Notas iniciais
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segunda-feira, 3 de setembro de 2012, 08h30 da manhã.

Blake Hoffman não sabia a importância da Matemática, mas tinha certeza de que estaria ferrado se resolvesse ignorá-la por completo, então, simplesmente fingia que algo ali lhe interessava, de fato. Era o começo do seu terceiro ano do colegial na Conrad Ritcher, e ter que centralizar a sua atenção em assuntos como assíntotas e equações paramétricas não o agradava de maneira alguma.

Pré-Cálculo era o seu bicho papão, e conviver com ele durante dois a três dias da semana fazia seu estômago borbulhar ácido até a boca de sua garganta, causando um mal-estar fora do comum para o garoto de dezesseis anos. Quase sempre era encaminhado para a enfermaria antes de uma prova da matéria, o que dava a ele uma imagem de idiota mais do que assumido para todos os seus colegas de classe.Estava prestes a desistir de manter seus olhos esverdeados abertos, quando sentiu algo lhe atingir a nuca repentinamente. Rosnou, abaixando-se para poder pegar a bola de papel amassada que havia sido arremessada em sua direção de propósito.

Desdobrou o papel, tendo como vista uma letra terrivelmente desenhada em horizontal.

“Você tem aula com ela mais tarde? Gus.”

Suspirou alto, entortando seu corpo parcialmente para trás, a fim de encarar a pessoa que havia jogado aquele bilhete para ele.

Angus estendia as pernas longas totalmente para frente, já que seus joelhos não cabiam no espaçamento entre a madeira da carteira e o chão. O rapaz balançava um pé de um lado para o outro e encarava Blake deliberadamente, franzindo o rosto em uma expressão mais séria do que a sua de nascença. O amigo de Blake tinha a pele com um bronzeado natural e leve, os cabelos castanho-claros bagunçados, além de um nariz enorme, pequenos olhos negros e ombros largos – produto dos sete anos de natação californiana, e parecia mais desconfortável do que nunca, enquanto bufava sem parar.

Blake encarou Angus da mesma forma que este já o encarava, revirando os olhos.

— Não faço ideia – o garoto de cabelos cacheados transmitiu a mensagem em mimicas totalmente expressivas e fáceis de captar, porém Angus franziu as sobrancelhas em desentendimento – Idiota! – cuspiu da mesma forma, percebendo que aquilo o rapaz entendia.

Angus bufou, batendo suas costas no encosto da cadeira nada confortável e pequena. Não tinha ideia de quanto tempo mais teria que ficar ouvindo toda aquela baboseira ridícula dita pelo Sr. Samuels, e nem noção do tempo em que ficaria longe dela, e aquilo estava o deixando maluco. Deu uma olhadela para o quadro, percebendo o quanto aquilo era fácil e idiota, o que fez com que ele desligasse todas as suas vontades de prestar atenção em algo que já sabia de cor e salteado sem nem ao menos ter estudado. A sua facilidade com a Matemática não era muito normal, já que Angus vivia cabulando aulas e se perdendo em seus próprios pensamentos durante as explicações. Mas tudo conseguia ser tão lógico e idiota, que ele nem perdia o seu tempo prestando atenção.

Voltou os olhos negros para a janela ao seu lado, percebendo as ruas da cidade basicamente vazias. Newport Beach havia deixado de ser o paraíso perdido para os californianos, agora era simplesmente uma vizinhança rica qualquer do Condado de Orange, e, bem, aquilo era uma droga.

Blake, por outro lado, se encontrava olhando para a pequena fresta retangular na porta a poucos metros dele, em sua diagonal direita. Estava na cadeira da frente, e qualquer movimento em falso que desse seria captado pelo professor Samuels, que já desconfiava de sua figura depois do que Angus lhe havia feito.

O garoto de cabelos cacheados para pensar no que ele mandara pelo papel amassado, se perguntando exatamente o que o amigo perguntara momentos atrás. Será que eu tenho aula com ela? Será que eu sei quem é ela? Gus me falou tantas vezes dessa garota, que ao mesmo tempo em que eu sei quem ela é, eu não faço a mínima ideia.

Aquilo era normal. Na verdade, era normal para todo mundo.

