Aventura Romântica – Lembranças
3 Lembrança III - Despedida Dolorosa
Notas iniciais

A missa de um ano de falecimento da mãe de Lis havia sido marcada para as oito horas da noite, tia Ana tinha vindo para a cerimonia religiosa e resolveu ficar com a sobrinha.
—Tadinha da Laura dormiu na metade da missa... – Tia Ana falou ajeitando os cabelos na testa da menina que estava no colo do pai.
—Também, passou o dia bagunçando na casa da dinda dela... – Lis disse tristonha.
—Eu não estou cansado tia!
—Ah verdade, ficou a missa todo do lado da mamãe. É um homenzinho já!
Lipe estufou o peito orgulhoso.
—Eu sempre cuido da mamãe! – e abraçou Lis, ele estava grande ficava pouco abaixo da cintura da moça.
—É verdade, os homens da minha vida são maravilhosos tia! Querido, porque você não vai com o papai colocar a Laurinha na cama? Mamãe quer conversar um pouco com tia Ana.
—Ah mãe, deixa eu ficar junto, eu gosto de conversar!
—Lipe... Olha só quem acordou! Oi boneca. — a menina se espreguiçou agarrando-se no pescoço do pai e escondeu o rostinho. –Ei que tal a gente ir contar uma historinha para a Laura filho?
—Tólinha!!! –Laurinha se manifestou.
—Parece que temos uma futura escritora por aqui, gosta de histórias é princesa da tia?
—Aqui é assim tia de cozinheiro e escritor todo mundo tem um pouco!
—Isso é ótimo, família sempre unida!
—Bom, vamos deixar vocês conversarem, vem filho.
Lipe ficou emburrado.
—Meu amor. – Lis se abaixou na altura do menino. – Mamãe não está muito legal, e estou precisando da minha tia que é como se fosse minha mãe agora. E o papai precisa de ajuda com a Laura, depois vou lá te dar um beijo.
—Ta bom... – ele falou mais concordado, deu um beijo na mãe e na tia e foi com o pai.
**
—O que a mamãe vai falar com tia Ana?
Os três estavam na cama de Laurinha, a menina brincava com um ursinho enquanto o menino estava sentado no meio da cama e Fábio deitou próximo a eles.
—Filho, a mamãe está triste hoje, e você sabe porque, não sabe?
—Sim... Porque a vovó foi morar no céu...
—Isso, e hoje faz um ano...
—Pai você acha que a mamãe vai ficar doente de tristeza que nem ano passado?
—Não meu amor! Ano passado foi porque a mamãe teve que cuidar da vovó todo aquele tempo no hospital e ficou doente e triste ao mesmo tempo, mas já passou.
—A vovó Regina não era uma vó normal né pai?
—Lipe. Não fala assim filho, a sua vó estava muito doente.
—Eu sei... Não é por mal que falei... Eu vou contar uma história.
—Tólinha? –Laura estava embaixo do lençol brincando se descobriu curiosa. – Quelo tolinha Ipe.
—LIPE! Eu posso contar pai?
—Pode sim. – Fábio riu do jeito sério do filho.
—Eu lembro da vovó, ela era magrinha, e tinha um olhar triste, mas ela sempre me achava que eu era o tio Léo...
—Dindoooo! –Laurinha gritou reconhecendo o nome do padrinho.
—Shiiii! Mas dai eu dizia " é Lipe vó", e ela sorria e dizia, "meu netinho".
Fábio ficou espantado com a memória do filho, era uma das coisas peculiares de dona Regina, quando alguém falava o nome do menino, ela logo lembrava-se de que era o neto, uma afirmação certeira que se desfazia em poucos minutos.
—E ela tinha um cheiro de baunilha que nem a mamãe tem, mas também de flores. E gostava que o papai fizesse uma leitura para ela... Ela não era uma vó normal que fica enchendo a gente de comida e apertando as bochechas, igual a tia Ana faz, mas ela ficava olhando assim, como quem olha dentro do coração.
Laurinha que antes estava agitada encostou a cabeça no pai e ficou hipnotizada vendo o irmão falar. E Fábio também escutando o filho lembrar de várias passagens da avó, e ficou agradecido pelas lembranças não envolverem os momentos finais da sogra.
