Aventura Romântica
20 Apenas Amizade
Notas iniciais
Fábio
–Cara, eu estou apaixonado! Ela é linda e brava, a Lia é incrível.
–Pelo menos esse fim de semana rendeu para você. -falei aborrecido.
–Fábio sai dessa, as meninas me contaram o plano para que você percebesse que isso tudo é mais que só troca por sexo, eu só quis ajudar afinal acredito que isso é algo mais também! -já fazia uma semana que discutíamos esse assunto diariamente, Igor já estava enfadado pude notar pelo tom de sua voz.
–E o que é Igor? Me diga!
–Fábio, eu sei que você nunca superou o que aconteceu no teu passado, mas poxa cara, a vida continua...
–Continua para quem?
–Para você, pra Lis...
–Não, eu não quero nem pensar em me apegar de novo, em fazer planos com outra mulher...
–Tudo bem, então termina isso com ela. Você não tá vendo cara, porque mesmo que diga que não quer se apegar, já está apegado. Cuidou dela quando ficou doente, morreu de ciúmes do primo dela, quando recebeu a mensagem do fim de semana na mesma hora colocou um sorriso enorme no rosto. Não percebe Fábio que se isso tudo terminar agora, você vai sofrer tanto quanto sofreu quando a Aline morreu.
–Cala boca Igor, não fala esse nome. -levantei exaltado.
–Desculpa cara, mas quando isso acabar, você vai sentir como se a Lis tivesse morrido, mesmo ela estando viva, porque o teu coração já está ligado a ela, acha que não vi você quase chorando quando ela mandou a mensagem dizendo que terça não vai poder te encontrar!?
–Não é a mesma coisa. Aline era minha noiva, estava grávida...
–E o destino foi injusto com ela e com você amigo, mas olha só já tem dois anos, daquele acidente, você está vivo!
–Não, parte de mim morreu naquele dia junto com ela e meu filho que nem cheguei a conhecer, e por minha própria culpa.
–Pára Fábio, você não poderia imaginar que aquilo aconteceria.
–Eu deveria ter evitado!
–Fábio olha só... Você precisa se desfazer dessa culpa, eu acho que...
–Chega Igor, me deixa em paz e faz um favor para nós dois: CUIDA DA SUA PRÓPRIA VIDA!
Vi na hora os olhos do meu amigo assumirem a magoa do peso das minhas palavras gritadas no meio da nossa sala. Sem falar nada ele pegou a mochila e saiu, me deixando chateado comigo mesmo e preso nas minhas lembranças...
Minha cabeça parecia que ia explodir lembrar do acidente que matou minha noiva e o filho que ela esperava me deixava arrasado. Dois anos atrás, eu estava terminando a faculdade cheio de planos e objetivos, ter um lar, uma família, seguir o exemplo dos meus pais, Aline era minha namorada desde a adolescência. Havíamos planejado tudo até mesmo a casa onde iriamos morar. E quando descobriu a gravidez não tive dúvida a pedi em casamento e ficamos noivos.
Tudo estava certo, a casa comprada, reformas feitas, berço montado, primeiras roupinhas do nosso bebê, mas uma noite acabamos brigando por uma bobagem que agora mesmo que eu repasse toda aquela maldita noite na cabeça eu não consigo lembrar. Ela saiu chateada e na estrada sofreu um acidente, morreu na hora. Tentaram salvar o bebê, mas não teve jeito.
Minha vida acabou naquela noite, quando me ligaram contando entrei em choque, corri até o hospital, mas era tarde para tudo... Era tarde para pedir perdão, era tarde para ver o meu filho com vida, era tarde para chorar...
Durante as organizações fúnebres permaneci no meu posto de noivo em luto, segurei a mão dos pais dela e depositei flores sobre seu caixão, quando tudo aquele rito terminou pude me afundar no meu próprio mundo.
Meses numa depressão terrível. Meus pais tentando me tirar da casa em que depositamos o sonho de família feliz. Até que Igor, meu melhor amigo dos tempos de faculdade e quase um irmão, conseguiu resgatar o que restava de mim, me colocou na banda, ajudou com os primeiros textos publicados, compramos a kit net e aos poucos fui voltando a fazer parte das coisas, mas jurei que nunca mais iria me apegar, nunca mais iria ter um relacionamento com planos e promessas. E no último ano isso tinha funcionado, conheci várias mulheres, mas com quem o sexo sem compromisso era o lema, não pegava número de telefone, muitas vezes nem perguntava o nome, era uma vida vazia, mas pelo menos eu não sofria. No dia que convidei Lis para subir no palco, tática infalível para uma ótima noite de prazer, jamais imaginei seu efeito sobre mim, primeiro com aquela história do café que me rendeu ótimas linhas de humor para minha crônica e depois uma história atrás da outra, era uma inspiração sem explicação e dias depois eu não consegui fazer uma rima de versinho infantil que dirá escrever uma crônica sobre política. E foi onde toda essa história começou agora eu cheguei num ponto onde, Igor tinha razão, ela era importante para mim, não só para meu rendimento profissional de uma maneira estranha, mas saber dela era importante, e não saber era sofrer, ficar sem ela era de certo modo ficar de luto novamente.
***
Lis
–Tia ela não me conhece mais, nessa última visita nem mesmo me olhou...
–Querida, você sabe que o estado dela está se agravando. E que é um processo que é inevitável.
