Automaton
2 Capítulo 2
Van Gueller deixa o escritório às cinco da tarde, como sempre. O depósito é trancado pelos funcionários e, às cinco e meia, todos parecem já ter ido para casa.
Movo a cabeça milimetricamente e acendo discretamente um olho azul, espiando ao redor. Hackeio as câmeras de vigilância e verifico se não há mais ninguém. As luzes foram apagadas. Não há som nenhum vindo da empresa. Os andares estão completamente vazios.
Usando minha bateria reserva, ativo o sistema eletrônico do meu compartimento. A voz robótica exige minha identificação. Toco um áudio perfeito gravado da voz de Van Gueller dizendo seu nome e RG e o sistema aceita meus dados, liberando as travas de segurança. Saio do casulo, esticando as pernas e abrindo os braços.
Abro o cadeado de um dos gabinetes no segundo andar e pego calças, um capote e um chapéu de um dos funcionários. Amanhã de manhã eles estarão de volta em seu lugar. Com sorte, continuarão limpos. O humano não vai se importar.
Coloco as roupas por cima de meu corpo esquelético e saio pelas ruas ao anoitecer, emulando o jeito dos humanos andarem. A única coisa que não posso disfarçar é o meu rosto.
...
Vasculho a sucata que os moradores da Zona 09, a zona periférica da Célula, costumam revirar atrás de qualquer aparelho que ainda esteja funcionando. Minha esperança é encontrar uma daquelas fitas magnéticas antigas onde tem imagens em negativo.Não sei por que os humanos pararam de produzi-las no séc. XXI. Me distraio muito com as histórias que são contadas nelas. Ajuda a passar o tempo. O engraçado é que horas parecem minutos enquanto assisto, e acabo ficando confuso quando verifico o tempo total que passou de fato no meu cronômetro interno.
Para minha sorte, encontro uma fita intacta, enrolada em um prisma de plástico negro. O jato liga automaticamente em minhas costas e saio em disparada de volta à minha residência. Acidentalmente acabo ateando fogo em parte da pilha de sucata e chamuscando os catadores que trabalhavam perto de mim.
...
Estou sentado em frente a uma caixa cheia de circuitos e bobinas e que emite uma forte luz. Imagens passam à minha frente, narrando uma história de que os humanos chamam de amor.
– Prometa que vai escrever para mim toda semana. — pede a mulher no filme.
– Vou escrever todos os dias. — o homem responde, segurando-a firme em seus braços.
Ela o fita de volta com um olhar que já vi no rosto de humanos quando ficam bêbados e ele a traz mais para junto de si. Ambos colam os lábios e movem suas cabeças para os lados em movimentos lentos.
Fecho os olhos como a atriz e minhas mandíbulas se contraem e se expandem, abrindo e fechando repetidas vezes, como se eu tivesse lábios de verdade...
Aquele é o gesto que consiste no ponto alto de todos os filmes que assisti. À noite, na praça Ômega da Zona 09, vejo mulheres repetindo-o com seus homens. Suspeito que elas se enfeitem tanto só para fazer com que eles queiram beijá-las daquele jeito. Até hoje não entendo o que há no gesto para ele ter permanecido tão popular durante trezentos anos. Pela cara de satisfação que os casais ostentam depois de um beijo, esse é um dos rituais humanos que envolvem emoções, a única coisa que uma máquina é incapaz de assimilar.
Em seguida àquele beijo prolongado, o ator diz que a ama e que promete voltar vivo da guerra para buscá-la. E que cada segundo sem ela somente servirá para reforçar o sentimento entre os dois.
Ela o deixa partir após um último abraço e diz, conforme o trem parte, que quando ambos se reencontrarem, eles se amarão com mais força ainda. E que seu peito explodirá de tanta emoção que será como se contivesse a explosão de mil fogos de artifício.
