Autópsia
17 Capítulo 16-Pandemônio FINAL
Caos. Um sinônimo de pandemônio. Uma confusão inacabável, mas a única coisa na qual pode confiar é o pandemônio. Apenas ele vai ajeitar as coisas para você, mas quando o caos acaba, é o sinal de uma nova era. É como o fim de uma guerra, que acaba. Deixa marcas de destruição, mas é um alívio vê-la acabando aos poucos. Mas é uma dor eterna sentir os vestígios que ela deixou em sua pele.
***
Hoje, o dia amanhece melhor. A noite foi difícil dormir, pois os pensamentos batiam em minha mente. Cassandra, Cyrus, o lugar misterioso... Nada em Nova Aliança e em Velho Desastre é o que parece ser. As aparências são comuns, mas a realidade é outra.
Sou obrigada a acordar cedo. O que é bom, pois vou ter de ir trabalhar nas lavouras. As lavouras ficam ao sul, perto do muro de aço, o que é bom, pois não quero ficar muito perto da cidade. Preciso me distrair, se ficar pensando muito nos acontecimentos passados, serei corrompida por eles.
Eu materializo o quadro a minha frente, que só ontem descobri que seria possível fazer isso em Velho Desastre. Os transferidos tem seus quadros tecnológicos desativados, mas como não sou uma, então o meu está intacto.
Eu ativo o sistema de beleza que é próprio das mulheres, e o quadro passa por meu rosto, como se fosse invisível. Depois, meu cabelo está arrumado, meus dentes estão limpos e não estou com cara de sono. Mas me sujarei muito nas lavouras.
Agora que meus cabelos estão curtos, não serão um incômodo, então não os amarro em um coque. Eu visto o macacão que eles me mandaram e as botas de couro. Uso calças que não parecem femininas pelo simples fato de serem enormes em mim. Dobro a barra da calça até acima de meu calcanhar.
Me olho no espelho. Estou bem, mas não é isso que me importa.
Uma buzina soa próximo da casa de Cyrus e saio para ver. É o pessoal da lavoura, estão me esperando. Jade me disse que trabalharia ajudando na imprensa da cidade, nos jornais, então não espero encontrar muitos amigos lá.
Noah, que encontrei poucas vezes aqui, me disse que trabalharia nas lavouras. Ontem, ele veio até a minha casa, no momento em que cheguei lá e comecei a gritar comigo mesma. Ele perguntou o que tinha acontecido e menti para ele, disse que sentia saudades dos meus pais. Noah e Cyrus eram muito amigos, então estou apenas esperando o momento certo para contá-lo a verdade.
Miranda também é uma ótima amiga, mas vai trabalhar em projetos humanitários, então seria bom vê-la na rua ajudando quem precisa. Mas eu nunca serviria para trabalhar nesse tipo de projeto. Me acostumei demais com o sistema de Nova Aliança, que combate o altruísmo. E esse é um de meus defeitos.
Eu tranco a porta da casa de Cyrus e entro no ônibus. Todos lá estão como eu, de macacão e calças longas. As vezes, ser diferente é bom, mas gosto de ser igual em relação as pessoas, por mais que considerem isso banal.
O ônibus espera mais algumas pessoas e parte.
O veículo passa pelas ruas de Velho Desastre, onde vejo várias coisas, como o comércio movimentado e as pessoas correndo de um lado para o outro.
Vamos nos distanciando da cidade a medida que nos aproximamos do muro de ferro. Já é possível vê-lo daqui, devido a sua altura. O ônibus vai acelerando até que tudo que vemos é o pequeno matagal que fica perto do muro. Ele vira a esquerda e acelera, só então podemos ver as lavouras. Há algumas estufas perto delas e algumas pessoas já estão trabalhando nas plantações.
O ônibus para e nós descemos dele, pisando na grama verde e bonita. A manhã está um pouco fria, embora o sol esteja totalmente visível. A brisa bate em nossos rostos a medida que caminhamos em direção aos campos.
Quando chegamos lá, um homem velho de barba grisalha usando chapéu nos cumprimenta e nos encara.
–Olá a todos vocês que optaram pelo trabalho na lavoura. Sou Edgar, mas podem me chamar de Ed. Trabalho nas lavouras de Velho Desastre desde que era pequeno, então aqui é como um lar para mim, e espero que seja para vocês também. Bom, os horários, vocês podem ver lá dentro da casa grande, que é onde fica a enfermaria e tem alguns quartos de descanso lá. Bem, iremos dividir os grupos de acordo com o que plantarão-ele olha uma prancheta-Bem, segundo minha prancheta, há trinta e um de vocês. Temos seis lavouras, então cinco pessoas ficaram em cada uma.
Ele passa enumerando-nos de um a seis. Fico na posição seis.
Alguns minutos se passam e Edgar termina de enumerar-nos.
–OK, todos de número um, irão par a a primeira lavoura ao leste. O dois, irá para a primeira lavoura ao oeste...
Ele explica tudo direito. Nós, da lavoura seis, temos de ir para a última lavoura, trabalharemos com a irrigação e com a remediação, enquanto os outros tem apenas de plantar.
Nós caminhamos até a última área. Percebemos que ela tem cara de que foi usada. Edgar disse que as plantações já foram feitas na lavoura seis, só precisaríamos irrigar e colocar os remédios no solo.
Quando chego lá, há um estoque de ferramentas, como mangueiras e há um balde enorme dedicado apenas aos agrotóxicos. Como sou contra gastar água, decido pegar um pequeno pote e mergulhá-lo no balde de remédios. É um tipo de pó branco.
Outras pessoas fazem o mesmo que eu, mas vejo Noah e outros jovens pegarem as mangueiras. Eles vão molhando a medida que os acompanhamos, jogando o remédio no solo molhado.
Meu remédio acaba, então volto para buscar mais. Quando abro o enorme balde, não há nada lá, senão o vazio.
–Edgar, o remédio acabou. Preciso pegar mais-digo.
–Vai encontrar mais naquela estufa ali, a maior-ele diz, apontando para a enorme estrutura de vidro.
Eu o agradeço e sigo para a estufa. A porta é de vidro, assim como toda a parede. Eu abro a porta e vejo algumas pessoas lá dentro. Eu me aproximo e vejo um estoque de baldes do remédio.
Agarro um dos baldes e quando vou sair da estufa, os vidros da parede se racham e se espatifam no chão. Ouço a gritaria lá longe, mas ainda não acaba. Ouço barulho de bombas e mais gritos. Depois os tiros. E mais gritos.
A porta da estufa se estilhaça e alguém entra. É um homem usando uma máscara de valete de copas, de baralho. Não posso ver quem é, mas posso ver que ele traz mais visitantes. Duas outras pessoas passam atrás deles usando máscaras de baralho.
O homem da máscara de valete atira em duas pessoas que estavam na estufa. Tento correr dele, mas acabo me esbarrando em outra pessoa que também tentava fugir.
O homem atira na pessoa, e depois, o tiro acerta a minha barriga duas vezes.
Caio no chão, vendo o sangue cair na pequena horta de verduras que fora plantada ali.
–M-me ajudem. Socorro-eu grito o mais alto que posso, mas é inútil, meu grito sai estridente e ninguém se importa comigo. O meu sangue vai jorrando nas plantas e começo a acumular ar, mas é inútil.
Eu fecho meus olhos.
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