Avec mortem

10 Capcană


Frio. O rapaz abriu os olhos devagar, temendo piorar a dor latente na base de sua cabeça. Felizmente, deparou-se apenas com a escuridão de onde quer que estivesse.

As memórias das últimas horas eram confusas, apenas pequenos flashes em um quebra-cabeças enorme, cheio de buracos incompreensíveis.

Imortais não sentiam frio; ao menos, não em estado normal. Mesmo que suas peles pudessem absorver calor, isso não afetava em nada suas sensações. Apenas os híbridos sentiam a mudança de temperatura, afinal, sua parte humana era viva, e sentia coisas. Mas no momento, tudo o que Devrim conseguia processar em seu estado de torpor era que não se lembrava de sentir tanto frio antes em sua vida, e em sua morte.

Nem quando era humano, apenas mais um aprendiz de caçador dentro dos muros da vila de Valcânia sob tutela direta do Comandante-Primo da guarda, dormindo nos estábulos durante as brechas de seus turnos, sentiu tanto frio. Era como se tivesse sido enterrado no meio da neve do alto inverno, sem nada para se proteger.

Algo estava muito errado.

Tentou se levantar, mas o som de algo rolando pelo chão, seguido de uma dor agoniante que atingia seus calcanhares, fez com que parasse e voltasse a se escorar na parede, na posição em que tinha acordado, não há muito tempo. A sensação de fraqueza tomava conta do rapaz, assim como fortes tonturas e ondas de náusea, que pareciam ir e vir à medida que o tempo corria, no estranho cômodo escuro em que se encontrava. Além disso, algo viscoso e quente — que Devrim tinha certeza de que era sangue — escorria por suas costas.

Mas que merda. Desse jeito eu vou acabar morrendo aqui, pensou o rapaz, desacreditado.

Após mais alguns minutos de angústia, algo pesado começou a ser movido no que parecia ser a direção da porta do pequeno cômodo, que foi invadido por uma luz forte.

Devrim moveu as mãos sujas em direção a seus olhos, de imediato diminuindo a claridade. Passado um breve momento, tornou-se possível perceber as dimensões do local onde o rapaz estava: tratava-se de uma cela pequena e mal ventilada, coberta por limo e mofo, com um teto relativamente baixo. A razão de não ter conseguido se mover também tornou-se nítida: ateado a seu tornozelo existia um grilhão transparente, lotado de pequenos furinhos e preenchido por um líquido translúcido que parecia ser água santificada.

Devrim sabia que era uma armadilha; qualquer movimentação causaria prejuízo. E ainda pior: caso algum gesto brusco fosse realizado, o pomo se romperia por completo, resultando em danos permanentes. Aquele era o tipo de armadilha utilizado para prender ghouls de última categoria, que eventualmente aprenderiam a lição, após terem as pernas transformadas em pó. Em resumo, não era uma precaução aplicada a qualquer um.

Antes que o rapaz pudesse dar sentido a tudo aquilo, três figuras emergiram pela estreita portinha.

O primeiro que entrou teve certa dificuldade em passar pela passagem. Baruk, um dos soldados de mais confiança do Senhor da Casa Drăculești, era um homem alto e corpulento, mais parecido com um touro do que com qualquer outra coisa. Tinha pele cor de bronze e muitas cicatrizes, sendo a maior delas em um dos lados de seu rosto, sempre coberto por um protetor de metal. Não era lá muito inteligente, mas sabia caçar ghouls como ninguém. Ao seu lado, Devrim notou, se encontrava–se Mihnea, seu cunhado, com a costumeira expressão de escárnio. Os dois nunca tiveram um relacionamento amigável, muito pelo contrário: foi Mihnea o viabilizador de sua expulsão da Guarda de Elite, e não surpreendia que tivesse sido ele seu sequestrador.

Já o terceiro indivíduo, embora menor em estatura, era tão imponente quanto os outros dois: tratava-se de Etrigan, segundo em comando da Casa Real, e Comandante-Primo dos exércitos da realeza. Há muitos séculos, tinha sido incumbida a ele a tarefa de instruir e educar os três nobres recém-chegados de um castelo pilhado ao lugar que atualmente era a Hungria: Carmilla, Adrik e Devrim Stavros, a quem julgava no momento. O rapaz sempre o teve como uma figura paterna, e vê-lo ali, no meio de seus algozes, era angustiante. Pois avistando os três, em pé, diante de si, Devrim imediatamente entendeu o que tinha acontecido. Fechou os olhos e respirou fundo, sentindo, em seu peito, o peso de suas próximas palavras:

— Não adianta me trazer aqui. Ela não vem.

