Aventura Romântica
19 Visitando o Passado... Aceitando o Presente
Notas iniciais
Fábio
Lentamente Fábio andava até o último lado do cemitério, várias lápides se espalhavam amontoadas em toda parte, desde criança observava que lugares como esse as pessoas assumiam um ar pesaroso, uma tristeza quase palpável nos olhos e nas atitudes mais retraídas em respeito aqueles que ali repousavam.
Um ar gelado causou um pequeno tremor, ou talvez fosse o medo, o lugar estava deserto, em dia de finados ou alguma data comemorativa era comum ver gente por todo lado, cheiro de vela derretendo se misturando ao cheiro de alguma guloseima que ambulantes vendiam do lado de fora dos portões, flores espalhadas nas mais variadas cores e tamanhos. Mas num dia comum, como domingo, era como se aquele lugar fosse inabitado e de fato era. Virou numa curva de lápides todas iguais, leu os nomes, uma mania que herdou da avó a muito falecida, e viu que era uma família mulheres e homens, talvez crianças, jovens... Será que partiram todos juntos ou um a um ao longo dos anos?
Um barulho chama a atenção e ele vê um senhor muito idoso colocando flores num túmulo, será sua esposa? Teve vontade de ir até ele e perguntar como ele estava se sentindo, mas seguiu seu caminho... Logo avistou o que estava procurando. Caminhou mais um pouco e chegou em frente a lápide que tinha em sua pedra marcado:
“Filha adorada, irmã zelosa, amiga querida, noiva amada e mãe sonhadora.”
Fábio lembrou-se do dia que lhe mostraram o texto que colocariam na pedra, ele só havia chacoalhado a cabeça sem prestar atenção em nada, agora admirava as letras douradas sentindo o vento gelado no rosto e uma dor no peito... dor de culpa ou de saudade?
Do lado, um túmulo menor, bem pequenino.
“Sem perder suas asas voou de volta para o céu.”
Como um passe de mágica Fábio se viu transportado a um passado que quase nunca visitava mais estava sempre presente em sua vida como um lembrete eterno para que não repetisse seus erros.
***
Lis
Cada vez que andava nos corredores da casa de repouso onde a mãe estava, lembrava do filme “A espera de um milagre” não queria pensar mas era inevitável, um corredor da morte, o cheiro das flores colocadas em cada repartição e de algo que lembrava hospital causava nela um arrepio, sabia que era uma das melhores clínicas, os médicos mais competentes, os melhores tratamentos... E dava graça ao pai que nunca conheceu, pois morreu enquanto era só um bebê, ter deixado uma ótima pensão, que servia para custear a estádia da mãe ali, mesmo assim estar naquele lugar sempre a deixava triste.
A última ala era direcionada para um amplo jardim onde várias famílias visitavam seus entes queridos, espichou um pouco a cabeça e pode ver a mãe
–Lúcia?
Lis leva um susto quando um senhor a aborda, ela já o tinha visto algumas vezes, e sabia da sua história. Então sorriu com o maior carinho do mundo que uma neta teria e disse:
–Oi vô, estava te procurando.
–Até que enfim, me falaram que você tinha ido embora.
Lis sabia que a neta dele havia falecido em um acidente, isso lhe causou grande dor e mais tarde, a doença que hoje lhe levava a confundir uma estranha com sua querida neta.
–Eu estou aqui vô, mas tenho que ir antes que anoiteça.
–Isso, tem razão, a noite é inimiga das moças solitárias.
Não deixou de notar que havia verdade nas palavras dele.
–Vovô por favor volte para seu quarto.
Ele assente e dá um beijo no alto da cabeça de Lis.
–Volte sempre querida.
Ele já tinha passado do tempo onde tentavam empurrar verdades goela abaixo, agora restava não contrariá-lo evitando possíveis crises ou confusões.
Lis caminha pelo jardim e lá longe num lugar afastado enxerga a senhora de cabelos grisalhos e o velho e pesado xale nos ombros, seu peito aperta diante da visão.
Resolveu visitar a mãe, fez um bolo rápido, esperava que ela não reparasse, e se arrumou, não queria perder o domingo, depois de ter discutido com Sol ao telefone, quis esquecer tudo ligou e marcou um horário de visita para ver dona Regina. Mas ali tão perto teve vontade de fugir, estava cada vez mais difícil encarar essa situação. Teve vontade de voltar a ser criança, trepada num banquinho olhando a mãe cozinhar com o velho avental vermelho, onde ela era a ajudante número um e raspava todas as travessas de bolo. Lis apertou a sacola que tinha na mão com força e seguiu até seu destino.
