Aventura Romântica
14 Madrugada Quente
Notas iniciais
Lis
É comum todas as pessoas esperarem a sexta-feira com alegria, pois, é o anúncio do fim de semana e da liberdade da rotina de trabalho intensa, mas eu particularmente detestava esse dia, primeiro sempre foi o dia mais agitado no restaurante e segundo era o dia de visitar minha mãe. Acordei sentindo o peso de Fábio nas minhas costas. Desde o dia que havia dormindo na casa dele, isso já tinha pouco mais de duas semanas, e o derrubado da cama, estava tentando sair do bloqueio de não dormir abraçada a ele, não estava tendo muito sucesso, não foi uma nem duas vezes e sim diversas em que Fábio aparecia com um roxo, fruto dos empurrões que lhe dava para que me largasse. Mesmo assim ele não desistia, com certeza ficou assustado com a choradeira e com o desabafo que tinha feito, eu não era de me abrir muito, mesmo com as minhas amigas ou minha tia, menos ainda com um cara que não queria se envolver com nada pessoal e sentimental da minha vida, embora algumas atitudes de Fábio fossem bem mais pessoais e sentimentais do que eram as atitudes do meu ex por exemplo.
Senti ele se movendo devagar uma das mãos correndo na minha cintura.
–Lis?
–Oi... — me mexi na cama para poder olhar para ele.
–Pensei que ainda estava dormindo e já são quase 7. — ele falou bocejando.
–Acabei de acordar.
–Tem mesmo que ir? – ele sempre perguntava, mas nunca perguntou onde eu ia.
–Sim, eu tenho mesmo que ir.
–Tudo bem então. -ele deu um beijo suave em mim. -Me resta esperar que sábado de noite chegue.
–É o que resta sim. — também dei um beijo nele e comecei a levantar pesarosa, não só por sair do conforto da minha cama e do calor do corpo dele, mas principalmente por saber o que me aguardava.
Mais tarde
–Querida, está tão abatida. -tia Ana me consolava depois da manhã difícil que enfrentei.
–Foi horrível tia, mamãe começou a dizer que eu era uma péssima filha, que estava tentando me livrar dela, que nunca iria me perdoar... -as lágrimas corriam livres pelo meu rosto.
–Lis, você sabe que é pela condição em que ela se encontra, que tem esses rompantes. Não sabe minha filha?
–Eu sei tia, devo agradecer né, pois hoje me chamou de filha, olhou nos meus olhos... Ai tia dói tanto vê-la assim.
–Dói muito, Regina sempre tão atenta a tudo, tão amorosa e cuidado com a filha que ela sempre amou... E ama Lis ela te ama, no fundo sabe que oque você fez foi melhor.
–Tenho minhas dúvidas tia.
–Regina mesmo que pediu não foi?
–Sim, foi ela. Me sinto tão vazia quando vou lá e a encontro em crise como hoje.
Tia Ana me puxou em seus braços e beijou o alto da minha cabeça.
–Não se martirize. Tudo isso uma hora vai passar.
Lis sabia que a tia estava errada, a cada dia, a cada semana, a cada mês a mãe piorava, se fechando num mundo próprio onde nada era como um dia foi.
***
Fábio
Terminei de ler pela quarta vez a crônica que tinha acabado de escrever e finalmente estava boa. Era um pedido do jornal da cidade, um dos principais aliais, a primeira crônica com grande aceitação tinha sido a que havia escrito logo que cheguei em casa depois de passar a noite com Lis. Eram crônicas de críticas num tom de humor. Tentei mudar o enfoque, como nas outras que vendia para outros jornais, revistas e sites. No entanto a editora desprezava todas e como era uma coluna que falava do universo feminino através do olhar de um homem não havia o que fazer. Antes de conhecer Lis já havia publicado algo na linha, só que sem tanta aceitação como as de agora, transformava pequenos acontecimentos de minha relação com Lis numa sátira. A queda da cama foi a mais comentada pelos leitores que tinham um site especial para o feedback. Ser reconhecido como escritor era bom, mas eu sempre me sentia mal por pegar algo pessoal e transformar em algo tão banal, jamais me perdoaria se Lis por acaso tivesse acesso a essas leituras, a minha sorte é que assinava com diversos nomes, nessa era Telmo Siqueira. Tinha esse costume de mudar de nome, no começo foi uma brincadeira na época de faculdade, depois foi virando usual, e agora era uma necessidade.
O celular vibrou dando sinal que tinha uma mensagem:
L: Oi...
F: Oi, como está sendo seu dia?
L: Esquisito...
F: O meu também... nunca você manda mensagem por iniciativa, estou surpreso.
L: Surpreso ruim ou surpreso bom?
F: Só surpreso mesmo.
L: Eu ganhei uma folga extra hoje.
F: Sério? Mas está tudo bem?
L: Sim.
F: Bom se está de folga e me mandou uma mensagem talvez eu deva ficar surpreso bom?
L: Talvez...
F: ???
L: Queria te ver... Se não tiver compromisso.
F: Tenho que cantar no bar... Mas depois estarei livre.
L: Pode ser.
F: Ótimo, te busco em algum lugar?
L: Não, estarei em casa.
F: Então está combinado... Boa tarde para você Lis.
L: Boa tarde Fábio.
