Notas iniciais
Oi, pessoinhas do meu core! Como vocês estão? Mil perdões por não ter postado no sábado passado, tive alguns imprevistos no meu fim de semana e acabei não conseguindo, mas espero que curtam pois fiz com muito carinho! Bjs!

Após amenizar o estrago do suco de laranja — agradecendo aos céus pela minha roupa ser preta — faço meu caminho de volta a mesa e passo o resto do jantar tentando evitar contato visual com Austin, não aguentaria olhar para ele sem desmoronar. Eu apenas ouvia a conversa sem se quer dizer uma palavra.

Depois de terminarmos o delicioso jantar — Tia Rose sempre fazia lasanha a bolonhesa quando jantávamos lá por que sabia que era um de meus pratos preferidos — o grupo se dispersa. Minha mãe e tia Rose voltam a fofocar na cozinha — o tempo nunca parecia suficiente para essas duas colocarem o assunto em dia -, tio Chris e Austin voltam a tocar e eu resolvo tomar um ar nos jardins dos fundos.

O espaço era bem amplo e aberto, no céu negro e estrelado, a lua cheia exibia sua fraca luz sobre a grama recém aparada que forrava o chão num verde bem vivido. As folhas da velha e robusta árvore do jardim dos Saunders farfalhavam suavemente com a brisa leve e o pequeno balanço que papai tinha feito pendia de um de seus largos galhos, onde me sento com um pouco de dificuldade. O pequeno pedaço de madeira em baixo de mim que um dia me coube perfeitamente, agora parecia pequeno demais para alguém do meu tamanho o que causava um certo desconforto mas tento não me importar muito com isso.

Minha noite tinha sido um completo desastre tomando um caminho completamente diferente do que eu tinha planejado, e não eram nem nove horas da noite ainda!

Tudo que eu queria era encerrar minha noite e voltar ao conforto da casa, onde eu poderia deixar as lágrimas rolarem livremente. Me sentia anestesiada enquanto as palavras da conversa de meu amigo há pouco, ecoavam em minha cabeça.

"Eu também gosto de você. O que vivemos juntos foi especial..."

Um nó se forma em minha garganta e um gosto amargo toma conta de minha boca com essa lembrança. Imaginei que algumas coisas seriam diferentes entre nós, mas não que chegaria a esse ponto.
A região onde o suco de laranja tinha caído ainda estava molhada e grudada à minha pele, mas era o que menos me incomodava naquele momento. Eu estava tão confusa com o misto de raiva, vergonha e tristeza que latejavam em meu peito.

Respiro fundo com os olhos fechados deixando que o vento fraco me embalasse. De repente, sinto um leve impulso em minhas costas.

— Algo te perturba? — A voz suave de Austin soa baixa e atenciosa. Meu corpo volta ao estado de tensão. Sinto minhas mãos começarem a tremer de nervosismo e minha garganta ficar seca. — Você me pareceu meio tensa lá dentro — Eu ainda não tinha me atrevido a encara-lo.

— Estou preocupada com minhas notas. Meu desempenho no ano passado não foi um dos melhores. Esse ano eu preciso fazer de tudo para recupera-las — O que não era totalmente uma mentira. Normalmente, quem tinha baixo desempenho em um ano era escalado como voluntario no acampamento de férias do outro, que a escola organizava todo ano, periodicamente no período das férias de verão, com o intuito de arrecadar fundos, o que estava longe de ser divertido simplesmente pelo fato de que enquanto para uns alunos o acampamento de verão significava lazer para os que eram escalados como voluntários significava desentupir privadas, no entanto se eu conseguisse me recuperar poderia tirar meu nome da lista. Mas a plena verdade era que meus pensamentos não estavam nem um pouco relacionados a isso nesse momento, mas o nó em minha garganta me impedia de dizer tudo o que queria a ele. — Não estou nem um pouco afim de desentupir privadas — Ele ri nasalmente sabendo exatamente do que eu estava falando.

— O diretor Krasinski disse que eu terei que participar — Finalmente o encaro, surpresa. Ele encolhe os ombros sem ânimo. Os olhos ridiculamente azuis de meu amigo ainda eram doces como antes, mas seu brilho parece ter sido apagado por um cansaço que nunca tinha visto antes.

— Não acredito que John Krasinski obrigou seu mais novo garoto prodígio a participar dessa. — Provoco com um leve sorrisinho no canto dos lábios.

— Na verdade, fizemos um acordo. — Austin diz com o olhar fixado em um ponto ao longe. Seus olhos seus se arregalam, como se ele tivesse lembrado de algo — o que me lembra a novidade que tenho para te contar — Completa, se virando completamente para mim. — Adivinha... — Ele me encara com expectativa como fazia quando éramos crianças.

