recebesse um violento choque elétrico que quase o derrubou, enquanto os dedos do menino saíam faíscas que crepitavam como lenha na fornalha... Quis falar e não pôde: A garra do medo apertava-lhe a garganta segurando a voz. Finalmente conseguiu:
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