—Ai um dia a mamãe levou uma bronca da vovó porque o bolo que ela levou lá na casa de repouso, estava murcho...
**
—Ai tia, parece que foi ontem sabe, aquela última semana da mamãe foi tão sofrida...
—Lis, você cuidou tanto dela que tenho certeza que ela só levou coisas boas daqueles momentos.
—Dona Ana, você é tão parecida com ela... Esse jeitinho de falar sempre tão positiva. Que bom que pode vim! – ela deitou a cabeça no colo da tia.
—Mesmo morando no interior eu nunca vou abandonar vocês, e depois com a gravidez da Nanda vou vim cada vez mais.
—Ainda bem...
—Querida, fale, diga tudo que está guardado, sei que você superou tudo com grandiosidade e um marido maravilhoso, mas se quiser falar estou aqui.
—Fábio foi meu porto seguro... Se não fosse ele aqueles dias nem sei... Aliás, se não fosse ele, eu não teria me aproximado tanto da mamãe nos últimos anos.
****
Uma semana antes da mãe de Lis ficar realmente doente as coisas já não andavam fáceis, muito debilitada tinha crises terríveis, onde não reconhecia ninguém e chamava por pessoas que já tinham falecido anos atrás, muitas vezes agredia quem tivesse por perto ou até a si própria num ato de desespero. Lis decidiu que não levaria mais as crianças para vê-lá, pois era comum ter esses acessos de fúria quando tinha muita gente perto dela, quando sentiu que as coisas estavam piorando, organizou uma cesta de piquenique e com a mãe na cadeira de rodas haviam ido ao jardim da casa de repouso e passaram a tarde com ela, muitas vezes ela chamou Lipe de neto, embora não reconhecesse Laura que era muito pequena ainda, Fábio havia lido o livro que contava a história deles e ela escutava tudo com atenção, leram poesias e colocaram música para ela escutar, isso tinha sido um mês antes.
Quando o telefone tocou em uma madrugada fria Lis soube que a partida da mãe estava próxima, com Lia e Igor cuidando das crianças foram para o hospital, ela havia tido um AVC, fruto da própria doença, estava muito debilitada, respirando com dificuldade, Lis chorou nos braços do marido no corredor do hospital assim que o médico disse para que se preparassem. Mas ao contrário do que todos achavam, ela permaneceu uma semana no hospital, inerte na cama, abria os olhos e encarava a filha por horas sem dizer nada. Aquilo acabou com as forças da moça que largou do trabalho e até mesmo dos filhos naqueles dias, passava todas as noites e boa parte do dia ao lado da mãe, trocando de lugar apenas com a tia ou Lia. Uma semana de angustia e medo diante de qualquer toque de telefone. Mas Regina resolveu partir de uma forma serena, antes da dormir Lis a ajudou a trocar de camisola, diferente de quando esteve doente ela obedecia sem pestanejar tudo que era lhe falado, calma erguia os braços para que a roupa limpa fosse colocada e depois de quase uma semana sem dizer nada falou.
— Filha, você está muito bonita hoje. — disse com a voz fraca.
Lis parou o que fazia e olhou para ela, os olhos cansados das duas refletindo o amor mutuo.
—Obrigada mãe, a senhora também.
—Dê um beijo nas crianças.
—Darei, mas a senhora não pode se cansar, vamos deitar?
—Meu cabelo...
—A sim vou escovar... — Li se colocou atrás da mãe e penteou os cabelos curtos dela.
—Não pare de ser feliz.
Ela havia dito provocando uma onda de soluços em Lis, que não conseguiu manter o controle, se ajoelhou na frente da mãe.
—Mãe, eu te amo tanto, tanto...
Regina deixou uma mão sobre a mão da filha e sorriu concordando.
Assim que se acomodou na cama Regina adormeceu, Lis que estava com o coração doendo com aquelas demonstrações de afeto teve fé que a mãe apresentasse uma melhora inesperada.
No entanto, Regina faleceu naquela noite por volta das três da madrugada. O baque tinha sido grande, foi Léo que ligou para Fábio contando e em dois tempos Igor e Lia apareceram para ficar com os pequenos enquanto ele voava para o hospital, andou pelos corredores levantando a cabeça a procura de Lis que havia sumido logo após a confirmação da morte. E foi encontra-la na capela do hospital, silenciosa, sentada num banco ela não chorava só contemplava as imagens no altar.
