Autópsia

10 Capítulo 9-Réquiem


Quando se conquista algo, uma canção é tocada. Quando se cai em desgraça, um réquiem é tocado. Mas quando o caos e a paz se unem, o resultado é uma canção de terror, na qual ninguém sobrevive. Todos nós ouviremos nossa canção, na hora certa.

***

–O.K, todos pra floresta. Terão o último treino-Jade anuncia para nós, gritando. Ela usou uma colher e uma panela para nos acordar.

As pessoas bocejam e vão para os banheiros daqui se trocarem. Deve ser em torno de seis horas da manhã. E sairemos daqui em torno de cinco horas da tarde. Bem, não importa. Não vou para esse treinamento. Não podem me obrigar. Mas me recuso a acreditar que sou mimada, apenas estou toda destruída depois do treino com Cyrus ontem a noite. E ainda não me recuperei da surra que levei de Matilda ontem.

–Ei! Acorda!-ouço um grito em meu ouvido. Jade se ajoelha a meu lado. Ela sorri para mim-Vamos, vai se atrasar.

–Jade, eu não vou. Estou totalmente destruída. Juro que se pudesse, eu iria.

–Você precisa ir, Krystal. Precisa pelo menos fazer o tiro ao alvo. Depois que saírem daqui, irão procurar alguma casa para ficarem e cada um tomará seu rumo. Não nos verá muito depois daqui. Vá, precisa ir.

Decido não discutir. Saio da minha rede e espero até que todos já tenham saído do banheiro feminino.

Depois que a movimentação fica pouca, eu vou até o banheiro. Seguro a mochila que me deram com minhas roupas de treinamento e bato na porta dupla.

Quando entro, há alguém lá. Matilda. Ela está prendendo seu rabo de cavalo na frente do espelho. Decido ignorá-la e vou para dentro do box de metal. Eu tiro minhas roupas e fico usando apenas roupas íntimas.

–Diga xis!-a voz de alguém diz, depois que ouço a porta do meu box se arrombar.

Seguidamente, um flash de luz me consome. Quando posso ver legitimamente, Matilda segura um celular na minha frente. Ela ri de mim.

Eu impeço ela de fugir e mostrar a foto para todos. Seguro seu braço e empurro-a contra o espelho, que se racha e cai em pedaços. Pego um pedaço de vidro e pressiono contra seu pescoço, ela fica tensa.

–Você não me mataria nem se fosse paga-ela diz, rindo.

–Ah, tem certeza? Hoje será o último dia em que verei a sua cara, eu poderia cortar seu pescoço e me safar agora mesmo e eles nunca nem desconfiariam que eu te matei. Agora, se me permite.

Tomo o celular da mão dela e jogo-o dentro do vaso. Aperto o botão da descarga e o celular some do meu campo de visão.

Eu bato a porta do box e volto a me vestir, feliz com meu feito. Finalmente eu aprendi alguma coisa de útil com Matilda.

Eu saio do box e a primeira coisa que sinto é uma mão na minha cara.

–Você ficou maluca?-Matilda pergunta enquanto me ataca.

–Eu que deveria te perguntar isso ontem! Por quê me atacou? Não, não me responda. Merece mais que isso.

Jogo o corpo dela contra o concreto da pia e tento escapar, mas ela bate minha cabeça contra o vidro do outro espelho que estava intacto. Minha testa começa a sangrar. Pego um pedaço de vidro e passo-o contra sua barriga. Ela grita e tenta me atacar, mas seu soco acerta a parede.

Ela corre em direção a sua mochila e abre-a o mais rápido que pode. Ela pega uma faca de lá. No momento em que ela estava fazendo isso, eu havia pegado um cano de metal que estava no canto de um box, provavelmente estava quebrado.

Quando ela se virou para me atacar, o cano acerta em cheio sua cabeça, fazendo-a cair no chão. Cubro minha mão com a boca.

***

Eu coloco o cano atrás de minhas costas e cubro-a com minha camisa. Droga, droga, droga.

Eu vou para a floresta, onde todos estão treinando. Vejo Cyrus lutando com um garoto moreno. Eu tento parecer normal.

