Aventura Romântica
5 Procura-se
Notas iniciais
Lis
Droga eu tinha me atrasado, deveria ter levantado pelo menos uma hora antes, tomei um banho rápido e me arrumei quando voltei no quarto ele ainda estava dormindo.
—Fábio? Fábio acorda. – chacoalhei ele devagar mas com insistência.
—Oi? Tudo bem? – abriu os olhos interrogativos.
—Oi, desculpa te acordar, mas preciso sair e...
—Ah eu me arrumo rápido... – fez menção de levantar, mas eu segurei o peito dele para que ficasse parado, eu estava com pressa, mas era inevitável não perceber o calor dele na minha pele.
—Não, não posso te esperar, já to atrasada. — gaguejei. — Olha você pode ficar tranquilo eu só queria te pedir para você deixar a chave num vasinho que tem logo no final do corredor, meu esconderijo secreto. – dei uma risadinha completamente sem graça.
—Lis... — ele estava confuso.
—Não eu tenho que ir mesmo. Hoje não tem café pode ficar feliz, e obrigada pela noite... Foi agradável. – me inclinei sobre ele e dei um selinho. – Eu sei que isso deve infligir algumas regras desse negócio todo, mas eu prometo que assim que voltar para casa vou mudar o esconderijo da minha chave e acredito que se você for algum tipo de bandido, é um pouco decepcionante eu sei, mas não vai achar nada de grande valor por aqui. Então... Tchau.
Eu sai quase correndo não era boa em despedidas e com certeza eu nunca mais veria aquele cara, dessa vez eu procurei curtir a noite sem me apegar, talvez a Nanda tivesse razão a prática poderia tornar o sexo aventura muito mais divertido e fácil, ela ficaria quase orgulhosa de mim, menos na parte de deixar ele no meu apartamento. No entanto isso não tinha tanta importância naquele momento quanto o que estava prestes a enfrentar, minha cabeça começou a fervilhar, toda sexta-feira era uma incógnita diferente, um desafio complicado que eu tinha para enfrentar.
***
Fábio
Várias fotos e pequenos objetos de decoração se espalhavam pelo apartamento dela, devia ter uns 50 metros quadrados, paredes na cor salmão, um lugar pequenininho mas aconchegante. Em todos os registros ela estava iluminada por um enorme sorriso, mas na realidade eu pouco tinha visto ela sorrir assim tão espontânea, uma foto me chamou a atenção, uma senhora com um sorriso muito parecido com o dela, segurando um bolo enorme onde estava escrito “Lis, Minha Menininha”, em outra foto ela estava abraçada com a mulher do bolo e outra senhora, mas agora a mulher tinha um ar de tristeza quase de desentendimento, igualmente Lis estava com os olhos mais tristes que já tinha visto.
Eu não sabia bem ao certo o que estava sentindo, mas eu quis de alguma forma conhecer mais dessa moça, é claro que eu sabia que não deveria, eu não podia me apegar de novo. Andei até a cozinha apertada, um avental amarelo floral estava esquecido no balção do lado de uma xícara de café vazia, sorri inevitavelmente com a lembrança de uma semana atrás e só por um instante eu quis ter sentado e tomado café com ela, seria muito melhor que estar ali sozinho.
***
Um mês depois
Fábio
—Como assim cara? — Igor me encarava surpreso.
—Eu não consigo mais escrever. — empurrei todos os papéis sobre a mesinha.
—Você está criando um bloqueio na sua cabeça Fábio.
—Não Igor é aquela menina, ela me deixa transbordando de ideias, o jeitinho dela...
—Você está apaixonado?
—Claro que não... mas ela me faz bem. — eu não conseguia explicar minha relação com Lis, mas de alguma forma estava dependente dela.
—Cara, olha só eu vi você ir naquele bar dia sim dia também, para ver se a encontrava de novo, se isso não é amor eu não sei o que é?!
—Nem me fale, tive que me segurar para ir no apartamento dela.
—Era só o que faltava, quase teve um ataque achando que era um pedido de casamento quando ela fez um café da manhã, ai parece no apê dela, “Oi quero transar com você de novo porque só quando isso acontece consigo escrever.”
—Igor pelo amor de Deus, assim parece que eu sou, sei lá, um cretino.
—E não é?
—Cala boca. — Joguei nele uma almofada.
Um mês tinha passado, nos primeiros dias novamente escrevi feito um louco, até comecei a trabalhar no projeto de um livro, mas um belo dia, nada, não havia mais ideias, só um completo nada, um vazio na minha cabeça. A pequena kitnet que dividia com meu amigo Igor ficou ainda menor para tanto papel amassado de coisas que eu tentava escrever e que não resultavam em nada. Comecei então a minha saga, toda noite eu ia naquele bar onde a conheci, ia na padaria perguntava se o padeiro não tinha visto a moça daquele dia, ele nunca mais a viu, mas me deu uma receita de torta de chocolate com morango para que se eu tivesse a sorte de encontrá-la pudesse entregar já que ela tinha esquecido de levar no outro dia. Sorte era tudo que eu estava precisando.
—Eu ainda não acredito que você passou duas noites com ela, praticamente teve acesso livre sobre a casa dela e não sabe nada além do primeiro nome, e nem deve ser o nome mesmo, talvez seja um apelido. Nem nas redes sociais vamos achá-la.
