Aventura Romântica

23 Deixando os medos de lado


Notas iniciais
-Aleluia o Nyah voltou!!! Gentem que desespero, viciei nesse lugar O.o e olha se eu receber tantos comentários como recebi recadinhos dizendo que estavam com saudades das fics *-*... Vamos ver né?! -Oi gente, quero dizer novamente e não pretendo ser repetitiva apenas deixar claro, que meu conhecimento sobre Alzheimer é muito pequeno, as situações que relato sobre a mãe da Lis, são fragmentos de relatos de pessoas próximas a mim que passaram ou passam por uma situação semelhante, mesmo assim não quero ser mal interpretada é apenas uma obra fictícia. ;) -Chegou a hora de uma conversa franca, entre Fábio e Lis. Será que eles vão conseguir se abrir um com o outro em busca de uma relação mais pessoal? Boa leitura!!!

–O Alzheimer é uma doença neurodegenerativa que provoca o declínio das funções intelectuais, reduzindo as capacidades de trabalho e relação social e interferindo no comportamento e na personalidade. De início, o paciente começa a perder sua memória mais recente. Pode até lembrar com precisão acontecimentos de anos atrás, mas esquecer que acabou de realizar uma refeição. Com a evolução do quadro, o Alzheimer causa grande impacto no cotidiano da pessoa e afeta a capacidade de aprendizado, atenção, orientação, compreensão e linguagem. A pessoa fica cada vez mais dependente da ajuda dos outros, até mesmo para rotinas básicas, como a higiene pessoal e a alimentação.

Fábio observou Lis falar com precisão, quase como se tivesse decorado cada palavra do que dizia.

– A experiência de possuir um parente com Alzheimer é realmente desafiante e nos dá, por diversas vezes, a sensação de que aquela pessoa, em partes, não está mais ao nosso lado. É desconcertante e, no primeiro momento, até enigmático ver minha mãe ter atitudes infantis apesar de ser uma mulher de 54 anos. No começo apenas presenciávamos fatos estranhos que encarávamos com total falta de paciência, pois era inadmissível, para nossa razão, ver alguém tão próximo e tão experiente não saber mais tomar banho, nem voltar para casa depois de um breve passeio. Demoramos a descobrir sabe, primeiro uma mania de limpeza que minha mãe desenvolveu de uma hora para outra, quase um toque, limpar e limpar de novo, e de novo, um dia eu perguntei: “mãe porque está limpando de novo?... De novo?” ela me respondeu, ela não lembrava que tinha limpado, depois começou a esconder coisas e não achar mais, culpava funcionários da confeitaria, minha tia ou até mesmo eu que nem morava com ela.

Lis tinha o olhar distante enquanto falava, Fábio pensou que choraria, mas se manteve firme.

–Quando o médico deu o diagnóstico conversei com ela, ela ficou em choque, chorou, não queria acreditar, no dia seguinte nem lembrava que eu tinha falado, começamos um tratamento, mas ela já não podia mais trabalhar, nem ficar sozinha, era um descuido e estava cozinhando alguma coisa e saia para fazer outra deixando o fogão ligado. Em um dia que ela estava lúcida, eu estava ajudando no banho e ela me pediu: “Filha quero que me interne numa clínica, hoje pesquisei tudo, a pensão do seu pai vai ser útil.” Eu não quis escutá-la, mas depois achei vários panfletos e um em destaque para o lugar que ela queria ir, ai eu deixei minha mãe na clínica.

–Lis... Era o melhor, lá ela teria todo o cuidado. -Fábio ponderou.

–É, mas tem filhos que cuidam dos pais, eu não!

–Mas foi uma das últimas escolhas conscientes dela.

–É oque me digo todo dia... Não sei se acredito.

–Eu tenho certeza que ela preferiu assim para te poupar e para se poupar também, de ver você tão entregue cuidando dela, podendo ficar doente, você é filha única.

–É, o que me dói mais, foi que quando eu disse que atenderia o seu pedido, ela me olhou e sorriu, depois disse: “Vou sentir saudade.”

Uma lágrima desceu dos olhos de Lis.

–Ela quis dizer que sabia que cada vez lembraria menos de tudo que representava a vida dela.

–Você parece a tia Ana falando.

–Claro por que eu sou tão sábio quanto ela.

Lis sorriu com a citação costumeira.

–Sabe dói demais ver uma pessoa que conheço tão bem e que me educou, me ensinou tudo que eu sei, hoje faz coisas de crianças, se recusa a tomar banho, come doce escondido e joga o papel atrás dos móveis, tira toda a roupa e quer andar por ai pelada... Ela agora está vendo coisas, vultos, pessoas imaginárias a sua volta. Está esquecendo como usar talheres, escovar os dentes, abotoar um casaco. De tudo acho que a pior coisa é ela não me reconhecer mais, cada dia é como se eu fosse uma estranha diferente para ela, uma pessoa de passagem pela vida dela, que ela esquece no mesmo minuto que eu saio.