Quando eu sumo do campo de visão dos outros, corro para a floresta que ainda não explorei. Chego perto da cerca eletrificada e arremesso o cano do outro lado. Suspiro de alívio.

–O que está fazendo?-droga, mais problemas.

Jade está me encarando. Meu sangue fica frio e penso numa resposta.

–Estava tomando um ar. Lá dentro estava muito abafado. Estava suando demais-digo, evitando desviar o olhar em seus olhos, ou vai parecer que estou mentindo.

–Vem com a gente. Um pessoal deu uma ideia. Eles montaram grupos separados, para não ficar só na luta. Tem o grupo do estudo, que fica lá dentro do galpão. Quem comanda o grupo é Miranda. E tem o grupo da natureza. Quem comanda o grupo é Erica.

Ela me arrasta para fora da floresta.

–Então, vi que você tem uma amizade com Cyrus-ela ri maliciosa para mim. Eu reviro os olhos e não deixo de sorrir.

–Cyrus é só um amigo de Nova Aliança-achei ótimo a ideia de mudar de assunto. Eu não conseguiria manter minha consciência limpa depois do que fiz, mesmo sem saber se ela está morta ou não.

–Ele é um gato. Mas não gosto das atitudes dele. Ele é muito chato também, eu acho que...

–Acho que vou para o grupo da natureza. Vou lá. Tchau-digo.

Eu corto a fala dela e corro quando chego ao espaço de treinamento.

Procuro o grupo pelo qual Jade falou, mas só acho o grupo do estudo, na qual não estou interessada nem um pouco. Procuro mais um pouco e não acho, até que decido perguntar para alguém.

–Ei, você viu o pessoal do grupo da natureza?-pergunto, tentando não parecer aflita.

–Eles estão dentro do galpão-uma menina de cabelos loiros me diz.

Eu engulo em seco e vou para dentro do galpão. Quando bato a porta dupla do imenso salão, tudo está calmo. Não há ninguém lá. Arrisco fazer o pior.

Vou para o banheiro feminino.

No centro do salão vazio, há um lençol no chão e algumas cestas, o pessoal do grupo estava aqui. Onde eles estão agora?

Quando bato a porta dupla do banheiro, vejo todos eles lá dentro, rodeando algo.

–Gente?-pergunto-O que aconteceu?

Eu me aproximo, como se não soubesse de nada. Matilda está sentada num banco de pedras, ela está atônita. Ela não está morta, mas sofreu algum tipo de retardo mental.

–Mat? O que aconteceu?-Erica, uma garota de cabelos claros com mechas azuis perguntas. Erica é morena e bonita.

–Não sei. Eu só sei que gosto de laranjas. Você poderia me dar uma laranja?-ela pergunta. Eu engulo em seco.

Se nem eu fiquei assim quando perdi a memória, então é grave. E provavelmente ela ficará assim para sempre. Eu encosto nela e acaricio seu cabelo.

–O que aconteceu?-pergunto de novo.

–Quando chegamos aqui ela estava inconsciente, caída no chão. Ajudamos ela a se levantar, tentamos fazê-la recuperar a memória mas de nada adianta. Sabe de alguma coisa?-Erica pergunta.

–Não, eu estava procurando por vocês lá na floresta-respondo.

–Krystal, será que pode ficar aqui com ela? Nós vamos lá para a floresta avisar Jade e os outros-diz Erica. Eu confirmo com a cabeça, usando uma expressão de inocência.

Eles saem e fico sozinha com Matilda, que sorri para mim. Penso por um instante. Não sei o que fazer.

Podia tê-la matado, mas isso é melhor. Ou talvez pior.

–Matilda, você se lembra de alguma coisa?-pergunto.

Ela sorri para mim e depois coça a cabeça.

–Eu só me lembro de ter sido atingida por alguma coisa. A pessoa que me atingiu não gostava de mim e me lembro também que fiz muitas coisas ruins para essa pessoa. Será que eu mereci isso?-ela pergunta.

–Não, não mereceu-digo.

–Bom, então vou perguntar para alguém quem é essa pessoa, agora que me lembro de algumas coisas-ela diz, sorrindo-Mas tudo vai ficar bem.

–Ah, querida, então vamos ter que fazer alguma coisa com você-digo-Venha comigo.