Autópsia
11 Capítulo 10-Linhagem
O poder é mais audacioso do que qualquer outra virtude. Numa linhagem familiar, há sempre alguém desejando o poder. E há sempre outro alguém tentando igualar as coisas, mas quando se está numa linhagem em que todos lutam pelo poder, a única conquista é a desgraça.
***
Eu arrasto Matilda até o centro do galpão, onde todos vem correndo. Erica é a primeira a chegar, ela vê Matilda e segura sua mão.
–O que aconteceu?-pergunta Jade. Ela se aproxima de Matilda e apoia a mão em seu ombro.
–Não sei. Eu estava aqui dentro com o pessoal do grupo, ai eu fui no banheiro e a vi caída no chão, eu a ajudei a se levantar, ela abriu os olhos e percebi que estava ferida. Olhe aqui-ela aponta para a testa de Matilda.
Eu olho e vejo que está vermelha numa região. É uma ferida muito grande, e está inchado. Não sabia que iria acabar assim.
Tento não me arrepender de nada.
–Temos que saber o que aconteceu. Ela está demente? Ou apenas sofreu um leve dano?-pergunta Miranda, líder do grupo de estudo.
–Apenas um leve dano? Quando ajudei-a a se recuperar, ela nem sabia o próprio nome-diz Erica.
As pessoas cochicham entre si, como se algo terrível tivesse acontecido, mesmo que elas não saibam da verdade. Vejo Cyrus na multidão. Ele está me encarando.
Cyrus faz um gesto para que eu siga ele. Cyrus provavelmente deve saber que isso tudo está relacionado a mim, ou se não sabe, deve ter pelo menos uma pista do que aconteceu. Ou uma suposição.
Eu me desgrudo da multidão de gente e vou seguindo Cyrus até a saída do galpão, mas não estamos indo certamente par a a saída do galpão. Cyrus me leva para trás do alojamento, que é onde fica a floresta e o centro de treinamento.
–Ei. Sabe de alguma coisa?-ele pergunta, depois que chegamos ao centro, que está vazio.
–Cyrus, preciso que prometa uma coisa a mim. Uma coisa muito séria. É um segredo que precisamos levá-lo para nossas covas.
–Você causou aquilo em Matilda, não foi?-ele diz.
–Está tão evidente assim?-pergunto, quase chorando.
–Seja forte. Não, não está evidente. Mas, para seu desconforto, você vai ser a primeira suspeita disso tudo, já que conseguiu uma certa rixa com Matilda. Mas prometo guardar seu segredo-ele diz.
–Eu já sabia disso. Se suspeitarem de mim, direi que estava incapacitada de atacar Matilda depois do que ela fez comigo. É uma mentira suficiente para cobrir o caso até o fim da tarde, depois disso, viverei nas ruas.
–Nas ruas?-Cyrus ri.
–Sim. Pelo que eu soube, eles reservam uma quantidade de casas para os transferidos de Nova Aliança. Como fugi de lá, não reservaram nenhuma casa para mim-digo, me lamentando.
–É verdade. Por isso que pode ficar na minha casa-ele diz, sorrindo.
–Cyrus, não vou ficar na sua casa. Sua família te deu dinheiro para você consumir coisas. Não me deram dinheiro nenhum.
–Esse dinheiro é suficiente para duas pessoas até acharmos um lugar para você-ele diz. O sorriso de Cyrus é praticamente mágico, evito olhar em seu rosto.
Esse é o motivo de ter vindo para cá.
***
Já é algo em torno de meio dia e o caso de Matilda já foi resolvido. Jade ficou encarregada de levá-la para o hospital da cidade, então não temos liderança aqui no galpão com Jade e Matilda fora.
Ela não nos deu ordens, então podemos fazer o que quisermos. Claro que ninguém quis ir para o centro, praticamente todos estão assistindo televisão dentro do galpão.