O filme acaba e o video cassete desliga sozinho. A televisão agora só emite um ruído de estática. Por alguma razão, meu cérebro fica repetindo aquela frase. Uma emoção que faz seu peito explodir com a força de mil fogos de artifício...
Escuto várias batidas repetidas na porta. O vizinho me pede para baixar a TV. O som de estática está tão alto que não o deixa dormir. Desligo o aparelho e saio da casa, tomando o cuidado para não fazer nenhum ruído. Eu nem deveria estar aqui.
...
O Turbinador. O novo sistema que promete revolucionar a tecnologia robótica. Capaz de aprimorar a performance de todos os sistemas automatizados. Somente o preço de uma unidade equivale ao de dez autômatos da linha de produção mais recente da Droide S.A. E ele não está à venda até a próxima maratona acontecer.
Então como Van Gueller conseguiu uma unidade?
– Isto vai garantir que você ganhe todas as corridas daqui para frente. Você não precisa mais funcionar além da margem de segurança para acabar terminando em segundo. O Turbinador vai aumentar sua durabilidade, sua capacidade de processamento e garantir combustível extra para que você acelere sem se preocupar com nada durante a corrida, está me entendendo? — ele fala pausadamente, agitando o diminuto tubo branco bem na minha cara.
Entendi perfeitamente o que meu patrocinador me diz. Porém, receio que ele tenha ignorado uma ou duas variáveis no cálculo dele, que terminaram enviesando sua conclusão.
– O Turbinador utiliza uma matriz energética incompatível com a minha. -explico com toda calma.
– Minha equipe de engenheiros já está fabricando um mecanismo de adaptação no laboratório. Uma vez instalado, a energia nuclear não vai sobrecarregar seu sistema.
Primeira variável solucionada.
–Meu processador terá conflitos com o hardware do Turbinador. Ele foi produzido utilizando a nova tecnologia quântica. Eu ainda funciono segundo o sistema binário de transmissão de dados. -esclareço.
Por algum motivo que foge à minha compreensão, Van Gueller fica agitado.
– Ai meu deus, mas o que importa? Isso é um detalhe, daqui a pouco descobrem como adaptar o teu processador também! Presta atenção, Robb, você pode ficar rico! Bem, EU posso ficar rico. E você também!
– Androides não utilizam créditos para suas funções básicas. — respondo, conforme fui programado para responder nesse tipo de situação.
Van Gueller passa as mãos pelo rosto vermelho e inchado e até eu deduzo que ele está a ponto de ter um AVC. Não sei por que ele fica tão nervoso com minhas observações, se ele valoriza tanto seus androides. Um engenheiro de mecatrônica acharia tais perguntas muito naturais. Inclusive o avisaria do risco inerente ao plano que ele está propondo.
– Robb, preste atenção. — ele pede, sentando ao meu lado — Eu e meus amigos fizemos uma aposta sobre o resultado da próxima corrida. Ela será a maior, a mais célebre de todas. Até o gabinete superior do governo vai assistir! Por isso, decidimos que o prêmio para o vencedor será o maior já concedido na história.
– Há razão para estabelecer uma correlação entre este novo dado e sua conversa com David Bernstein, senhor? — pergunto automaticamente.
Van Gueller desvia o olhar por um instante, gesto que associo a desonestidade. Mas em seguida ele bufa e baixa a cabeça, concedendo-me a razão.
– Sim, Robb. O governo já vinha inventando pretextos para acabar com as corridas. Gozado como nunca reclamaram de nada enquanto pagávamos trinta por cento do lucro com a venda de ingressos para eles. — ele fala com desdém.
Meu patrocinador continua, explicando como seus amigos do ramo dos negócios acham que há chance de um dentre três modelos ganharem. — eu sabia muito bem de quais modelos ele falava; já estava acostumado a perder para qualquer um deles nos últimos anos — Porém, nenhum deles tinha acesso à nova tecnologia, o que mudava completamente a situação.