Todos conheciam aquela garota, mas ninguém realmente a conhecia, de fato.

E tal situação era extremamente estressante.

∆∆∆

John McGoyle era o novo professor de Biologia III da Conrad Ritcher, e já havia conquistado o coração de estudante da garota que acompanhava todos os passos dados pelo homem diante do quadro negro. Ela mal conseguia piscar, e também nem queria, pois qualquer detalhe que perdesse dali comprometeria o seu arquivo que seria encaminhado para as cinco melhores Universidades dos Estados Unidos daqui um ano, decidindo assim o seu futuro.

Ava sentava-se isolada de todas as outras almas daquele purgatório de cinquenta minutos. Talvez porque ela era a única que poderia ser salva, ou talvez porque era a única que tinha algo definido pela frente. Seria médica, e se formaria em uma das melhores Universidades do país, sendo ela Yale, Brown, Stanford, aquilo realmente não importava, pois era certo de que pelo menos duas destas três a garota conseguiria alcançar. Ninguém duvidada do potencial da senhorita Bennett, nem mesmo o professor novato de Biologia, que já se encontrava encantado com tamanha presença da garota de olhos azuis e cabelos castanhos e ressecados.

A menina olhou para o relógio acima do quadro negro, percebendo que a aula estava prestes a acabar, o que a deprimiu de certa forma, já que talvez aquele fosse o melhor momento de todo o seu dia dentro daquela escola. Poderia ficar ali o dia inteiro ouvindo o que o Sr. McGoyle tinha a dizer, e nada pareceria entediante para Ava, que basicamente se espremia em sua cadeira à procura de mais tempo para adquirir mais e mais informações relevantes sobre taxonomia.

Ao ouvir o sinal tocar, ela franziu o rosto para o chão, guardando seus materiais sem vontade alguma, enquanto era basicamente atropelada por todos os seus outros colegas de classe. Fechou os livros e os abraçou fortemente contra o peito, sentindo uma pitada de insegurança atingir-lhe as costas ao botar os pés cobertos pelo sapato de couro preto para fora da sala de aula.

Era só um momento, Ava sabia que era. Ela não era uma garota insegura com a vida que levava – que era muito solitária, para falar a verdade –, porém ter que ouvir os cochichos vindos de seus colegas de escola nos corredores fazia com que a menina de cabelos amassados se entediasse com a sua própria companhia por alguns instantes, mas tal sensação fazia questão de desaparecer de seu corpo em questão de segundos, o que acabava lhe deixando um pouco mais tranquila.

Desceu as escadas rapidamente, trombando nas pessoas e ouvindo mais alguns murmúrios. Ela tinha noção de que aqueles sussurros não eram dados pelo simples fato de ela ter olhos vazios e usar roupas largas. Sabia que muitas pessoas ali se vestiam igual a ela, mesmo com o clima ameno do outono em Newport Beach e seus vinte e quatro graus centígrados.

A garota sabia que era por outra coisa.

Ava não tinha amigos, aquilo era óbvio. Andava sozinha pelos vastos corredores naturalmente iluminados da Conrad Ritcher, somente na companhia de suas enciclopédias anatômicas e seus cadernos de exercícios – algo que a garota já se acostumara a fazer há muito tempo. Porém, a futura médica tinha dois irmãos, e estes, ao mesmo tempo em que nada se pareciam com ela, faziam com que as pessoas vissem-na em seus rostos, marcando-a para sempre na vida dos dois rapazes.

Ela pôde se dar conta das diferenças entre eles ao chegar ao primeiro andar, e virar à direita no corredor em frente à porta do refeitório, se deparando com o time de futebol americano da escola encostado à parede em frente aos armários vermelhos. Basicamente todos os jogadores principais estavam lá, e alguns vestiam as famosas jaquetas vermelhas com detalhes em branco, vermelho e preto – as cores principais da escola – estampadas com as iniciais cheias e brancas do colégio Conrad Ritcher na frente.

