Ausência

16 Revelações


Notas iniciais
Hello! Estou aqui como prometido kk Gente, uma leitora fez uma análise sobre a fanart do cap passado e quero dividir aqui com vocês: "A fanart parece muito que é a Mari do futuro relembrando quem ela costumava ser antes, pq agora ela nem é mais a Ladybug e sim a Bug Noir, então é como se fosse ela tendo um encontro com o passado e a versão feliz dela, se perguntando se ela voltaria a ser aquela pessoa um dia, já que ela mudou muito e continua mudando." Sério, análise incrível. Ela expôs em palavras o que eu senti ao incluir aquela fanart no capítulo. Também tem o baú que ela está sentada, que é como se fosse a representação das emoções que ela mantém guardado. Mas está tão cheio que está vazando e sangrando para fora, como se ela não aguentasse mais segurar esses sentimentos. As fotos do Adrien e do Chat voando pelo quarto E ambas as flores que o Chat deu pra ela, vermelha para Ladybug e a rosa para Marinette, me quebraram. Ah, e já peço desculpas antecipadas a vocês, pelo o que criei no meio deste capítulo. Acreditem, nem eu gostei do que vai acontecer. Boa sorte.

One day the earth will open wide

(Um dia a terra irá se abrir)

And I'll follow you inside

(E eu vou te seguir lá dentro)

Cause the only hell I know is without you

(Porque o único inferno que conheço é a sua ausência)

Die for you — Starset

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Ela acordou com a cabeça pesada, com aquele tipo de dor que só se tem depois de um longo período de choro. Não que fosse algo surpreendente, depois do que houve com ela horas atrás.

— Bom dia, flor do dia. — Ouviu a voz da amiga ao seu lado, e se forçou a abrir os olhos, o que foi mais custoso do que imaginou. Podia sentir o inchado deles em seu rosto.

— Bom dia. — Ela declarou, e ao virar a cabeça, encontrou a amiga deitada na cama ao seu lado com a cabeça apoiada no braço, a analisando. — Obrigada, Alya, por ficar comigo ontem.

Estava se sentindo estranha depois do ocorrido. Um misto de vergonha pelo seu ataque, alívio por ter colocado sua dor para fora, mas também um cansaço enorme mesmo tendo acabado de acordar, devido ao excesso de emoções que a sobrecarregam.

— Você sabe que eu não escolheria estar em nenhum outro lugar. — Alya disse, com a voz repleta de carinho.

Então ambas compartilharam um sorriso, e apesar do sorriso de Marinette precisar de um pouco mais de esforço para surgir, era real a gratidão que sentia. Pelos braços de Alya estarem lá por ela, a segurando, enquanto caía em seu desespero.

No entanto, mesmo que com a feição leve, ainda sentia os olhos âmbar analíticos da ruiva ainda em cima de si.

— Você está mesmo bem?

À luz do dia, sua crise da noite passada não parecia mais ter aquela sensação horrível de morte. Mas ainda assim, havia deixado o rastro de destruição e peso para trás.

Ela havia acordado viva naquela manhã, porém, sentia que cada batida de seu coração vinha acompanhada de uma profunda tristeza. Era palpável, espinhosa e sem data para partir. Podia ignorá-la o quanto fosse, mas sabia que ela ainda estaria lá quando o sol fosse embora.

Em meio ao seu choro, sendo amparada por Alya, ela pode sentir seu coração se partindo quando percebeu que não, ele não voltaria e só lhe restava aceitar essa realidade. Foi um dos piores momentos de sua vida, e infelizmente descobriu que a pior dor do mundo, é obrigar a cabeça a esquecer aquilo que o coração lembra a todo instante.

— Eu vou ficar. — Não era uma promessa, mas uma esperança. Mesmo que não sentisse isso ainda.

— Seu poder funcionou. — Alya comunicou, sentando-se no colchão e arrumando os cabelos com as mãos. E ela viu os olhos da amiga se iluminarem com animação. Fkicou grata pela mudança de assunto.

Ela imitou a posição da amiga, também se sentando na cama e passando o dorso da mão sobre os olhos, para espantar os resquícios da noite passada.

— Sim, funcionou. — Ela confirmou, não que fossem necessárias mais confirmações após seus feitos de ontem.

Não soube o exato momento em que percebeu que apenas seu poder seria suficiente naquela noite. Era apenas um forte pressentimento, mas que continuou a crescer e a crescer, até ela receber aquele talismã e ter a certeza de que podia mesmo fazer aquilo. Que seu poder funcionaria no final.

— Vai ficar feliz em saber que ele funcionou em todos. Até as pessoas feridas no hospital por akumatizados passados foram curadas! — A amiga continuou, porém desta vez, com o celular em mãos, ela mostrou em sua tela as mais novas notícias. Era Clara Conrad, entrevistando os ex-feridos de outros ataques, durante a saída deles no hospital.

Aquilo foi como um bálsamo para várias de suas preocupações como heroína, e também para a culpa que vinha carregando.

— Que alívio. — Marinette exclamou sincera.

Nunca imaginou que guardar o Miraculous do Gato para si faria com que tudo isso acontecesse, jamais foi sua intenção que pessoas se machucassem ou que a cidade sofresse com sua decisão.

— Mas porquê agora? — Alya perguntou, e foi o suficiente para Marinette notar que ela já estava entrando no modo investigativo. — O que você fez de diferente?

— Nada. — Respondeu sem rodeios. — Só o uso contínuo do Miraculous do Gato foi o suficiente. Como eu tinha usado o meu da Criação sozinho várias vezes, precisou de algumas tentativas usando o da Destruição também para que o universo entrasse em equilíbrio.

