Autópsia

12 Capítulo 11-Paz


Apenas conseguimos a paz, usando a paz. Mas quando se há a ausência dela, a guerra e o caos reinam. E quando não há guerra nem caos... é um pensamento inútil. Sempre haverá guerra e caos.

***

Já é de manhã. Acordo no sofá da nova casa de Cyrus. Ele dormiu em seu quarto e eu na sala. Eu teria acordado muito mais cedo se ainda estivesse em Nova Aliança.

Cyrus já está acordado, posso ouvir seus passos ecoando pela casa. Eu disse a ele que teríamos de ir para o cartório o mais cedo possível, e que de preferência ele me acordasse, mas como já estou acordada, apenas pego uma toalha e vou até o banheiro. No caminho para o banheiro, me encontro com ele, que já está vestido.

–Está pronta?-ele pergunta.

–De forma alguma. Como você sabe melhor que qualquer um, inscreverei meu nome falso aqui. Só de pensar que matarei Larissa O'Connor já é um peso na consciência. Mas sempre adorei esse nome, Krystal.

–Hum... bem, então se apresse. Você mesma disse para chegarmos lá cedo-ele diz.

***

Depois que já estou pronta, apenas visto minha jaqueta preta de couro e uma calça. Amarro meu cabelo num rabo de cavalo e encontro Cyrus na frente da porta. Ele está observando o cenário de Velho Desastre. Mas é praticamente um belo desastre. Aqui é apenas um vilarejo para os transferidos. O meu está sendo construído, mas temos de sair daqui ao completarmos dezoito anos para darmos espaço para os transferidos do ano que vem.

Eu e Cyrus começamos a caminhar pelas ruas da cidade, mesmo que o cartório seja um pouco longe. Quando já estamos no portão do vilarejo, um carro escuro para na nossa frente.

A janela abre e vejo Jade lá dentro.

–Estão indo pro cartório? Posso levá-los-ela diz.

–Se não for incômodo então aceitamos a sua oferta-a formalidade de Cyrus é notável. Ele entra no banco do passageiro e entro no banco de trás.

–Então... está morando na casa de Cyrus?-noto a malícia em sua voz e reviro os olhos. Reprimo uma risada.

–Sim, estou. Terei de esperar até a minha estar pronta-digo. E ela ri.

***

–Você vai ficar aqui?-pergunta Cyrus para Jade.

O cartório é um alto prédio de mármore com uma imensa porta de madeira rústica. Jade para o carro na frente do cartório.

–Sim, tenho que resolver algumas coisas aqui. Como eu era líder lá do abrigo, então tenho de cuidar de algumas coisas de uns transferidos, como a casa de Krystal. Bem, vamos entrar.

Nós seguimos ela até lá dentro. Eu engulo em seco quando vejo que o lugar é imenso, tanto em altura como em largura. Há poucas pessoas aqui, o que é uma vantagem de ter acordado cedo, não precisaremos pegar uma enorme fila apenas para me registrar como cidadã oficial de Velho Desastre.

–Krys, a parte de registramento fica lá em cima, segundo andar. Vai ter algumas placas que vão te direcionar. Ficarei por aqui mesmo-Jade diz.

Provavelmente ela conhece esse lugar muito bem. Jade deve ter algo em torno de vinte anos, e ela parece ser extremamente responsável.

Ela some de nossa vista a medida que ela anda por um enorme corredor e nós subimos as escadas. O corrimão é de uma madeira lisa. Nunca estive num cartório antes, nem mesmo no de Nova Aliança, mas não me sinto bem aqui. Não gosto desse lugar, por mais que eu precise estar aqui.

Nós chegamos ao segundo andar e vejo as placas grudadas no teto. O setor para qual quero ir fica ao leste. Eu sigo pelo leste e vejo várias portas de metal e de madeira. É um belo lugar, mas não sinto isso. Meus olhos veem um lugar luxuoso, mas meu psicológico se recusa a acreditar que é um bom lugar. Meu pai sempre me disse que quando estiver indecisa sobre seguir o coração ou a mente, eu devo seguir a mente, pois a mente nos mostra a verdade, enquanto o coração é apenas uma ilusão.