E no meio daquele grupo de quase quinze pessoas estava Aidan Bennett, o irmão mais velho de Ava, e também principal jogador tailback de todo o time. Aidan tinha dezoito anos e era um veterano com o pé direito em uma das melhores Universidades do país – graças às bolsas de estudo dadas àqueles que se comprometem a jogar pela Universidade –, a Stanford, em Palo Alto, que estava pronta para prestigiar o sucesso do irmão de Ava nos vastos campos de treinamento da faculdade. Além dos cabelos castanhos, os olhos azuis impactantes e a pele alva e macia – características também presentes em Ava, e exatamente na mesma intensidade –, Aidan também tinha a agilidade de um leopardo quando estava em campo, atravessando o comprimento deste com uma das maiores velocidades já registradas pelo treinador Dominik Carter em seus quase vinte anos treinando garotos como Aidan para o mundo do “esporte da América”.

E, obviamente, tal posição fazia de Aidan um dos veteranos mais populares de toda Ritcher, ele e Nolan Haynes, o quarterback, capitão, e cérebro do time, com suas táticas brilhantes e movimentos de tirar o fôlego – tanto das meninas, quanto dos rapazes. Aidan e Nolan, além de serem melhores amigos, estavam juntos no que se dizia ser a lista dos jogadores mais impressionantes da Conrad Ritcher, entrando para a história de um dos times de futebol mais famosos de todo Condado de Orange, o que não era para muitos.

Resumindo: Aidan e Ava eram irmãos. Aidan era gostoso e popular, enquanto Ava era uma estudante adiantada do terceiro ano, conhecida por todos como “a irmã excluída do tailback”, e não tinha a mínima participação nas conquistas do irmão mais velho. Ela parecia ser completamente irrelevante na vida do veterano, o que era de se estranhar.

Mas, por mais incrível que parecesse, tal fato não era o suficiente. A garota também era irmã do júnior Aaron Bennett, um jogador pequeno e reserva do time de futebol americano, e que mesmo assim ganhava enorme atenção, tanto dos garotos do time quanto do resto da escola. Não só porque também era irmão de Aidan, mas porque tinha a posição de wide receiver oficial do time quase garantida pelo treinador no próximo ano, o que dava tamanha importância a sua imagem.

Ou seja: o time das raposas estava nas mãos dos Bennett.

E, claramente, Ava não estava na jogada. A garota não gostava de esportes, e tinha a certeza absoluta de que nunca faria algo parecido com o que Aaron e Aidan faziam, nem mesmo em dois trilhões de anos. Ainda assim, a irmã sentia orgulho deles, pois sabia que eram ótimos, mesmo não tendo ideia do que tinham que fazer no meio daquele enorme campo. Além do mais, já estava acostumada a ser conhecida por associação, o que fazia com que ela não ligasse muito para o resto dos estudantes do colégio.

Sorriu levemente, encostando-se ao seu armário e observando Aaron e Aidan conversando alegremente com seus colegas de time, tendo o quádruplo da animação dela para o seu primeiro dia de aula no terceiro ano do colegial.

Contar os dias pra faculdade no meu primeiro dia de aula, resmungou por um breve momento, percebendo que aquilo não faria com que o tempo passasse mais rápido. Não tenho outra escolha, chacoalhou os ombros, é melhor eu pegar minhas coisas.

∆∆∆

Owen Keller arregalou seu par de olhos negros.

— Cara, que porra é essa?

— Nunca viu uma tatuagem antes? – Theo disse enquanto tocava no plástico que envolvia seu antebraço esquerdo, dando um sorriso malicioso na direção de Owen, que continuava a encarar a pele alva e marcada do amigo. O ruivo havia feito uma enorme adaga em preto e cinza atravessando o meio de uma rosa por todo o comprimento do seu antebraço, figura que escolhera em cima da hora, e que ficara tão boa quanto ele imaginava que ficaria como sua primeira tatuagem.

— E o que sua mãe fez quando viu isso? – Wen franziu as sobrancelhas grossas e pretas sem ao menos piscar para o braço de Theo, desacreditado com a imagem perturbadora do plástico filme apertando sua pele.

— Ela foi comigo fazer.

Blake abafou uma risada sem humor, sabendo muito bem de como a Sra. Goodman era capaz de ser completamente indiferente com coisas como tatuagens e piercings, e ser descontrolada ao ponto de ficar sem falar com Theo por semanas quando o assunto se tratava sobre o cabelo ruivo do filho, que ficava sempre levantado para cima em um topete desastroso e bagunçado, evitando ele de perder a vista das coisas à sua volta.