Foi o que Tikki e Plagg haviam explicado para ela, e fazia sentido. O equilíbrio do universo era algo realmente delicado, mas também justo.

— Ah sim, sempre o equilíbrio, entendo. — Alya pareceu contemplar alguns segundos, antes de começar a ir em direção às escadas da cama. — Vem, vamos tomar café, daqui a pouco eu preciso ir para casa. — Ela chamou, oferecendo a mão para ajudar Marinette a descer também.

Não que ela sentisse que precisasse. Seu corpo estava muito bem, diferente do seu interior.

— Sim, o Adrien também logo vai estar aqui.

Então Alya soltou um som brincalhão, antes de erguer uma sobrancelha.

— Huum, será que os meninos vão nos contar como foi o dia, ou só vai ficar entre eles?

— Eu não sei, o Adrien não tem costume de não me contar as coisas. — Bom, ele ainda não havia revelado ser um senti-ser à ela, mas Marinette compreendia a seriedade dessa questão, e não esperava que ele contasse sem antes estar confortável com a ideia. — Eu só espero que eles tenham se divertido ontem.

— Foi uma boa ideia, amiga. — Alya a confortou. — Dar a ele um dia de descanso e diversão com os amigos. O Nino ficou super empolgado.

Ela se limitou em responder com um aceno. Apesar de tudo que havia acontecido com ela, se consolou ao saber que o dia de Adrien havia sido bom.

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Alguma coisa estava errada ao decorrer daquela semana. Adrien só não sabia ainda o que era.

No domingo, após a reunião de sua casa, ele foi para a casa da namorada como de costume, e Marinette não parecia estar muito bem.

Ela disse que a noite com as meninas foi bem agitada e que estava apenas cansada. Então ele jogou videogame com Tom, enquanto ela apenas os assistia do sofá. Porém Marinette estava muito quieta, algo atípico dela.

Na segunda-feira, ficou um pouco angustiado ao voltar para a escola sem ela ao seu lado. Sim, deveria estar animado por ver seus outros colegas com regularidade e por poder experimentar novas aulas, mas havia se acostumado a passar os dias ao lado dela. Isso foi algo que acabou dizendo ao seu terapeuta no horário que marcou, após fazer sua aula de controle emocional.

“— Isso vai ser bom para você, Adrien. — O terapeuta explicou com calma, depois de quase uma hora de conversa. Ele era um homem na faixa dos quarenta anos, cabelos castanhos e olhos escuros. Nada muito memorável, mas sua voz tranquila o ajudava a relaxar. — Não é bom para jovens namorados passarem todo o tempo juntos, só focados um no outro. Ter um espaço entre vocês é algo benéfico, e você pode usar esse tempo para focar em seus hobbies e em encontrar algo que você goste de estudar, não era o que estava buscando no início do semestre?

Adrien apenas acenou com a cabeça, ouvindo os conselhos, mas sua mão foi automaticamente em direção às alianças gêmeas em seu dedo anelar.

Se ele ordenasse em voz alta que gostava de física, por exemplo, isso aconteceria? Seu futuro seria uma simples ordem sendo cumprida por si próprio?

— Adrien? Está tudo bem? — O terapeuta questionou, diante de seu silêncio.

— Ah sim, só fiquei pensativo. — Era difícil mentir para alguém que só queria te ajudar. Por isso ele se desviava com respostas evasivas.

— Certo, reflita sobre nossa sessão essa semana, ok? — Adrien acenou com a cabeça, antes de se despedir. Estava se levantando da poltrona para sair quando o homem o chamou. — E Adrien, não se esqueça que você também importa. A maioria de suas preocupações são em relação à sua namorada. Não deixe se apagar na tentativa de deixá-la bem.

Adrien recebeu aquele conselho como um golpe em seu peito.

Não se deixe apagar? Por ela e por sua Lady, ele escolheu que uma parte dele sumisse para sempre.

Com o polegar da mão direita, ele buscou o local onde antes seu Miraculous ficava, encontrando ali apenas o vazio que ficou para trás.

— Certo. Obrigado.”

Naquela tarde, já casa de Marinette, não conseguiu parar de pensar no assunto, por sorte, ela disse que não havia dormido bem novamente e cochilou quase toda a tarde. Adrien não quis prolongar o assunto, imerso em sua própria mente o resto do dia.

O resto da semana foi praticamente o mesmo. Ele ficando na casa de Marinette após a escola, sempre levando algum livro novo para estudar, astronomia, francês, geopolítica, mas nada estava atraindo seu interesse por completo. Também não houveram mais ataques de akuma naqueles dias, o que ele considerou como um benefício. Mesmo com o poder de volta, era bom ter alguns dias tranquilos em Paris.

Já Nino, estava louco para voltar a ação, porém Bug Noir ainda não havia convocado os heróis, então só restava ao amigo aguardar um novo akumatizado, para saber se voltaria a ser Carapace, ou não.

Já era quinta-feira, e Adrien ainda não sabia o que o estava incomodando tanto: Se era seu segredo ainda não revelado, seu secreto dilema sobre ser um ex-portador e como isso havia afetado diretamente na dinâmica de Bug Noir, ou sua preocupação aumentada em relação à namorada.

Estava entrando pela porta da sala, quando a viu no sofá.

— Lindo, você chegou cedo hoje. — Marinette o saudou com a voz baixa, parecia ter acabado de acordar.

— Sim, decidi pular o último horário hoje. — Explicou de forma breve, estava com a cabeça cheia demais para ficar na escola naquele dia.

Ela se preparava para sair do sofá, quando Adrien notou seus braços tremendo devido ao esforço necessário para se levantar, quase não conseguindo fazê-lo.