Eu vejo a porta do registramento e a abro. Entro numa sala fria, uma mulher ruiva está sentada numa cadeira atrás de uma mesa, digitando num computador. Ela parece inteligente, assim como parece ignorar a presença minha e de Cyrus. Sento-me numa cadeira, com os olhos fixos na mulher. As pessoas que, assim como eu, estão aguardando serem atendidas, se concentram em outras coisas.

A mulher sai e minha distração acaba. Eu evito olhar para Cyrus, para não deixar tão evidente que gosto dele. Então olho para as pessoas sentadas.

A mulher entra numa porta que fica na sala e volta num instante. Ela caminha na minha direção.

–Creio que estão aqui para fazerem o registro, certo?-ela pergunta.

–Sim, estamos-respondo.

–Pode me dar seus nomes, por favor?-ela pega uma prancheta de plástico e a caneta paira no ar, esperando que eu diga meu nome.

–Cyrus Handall-Cyus acaba respondendo primeiro.

–Meu nome é Krystal Chapelle-digo, engolindo em seco.

Ela anota nossos nomes e entra de novo na outra sala. Ela volta sem a prancheta e de novo volto a fixar o olhar nas pessoas.

Apenas ouço meus batimentos quando vejo Matilda sentada numa cadeira do outro lado da sala. Uma mulher está a seu lado, segurando sua mão. De fato, não é Jade, e não reconheço a mulher, mas deve ser uma parente de Matilda

***

A manhã se arrasta, e como esperado, Matilda não apresenta sinais da volta de sua memória, pois eu olhei para ela fixamente e ela não reagiu, apenas continuou com o sorriso bobo, isso me alivia.

–Cyrus Handall-a mulher ruiva chama Cyrus.

Ele se levanta da cadeira e a mulher pede que ele entre dentro da sala. Cyrus entra e não volta por um bom tempo.

Começo a me perguntar se não está sendo pior do que imaginei.

***

–Krystal Chapelle-chama a mulher ruiva.

Cyrus volta e se senta na cadeira. Ele sorri para mim e percebo que ele está apertando muito forte sua própria mão.

Entro na sala e vejo uma sala normal. Uma mulher morena de cabelos escuros e olhos puxados me recebe na porta. Há uma cadeira, como a cadeira de um dentista no fundo da sala. Engulo em seco.

–Sente-se por favor-a mulher diz.

Eu puxo uma cadeira e me sento atrás da mesa dela. A mulher coloca seu computador em posição e me dá uma folha. Nessa folha há várias perguntas. Meu nome, minha idade, se sou transferida ou não, se sou órfã ou não...

Respondo cada uma das perguntas, todas verdadeiramente, menos meu nome, que não é mais Lara ou Larissa, é Krystal.

Entrego a ficha para a mulher e ela sorri para mim.

–Certo, agora por favor, sente-se naquela cadeira.

Eu não sei para quê ela quer que eu sente na cadeira, mas apenas obedeço ordens aqui. Me levanto e me sento na cadeira, que é fria e dura. Um calafrio percorre minha espinha.

–Agora, por favor, me dê seu dedo-ela ordena.

Eu estendo meu dedo para ela. Ela coloca um pote de plástico embaixo da minha pele. Ela pega um estilete e logo entendo porque Cyrus estava apertando sua mão. Para esconder o sangue.

Ela corta meu dedo e algumas gotas de sangue caem no pote.

–Mas para quê?-pergunto.

–O sangue? Ah, para confirmar os dados. Não é nada de demais, apenas enviaremos para o laboratório e teremos a confirmação de sua identidade. Agora, pode sair.

Confirmação da minha identidade?

Eles saberão a verdade.