– O governo quer acabar com a produção de vários androides. Nem os fabricantes querem mais manter as portas abertas para produzir partes sobressalentes de modelos como você, Robb. Mas se você ganhar quando ninguém esperava por isso, meu deus, vai ser — como vou explicar? — a multidão irá à loucura! Você será o azarão por quem ninguém dava nada. A reviravolta vai causar tamanho rebuliço que o noticiário não vai falar de outra coisa. Será o suficiente para renovar o interesse das pessoas nas corridas e EM VOCÊ.
Uma memória distante retorna; em questão de segundos, me vejo como o vencedor de uma maratona numa cidade chamada Nova Berlim, numa época em que o mundo ainda era habitável e a civilização florescia na superfície.
Há duzentos anos, não havia uma corrida que eu não vencesse. Eu era o modelo mais recente fabricado da série Automaton, a primeira das séries de androides com inteligência artificial. Eu era considerado o ápice da tecnologia humana, o triunfo da humanidade sobre a natureza. Ecce Automaton! O homem criava um ser artificial à sua imagem e semelhança, tal como deus. A criatura atingira agora sua maturidade e tornava-se o criador.
Fora um famoso intelectual influente que havia escrito tais palavras em um jornal de grande circulação. A história humana era dividida entre antes e depois da série Automaton. Os séculos se passariam e eu ainda estaria aqui, um testamento indestrutível do legado humano, a prova de que nós existimos em um universo infinito e vasto.
Minha mente volta ao presente e a oferta de Van Gueller perde sua atratividade. Mas o homem continua falando, contando das oportunidades que a vitória nos traria... até que ele fala em algo que eu não acreditasse ser possível.
– Todas essas partes velhas, ultrapassadas, você pode trocar! Elas custam uma fortuna; só o processo de adaptação para novas partes é caríssimo, mais do que eu posso custear! Mas se você ganhar, Robb, poderá comprar um novo corpo. Basta eles inserirem seu chip de memória em um novo androide, recém-saído da linha de produção. Pronto! Não haverá uma corrida que você não passará a ganhar. E tudo graças a ISTO! — ele força o tubo branco em minha mão.
Ergo o objeto em frente aos meus sensores óticos e ativo meu escaneador. Em seguida, faço uma sequência de cálculos levando em consideração a matriz tecnológica com que fui criado e a utilizada na construção do Turbinador.
Estimo a probabilidade de o mecanismo causar uma pena geral em meus sistemas como sendo superior a noventa por cento.
– E se eu quiser ser um androide para convívio humano?
Durante alguns anos, houve a produção de uma série limitada, chamada Evol. Ela era voltada para a construção de androides com comportamento e aparência cem por cento humanos, a fim de prover companhia da melhor qualidade a quem pudesse pagar. Após um modelo masculino matar um magnata da antiga indústria do petróleo por ciúmes, sua fabricação foi interrompida. Porém, as peças continuavam sendo produzidas em separado, inclusive um chip que simulava emoções em uma máquina. A qualquer autômato hoje era possível substituir suas partes pelas peças da série. O processo, contudo, era tão caro que somente patrões endinheirados podiam customizar seus androides de estimação.
A chance de ver e sentir o mundo como um humano é demais para mim. E o fato de que tal possibilidade está ao meu alcance é o suficiente para me convencer.
A princípio Van Gueller reage com o que costumo identificar como choque. Sem dúvida ele queria continuar me usando nas corridas. Mas ele coça o queixo e seu rosto se ilumina. Segundo o que conheço de suas reações, a probabilidade de ele ter tido uma nova ideia é acima de oitenta por cento.
No fim, ele dá de ombros e diz:
– Acho até melhor. Eu compro um novo androide e você está livre.
Ele me oferece a mão e eu a aperto sua palma cálida contra a minha, fria, dura e metálica, tomando o cuidado para não aplicar força demais e esmagá-la. Aí está uma coisa que eu nunca pensei que veria na vida; um androide precisando de dinheiro.
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