— Linda, devagar. Não se esforce tanto. — Adrien alertou, rapidamente se aproximando para auxiliá-la e sustentou seu corpo com o braço para mantê-la em pé ao seu lado.

Mas não pode deixar de negar que aquilo foi estranho, Marinette já estava conseguindo se levantar sozinha havia dias. Ela também pareceu ficar confusa com aquilo.

— Nossa, acho que levantei rápido demais. — Explicou, mas parecia apenas uma tentativa de amenizar a situação, antes dela se afastar do apoio dele. — Eu estava cansada, só isso.

Adrien analisou bem, e percebeu que o cansaço já estava evidente em seu rosto. As olheiras estavam fundas, e o rosto dela parecia mais pálido que o normal.

— Tem certeza disso?

— Tenho. — Assegurou, antes de puxá-lo pela mão. — Vem, vamos pro meu quarto. A escrivaninha é melhor para você estudar.

Eles foram subir juntos as escadas para o quarto dela, quando Marinette parou no meio dos degraus, respirando fundo.

— O que foi, amor? — Questionou, atrás dela.

— Não sei, eu só… — Ela deu uma pausa na fala, puxando o ar com um pouco mais de força. — Precisei parar um pouquinho.

Adrien sentiu um aperto no peito ao vê-la daquela forma, tão frágil, novamente. A Marinette que conheceu era sempre tão cheia de vida e energia. Correndo para todos os lados, sempre com um sorriso no rosto.

Para onde essa Marinette havia ido?

— Vem, eu te ajudo. — Adrien passou um braço em sua cintura, ajudando-a a subir para o próprio, já que aparentemente, ela não estava conseguindo sozinha.

As pernas dela estavam tremendo quando chegaram lá em cima, mal conseguindo chegar ao divã, se não fosse por seu auxílio.

— Obrigada.

Porém Adrien não ia apenas deixar por isso mesmo. Ele se agachou à sua frente, mirando dentro de seus olhos azuis.

— Amor, se estiver sentindo alguma dor, precisa nos contar. — Ele segurou ambas as mãos dela entre as duas, e ouviu um ruído metálico em seguida. Quando olhou para baixo, percebeu que suas alianças estavam encostando no anel rosê do dedo dela.

Porém, Marinette rapidamente afastou as mãos delas das suas.

— Não estou com dor. — Ela tomou seu rosto para si, tocando suas bochechas e matando o contato visual. — Acho que só me esforcei muito, só isso.

— Você almoçou hoje? — Marinette apenas o encarou com a feição culpada, sem dizer nada, e não era preciso, Adrien já sabia a resposta. Sabine havia dito à ele que Marinette parecia estar pulando quase todas as refeições. — Precisa comer, meu amor. Por isso você está fraca.

— Eu sei, mas eu não tenho sentindo muita fome, esses dias. — Ela virou o rosto, fugindo de seu olhar.

Adrien se sentiu impotente. Sedento por querer ajudá-la, angustiado por não poder fazer nada.

Marinette então se inclinou para frente, plantando um doce beijo em sua testa, antes de se afastar e abrir um pequeno sorriso.

— Vai estudar. Eu te espero aqui. — Disse, encerrando o assunto entre eles.

Expirou conformado, antes de se levantar e ir para a escrivaninha dela, tentando se desligar e focar no conteúdo, como seu terapeuta havia dito. Abriu o livro “A História da Arte”, algo que ele não imaginou que gostaria tanto. Nunca se viu como um artista, mas sempre foi um grande admirador das obras dos outros.

Olhava de relance para a namorada às vezes. Ela estava apenas mexendo em seu celular, como vinha fazendo há alguns dias. Não estava conversando com ninguém, pois não digitava nada, nem vendo vídeos, pois nenhum som era emitido. Ela apenas ficava lá, passando o dedo na tela para um lado e para o outro, com um olhar melancólico no rosto.

Depois de alguns minutos estudando, olhou novamente para Marinette e percebeu que ela dormiu no divã.

Adrien levantou, caminhando até ela e sentando na beirada do estofado, olhando com preocupação para a cansada garota ao seu lado.

Marinette não era mais extasiada pela vida. Se alegrava com dificuldade, mesmo quando se esforçava muito. Não tinha mais motivação e paixão pelas coisas que gostava, logo, não ficava mais empolgada com quase nada.

Ela nem ao menos havia começado a fazer os esboços das roupas que os colegas de turma haviam pedido à ela.

Adrien quase não a reconhecia. Marinette nunca foi assim, mas agora, mesmo quando a namorada aparentava estar feliz, ainda parecia triste.

Até Tom e Sabine estavam preocupados, pois não parecia ser só cansaço, o que ela tinha. Ele os ouviu outra noite conversando sobre um possível retorno ao hospital.

Pois além disso, também havia o fato de que Marinette estava se recuperando bem, até não estar mais. Um regresso pareceu ter acontecido naquela semana, pois mesmo com a lesão já quase curada, todos eles haviam notado como o corpo dela estava fraco, parecia literalmente, drenado. Ela mal tinha fome, além de estar sempre cansada, apesar dela sempre surgir com alguma explicação para esses acontecimentos.

Não aguentou, e começou a acariciar os cabelos dela com seus dedos, sentindo uma pontada em seu coração.

Adrien a amava tanto.

Não sabia que amar alguém, poderia doer tanto assim.

Queria saber o que estava acontecendo com ela, queria ajudá-la, porém não sabia mais o que fazer, e isso estava o corroendo por dentro.

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Fechou os olhos, se entregando ao cansaço e ao peso mental.

Marinette queria dormir. E apenas dormir.