Eu fiquei feliz com o convite partindo dela, era a primeira vez, eu não poderia e nem queria recusar. Olhei para a tela do computador com o meu texto pronto e tive vontade de apagar, mas não fiz, meu texto era bom e engraçado mas ao enviar para a editora não tinha vontade de rir.
***
Lis
Lia havia falado com o chefe que eu estava mal, todos sabiam do estado da minha mãe, então ele disse que era para eu descansar e relaxar e disse que estava de folga. Minha tia também me mandou para casa e fiquei sem nada para fazer e era muito pior, pois, minha cabeça ficava repassando o episódio da manhã, e eu me acabava de tanto chorar. Quando decidi mandar uma mensagem para Fábio foi num impulso, mas a resposta afirmativa dele me deixou mais leve, como se a promessa de uma noite com ele levasse embora meus problemas.
Quando abri a porta e o encontrei tão lindo na minha frente não me arrependi de ter o chamado.
–Oi mocinha...
–Oi moço. Entra. -falei dando passagem para que ele entrasse.
–Estava chorando? – ele me olhou preocupado.
–Chorar lava a alma...
–Os bons e velhos conselhos de tia Ana... -ele deu um sorriso lembrando de algo que lhe contei.
–Sempre!
–Você está linda, mesmo com esses olhinhos vermelhos... — os olhos dele varreram meu corpo, eu tinha colocado um short e uma blusinha mas naquela hora me senti nua.
–Que bom que você pode vim...
–E por que eu não viria? – me abraçou assim que fechei a porta e já começou a beijar meu pescoço. -Sempre sou eu que quero você além dos dias fixos.
–Eu também quero você... — falei meio mole já pelos beijos e mãos que iam explorando meu corpo.
–Quer?
–Quero. -Ele me imprensou na parede e tomou posse da minha boca levando meus problemas embora ou pelo menos anestesiando minha memória.
***
Fábio
Acordei com um cheiro de bolo se espalhando no ar, virei e Lis não estava na cama, conferi a hora no celular eram 3 da madrugada, onde ela estaria? Levantei me embolando no lençol e fui seguindo o cheiro de chocolate.
Na cozinha encontrei Lis, entretida cozinhando. Fiquei encostado na parede observando o jeitinho dela mexer o que fervia numa panela.
–Lis? – Chamei baixinho para não assustá-la.
–Ah... Fábio, te acordei?
–Não, eu acordei sozinho e não te vi na cama, está tudo bem? – fiquei preocupado ela estava com os olhos molhados.
–Sim, só me deu vontade de comer alguma coisa doce, e eu não tinha nada pronto sabe.
–De madrugada?
–É...
–Ei Lis o que está acontecendo com você? – cheguei mais perto olhando naqueles olhos lindos e tristes.
–Nada, eu só tive um dia difícil.
–Quer conversar?
–Não...
–Tudo bem... então me deixa te ajudar.
–Imagina volta para cama que já já eu termino aqui.
–Nada disso, eu quero te ajudar. -corri colocar minha roupa.
Quando voltei ela já estava cobrindo um bolo com a calda de chocolate.
–Já está pronto?
–Já.
–Que pena eu queria mesmo te ajudar, quem sabe eu aprendo alguma coisa, Igor vive me xingando por eu mal saber fritar um ovo.
Ela sorriu um pouco mais animada. Os olhos brilhando.
–Minha mãe tinha o costume de dizer que se alguém entra na nossa cozinha não é para trabalhar e sim para apreciar.
–Bom eu estou aqui apreciando você.
Ela sorriu largando os apetrechos que usava para decorar o bolo.
–Está apreciando é?
–Sim... Apreciando como você fica mais linda a cada segundo... E mais que tudo eu apreciaria ter você mais perto de mim! -falei contornando o balção da cozinha e chegando até onde ela estava ainda com o sorriso brincalhão no rosto.
–E agora que estamos tão perto o que mais apreciaria. -ela falou passando o dedo no chocolate que escorria do bolo e levando aos lábios numa atitude ousada e terrivelmente sensual.
–Lis, Lis... Você está me provocando é?
–O que você acha? Ainda não sei se você gosta de chocolate. Eu adoro! -ela repetiu o gesto de passar o dedo na calda e levar aos lábios.
–Eu adoro chocolate... Se estiver nesse teu dedinho então, aposto que vou gostar mais ainda.
Ela me olhou provocante, e sem quebrar o contato visual, repetiu o processo e em vez de levar os dedos aos seus lábios, trouxe aos meus.
–Eu sinceramente nunca vou esquecer esse sabor. Mas tem outro que eu queria apreciar nesse momento.
–Qual? – me encarou curiosa.
Aproximei-me da bancada e imitei o gesto dela passando o dedo no chocolate e levando vagarosamente até sua boca e depois a beijei.
–Esse sabor...
–Hum... Eu estou apreciando também.
Ali na luz fraca da cozinha eu cheguei a conclusão que não seria nada fácil continuar com essa relação, ela estava tão entregue, os olhinhos levemente inchados por motivos que ela não compartilhava comigo, por minha própria culpa, a boca grudada na minha, o corpo tão adaptado a se encaixar no meu, as mãos habilidosas em me deixar louco de desejo. Cada vez que eu me unia a ela era mais difícil encarar a realidade mas quando a boca dela começou a descer no meu pescoço, já não tinha mais autocontrole para pensar, analisar ou pesar o que estava acontecendo só queria sentir e comparando com algumas semanas atrás essa madrugada não teria nada de fria.
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