Acordei com o som sutil de máquinas monitorando batimentos. O teto branco e silencioso não me disse onde eu estava, mas o cheiro de antisséptico e o peso em meu corpo revelavam: estava viva. Mal. Mas viva.

Demorou um tempo até que conseguisse mover os dedos. A dor ainda pulsava como um lembrete cruel de tudo o que aconteceu — do peso de uma cidade despencando do céu, dos gritos de Wanda, dos relâmpagos de Thor. Do vazio que me engoliu antes que a escuridão tomasse tudo.

Mais tarde, soube que fui encontrada desacordada entre os escombros de Sokovia, protegida por uma cúpula de gelo que meu corpo criou por puro instinto. Visão me encontrou. Disse que foi atraído por uma frequência baixa de energia — o mesmo padrão que emito quando estou inconsciente, aparentemente. Ele me carregou até a nave da S.H.I.E.L.D., enquanto Thor destruía o núcleo e impedia o fim do mundo.

Quando voltei a andar, mesmo que com dificuldade, fui levada à nova base dos Vingadores, no norte do estado de Nova Iorque. Um lugar mais calmo, mais organizado — o oposto do caos em que havíamos estado mergulhados por dias. Fury estava lá, ao lado de Maria Hill, doutora Cho e Erik Selvig. Eles falavam baixo, entre papéis e monitores. Planejavam algo novo. Melhor.

Steve e Natasha, porém, ficaram. Estavam determinados a continuar. A treinar. A preparar os que viriam. Os Novos Vingadores.

Vi-os reunir os que estavam dispostos: Rhodes, com sua armadura reconstruída e olhos atentos; Wanda, ainda frágil, mas com a determinação pulsando em seu olhar avermelhado; Sam, com seu jeito firme e alma justa; e Visão, com sua presença serena, quase poética. O futuro começava ali.

Quanto a mim… eu observava. Ainda em recuperação. Ainda tentando entender o que me tornara aquilo que sou. Meus poderes estavam instáveis, mais voláteis do que antes. Algo em Sokovia mudou em mim. Um frio mais profundo, mais antigo, se estabelecera sob a pele.

Caminhei pelos corredores silenciosos do complexo. Estavam quase vazios. Sentei à beira de uma varanda com vista para os campos vastos, cobertos por uma névoa suave do início da manhã. Era outono ali fora. Mas dentro de mim, o inverno ainda rugia.

Steve se aproximou, como sempre fazia quando percebia meu isolamento.

— Wanda pediu desculpas — ele disse, calmo. — Disse que não conseguia controlar. Que sente muito pelo que aconteceu.

— Eu entendo — respondi, sem raiva. — O luto faz isso. Distorce. Rompe as barreiras. E o poder dela… é moldado por dor.

Ele assentiu. Sentou-se ao meu lado.

— Você pensou em partir?

Olhei para o horizonte por um instante. O céu estava límpido.

— Pensei. Ainda penso. Mas algo em mim sabe que ainda não terminou.

Steve sorriu de leve, apoiando os antebraços nos joelhos.

— Não terminou. E precisamos de você.

Fiquei em silêncio por um tempo, até que criei uma pequena flor de gelo sobre a palma da mão. Ela se manteve firme, bela, sem escorrer, sem se quebrar.

— Então que venha o próximo inverno — murmurei.

E ali, no alto daquele complexo, com os primeiros raios dourados iluminando a relva e os rostos marcados pelo cansaço, soube que não estava mais sozinha. Que havia encontrado algo mais do que guerra.

Encontrei propósito.

Encontrei lar.

E, pela primeira vez, não temi o frio dentro de mim.

Notas finais
Espero que tenham gostado!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!