Preferia estar dormindo, porque nos sonhos, ainda podia encontrá-lo.

Não, não era saudável, e ela sabia. Assim como sabia que não era bom ficar vendo as fotos dele em seu celular, mas continuava a fazê-lo, pois isso ao menos estava aplacando a agonia de seu interior, a tortura de seus pensamentosme e a inquietação de seu coração, que parecia estar definhando e putreficando dentro de seu peito, por conta da saudade que sentia.

Ela nunca havia perdido alguém tão próximo antes e se questionava, todos os dias, como as pessoas enlutadas conseguiam seguir suas vidas após uma perda tão forte.

Talvez fosse só questão de tempo para se acostumar a conviver com essa dor, até tudo melhorar. Ou não.

Descobriu depois que algumas pessoas, simplesmente, não conseguiam superar. Quem sabe ela não pertencia a esse grupo?

No entanto, Marinette também estava confusa. Quando olhava para as fotos dele, ela não sabia mais o que sentia, pois uma mera saudade não parecia ser o suficiente para descrever a imensidão de suas emoções. A verdade, é que o luto de uma pessoa viva não era muito falado, então ela não tinha noção de como agir ou ao saber qual direção poderia seguir, para poder superar.

Ela só queria poder estar com ele, ao passo que tinha raiva por tê-la abandonado. Ela estava ressentida, magoada, mas também ainda tinha um carinho tão forte pelo herói, que chegava a doer.

Não compreendia mais próprios sentimentos. Tudo o que ela sabia no momento, é que queria parar de se sentir tão mal, o tempo todo.

Por sorte, nenhum akumatizado apareceu naqueles dias, o que a permitiu descansar. E tentar esquecer. E também, evitar Luka.

A banda já estava se reunindo para praticar, e mesmo já podendo ir, ela negou aos convites. Soube, no íntimo do seu ser após a última luta, que não poderia fazer mais nada para trazê-lo de volta. Teve que aceitar o fato de que sua última tentativa falhou, e que ela teria que entregar o anel à Plagg, só estava tentando adiar isso, até o momento que se sentisse pronta para desistir.

Não que estivesse com energia para se preocupar com isso no momento. Deixe que o amanhã trará suas próprias preocupações. No momento, ela apenas queria dormir e não pensar mais sobre nada.

Até que o amanhã chegou.

E as preocupações que ele trouxe, foram muito maiores do que ela jamais poderia imaginar.

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Raphael era um homem comum, que tinha hábitos comuns. Gostava de ir cedo à padaria todos os dias, antes do trabalho. E após longas horas no escritório, gostava de passear com seu cachorro na praça do Trocadero, observando o sol se pondo na Torre Eiffel, junto com vários outros parisienses e turistas.

E tinha que admitir, estava sentindo falta da heroína de Paris, que antes costumava fazer algumas aparições naquele horário. Foi algo estranho, a mudança de rotina que ela causou, além dos problemas que se seguiram depois disso. Raphael achou que perderia o carro no último akumatizado que apareceu, mas ficou mais do que satisfeito, quando o poder de bug Noir funcionou.

Tudo estava voltando ao normal, com Paris sendo guardada por seus costumeiros heróis, ou nesse caso, apenas a heroína.

Porém naquela tarde, algo estranho aconteceu, algo que atrapalhou seu habitual passeio na praça. Ele havia acabado de chegar e se sentar na grama, quando uma nuvem de Borboletas cobriu o céu sobre sua cabeça, se materializando como um rosto, à frente da Torre Eiffel.

Ele sentiu um péssimo sentimento de déjà-vu com aquilo, pegando seu celular, ele ativou o alerta de akuma, antes de puxar a guia de seu cachorro para fugir.

Várias pessoas também estavam se levantando, começando a correr assustadas com medo de um iminente ataque. Porém, uma alta voz feminina surgiu do meio das borboletas.

— Caro cidadãos! Meu nome é Crisálida. Eu não estou aqui para atacar vocês, mas para dizer a verdade. E livrar vocês, povo de Paris, de uma grande mentirosa!

Raphael pausou sua fuga, querendo ouvir mais o que aquela Crisálida tinha a dizer. Um de seus maiores defeitos sempre foi sua enorme curiosidade, mas se sentiu melhor ao olhar para os lados e perceber que não era o único curioso ali. Pessoas aos montes estavam voltando para filmar aquele recado, e não demorou muito para ouvir um barulho de helicóptero se aproximando.

Era Clara Conrad, e sua equipe de filmagem. Rápidos como sempre.

Pois Raphael também pegou seu celular, gravando o rosto de borboletas púrpura flutuante, que logo tornou a falar.

— A Bug Noir não é quem ela diz ser. Perceberam como ela disse que capturou Monarch, às custas da vida do Gabriel Agreste, mas nunca contou a vocês sobre quem ele era? E mesmo assim, ela foi aclamada por todo o mundo. Mas não se deixem enganar!

Raphael deu zoom no vídeo, seu coração acelerado, com uma má sensação sobre o que viria a seguir.

— A verdade, a que ela escondeu de todos vocês é que, o finado estilista Gabriel Agreste, era na verdade, o próprio Monarch! E ela o matou para pegar o Miraculous da Borboleta de volta!

Não conseguiu esconder o choque, abrindo a boca, totalmente perplexo. Pessoas ao seu redor também soltaram arquejos assustados.

— Porém ela percebeu que sem um vilão, ela voltaria a ser apenas uma garota inútil! Então, em posse do miraculous da borboleta, ela continuou criando akumatizados, só para continuar a ser uma heroína relevante. E vocês caíram todos na mentira dela! Ela até mesmo começou a se recusar a arrumar a cidade de vocês. — Crisálida continuou, antes de abaixar um pouco a voz e falar de forma ameaçadora. — Mas seu parceiro Chat Noir não caiu nessa, não é, Bug Noir? Por isso você roubou o Miraculous dele também!

