Autópsia
16 Capítulo 15-Ressurgência
Um ato de ressurgência, é mostrar-se forte depois de uma queda. É levantar depois de uma guerra. Mas a ressurgência vem apenas para aqueles que realmente desejam vencer e triunfar, mas para aqueles que aceitam a derrota, ressurgir não será uma boa opção.
***
Depois que me despedi dos meus pais e enviei a eles as fotos de Cassandra, entrei no carro e peguei o celular de um dos homens. Por sorte, o celular tem gravado o número da torre de Nova Aliança, que controla tudo, inclusive o muro.
Disquei o número enquanto dirigia. De fato, eu não sabia dirigir muito bem, então bati em alguns postes e acabei saindo da pista. Amanda já me ensinou algumas vezes a dirigir, então devo agradecê-la agora em que estou numa situação de emergência.
–Torre. Preciso que desçam o muro, estou indo fazer ronda em Velho Desastre-digo, com a voz mais máscula possível.
–Confirmando o número celular-uma voz mecânica me diz-Autorização concedida.
O carro para na pequena floresta perto do muro de aço e vejo-o descer a medida que desacelero.
O muro, quando toca o chão, faz um barulho impactante. Eu acelero o carro e subo no muro. As rodas andam mais rápidas numa planície de metal, então aproveito o máximo aqui.
–Por favor, levantem o muro de novo-digo, para a torre.
–Confirmação de número celular. Confirmado.
Vejo o muro subir, mas não espero muito tempo, vou andando com o carro até chegar na estrada de ferro, onde abandono o veículo enquanto não há ninguém na rua.
Aqui, em Velho Desastre, preciso começar as coisas como se nada tivesse acontecido, ou esses pensamentos irão me destruir.
***
Eu pego um táxi até o vilarejo dos transferidos. Já são em torno de uma hora da manhã, e entro no vilarejo.
O vilarejo está escuro, iluminado apenas pelos postes, que ainda estão acesos. Eu vou até a casa de Cyrus, a porta está totalmente aberta. Eu entro lá e bato a porta. Encosto minha cabeça nela e começo a chorar, me recuperando de tudo que aconteceu em apenas um dia.
Eu desabo no sofá e choro o mais alto que posso. Enterro minhas mãos em meu rosto e as lágrimas começam a cair, mesmo assim.
No que diabos estou me transformando? Matei mais de uma pessoa e aprisionei outra. Vi meu melhor amigo morrer e descobri que a sociedade em que vivo existe há séculos...
Eu arremesso o celular do homem na parede e vejo-o se despedaçar.
Sempre soube que eu era mais do que uma simples garota que adora bolo de jujubas e brincadeiras de menina. Sempre soube que eu tinha um espírito mais forte. Todos nós temos, mas nossa natureza humana nos impede de mostrar esse espírito.
Você não pode reverter essa situação, Larissa. Lembre-se que Larissa O'Connor é uma garota morta, você é Krystal Chapelle, e está tão apaixonada que faria qualquer coisa por amor. Julgar-se será apenas uma má saída. Você fez uma boa atuação, se é assim que acha que fez. Você pegou Cassandra, e é verdade, você matou pessoas que nem conhecia, e essa verdade vai estourar em sua cabeça até seu corpo estar dentro de uma cova, e você não vai sair dessa. Você deu adeus a Lara O'Connor, Krystal.
Suspiro e vou até o banheiro. Lavo meu rosto e me encaro no espelho.
Meu cabelos escuros e meus olhos verdes refletem uma aparência de anjo. Mas há muito mais do que isso.
Toco as mechas do meu cabelo. Estão enormes.
Me lembro de que minha mãe sempre insistia para que eu cortasse meu cabelo quando criança, mas sempre recusava. Amo muito meu cabelo, e foi uma das únicas partes do meu corpo que ainda não mudei.
Eu pego uma tesoura e toco a lâmina no meu cabelo. Aperto a tesoura e meu cabelo vai caindo no chão a medida que vou cortando. Mãe, estou fazendo isso por você. Lembre-se de mim.
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