–Nem sei o que te dizer...

–É nem eu mesma encontro palavras para descrever tudo isso.

–Eu queria ter conhecido essa história desde o começo.

–Tudo bem, eu poderia ter contado afinal éramos amigos.

Fábio olhou o rosto bonito dela, estavam num parque próximo a confeitaria, a feira tinha sido boa, mas não suficiente, ainda teriam que vender muito ou até fazer um empréstimo para quitar as dividas, no meio da agitação após o trabalho Fábio a convidou para um passeio, surpresa com o convite, Lis pensou em recusar, por algum motivo o olhar dele estava muito diferente, estava mais terno e cuidadoso, não estava só desejando ela, tinha algo mais, curiosa resolveu aceitar.

–Bom, eu pensei muito essas últimas semanas, o Igor me deu uns toques, mas nada fazia eu mudar minhas atitudes...

–Do que está falando Fábio?

–Shiiii. -colocou o dedo nos lábios dela. – Seja uma boa menina e me escuta, sem me interromper, pois o que tenho que te falar não é muito fácil para mim.

–Desculpa...

–Shiiii... -ele a beijou fazendo com ela parasse de falar. – Só assim né Lis!

Ele disse sorrindo após se afastar.

***

Fábio

–Quando eu descobri que ela estava grávida, fiquei feliz, não me deu medo, nem nada, eu sabia o que queria... Queria estar para o resto da minha vida ao lado dela, um filho era a concretização disso. — dei uma pausa, lembrando-me do dia que encontrei o sapatinho vermelho dentro de um embrulho de presente. – Começamos todos os preparativos para chegada do bebê e resolvemos nos casar quando ele já tivesse nascido.

Procurei os olhos de Lis, e eles estavam pousados de mim inquietos e ansiosos, tão linda que tornava ainda mais difícil contar tudo, mas eu precisava.

–Uma noite dessas que a gente chega meio estressado do trabalho, querendo um lugar silencioso para ficar... Brigamos, talvez porque eu tivesse terminado de pintar a parede do quarto do bebê, ou porque tinha ficado de passar buscar o carrinho na loja... Na verdade nem lembro. Ela saiu em disparada, acho que eu a chamei de perfeccionista e disse que estava exausto dela, acho que foi isso que eu falei...

Senti a mão de Lis segurando a minha, a tarde escurecendo, pessoas passeavam com seus cachorros, alguns faziam exercícios, tudo num movimento menos estressante de um dia de trabalho. Por um segundo sentindo a mão dela na minha, parecia que éramos pessoas como aquelas em um dia comum sem problemas, sem dificuldades...

–Bobagem... -falei sem perceber.

–O que é uma bobagem...

–Achar que ninguém tem problemas... Que essas pessoas que estão caminhando, passeando, se divertindo, são plenamente felizes.

Lis seguiu meu olhar para ver do que estava falando e de repente se aconchegou no meu peito.

–Minha mãe dizia que quando era criança tinha vontade de poder ver através das paredes... Para ver o que as pessoas estavam fazendo em suas casas. Eu achava divertido ela contando que imaginava os vizinhos vivendo suas vidas, ai ela falava assim: “Que boba eu era minha filha”... -a voz de Lis ficou serena, quase um sussurro.- … “Ficava imaginando a vida dos outros em vez de viver a minha.” Tia Ana também diz que a grama do vizinho sempre parece mais verde que a da gente, mas se quisermos uma grama bonita temos que cuidar do nosso quintal...

–Queria conhecer a sua mãe...

–Queria que ela conhecesse você... — ela se afundou mais nos meus braços.

–Sua tia e sua mãe tem razão... Em vez de achar que os outros não tem dificuldade eu devia viver minha vida.

–Ela morreu Fábio? -Lis levantou a cabeça, os olhos enormes tristes. -O que aconteceu com o bebê de vocês?

–Um acidente terrível... Morreu na hora, e o bebezinho tentaram salvar mas não teve jeito.

–Eu sinto muito, muito mesmo. — ela colocou as mãos no meu rosto e beijou minhas lágrimas, eu estava chorando e nem tinha percebido.