A fala era diretamente para a heroína.

— Meu Deus, que horror! — Uma mulher ao lado de Raphael exclamou, quase começando a chorar com aquele relato.

— Mas não se preocupem, eu enxerguei quem ela é por trás de toda mentira, e depois de semanas investigando, eu consegui recuperar o Miraculous da Borboleta, para salvar vocês. A Bug Noir vai dizer que eu sou a vilã agora, é claro. Mas tudo o que quero é ver Paris livre das garras dela! Por isso, ouçam meu chamado! Aceitem meu poder quando eu o der a vocês! E juntos, vamos livrar o mundo da maior ameaça de todas: a Bug Noir!

Então as borboletas se dissiparam, desfazendo o rosto e voando pelo céu.

Raphael guardou seu celular, completamente intrigado com tudo o que ouviu, e o pior, percebendo que sua vida agora seria completamente caótica e fora de seus hábitos, pois não sabia mais, em quem poderia confiar.

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O celular de Marinette não parava de tocar. Eram várias mensagens e ligações, de Alya e Luka.

Mas ela estava paralisada, após voltar para casa. Não conseguindo pensar, ou ao menos, respirar direito.

O alerta de akuma a acordou, com os pensamentos ainda desordenados, ela se viu sozinha em seu quarto, antes de lembrar que dia era e agradecer rapidamente por sexta-feira, o dia em que Adrien ia embora mais cedo para praticar piano junto com a banda. Se transformou em instantes, a tempo de chegar a um telhado perto da praça da torre, de onde escutou todo o discurso de Crisálida, e sentiu uma facada a cada palavra.

Agora, ela estava de volta ao seu quarto, apenas sangrando por todo seu chão, pelas feridas abertas, e totalmente sem reação.

— Destransformar. — Falou ainda atônita, liberando Tikki e Plagg se suas respectivas jóias.

— Ah não, Marinette, o que faremos? — Tikki disse aflita, mas Marinette não se sentia capaz de responder.

Toda sua situação com o Chat Noir a tirou do foco sobre a investigação que estava fazendo sobre a nova vilã. E que erro havia sido.

Crisálida, de alguma forma, havia descoberto um de seus maiores segredos. E para seu horror, ela o revelou ao mundo da maior forma possível, em meio a tantas mentiras.

Como ela iria contornar isso?

Seu celular tocou novamente, com outra ligação de Alya. Precisando sair de sua espiral decrescente de torpor e horror, ela atendeu à chamada.

— Amiga! Que loucura essa vilã está falando? Precisa desmentir ela! — A amiga começou, a voz enérgica do outro lado, nem dando tempo para Marinette dizer alguma coisa. Podia facilmente imaginar Alya andando de um lado para o outro em seu quarto, totalmente indignada. — Precisamos remediar isso! Vou fazer um artigo para o Bugblog, e você vai precisar dar uma entrevista para Nadja urgente como Bug Noir e desmentir tudo, então, quando o…

— Não posso. — Disse baixo, interrompendo todo o discurso de relações públicas que Alya estava dando.

O silêncio do outro lado foi ensurdecedor.

— O que? Como assim não pode? — A voz assustada da amiga a quebrou.

Iria estilhaçar a confiança de sua melhor amiga, assim como toda a confiança dos parisienses estava agora.

Recostou sobre a parede atrás de si, sentindo o peso de tudo o que Crisálida disse pousar sobre seus ombros.

— Não posso desmentir tudo. Não é tudo mentira. — Então ela fechou os olhos, odiando ser obrigada a ter que admitir tudo isso, ainda mais dessa forma. — O Gabriel… era mesmo o Monarch.

Ouviu um arquejo da ruiva do outro lado.

— Mari! Por que nunca me disse nada?!

— Pelo Adrien, Alya! Tive que fazer isso por ele. — Ela jogou de volta, ainda sentindo o peso esmagador das consequências espremendo seu coração.

Tudo o que ela queria, era poupá-lo dos julgamentos, e preservar a memória que restava de seu pai. Mas agora, estava tudo arruinado.

— Mas você não o matou, não é? — A voz da amiga estava receosa, e odiou que Crisálida houvesse a retratado como uma assassina. — Digo, talvez sem querer…

— Não Alya, é claro que não! — Não julgou a amiga por pensar nisso, afinal, toda Paris devia ter acreditado no que havia sido dito. Ao menos Alya a conhecia, e sabia que se fosse a verdade, teria sido algo acidental. — Foi o desejo dele morrer, para ficar junto da Emilie.

Ouviu um alívio de suspiro do outro lado.

— Ok, estou indo para aí, e você me conta o resto. Então vamos pensar em um plano. — Alya anunciou, e Marinette já podia ouvir barulhos dela no quarto, provavelmente, já arrumando a mochila para ir para sua casa. — Eu estudei gestão de crise em uma das minhas matérias de relações públicas, podemos fazer isso.

Sim, um plano. Ela precisava de um. Com urgência.

Mas antes, precisava resolver uma questão. Algo ainda mais urgente que sua própria situação.

— Não venha, não ainda. Eu preciso fazer uma coisa.

Pois alguém, muito importante para ela, estava agora sozinho, e provavelmente muito assustado e confuso.

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Adrien estava incrédulo. A respiração ofegante enquanto se afastava da televisão, ainda com uma sensação estranha de estar preso dentro de um sonho.

Não, aquilo não podia ser verdade.