— Sua mãe é estranha – ele suspirou, batendo a porta de seu armário.

— Se eu pensasse em aparecer com isso em casa um dia, minha mãe arrancava meu braço – a voz de Angus surpreendeu os garotos. O rapaz estava quieto desde que chegara ali da aula de Pré-Cálculo. Ele olhava para todos os cantos do corredor claro e movimentado do primeiro andar da Conrad Ritcher, à procura de apenas um topo de cabeça para melhorar o seu dia.

Theo bufou um riso sarcástico, erguendo as sobrancelhas claras e passando as mechas loiras amorangadas para trás, enquanto acompanhava o olhar do melhor amigo pelos lados da escola. O silêncio desconcertante se fez presente entre eles quando Angus grunhiu, transmitindo aos seus amigos a sensação única de impaciência que sentia apenas em momentos de extrema necessidade.

— Você sabe se ela veio hoje? – Blake acabou perguntando enquanto andavam, depois de perceber que Gus ficaria incomunicável pelo resto do dia se ninguém falasse sobre ela.

— Eu ainda não tive aula com ela – Theo murmurou em resposta, sem deixar de encarar a enorme tatuagem em seu antebraço.

— Soube que ela ia fazer Latim esse ano, Theo – Owen Keller encarou o perfil do ruivo, deixando que as pessoas esbarrassem em seu ombro impiedosamente – Você também faz Latim, não faz?

— Faço, mas não sei se vou passar dessa vez – ele gargalhou sozinho de sua desgraça, olhando para frente e deixando com que a luz vinda das enormes janelas no final do corredor o cegasse por um momento. – Com certeza ela vai melhor do que eu nessa.

— Eu tenho Literatura Mundial no quarto tempo, é capaz de ela estar lá. – Blake fitou aquele mutirão de pessoas com certo desdém.

— Ela vai – Angus disparou – Tenho Governo Americano no segundo, Literatura Mundial no quarto e Física Avançada como último tempo. Acho que são as matérias dela, eu não consegui saber.

— O que ela quer com Física? – o garoto de olhos esverdeados e cabelos cacheados era completamente indignado com pessoas que gostavam de aulas de exatas – Desperdício de tempo.

Gus deu um sorriso torto, abaixando a cabeça e se desligando do mundo por alguns instantes enquanto caminhavam. Precisava ouvir o sinal bater, e precisava ouvir naquele momento. Teria aula de Governo Americano, e a pontinha de esperança de que ela poderia estar dentro daquela aula fazia com que o seu coração se explodisse de excitação.

— E a leoa ressurge!

Ele ergueu seus olhos negros imediatamente ao ouvir Theo proferir aquelas palavras tão profundas e, ao mesmo tempo, ridículas ao sotaque britânico que carregava. Gus sentiu seu coração acelerar fortemente em poucos segundos, fazendo com que suas íris escuras deslizassem pelo espaço à sua volta com agilidade e desespero.

— Cadê? – perguntou desesperadamente, percebendo que ninguém responderia, já que todos o olhavam enquanto ele parecia um completo idiota.

— Esquece, Angus – uma voz grossa e familiar atingiu os ouvidos do rapaz em cheio, fazendo-o direcionar o olhar ansioso em sua direção – Não sou sua bonequinha.

Uma garota parava na frente do grupo de garotos enquanto segurava sua mochila de camurça azul em um ombro só. Tinha os cabelos lisos e castanho-escuros na altura da mandíbula, e usava uma touca frouxa por cima deles. Sua pele era alva e seus olhos negros e grandes, e as sobrancelhas estavam franzidas na direção do garoto de um metro e noventa, nariz grande e olhar angustiado.

Lisa Carroll era o sinônimo de irritação quando o assunto entre os garotos se tratava de garotas que não tinham o nome Lisa no meio. Era amiga deles há mais de sete anos, e nunca conseguira engolir o fato dos outros garotos – inclusive Blake, seu próprio namorado – terem a necessidade de querer chamar a atenção de garotas que não ligavam para a existência deles, como a adorável bonequinha vodu de quem tanto Angus falava.

