Autópsia

9 Capítulo 8-Traição


Apenas a traição é capaz de quebrar a ponte da aliança. Quando alguém se volta contra você, ou ele tem um motivo, ou ele te traiu. E quando a traição é muita, se torna um ímpeto para vingança. Pessoas tem de pagar pelo que fizeram. Mas numa história de retribuição, temos sempre dois cadáveres.

***

–Você deve ter ficado louca-a voz de Cyrus me faz acordar.

Não sei onde estou, só sei que estou num ambiente confortável, mas meu corpo está quebrado. Eu não consigo me levantar, minha cabeça dói tanto que sinto tontura e o espaço ao meu redor começa a se mexer. Eu fecho os olhos e balanço a cabeça. Abro os olhos e fixo na parede de concreto. Ainda estou dolorida, mas a tontura parou.

Só agora percebo que estou deitada numa rede. Toco minha testa e vejo o machucado. Há gosto de sangue em minha boca.

Olho o espaço ao meu redor. Há um punhado de pessoas num quarto de concreto. O lugar é iluminado por uma lâmpada fosforescente. Evito olhar para a lâmpada e me concentro nas pessoas.

–Ela acordou!-ouço a voz de alguém e sei que está se referindo a mim. As pessoas voltam os olhares para mim.

–Você está bem?-alguém pergunta.

–Quantos dedos há aqui?-outra pessoa pergunta.

–Você sabe onde está?-se eu sei onde estou?

Não. Não sei onde estou.

–Gente, parem com isso! Estão assustando ela-Cyrus se ajoelha na minha frente. Cyrus.

–Onde estão? Quem são eles, Cyrus?-murmuro para Cyrus, que fica tenso.

–Isso não pode estar acontecendo-ele deixa escapar a fala.

–O que foi? O que aconteceu?-alguém que não conheço pergunta. Há tantas perguntas.

–Ela não se lembra de nada.

Acabam os murmúrios na sala. As pessoas ficam tensas e eu tento colocar as coisas no lugar. É verdade. Não me lembro de nada.

Cyrus se levanta, tomado por um ímpeto de raiva. Ele anda em direção a uma menina e agarra seu pescoço.

–Você não vai sair dessa, e se ela continuar assim isso vai ser a sua culpa!-ele grita com ela. Eles estão brigando por mim. O que aconteceu? Bem, de uma forma ou de outra, parece que aquela menina tem algo a ver comigo.

–Saiam daqui, preciso falar com ela-ele diz.

–Por quê você?-a garota que ele agarrou o pescoço pergunta.

–Eu conheço ela desde que morava em Nova Aliança. Agora saiam daqui, preciso falar com ela e ver se ela se lembra de algo-ele ordena.

As pessoas saem do cubículo de concreto. Elas estão tensas, provavelmente preocupadas comigo, mesmo que nem eu mesma saiba o que aconteceu. Só me lembro de Cyrus, e de que não estou em casa.

A porta bate e ele se vira para mim, sua expressão é de conforto. Ele coloca a mão em minha testa.

–Ei, você está bem?-ele pergunta.

Eu me sento na rede e suspiro. Tento me lembrar do que aconteceu mas sempre que eu tento cavar o passado, ele não vem.

–Não. Não estou bem. Fisicamente posso estar mais ou menos, mas mentalmente estou péssima. Pode me dizer o que aconteceu?-pergunto.

–Você apanhou muito feio. Está rodeada de hematomas. Aquela garota que quase briguei agora há pouco, ela fez isso. Ela te chamou para lutar e te bateu muito forte.

Agora, as coisas começam a clarear em minha mente. Me lembro que estava num espaço muito verde, e que fui surrada por um garota chamada Matilda. Me lembro também que Cyrus atirou uma faca em mim... também me lembro que fugi de Nova Aliança, mas não sei o que é Nova Aliança.

–Você se lembra do seu nome?-ele pergunta.

–Meu nome...-eu cavo o mais fundo que posso em minha mente-Meu nome é Larissa O'Connor.

***

Cyrus ri. Ele pega minha mão, mas não para de rir.