Ele sabia que várias coisas ali eram mentiras. Apenas ele e Ladybug sabiam o motivo de sua renúncia, e sua Lady jamais teve posse do Miraculous da Borboleta, mas mesmo se tivesse, ela jamais teria usado-o para causar o mal. Mas e o restante?

Seu pai, Gabriel, poderia mesmo ter sido…

— Adrien! — Ouviu o grito de Nathalie vindo do primeiro andar da mansão, assim como os passos apressados dela pelo hall, chamando por ele desesperadamente. — Adrien! — O grito dela estava repleto de pavor.

O garoto saiu de seu quarto, parando apenas quando fez contato visual com a mulher aos pés da escada.

Levou apenas alguns segundos, olhando para Nathalie lá embaixo, com os olhos arregalados e feição assustada, para desvendar que o motivo do espanto dela não era pelas notícias, mas por Adrien estar ciente de tudo que foi noticiado.

Ele, que antes queria buscar consolo nos braços dela, travou seu corpo no topo da escada, para não se aproximar mais.

— Você sabia? — Não obteve uma resposta, mas a falta de palavras e boca aberta em choque bastaram como uma. O pavor e a raiva cresceram em seu peito na mesma proporção. — Você sabia e você o acobertou, como pode?

— Eu só queria ajudar. — Nathalie ergueu ambas as mãos, como se quisesse se mostrar inofensiva para ele, antes de subir o primeiro degrau.

— Ajudar no que? A aterrorizar as pessoas de Paris?

— Adrien, você não entenderia… — Ela disse, se movendo com cautela, não perdendo o contato visual com ele.

Mas Adrien apenas cerrou os punhos

— Não entendo mesmo! Quando você descobriu? Ele te contou ou você sempre soube? Faziam isso juntos? — As perguntas saíram como uma enxurrada. Sentiu seus olhos queimarem, mas apertou os dentes com força em busca de controle. Não iria chorar. Não seria um garotinho fraco na frente dela.

Estavam discutindo a distância, então uma ideia terrível cortou sua mente como um raio.

Nathalie já estava na metade da escada, e ela pareceu ler seu rosto, pois confirmou.

— Eu era a Mayura. — Ela revelou, com a voz quebrada, e não lhe deixando mais dúvidas.

A verdade explodiu como uma bomba na cara de Adrien.

Tudo parecia claro agora. A maneira como ela adoeceu misteriosamente, à medida que Mayura começou a fazer mais aparições ao lado de Hawk Moth.

Sentiu suas pernas querendo ceder ao peso de todas essas revelações. Sua vida parecia estar de cabeça para baixo, com todas suas certezas e seguranças caindo como baralhos de um castelo de cartas, deixando-o para trás com nada além de desconfiança e medo.

— Não.

Nathalie nem ao menos tentou se defender daquilo, lágrimas começaram a escapar dos olhos dela, mas a mulher parecia apenas querer chegar perto dele.

Porém Adrien não conseguia nem ao menos olhar para ela naquele momento.

Seu coração retumbando dentro do peito lhe causava dor. Não queria expor mais isso para ela.

— Adrien, eu…

— NÃO! — Ele bradou, cortando qualquer explicação que ela pudesse ter para manipulá-lo. — Não se aproxime.

Então ele deu meia volta e correu para seu quarto, trancando a porta atrás de si.

— Adrien…

Ele ao menos conhecia essa mulher que hoje cuidava dele? Quais seriam as intenções dela para adquirir sua guarda? Quais outros planos terríveis ela poderia ter? Que segredos ela sabia?

Seus olhos estavam queimando. E piorou ainda mais quando batidas vieram da porta, com a voz estraçalhada de Nathalie.

— Adrien, abra a porta, por favor! — A tristeza em suas palavras parecia genuína, mas Adrien não sabia mais se podia confiar.

Tudo em sua vida parecia estar desmoronando. Nada era real. Seu nascimento, o relacionamento com seu pai, a morte dele.

Adrien escorregou até o chão, sentindo o seus pulmões queimando, até soltar um suspiro de dor, e as lágrimas serem liberadas juntos.

Segurou seus cabelos, tentando organizar seus pensamentos.

Mas como ele poderia fazer isso? Como poderia conviver com tantas mentiras girando ao seu respeito?

Seu pai era um vilão, sua guardiã costumava ser sua cúmplice, ele era um herói, mas agora era só um senti-ser.

Ele ao menos sabia quem era agora?

O que era real?

Ele era real?

— Adrien!

Ergueu a cabeça, assustado ao ouvir o grito vindo de seu quarto.

Foi quando viu Bug Noir entrando pela janela, e a poucos metros de si tinha uma borboleta negra, voando rapidamente em sua direção. Um akuma.

— Cataclismo! — A heroína vociferou, se lançando para frente, com o punho se fechando em volta da borboleta, logo antes de abrir a mão e as cinzas dela cair entre seus dedos.

Ele quase havia sido akumatizado. Porém Adrien nem conseguiu processar direito o horror do que quase aconteceu com ele.

Jogou a cabeça para trás, apoiando na madeira da porta, e continuou seu choro. O caos em seu interior ainda agitado.

— Adrien! O que está acontecendo? — Nathalie perguntou do outro lado.

Não tinha forças para responder, no entanto, nem ao menos queria dar explicações para a mulher do outro lado.

— Nathalie, está tudo bem, é a Bug Noir. — A heroína respondeu por ele. — Eu vou conversar com ele, se acalme, ou Crisálida vai tentar pegar você também.

A quietação veio do corretor, Nathalie devia ter se afastado para deixar os dois sozinhos. Porém Adrien nem ao menor conseguia olhar para a heroína agachada a sua frente.