— Cai fora, Lisa – o próprio retrucou, fazendo-a sorrir descaradamente ao caminhar na direção do namorado também sorridente.

Os outros garotos bufaram uma risada em cima de Angus, que no momento se encontrava emburrado feito uma criança de seis anos presenteada com um par de meias no Natal. Todos concordavam que o par de meias era Lisa, e que, na verdade, o que ele queria mesmo era uma bicicleta de aro vinte, pintada de preto e cinza e com detalhes em azul escuro e branco, sendo decorada pela sigla da marca tão categorizada por seus pensamentos.

A.V.A.

— Não me diga que foi assim a manhã inteira? – perguntou a garota ao chegar até os braços de seu namorado.

Blake sorriu torto.

— Se eu disser que não, estou mentindo.

Ela revirou os olhos.

— Idiota – disse na direção de Gus, em alto e bom som.

Theo imitou a garota, revirando os olhos, sem demonstrar a ela ou a Blake que também estava à procura da garota de olhos transparentes. Na verdade, ele não sabia exatamente o porquê de estar procurando o paradeiro da vizinha de Angus Jenkins, mas costumava culpar o melhor amigo por se sujeitar a tal comportamento, já que era ele quem não parava de falar da garota.

Eu mal a conheço, bufou o rapaz de cabelos amorangados. Ninguém aqui conhece.

E Theo sabia que estava errado, pois Angus era provavelmente a pessoa que mais conhecia Ava Bennett em todo Condado de Orange. Por ironia do destino, a garota era vizinha dele, o que fazia com que Angus ficasse sempre de janelas abertas para ouvir as músicas repetitivas que soavam do quarto de paredes avermelhadas da garota. Ele já até conseguia tocar algumas das notas em seu violão Martin feito de mogno escuro (a quem Angus se referia como Tonkin), e cada nota tocada dava a sensação de que ele e ela ficavam cada vez mais próximos, mesmo não estando, de fato.

Foi Theo quem viu Ava pela primeira vez depois de Angus. Ele se encontrava ao lado do amigo quando a garota se mudara para Newport Beach há dois anos. Lembrava-se de ter cruzado olhares com ela ao sair pela porta da frente de Angus, encontrando-a ao lado dos caminhões de mudança, junto de um homem de rosto rígido e de uma cadela da raça São Bernardo, que insistia em puxar a barra do vestido longo e cinza da garota. Lembrava-se também de ter reagido de mal grado ao vê-la erguer as sobrancelhas em sua direção e dar um leve sorriso tímido que o fez enfiar as duas mãos nos bolsos do moletom cinza escuro e ir embora de vez dali.

— Quando vamos voltar a ensaiar? – Lisa deu-se ao trabalho de acordar Theo de suas memórias inquestionáveis, fazendo-o chacoalhar a cabeça e passar a franja acobreada e desarrumada para trás.

— Quando tivermos uma música, talvez? – Owen esperou o sino terminar de tocar para poder reclamar no lugar do ruivo. Eles tinham que ir para suas respectivas salas naquele momento, e o primo de Angus tinha certeza de que este enfartaria se não tivesse a visão de pelo menos um cacho ressecado de sua vizinha.

— Se for assim, então nunca – Theo respondeu à garota, dando um sorriso irônico.

É, eles eram tipo uma banda. Tipo.

Tipo, porque sofriam da crise inicial do “não temos ideia do que estamos fazendo, mas estamos fazendo e precisamos de uma música.” A sensação do tipo era tão grande, que a tipo-banda não tinha nem mesmo um tipo–nome. Owen havia pensado em algo que lembrasse a todos que eles eram um cover ridículo dos Beatles, Blake queria algo mais rock n’ roll, e discordava abertamente de Owen sobre o fato de serem parecidos com os Beatles ou seguirem o estilo deles. John Lennon poderia ser um mestre, mas não daquela banda.

A única coisa de que realmente sabiam era que Owen estava convencido de que chegaria ao título de melhor baterista de toda Califórnia em pelo menos dois anos, Lisa conseguia tocar Hey Jude inteira no teclado e de olhos fechados, Blake jurava que estava chegando ao nível Flea nas cordas grossas de seu baixo, enquanto Angus e Theo simplesmente deixavam a onda seguir seu ritmo, ambos oscilando entre seus violões Martin, suas guitarras Gibson e seus vocais roucos e nem tão impressionantes.