–Você é inteligente. Krystal? Larissa? Não me bate-ele diz, depois que começo a esmurrá-lo-Prometo guardar o seu segredo.

Ele diz isso tudo depois que minha memória volta. Me lembro de tudo agora. Se me esqueci de alguma coisa, tomara que sejam coisas que eu nunca deva me lembrar. Algumas lembranças temos de escondê-las o mais profundo que podemos.

–Mas por que Krystal?-ele pergunta.

–Precisava de um novo nome. Logo vou me cadastrar como cidadã oficial daqui e usarei esse nome. Se o sistema de Nova Aliança chegar aqui e perguntar por Lara O'Connor, não haverá nomes assim. Ou eles pegarão a garota errada. Tanto faz.

–Inteligente. Bom, bem-vinda a Velho Desastre-ele sorri para mim.

***

Quando saio do quarto de concreto, que apenas mais tarde descubro que é uma espécie de enfermaria, vou direto para a floresta, embora não haja ninguém lá. Eu vejo todos os equipamentos lá, o ringue, o tiro ao alvo, os bonecos, o arremesso de facas...

Já é de noite, e ainda estariam aqui se não fosse por minha culpa. Nem devem saber que eu sai da enfermaria. Eu fico de frente para um boneco. Esse boneco é Matilda.

Soco o boneco o mais forte que posso, em todas as partes que consigo. Minhas mãos doem mas sou obrigada a suportar essa dor. Meus punhos atingem as têmporas do boneco. Eu faço uma sequência de socos, depois uso os chutes para atingir o boneco.

Chuto sua barriga, depois estico a perna e acerto seu rosto. Chuto o mais forte que posso o boneco, até minhas pernas cansarem. Ouço o barulho de algo pisando no orvalho da floresta e ignoro, apenas continuo lutando.

–Sei que está aí, Cyrus-digo.

Cyrus aparece segurando uma espada. Ele arremessa a espada no boneco, atravessando sua barriga. Eu seguro o cabo da espada e puxo-a do boneco.

–Já que tocou no assunto-Cyrus pega uma faca do balde-Lute comigo.

Eu sorrio para ele e olho para minha espada, depois olho para a faca dele, como se dissesse que ele não tivesse nenhuma chance. Mas se tem uma coisa que aprendi na vida, é que não devo subestimar aos outros, mas principalmente a mim mesma. A aparência é uma ilusão, e o que há dentro de você, é sua natureza que ninguém verá.

Nós subimos no ringue e ele começa me atacando.

Nós chocamos nossos itens, que ficam parados no ar. Ele luta como um lutador de esgrima, sei que ele está tendo muito cuidado para não me acertar.

–Lute de verdade, Cyrus-digo.

–Se eu lutasse de verdade, iria te machucar-ele diz, ainda lutando.

–Prefiro que me machuque do que me deixar ganhar de você-digo.

–Como quiser.

Ele acerta meu braço com a faca e sinto o corte rápido. O sangue escorre e tento ignorar, mesmo que a dor seja insuportável.

Corto sua perna com minha espada, e isso é suficiente para que eu ganhe cinco segundos de rendição. Cyrus olha para mim e tenta se levantar.

Eu empurro ele de volta contra o chão e tento acertá-lo com a minha espada, mas ele rola para o lado e a espada finca no chão do ringue. Ele aproveita o tempo em que estou tirando a espada para tentar me atacar, mas tiro-a a tempo.

Corto a lateral de sua barriga e ele se vira bruscamente, acertando minha bochecha com sua faca. Meu pé acerta sua barriga e o empurro contra o chão. Seu rosto fica de frente para o chão do ringue. Quando ele se vira, a ponta da minha espada fica de frente para seu rosto.

Ele sorri e eu sorrio.

–Como ficou tão boa de repente?-ele diz.

Estendo minha mão para ele se levantar.

–Ha, ha. Você me deixou ganhar.

–O quê? Não, não deixei. Juro. Agora, você precisa entrar e cuidar da sua bochecha. Amanhã de manhã teremos o último treino, e a tarde seremos mandados para fora do abrigo, nosso tempo vai expirar.