Ainda encostado na porta, ainda chorando, se sentindo tão patético e vulnerável, ele só queria ficar sozinho.

— Por favor, Bug Noir, vai embora. — Ele clamou, abraçando os joelhos e com a cabeça enterrada sobre eles.

A heroína podia não ter ouvido suas palavras abafadas, porém sentiu a delicada mão dela apertar seu ombro.

— Não vou te deixar sozinho. — É claro que ela não iria, Adrien já sabia, ele a conhecia.

O que ele não sabia era sobre todo o resto de sua vida.

— Isso não pode ser verdade. — Ele fungou, antes de inspirar fundo e reunir coragem para erguer o rosto. Bug Noir estava lá, a centímetros dele, agachada à sua frente, olhando-o fixamente, com um vinco de preocupação entre as sobrancelhas. Adrien sentiu o coração apertar novamente enquanto a encarava. — Por que não me contou?

O olhar dela pareceu murchar.

— Seu pai me pediu…

— Não me importa o que ele pediu! Ele era um vilão! — Bradou com raiva, mal acreditando nas palavras que saíram de sua boca. Mas ela eram, incontestavelmente, a verdade. — Bug Noir, ele era seu inimigo! Você não o odiava?

Quando a mão dela se afastou de seu ombro, Adrien achou que ela se afastaria dele. Porém, Bug Noir apenas ajeitou sua posição, sentando à sua frente, enquanto jogava as tranças para o lado para não sentar em cima delas.

— Gabriel não era só meu inimigo, ele era um inimigo para si próprio. — Ela expressou com calma, os olhos verdes nunca perdendo o contato com os seus.

Adrien não quis ouvir. Não queria vê-la criar desculpas para ele.

— Eu o odeio. — Ele revelou, sentindo os olhos arderem mais enquanto falava. — E isso parece tão errado, ele era meu pai, mas eu jamais vou conseguir pensar nele e não lembrar disso agora!

Apertou mais os braços ao redor de seus joelhos, não querendo olhar para a heroína à sua frente. Estava triste, mas também com raiva.

— Adrien, eu… sinto muito. — Ela hesitantemente colocou a mão sobre a sua. E ele permitiu que mais lágrimas escapassem, enquanto segurava os dedos dela entre os seus.

— Como pode esconder isso de mim? — Emitiu a pergunta em um sussurro triste.

— Achei que seria melhor não te contar. — Ela sussurrou de volta, o tom de voz fraco, como se arrependida de sua decisão, ou triste por sua escolha ter sido arrancada dela.

— Eu tinha o direito de saber! — Respirou fundo, antes de erguer os olhos novamente para encontrar o rosto abatido dela. — Por que não me disse? E por que escondeu isso de todos?

Foi a vez de Bug Noir desviar o olhar, inspirando fundo e olhando para cima, apertando os lábios um no outro, antes de responder.

— Alguns segredos são melhores se não revelados a ninguém. Assim como algumas histórias merecem permanecer enterradas. — Então ela se voltou para ele, e apertou sua mão, como se estivesse cedendo sua força para ele, para superar esse problema. — Eu não te contei porque você já havia perdido seu pai, eu só não queria te fazer sofrer ainda mais.

— Pai? Um vilão terrível que aterrorizou uma cidade, por meses! — Ele devolveu com raiva.

Foi então que Bug Noir se ajoelhou e apoiou ambas as mãos sobre seus ombros.

— Adrien, o seu pai morreu! — Ela falou com urgência e seriedade na voz. — Que bom faria a você saber sobre quem ele havia sido nos últimos meses? Já não é ruim o bastante você ter perdido o pai? — A dor nos olhos dela quase o quebraram. Ela parecia profundamente triste por sua perda.

Mas Adrien não queria ninguém com empatia dele por isso, ele não merecia.

— Não importa que ele morreu! — Adrien tentou afastar a mão dela, sem sucesso. Então ele apenas a apertou, enquanto a encarava. — O que ele fez foi errado. Muito errado.

— Eu sei, mas ele fez por amor, Adrien! Amor à sua mãe. Não foi correto, claro. Mas era amor. Existem motivações piores. — Não sabia porque ela estava o defendendo. Bug Noir devia odiá-lo.

Só depois percebeu que ela estava fazendo isso por ele. Para não destruir ainda mais a imagem de seu pai.

— Excesso de amor destrói, se torna obsessão! — Rebateu. Depois as palavras dela o atingiram. “Ele fez por amor” — Então esse era o pedido dele? — Questionou, a ideia crescendo em sua mente. — Trazer minha mãe de volta? O que houve então?

Pois obviamente, algo havia dado errado no meio do caminho.

Bug Noir suspirou, antes de voltar a se sentar e endireitar a coluna.

— Ele amava sua mãe, e sua mãe amava você. — Ela explicou devagar. — Mas Emilie não queria que ninguém perdesse a vida para que ela pudesse voltar, então no final, ele escolheu fazer a vontade dela, e não te deixar sozinho.

Aquilo parecia bonito, teoricamente. Poético até, mas ainda assim, não escondia a feia verdade por trás.

— Então ele preferiu morrer, do que ficar comigo. — Já era uma ideia que ele estava acostumado, que seu pai estava mais feliz com o amor de sua vida do que com o próprio filho.

Porém, Adrien jamais imaginou que isso havia sido uma escolha dele. Todos acreditaram que a morte de Gabriel Agreste foi um acidente. Um terrível acidente, que ceifou a vida do famoso estilista cedo demais.

Que patético.

— Sim, ele preferiu ficar com ela. — Bug Noir confirmou, com a voz baixa. — Mas deixou você com alguém.