—Igor essa é aquela hora que você diz "Fábio aconteça o que acontecer, tudo vai dar certo." ou então cala a boca e me deixa em paz.
—Ok, ok vou assistir a Ana Maria que eu ganho mais.
Acabei rindo, Igor era jornalista como eu, mas acabou na coluna de culinária de uma revista bem-conceituada, não tinha menor ligação com isso, então assistia todos os programas de culinárias, o programa da Ana Maria Braga era o que ele mais gostava ria horrores com as maluquices do papagaio Louro José.
Voltei a me concentrar nos meus textos, era incrível mas ela estava presente em quase tudo o que eu escrevia, nunca citava o nome dela, claro, mas as situações como as amigas inventando mil regras para o tal sexo aventura, ou ela toda trêmula cantando no palco ao meu lado. Algumas crônicas eram carregadas no humor, mas na maioria eram apenas uma conversa. As pessoas estavam adorando, logo recebia pilhas de cartas e diversos e-mails parabenizando ou querendo saber mais sobre os assuntos.
—Ah, onde vou encontrar você Lis?! – Disse em forma de desabafo deixando minha cabeça cair no meio daquela papelada.
—Na TV!!! – Igor deu um grito.
—Na TV o que Igor? – falei desanimado.
—A psicopata do café está na TV!
—O que? – Levantei rápido derrubando uma xícara de café frio em cima da mesa, e espalhando papéis por toda parte corri até a pequena sala lá estava ela.
—Cara você está pegando uma atriz?
—Igor levanta o volume anda.
Ela estava linda, cabelo preso num rabo de cavalo firme, a pele branca levemente rosada por alguma maquiagem suave, os lábios estavam bem vermelhos, estava vestida com uma roupa de cozinheira ou algo assim, com um avental cheio de pequenas flores.
***
Lis na TV
—Bom Ana, na verdade eu fiz muitos cursos, mas minha paixão pela cozinha e pelo doce, vem da minha mãe.
—Você via cozinhar e foi aprendendo? Normalmente é assim né? A gente vê nossa mãe e quer imitar.
—Sim, ela tinha uma pequena confeitaria, quer dizer tem, ainda tem, mas hoje quem toma conta é minha tia, doceira de mão cheia também.
—Mas você tão magrinha especialista em doces? Eu não aguentaria essas delícias todas na minha frente!
—Pois é, mas eu como hem, provo tudo o que faço.
—O que você vai ensinar para quem está em casa anotar?
—Bom a receita que me trouxe aqui hoje foi um pudim de laranja, que é sucesso no restaurante onde trabalho.
—Pudim de laranja, isso deve ter um gostinho de coisa de mãe.
—É tem sim, e eu aprendi com ela, minha mãe dona Regina.
—Dona Regina se tiver assistindo, fique orgulhosa da sua filha.
—Eu que sou orgulhosa da mãe que tenho.
—Gente que linda, ficou emocionada. Vamos para o comercial e voltamos já já com Lis Venturine, chef de cozinha no restaurante The Moment, um dos mais conceituados da cidade.
***
Fábio
—Anotou o nome do restaurante?
—Sim anotei.
—Cara, eu estou me assustando com isso tudo, como assim você procura a mulher na cidade inteira e ela parece como mágica na nossa TV, e você sempre me criticando por assistir programa de mulherzinha.
—Igor, cara, eu juro para você que nunca mais vou fazer nenhum tipo de piada sobre você ver esses programas para mulherzinhas, tá!
Eu estava tão feliz que poderia dançar, claro que só podia ser algo relacionado a comida, no perfume dela tinha sentindo um leve toque de baunilha, canela talvez. Ela estava mais linda do que eu lembrava, mas os olhos dela estavam tristes, não parecia realizada em estar na TV o que era muito estranho.
Quando a programa voltou Igor começou copiar a receita na sua agenda e eu fiquei absorvendo cada detalhe dela, com um sorriso delicado explicando cada passo do tal pudim, mas o que foi mais perfeito foi o final.
***
Lis na TV
—Lis, montou junto com nossa produção uma mesa de café da manhã maravilhosa, parece daqueles hotéis de luxo, tudo lindo!
—Ana, eu acho que café da manhã é a refeição mais importante do dia, e eu arrumo minha mesa de café todo dia, mesmo que eu esteja sozinha.
—Isso é ótimo, sinal de autoestima e organização. Um exemplo para quem está em casa se sentindo solitário.
—Na verdade é uma coisa que minha mãe sempre fazia, eu lembro que ela levantava e já fazia o café, colocava um bolo no fogo, fazia torradas e eu me sentia a menina mais importante do mundo, ai um dia, eu já adulta, ela chegou na minha casa de manhã bem cedo e eu não tinha nem pó de café acredita, minha mãe me deu uma valiosa lição, sobre o começar o dia fazendo com que o dia comece, e para isso nada melhor que uma boa xícara de café e se puder acrescentar um doce então está tudo perfeito. Mesmo que o dia não seja o melhor você começa ele da melhor forma sempre.
—Sua mãe parece uma doçura de pessoa, quantos ensinamentos! Todo mundo deveria tomar café da manhã e se preparar para um dia longo de trabalho, quantos saem de casa em jejum, depois tão todos mal-humorados não sabem o porquê.
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