Eu subo a pequena ladeira de terra e chego no centro. Caminho até o tiro ao alvo e pego uma arma, que está descarregada. Carrego-a com um cartucho de balas e me concentro em acertar o centro do alvo.
Eu coloco os óculos e começo a atirar. Os dois primeiros tiros acertam a cabeça do boneco, mas o terceiro acerta uma região próxima ao centro. Já o quarto, o quinto e o sexto acertam, seguidamente, nas têmporas do boneco. A fumaça se espalha a medida que vou atirando. Nem sei porque estou fazendo isso, mas também não quero ficar com eles ou vou acabar ficando muito aflita, com medo de que me descubram. Cyrus já sabe. Quem será o próximo a saber? É esse tipo de pergunta que tento apagar de minha mente.
Eu atiro quatro vezes no centro do alvo, e só mais tarde percebo que já se passou muito tempo, provavelmente perdi o almoço, mas estou sem fome e posso aguentar mais algum tempo.
Desisto do tiro ao alvo e vou para a luta com bonecos. Começo a socar e a chutar o objeto de espuma a minha frente. O suor cai da minha testa e o sol se torna cada vez mais escaldante. Acerto meu punho na bochecha do boneco, depois chuto sua barriga e faço outra sequência de socos em seu rosto.
O cansaço me domina e eu sento na grama. Vejo Cyrus caminhando em minha direção, ele segura um machado.
–Por quê não está lá dentro, Lara? Acabamos de almoçar-ele diz.
–Não me chame de Lara, meu nome é Krystal.
–Certo, responda a minha pergunta, é isso o que importa.
–Não estou com fome, posso comer qualquer hora, o que mais importa agora é sair daqui. Preciso explorar Velho Desastre-digo.
–Você conhece Velho Desastre mais do que qualquer um de nós, afinal, você caminhou pela cidade até chegar aqui. Mas de qualquer forma, precisa entrar, o sol está muito forte e Jade avisou que já está voltando. Em duas horas partiremos.
***
Quando Jade retorna, as notícias são intensas. Sua cara de tensão é notável logo quando ela abre a porta do galpão.
–A cidade está um caos. Mas diferentemente do que ela é, está cheia de helicópteros e carros da polícia vasculhando a cidade-ela diz.
E sei exatamente porque estão.
–Mas o que importa é que já levei Matilda para o hospital. E a terrível notícia, é que ela terá de ficar numa instituição psiquiátrica. Ela atacou as enfermeiras quando tentaram dopá-la, pois estava muito aflita. Me disseram que ela vai ser encaminhada amanhã, provavelmente. Não há previsões da saída dela. E a outra notícia, é que terei de liberá-los agora. Passamos dois dias aqui, outros passaram apenas um...-ela sorri para mim e eu retribuo o sorriso.
–E vocês terão que desenhar o caminho de vocês em Velho Desastre. Antes de mais nada precisam ir no cartório para se declararem como cidadãos oficiais. E Krystal, eu falei com o prefeito, ele já anotou seu nome, vai mandar construir sua casa amanhã, na ala oeste da cidade. Lembrando a todos que terão de desempenhar alguma função em prol da melhoria da cidade até completarem dezoito anos. Então podem escolher o policiamento da cidade, a ajuda com o ambientalismo... enfim, terão várias funções que eles lhes mostrarão no cartório, desempenharão o trabalho e... bem, eles vão explicar tudo lá. Mas agora, pessoal, já está na hora. Adeus a todos.
Primeiro, houve as palmas. Abraçamos uns aos outros.
Enquanto as pessoas terminam de se despedirem, eu me aproximo de Jade.
–Jade, eu só queria dizer que você foi uma das melhores pessoas que conheci. Eu te agradeço muito por ter me acolhido bem aqui-digo- Você é um anjo.
–Você é uma ótima pessoa-ela diz-Espero o melhor para você. E claro, espero também que nossos caminhos se cruzem várias vezes-ela sorri para mim.
–Eu também espero-sorrio de volta e evito chorar.
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