— Nathalie? — Adrien soltou uma risada sem humor. Incrédulo por sua nova realidade. — Ela era cúmplice dele. Vai saber o que mais ela está escondendo.

Não, ele não poderia contar com ela.

— Nathalie quase morreu para fazer seu pai feliz. Mas ela se arrependeu, Adrien, ao ver o quanto você não estava. — Bug Noir afirmou, e a certeza em sua voz foi o suficiente para deixar sua desconfiança pela mulher estremecida. — Ouça ela, ela não é sua inimiga aqui. Crisálida é!

Porém, Adrien ainda optou em ficar em silêncio, absorvendo aquelas palavras Precisaria bem mais do que isso para voltar a confiar em Nathalie de novo. Ouviu quando a heroína bufou, antes de se arrastar para escorar na porta também, ao seu lado.

— Eu consegui perdoá-lo, Adrien. Mas entenderei completamente se você não conseguir.

Ouvir aquilo mexeu com ele, Adrien agradeceu internamente por Bug Noir estar ao seu lado agora, não podendo ver como seus olhos se encheram novamente de lágrimas, apenas por pensar em perdoar seu pai.

O mesmo pai que no final, acabou não pedindo por seu perdão, mas que optou por esconder dele tudo de errado que fez. Aquilo não era justo. Com ele, com Paris.

Gabriel merecia pagar por seus próprios crimes, mas isso jamais aconteceria. Porém ele deixou Adrien para trás, para limpar sua bagunça.

Ficaram em silêncio mais alguns segundos, enquanto a cabeça de Adrien rodava com novas informações. Estava tentando chorar em silêncio e limpas as lágrimas discretamente, mas soube que fracassou quando sentiu a mão de Bug Noir solenemente ficar sobre a sua, em um delicado gesto de solidariedade.

Adrien não aguentou, soltou um suspiro audível e doloroso, antes de voltar a falar com ela.

— Não consigo nem olhar para você, Bug Noir. — Ele engasgou a última palavra. As lágrimas escorrendo mais grossas por seu rosto.

— Adrien, por que? — O susto na voz dela era palpável.

— Estou tão envergonhado. Por causa do meu pai tantas pessoas sofreram, especialmente você. Não sei como vou conviver com isso. Com essa culpa! — Ele conseguiu externar parte da dor que estava sentindo.

Porém, havia mais, muito mais.

Por meses, ele e o maior vilão de Paris, haviam dividido o mesmo teto, frequentado os mesmo espaços, trocado conversas, e Adrien nem ao mesmo percebeu nada.

Isso já seria ruim por si só, mas a situação ficava ainda pior quando Adrien não era só seu filho, mas também o herói de Paris.

A heroína puxou seu rosto com pressa, como se estivesse desesperada para tirar aquela ideia de sua cabeça.

— Você não tem culpa de nada, Adrien. Você não fez nada de errado. Ele sim! — Ela enfatizou a última parte. No entanto, mesmo Adrien querendo muito acreditar nela, Bug Noir não conhecia todo o cenário.

Se ela soubesse que ele era seu antigo parceiro e que havia falhado com ela dessa forma, sabia que a conversa seria outra. Por isso Adrien nem tentou concordar ou agradecer à ela. Ele era o único que sabia o quanto havia fracassado.

Então apenas respirou fundo, e tentou se apegar aos fatos que ela agora, sabia.

— Então essa é minha história. Sou um ser criado por um Miraculous e também filho do maior vilão de Paris.

Era bom poder falar em voz alta a primeira parte. A grande maioria das pessoas jamais saberia dessa primeira informação, mas todo o restante da população parisiense saberia da segunda. Adrien ainda não sabia como reagiriam, ou como o tratariam a partir de agora.

O olhar de Bug Noir escureceu, antes dela segurar sua mão novamente.

— Você não é só isso, Adrien, e sabe disso. Não deixe que as ações do seu pai determinem quem você é.

Ouviu as palavras com atenção, antes de concordar com a cabeça, respirar fundo e limpar os últimos resquícios de choro de seu rosto, os rastros das lágrimas já quase secos. Então, ele se levantou, com dor nas pernas pela posição que estava, e se virou em direção ao banheiro, ficando de costas para ela.

— Obrigado por ter vindo me proteger, e explicar tudo para mim, mas por favor, Bug Noir, me deixe sozinho agora.

— Claro. — Ela gaguejou, parecendo não querer deixá-lo sozinho naquele momento, mas respeitando sua decisão. — Você vai ficar bem, Adrien.

Afirmou, lançando um sorriso solidário em sua direção, antes de sumir em meio à noite.

Adrien deixou aquelas palavras flutuarem por sua mente por alguns segundos.

“Eu vou ficar bem”.

Porém essa afirmação parecia uma enorme mentira, assim como toda sua vida.

Notas finais
Reconheceram o parágrafo lá do começo? Sim kk eu peguei a narrativa do Adrien lá do primeiro capítulo, e coloquei aqui, só que ao contrário kk ai que maldade. E que dó. Tadinha da Mari E EU SEI! Eu tô com raiva, você tá com raiva, estamos todos com raiva. Mas eu pensei bem em como a Lila iria agir como vilã, e a resposta que encontrei foi: ela iria ser da mesma forma de sempre, mentirosa e manipuladora, é quem ela é. Não sei como será na 6ª temporada, mas se for algo próximo a isso, ficarei feliz (por ter acertado, não por ela ser assim. A Lila me irrita PROFUNDAMENTE.) AI QUE VONTADE DE PEGAR O ADRIEN NO COLO E PROTEGER ELE TADINHO!! É isso, agora veremos como a Ladynette lidará com essa dor de cabeça. Ops, falei demais. Beijos doces, fui!