***
Fábio
–Sua esposa?
Fábio levou um susto o senhor que ele viu antes se aproximou sem ser notado.
–Não, minha noiva.
–Era muito bonita... -ele falou ao analisar o retrato emoldurado de cobre.
–Sim, era linda.
–E a criança?
–Meu filho, mas não cheguei conhecer.
–Sinto muito, eu também enterrei um filho recentemente, é uma coisa muito anormal, um pai enterrar um filho.
–O senhor tem razão... – Fábio estava pensativo.
–Minha esposa está logo ali acima. Não é fácil ser sozinho no mundo.
–É verdade, mas sozinho menos chance de perder pessoas que amamos.
–Perder pessoas que amamos é a lei da vida... Sempre alguém que morre deixa alguém que ama sofrendo, não há o que fazer sobre isso, é preciso continuar vivendo, esperando a sua hora.
Fábio refletiu sobre isso, Igor vivia dizendo que ele precisava seguir, não era nada fácil. Quanto menos ligações afetivas tivesse menos sofreria, era seu lema.
***
Lis
–Dona Regina, olha que coisa maravilhosa essa moça trouxe para a senhora!
A acompanhante da mãe de Lis a chamou de moça isso era uma evidência que naquele dia ela não sabia que tinha uma filha.
–É um bolo, bolo de chocolate.
–Eu gosto de bolo de chocolate. –a mãe disse distante.
–Quer que eu busque um pratinho para se servir dona Regina?
–Pode ser.
Lis viu a moça se afastar e teve medo de ficar a sós com a mãe.
–Você fez?
–Sim, eu que fiz. Também gosto de bolo de chocolate.
–Eu não posso comer muito doce.
–Verdade, o açúcar nos deixa agitadas, eu também não posso comer muito.
–Eu deixei minha caixa de costura lá no quarto.
–A senhora aprendeu a costurar mãe. – Lis deixou o mãe passar suave pelos seus lábios.
A mulher focou no vazio por um tempo e depois a encarou como poucas vezes fazia.
–Não, Lis eu nunca aprendi a costurar, mas gosto de ter uma caixa de costura, para ver o que deixei de aprender enquanto podia.
–Mas a senhora sabe tantas coisas...
–Não sei mais quem eu sou...
–A senhora é a minha mãe. –Lis sentiu as lágrimas prestes a rolar mas ficou firme.
–E você como está hoje?
–Um pouco triste...
–Tristeza não faz bem para ninguém. O que aconteceu? Ontem estava tão feliz, o Lucas onde está?
A mulher assumiu um olhar cheio de dúvidas misturando presente e passado.
–Não pode vim mãe...
–Não gosto dele. – a mulher olhou para o bolo na travessa. –Ele não gosta de bolo de chocolate...
–Não, mãe, ele não gosta de nada com chocolate.
–Isso que eu digo você é uma especialista em doces, fez cursos inteiros só sobre a arte do chocolate e namora um rapaz que não gosta disso... Precisa de alguém que goste das coisas boas da vida.
Lis não pode evitar e sorriu.
–Vou terminar com ele o que acha mãe?
–Acho que já está na hora. Onde está aquela mocinha que está me ajudando?
–Foi buscar um prato para você comer o bolo.
–Não posso comer muito doce.
A mulher repetiu sem emoção.
–Mãe eu sinto sua falta. –Lis segurou a mão da mulher.- Sinto muito por não estar sempre com você.
–Bobagem, eu não posso comer bolo e você me diz que sente falta de mim.
–Verdade eu sou uma boba...
–Lis? –a mãe voltou a olhar com carinho para ela.
–Sim?
–Você está linda hoje, mas seus olhos estão tristes como sempre filha.
Lis deixou as lágrimas correrem livres.
–Te amo mãe.
–Ah querida, eu também te amo, tenho sentido sua falta aqui. O doutor disse que em breve terei alta.
–Que bom mãezinha. – Lis se ajoelhou na frente dela. –Eu vou esperar você. Tudo bem?
–Quero ir para minha casa. Onde está minha ajudante? – a voz da mulher ficou aflita e puxou sua mão das mãos de Lis com repulsa. –Me solte não quero que toque em mim.
E do nada a ajudante apareceu confortando Regina e a levando dali com promessas de bolo de chocolate e histórias para dormir, deixando Lis solitária aos prantos.
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