Avec mortem

1 Prólogo - Vermelho escuro


Sempre gostou de noites limpas. À luz do luar, o mundo tornava-se diferente, mais simples e menos dolorido. A lua alta trazia vagas lembranças de multidões em baile, salões lotados de pessoas enfeitadas e tecidos esvoaçantes, holofotes, danças e escapadas breves que resultavam em beijos roubados no escuro… Mas o mais importante era que as sombras se tornavam menos assustadoras ao luar. E no mais profundo de seu ser, sabia que existia uma certa razão em temer as sombras.

Aquela era uma noite particularmente bonita.

Não se recordava da razão de estar ali. Suas memórias mais recentes eram confusas e, por vezes, refletiam coisas que não eram reais ( ou que não mais eram reais, uma pequena voz em algum lugar de sua cabeça repetia). Houveram dias em que seus fantasmas – e eram eles completamente fantasmas? Ou seriam apenas rendições fantasmagóricas de quem, um dia, foi de carne e osso em seus braços? – despistavam-na, pregando peças e sussurrando doces histórias em seus ouvidos, trazendo algo de segurança e acalentando com mãos tenras sua solidão, em meio ao mar de incertezas que tinha se tornado sua existência.

Houveram, também, dias ruins. Dias em que lágrimas metálicas escorriam de seus olhos, nos quais a luz doía e absolutamente nada fazia sentido. Dias em que o fato de nunca saber onde estava era mais pesado do que o não-volume em seu estômago, e o silêncio ao seu redor tornava tudo absolutamente insuportável, mas ao mesmo tempo, agonizantemente calmo.

Hoje não parecia ser um dia desses.

Na verdade, hoje não parecia ser coisa alguma.

Seu corpo aparentava levá-la por um caminho pouco conhecido mas, definitivamente, não incomum. As pedras gélidas pareciam cruéis sob seus frágeis pés descalços, tão pálidos que se confundiam com a neve que caía lentamente, tornando o que parecia ser uma cidade dormente em uma tumba frígida.

Existiam belas luzes, reparou. Em tons estranhos, quentes e ilusórios, artificiais.

Onde estamos?Que luzes são aquelas? Perguntou a seus olhos, que não ofereceram respostas, continuando a mostrar-lhe cenas quais não faziam sentido. Mas mesmo assim, a noite continuava linda.

Resolveu então não se inquietar com a falta de respostas, e descobrir de outras maneiras. Seu olfato parecia ser o único disposto a ajudar, enviando os mais diferentes tipos de cheiros apetitosos e atraentes. Não conseguia, exatamente, lembrar do que eram aqueles aromas, mas pareciam o tipo de coisa a qual cada pedacinho era um pequeno banquete. E só Deus sabia qual tinha sido a última vez que tinha posto comida na boca.

Permitiu-se invadir por tudo que estava ao seu redor, cada pequena fragrância, cada diminuta sensação que a alcançava. E cada pequeno estímulo que seu corpo compartilhava, parecia uma pequena vitória.

Foi então que, de repente, sentiu-se começar a agitar. No mesmo instante, a adrenalina invadiu suas veias, e tudo o que importava era capturar o que quer que seja aquilo que estava ali, tão perto de seu tato, mas longe demais para ser confortável. Naquele momento se sentia viva, capaz de fazer qualquer coisa e, por Deus, como aquela sensação era boa!

Mas tão rápido quanto veio, aquela euforia se foi, dando lugar a um tipo de contentamento leve, como um leão, que carrega em sua mandíbula uma presa que não tinha sido fácil.

Que estranho, pensou. Não me parece algo certo de se sentir.

Havia algo feroz demais em tais juízos, além de um leve sentimento de.... culpa? mágoa? arrependimento?

Sentindo a escuridão tomar sua consciência novamente, ponderou sobre o que era tudo aquilo significava, e concluiu que não sabia. E o pior de tudo: no fundo, sabia que preferia não saber.