–Mas toda semana, uma ou duas vezes ela dizia, eu tenho filha, ela se parece com você, ai de repente ela me olhava e dizia, filha você anotou aquela receita de bolo que te falei... Hoje nem isso... Não aguento mais, as crises estão aumentando, as enfermeiras estão dando mais remédios, dizem que ela está mentalmente perturbada. Hoje falaram que tentou pular uma janela, dizendo que tinha alguém tentando pegar ela.
–Lis... Eu sofro tanto quanto você, mas precisamos ser fortes.
–E essa confeitaria tia, cheia de dividas, sem funcionários...
–É muito duro mas se continuar assim teremos que vender.
–Não... -desabei em lágrimas, minhas companheiras de sempre. -Isso aqui era a vida dela tia, a sua vida...
–Querida eu estou aposentada e já sou velha, meu filho está criado, não tenho mais o que fazer.
Nos últimos dias as coisas tinham complicado muito. Haviam pedidos na confeitaria que eu não imaginava como conseguiríamos entregar, estava trabalhando direto com ajuda do meu primo e da tia Ana, mesmo assim não íamos dar conta.
O meu celular vibrando chama minha atenção.
F: Lis uma semana sem te ver... Está chateada comigo? Por favor me diga alguma coisa.
Desde a conversa sobre relacionamento e a armação das meninas eu não falava mais com ele, mandei mensagens desmarcando os dias fixos ao longo da semana.
L: Não... É que andei muito ocupada.
F: Quando vamos nos ver? Vamos nos ver, não vamos?
L: Hoje a noite vem no meu apartamento, precisamos conversar.
F: Está tudo bem?
L: A noite conversamos. Bom dia Fábio.
F: Bom dia Lis.
________
–Você vai terminar com ele? -Lia estava me ajudando na confeitaria.
–Tecnicamente não, pois, não temos nenhum relacionamento.
–Aff Lis, você sabe bem que não é bem assim...
–Lia, minha mãe não me reconhece mais, a confeitaria que ela tanto amou está ruindo, estamos com uma entrega enorme para um casamento na semana que vem... Minha cabeça está cheia, não tem como encaixar sexo aventura nisso tudo.
–Igor me falou que ele está arrasado essa semana, até parece que tiveram uma briga feia.
–Eu vi em cada mensagem que ele me respondeu... -falei magoada.
–Ah, Lis ele está tentando te respeitar.
–Chega Lia, já decidi!
_________
A noite quando ele avisou que estava subindo meu coração parecia que ia sair pela boca.
–Oi... — ele estava particularmente lindo, com a jaqueta preta habitual aberta e uma camiseta branca.
–Oi... -eu dei um beijo de leve nos lábios. -Entra.
–Você estava meio sumida.
–É tive uma semana complicada.
–Eu fiquei me culpando por ter reagido mal ao fim de semana armado por suas amigas e pelo Igor.
–Não, imagina você tinha razão, afinal aquilo tudo foi uma armadilha, e ainda não desculpei completamente minhas amigas.
Ele estava me olhando sem saber o que fazer, estava sentindo o estranhamento no ar, normalmente já estaríamos nos beijando e se acariciando deixando nossos problemas de lado.
–Lis, você está estranha. -ele deu uns passos na minha direção e parou antes de tocar em mim.
–A gente precisa conversar.
–Tudo bem, estou escutando. — ele colocou as mãos no bolso e ficou me olhando curioso e receoso.
–No bar aquele dia você me falou que quando um de nós quisesse a gente podia parar com a parte colorida e ficar só com a amizade?
Ele fechou os olhos e suspirou.
–Sim Lis, eu falei isso. Se um de nós não se sentir confortável... Por favor me diz que não é pelo jeito que te tratei naquele fim de semana. — ele abriu os olhos e chegou até mim.
–Não, é uma série de coisas, sabe, e eu não estou sabendo lidar com isso mais. Não estou sabendo lidar com você dizendo que é fácil se apaixonar por mim mas que não pode, você dizendo que está com saudades, mas nem mesmo responde minhas mensagens.
–Por favor Lis... — ele tocou de leve meu rosto com as pontas dos dedos. – É isso que você quer?
Ele aproximou o rosto e com roçou o nariz no meu rosto.
–Não é o que quero Fábio... E sim o que preciso fazer.
Ele me encarou.
–Eu queria que não fosse assim, não queria te magoar.
–Não, eu entrei nisso porque eu quis, e em nenhum momento tive esperança de um relacionamento sério, mas confesso que você ajudou para que eu me sentisse parte de alguma coisa que não é só sexo.
–Não é só sexo assim banal...
–O que é então?
–Não sei definir, mas a gente tem algo bacana...
–Verdade bacana até a hora que por algum motivo entra num lado pessoal demais, e eu não estou conseguindo separar meu lado pessoal disso aqui.
Ele ficou me olhando olhos correndo entre meus olhos e minha boca, eu estava suando frio, meu autocontrole estava ruindo. Mas então ele se afastou.
–Tudo bem... Então eu já vou.
–Não... — segurei a mão dele.- Fica... Fica mais hoje.
–Não Lis é melhor a gente enfrentar isso logo.
Ele me deu uma abraço ao qual fiquei atrelada sem me soltar tentando ficar para sempre ligada a ele, mas acabou.
–Ainda somos amigos, certo? -ele levantou meu queixo.
–Sim.
Então me deu um beijo rápido no rosto.
–Boa noite Lis.
–Boa noite Fábio.
E foi embora, assim que a porta fechou me deixei cair no sofá, me embolando numa manta que estava ali, desabei em lágrimas e deixei a tristeza lavar minha alma.
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