–Sabe Lis, quando te vi naquele bar, eu jamais imaginei que me sentiria como me sinto quando estou com você... Depois da morte dela e de tudo enfim, eu morri para a vida, sabe, na minha cabeça eu estava só seguindo um dia atrás do outro, um dia atrás do outro até o fim. As vezes até pensava em encurtar esse meu calendário, minha família foi o que me impediu, sempre estiveram comigo, mesmo hoje que não moramos na mesma cidade falo com eles sempre. O que aconteceu é que eu não queria deixar eles sofrerem mas não queria mais sofrer também, o tempo que fiquei depressivo, solitário só com minha dor foi fácil, o difícil foi voltar a conviver com outras pessoas, graças ao Igor eu segui, e quando eu comecei a sair com outras mulheres, eu comecei a nutrir um sentimento leviano, de não me amarrar, de não estabelecer laços...

–Nada pessoal.

–É nada pessoal... Mas ai você apareceu toda tímida, eu vi quando você entrou no bar, as suas amigas tagarelando faceiras te puxando, teu jeitinho de perdida naquele espaço, deslocada, os olhos tristes, sei lá achei que eram um reflexo dos meus... Vi quando você sentou naquela mesa, e nem observou o ambiente como as mulheres normalmente fazem a procurar de algum homem disponível, acredite eu entendo dessas manhas, meses vendo essas situações lá do alto do palco. Vi que não bebeu nada, vi que tamborilava os dedos na mesa entediada, vi que suas amigas estavam a caça por você e vi tua carinha de pânico quando elas apontavam discretamente alguém, sabe Lis, eu não sei como mas eu senti que precisava ser nós dois aquela noite.

Ela me olhava atenta, talvez admirada com os detalhes que havia observado nela naquela noite e ela nem imaginava.

–Quando te chamei no palco e parecia que queria cavar um buraco e sair no Japão, decidi que não daria chance, desci até a mesa de vocês e peguei na tua mão, quando essa mãozinha gelada e meio tremendo tocou na minha, eu comecei a sentir...

–Sentir...

–Sentir vida Lis... Vida... Quando eu só sentia morte... Eu transava com diversas garotas, não me odeie por isso, mas depois que as deixava, ou elas saiam eu só lembrava das noites que eu jamais poderia ter com Aline, pensava no meu filho, era um menino sabia... Eu sentia o cheiro daquele hospital onde nunca mais pude entrar... No dia seguinte eu não escrevia não fazia nada, só me martirizava, me culpava... Me achava um idiota, mas dai no próximo sábado eu escolhia outra menina e seguia minha saga de cretinices como diria Igor.

Suspirei olhando para frente.

–Aí você chegou assim, tão você, tão espontânea, um pouco por culpa da bebida que elas te deram claro, mas com você foi diferente de tudo que já tinha vivido, no outro dia quando encontrei a mesa do café, fui rindo para casa, quando Igor me viu até perguntou porque estava tão feliz, na hora achei que não fosse felicidade e não parei mais de pensar naquela noite, em como tudo foi maravilhoso de um jeito certo, como se sempre tivesse sido assim.

–Eu me senti uma boba por aquilo do café...

–Não Lis, eu achei aquilo um pouco assustador, confesso, mas o que eu senti foi único, e cada vez que eu te via, que eu te beijava, que eu te tocava... Eu me sentia mais e mais vivo... De repente foi inevitável querer te ver, sair procurando um restaurante, o mais caro da cidade aliais, em função de ter mais um momento com você. Ao mesmo tempo foi surgindo um sentimento de medo... Medo de te perder. Eu não queria me apegar de novo e as pessoas que sai antes de você não mudavam minhas atitudes.

–Por isso inventou isso de amizade-colorida?

–É.- sorri lembrando da noite que falei isso. – Foi um tiro no escuro, ou eu teria você ou não teria, era aquilo ou nada, nem sei de onde veio essa ideia, só aconteceu, e quando você aceitou, nossa eu fiquei muito feliz... Feliz e vivo, como há mais de dois anos não me sentia... Mas não te colocando no lugar dela... Não isso... Você criou dentro de mim o teu próprio lugar.

–Fábio... — ela disse admirada.

–É isso Lis, eu estou apaixonado por você... Eu já não consigo mais imaginar como posso viver sem ter você... Esses dias que não nos vimos eu estava morto de novo entende, afundado na minha própria depressão, sem perspectiva. E eu precisava te contar tudo isso, para que entenda por que eu estava agindo daquele jeito.

Olhei para ela com expectativa, havia um doce sorriso em seus lábios e os olhos estavam brilhantes.

–Eu também estou apaixonada por você! E também tenho medo... De perder quem está próximo a mim, de certo modo eu perdi minha mãe, aquela mãe que eu conheci a vida toda. – fiquei contemplando ela e suas palavras tão sinceras então lentamente a puxei para mim, beijando e sentindo toda a vida que ela me dava e deixando de lado nossos medos.

Notas finais
*-* só sei amar esses dois! Gentem e o tamanho desse cap, só vi quando fui colocar aqui... Beijos!!!