— E quando vai ser isso? – ela replicou sem hesitar, enquanto caminhava de mãos dadas com Blake até as escadarias no canto esquerdo do final do corredor, e que levariam ela e o namorado para a aula de Inglês III – Acho que todo mundo devia tentar escrever alguma coisa. O que vocês acham?

Theo estava prestes a responder à pianista, quando sentiu uma mão agarrar-lhe o pulso imediatamente, levando-o para baixo em um piscar de olhos.

— Que porra...! – ele virou o rosto na direção do melhor amigo, que provavelmente era o garoto mais alto daquela escola inteira. Ele estava paralisado por motivos óbvios, enquanto mantinha seu olhar preso aos passos da garota que caminhava diante dele e de seus amigos. Ela vestia uma camiseta branca de mangas rasgadas e calças pretas altas, além de uma longa camisa de seda preta aberta, que praticamente se arrastava pelo chão do corredor coberto pelo piso de linóleo branco. Ava apertava os livros grossos diante de seu peito, seus cabelos amassados no topo da cabeça voavam em seu rosto, fazendo com que a garota se estressasse com suas mechas rebeldes e as passasse para trás insistentemente.

Ela passou por eles com os passos desajeitados e que muitas vezes pareciam mancos, sem notar a imagem dos quatro garotos (e uma garota) entortando suas respectivas cabeças para terem visão privilegiada de todos os seus movimentos. Estava atrasada para a aula de Governo Americano da Sra. Sprouse, o que fazia com que ela não se importasse com mais nada à sua volta, principalmente com os murmúrios que sempre a perseguiam naqueles corredores.

— Me diz como que uma garota dessas tá sozinha desse jeito? – exclamou Angus, chacoalhando os ombros de Theo após ter certeza de que Ava não estava mais por perto. – Me explica?!

— Dá pra parar, porra? – Theo arregalou seus olhos para o melhor amigo e o empurrou para longe. Este esbarrou em Blake, que soltou um grunhido irritado.

— Queria entender o que você vê nela – disse ele para Gus, empurrando o amigo de volta para o seu lugar com uma mão – Ela não me parece amigável.

Lisa soltou uma risada abafada e sem humor.

— Você foi gentil com essa – suspirou a garota pequena, passando os poucos cabelos castanhos que tinha para trás da orelha e apertando os dedos do namorado contra os seus. – Ela parece uma bruxa, isso sim.

Gus bufou alto, recebendo um sorriso torto de Theo como consolo.

— Ela é só uma garota triste – Owen opinou de repente – Tá sempre de cabeça baixa pela escola, nunca fala com ninguém e só encontra os irmãos quando eles vão embora. Acho que sofre bullying, sei lá.

Angus fingia que ignorava, mas tinha, naquele momento, uma extrema vontade de chutar as bolas dos dois garotos que tanto falavam besteira em seus ouvidos, além de ignorar Lisa para o resto de sua vida, o que não conseguia, infelizmente. Mesmo sem se importar com a opinião dos outros, ele se preocupava com Ava e com sua imagem, não queria que ela fosse vista dessa forma pelos outros adolescentes que insistiam em se perguntar o porquê de Aidan e Aaron Bennett terem uma irmã tão errada.

Mas ela não era errada, muito pelo contrário. Para Angus, Ava era a garota mais certa que existia, e eles que eram as pessoas mais erradas em todos os sentidos possíveis da face da Terra. E o garoto tinha noção do que estava falando, ele sabia que o que pensava de Ava não era apenas porque tinha tamanha vontade de puxá-la para seus braços e nunca mais soltar – mesmo Angus garantindo que não era perdidamente apaixonado por ela –, e sim porque tinha motivos para ter tal opinião sobre a menina de olhos impressionantes e lábios finos. Ele acreditava no que via diante de sua janela durante aqueles dois anos, e foi essa mesma confiança em Ava que o fez suspirar alto na companhia dos amigos repentinamente silenciosos, que já começavam a se afastar timidamente, cada um para sua sala de aula.

— Vocês não a conhecem como eu conheço.