— Claro que virá! — Mihnea retrucou, triunfante. — Minha irmãzinha se importa com você, mesmo que não seja obrigação dela.

— Realmente! — Foi a vez de Baruk interferir. — A ponto de ignorar a bomba-relógio que você é. Quem sabe quando você vai começar a matar humanos como se não houvesse amanhã e expor todos nós? É ridículo!

Mihnea concordou com um leve aceno, o constante sorriso de escárnio se estreitando ainda mais. — Se eu tivesse sido desenlaçado e minha coreternum fosse alguém tão patético como você, eu a teria matado há séculos.

Ambos riram, mas Etrigan parecia aborrecido com toda aquela situação. Embora não tivesse dito nada desde que entrara, seu descontentamento e desconforto com tudo o que se desenrolava era nítido em suas feições.

— Senhores! — Os outros dois homens em pé se calaram, virando-se para o mais velho dentre eles.

— Não cabe a nós fazer um julgamento de valor. Por favor, calem a boca!

E, tirando um pequeno pergaminho do gibão, Etrigan virou-se para Devrim, — que assistia a tudo de cabeça baixa e olhar cansado, quase como se concordasse com o que havia sido dito — e continuou:

— Devrim Stavros, leal à Casa de Drăculești, filho humano de Bairun Stavros e filho da noite de Klaus Voykyov, sua condição enquanto criatura incompleta permite que as autoridades da Casa de Drăculești, de tempos em tempos, conduzam interrogatórios de maneira a averiguar seu estado atual de consciência e existência. — Pigarreando seu desconforto, o Comandante limpou de leve o suor que escorria por sua pele escura, e deu seguimento à sua fala. — Com base na observação de suas atividades documentadas, foi constatado que não existem registros de danos ou perigo para a nossa comunidade em sua exposição de curto prazo, porém, o mesmo não pôde ser confirmado com a exposição de longo prazo, que é inevitável, uma vez que o sujeito passivo de análise escolheu por residir em uma cidade turística e mundialmente famosa.

Então é isso. Essa é a desculpa que eles usaram para me capturar, pensou Devrim. Fazer com que pareça um processo legal e organizado, quando, na verdade, é uma armadilha para Vyka. Mas que bela porcaria.

— Dado este fato, sua permanência sob nossa tutela está estabelecida até segunda ordem, ou até que seja provado que seu convívio com humanos em longo prazo não será prejudicial à nossa comunidade — Etrigan abaixou o papel, sem ainda olhar nos olhos de seu protegido, e cruzou os braços, respirando fundo. — Lamento muito, Dev.

Ao final da fala do Comandante-Primo, que parecia, a cada minuto, ainda mais irritado com tudo o que estava acontecendo, Mihnea sorriu mais uma vez. Já Baruk, fiel à hiena que era, começou a gargalhar, de tal maneira que seu riso ecoou em cada um dos tijolos sujos da parede grossa.

— Parece que, dessa vez, alguém vai passar alguns séculos na prisão!! — gritou, jubilante. — E nem mesmo sua esposa ou seu irmãozinho vão poder te tirar daqui!

— Quer dizer, como vão provar que você não é um perigo? Vão soltar uns humanos dentro da sua cela e impedir você de comê-los? É impossível! — Seu cunhado completou.

Porém, Etrigan interrompeu-os com um leve aceno com a mão esquerda, ajoelhando-se à altura do rapaz que se encontrava preso.

— Não é bem assim. É apenas uma medida de proteção. Mas assim que Lady Veronika chegar, tenho certeza de que tudo será esclarecido e você estará livre para ir. Já falei com seu irmão, Adrik, e ele foi ao encontro dela.

O rapaz abaixou a cabeça. A tontura era demais para aguentar. Talvez fossem as palavras recém ditas, não sabia, mas escolheu fechar os olhos e respirar fundo, certo de que nunca mais sairia daquele lugar, mesmo que isso não parecesse mais tão assustador quanto deveria ser. Um único pensamento cruzou sua mente, antes que, enfim, desmaiasse devido à dor e ao cansaço.

Se vocês realmente acham que ela virá atrás de um peso morto como eu, precisam rever as suas informações urgentemente. Para ela, aquelas portas que vocês arrombaram provavelmente valem mais do que eu.