Sem querer atrapalhar ele sentou-se ao lado dela e ficou até ser notado.
—Oi... — ela disse quando o olhou com carinho alguns minutos depois. — Nem vi você chegar... E as crianças?
—Estão com Lia e Igor, quando sai estavam dormindo. E você meu amor como está?
—Não sei... Ela disse que eu estava bonita hoje...
—E ela estava certa, como sempre. — ele falou retirando os cabelos soltos do rosto dela e a puxando para seu ombro.
—Parece que tudo está meio estranho...
—E está. Mas eu estou com você e todos que te amam também.
—Eu sei, obrigada por ser tão importante no meu contato com ela nesses anos...
—Obrigado por me deixar fazer parte disso tudo, precisa ter coragem para enfrentar esse dia, e depois vamos superar juntos.
Ela sorriu e deixou as lágrimas caírem enquanto era abraçado por Fábio.
**
O velório foi todo organizado por Leo e Nanda que tomaram a frente deixando tia Ana e Lis apenas sentir aquele momento. Lis preferiu não trazer os filhos, apenas foi em casa trocar de roupa e conversou com Lipe, estava arrasada, mas ficou serena diante do menino curioso, explicou que a vó tinha ido para o céu e eles não veriam mais ela, com os olhos tristes ele abraçou Lis e disse que ia amar a avô para sempre.
Quando o enterro terminou Lis e Fábio foram para casa.
—Você acha que devemos buscar as crianças?
—Não, falei com Lipe agora à tarde e ele estava tão animado com a noite de pijama que não seria justo trazer eles aqui onde animação não é um item da noite...
Lia e Igor planejaram uma noite do pijama para descontrair os pequenos.
—Lis... – naquele momento ele não encontrava palavrar para consolar a esposa de olhos inchados.
—Sabe o que eu quero? — ela disse olhando para o marido.
—O que?
—Um banho bem quente e dormir até amanhã.
—Ótima ideia...
—Vem comigo?
—Sempre!
Os dois tomaram banho juntos, mas não como das vezes que as caricias tornavam-se intensas, apenas o carinho estava presente e as trocas de olhares amorosas.
Lis dormiu com a cabeça no peito de Fábio depois de muito chorar.
**
Quando Fábio acordou algumas horas depois e não encontrou a esposa seu peito apertou, procurou na cozinha e em outros lugares da casa e quando estava ficando apreensivo lembrou-se de onde ela poderia estar. E foi na cozinha da confeitaria que a mãe tanto amava que a encontrou.
—Oi amor... – ela disse quando o viu entrar na cozinha.
—Oi... Bolo de chocolate?
—Sim... Bolo de chocolate me lembra minha mãe, e não quero esquecer ela nunca.
—Bolo de chocolate me lembra algumas coisas também. – ele disse a abraçando por trás e dando um beijo em seu pescoço.
—Que marido assanhado que eu arrumei!
—Aceitou casar comigo agora aguenta! – ele brincou sentindo que ela estava mais leve.
—Bobo! – ela se virou para ele. – Quer provar?
Falou com a colher na mão.
—Quero... Mas do melhor jeito... Eu acho que você sabe bem qual é!
Lis sorriu, estava com o homem que amava, e sabia que tudo que a mãe sempre quis era que ela fosse feliz, e ela seria.
Assumindo um sorriso arteiro, ela passou o dedo na colher e sujou a sua própria boca com chocolate.
—Prova então!
Fábio sorriu meio de lado, vendo depois de dias que a Lis encantadora que tanto amava estava se revelando novamente, sem pensar duas vezes ele a beijou, uma mistura doce de chocolate e sensualidade que ele adorava.
****
Tia Ana foi dormir depois de relembrar os últimos dias de Regina, enquanto Lis foi ver os filhos, encontrou Lipe e Laurinha dormindo agarrados ao pai. Ficou contemplando a cena e disse baixinho.
—Estou sendo feliz mãe, obrigada por me ensinar a amar tanto.
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