— John Mayer? — Pergunto com uma certa animação. Ele balança a cabeça em confirmação. — NÃO CREIO! — Digo quase gritando e tampo a boca com as duas mãos em choque. Tomado por uma animação extrema, ele me abraça e me gira no ar enquanto rimos. Por um instante me senti como nos velhos tempos. Ao me colocar no chão nossos rostos ficam a poucos centímetros de distancia fazendo meu coração acelerar um pouco, meu amigo não pareceu nem um pouco afetado por essa proximidade. Limpo a garganta desviando o olhar do seu.

— Mas o que não entendi é o diretor Krasinski tem a ver com você gravar com John Mayer?

— Vou abrir todos os shows de sua turnê no próximo ano e depois vamos gravar juntos, por isso precisarei encerrar meu ano letivo mais cedo então Krasinski me deu a condição de ser voluntário no acampamento de férias para compensar minha saída antecipada. Então, assim que voltarmos de lá já terei que arrumar minhas malas e partir novamente para L.A — Sinto algo dentro de mim murchar como um balão. Estava bom demais para ser verdade. Seis meses! Era tudo que teria até que ele partisse novamente só que dessa vez por um tempo incerto. O silencio volta a preencher o ambiente até que finalmente Austin resolve quebra-lo:

— Lembro que havia me dito que também tinha uma novidade para me contar. Sobre o que era? — Droga. Estava torcendo para que ele já tivesse esquecido daquela mensagem.

— Ah, apenas ia dizer que finalmente consegui alugar Rogue One para nos assistirmos no fim de semana. Pedi para o Steve que assim que o filme fosse devolvido ele separasse imediatamente para mim. — Essa era uma mentira, e das grandes. Mesmo a luz fraca do luar posso ver meu amigo se ajeitar, inquieto.

— Puts, Lis! Me esqueci completamente de nossa programação. Prometi ao Travor que iria na festa na casa do Jonah. Podemos remarcar? — Ele pergunta, sem jeito.

— Claro, sem problemas. — E novamente um abismo se formava entre nós, mesmo estando a poucos centímetros de distancia.

>>>

Depois de tomar outro banho e colocar uma roupa mais confortável, desço até a cozinha para me fazer uma xícara de chá de camomila para acalmar um pouco meus ânimos. Coloco meu celular em cima da ilha da cozinha para pegar uma xícara no armário quando o mesmo vibra acompanhado pelo som de sabre de luz.

—-- MENSAGEM ---

LEXIE: Como esta sendo o jantar? Já conseguiu conquistar seu príncipe encantado?

Sorrio levemente, mas mais uma vez a lembrança desastrosa dessa noite aparece para me assombrar e não posso evitar me sentir uma grande idiota. Um sorriso sem animação sai de meus lábios. Droga. Eu só queria fazer um chá de camomila e chorar até dormir, será que era pedir demais?

—-- MENSAGEM ---

LEXIE: Como esta sendo o jantar? Já conseguiu conquistar seu príncipe encantado?

LISA: Já estou em casa. Descobri que esse príncipe encantado já achou sua princesa, e não sou eu. :(

Solto o ar pesadamente e bloqueio o aparelho colocando-o de volta na ilha, voltando aos preparativos do meu chá.

Alguns longos minutos depois da mensagem dela a campainha toca, me fazendo pular alarmada. Ao abrir a porta vejo minha amiga com sacolas de mercado nas mãos. O que aquela maluca estava fazendo aqui?

— Matt terminou comigo. — Diz, passando por mim e indo em direção a cozinha com as mãos. Pisco assustada. — Por mensagem! — Ela grita já no outro cômodo.

— O que? Por que? — Matthew e Lexie já namoravam a bastante tempo quando minha amiga e eu nos conhecemos. Apenas o conhecia seu rosto por fotos e que ele estava em seu segundo ano da faculdade.

— Me passe aquelas sacolas ali, por favor. — Lexie diz apontando para o outro lado da ponta da ilha. Faço o que ela pede observando seu movimento na cozinha enquanto espero sua resposta. Ela para o que esta fazendo e se apoia na bancada de mármore, direcionando seu olhar cheio de dor e brilhante por conta das lágrimas para mim. — Ele prometeu. Prometeu que faria de tudo para dar certo, mesmo com a distância. — Sua voz tremula e embargada, quase como um sussurro. Eu nunca a tinha visto naquele estado. Eu procuro o que dizer mas nada parecia adequado. Minha amiga limpa as lagrimas que começam a descem pela sua bochecha enquanto começa a colocar os potes de sorvete no congelador. Quando ela se vira para pegar outro pote pouso minha mão sobre a sua impedindo-a de continuar e a encaro com compaixão. Era desesperador ver Lexie naquele estado, ela sempre foi a mais forte de nós duas, nada parecia poder abala-la até aquele instante. Era ela que sempre me apoiava e consolava nos piores momentos e fazia isso com muita maestria. Sem saber muito o que fazer, dou a volta no balcão de mármore da ilha e a envolvo em um abraço apertado e minha amiga volta a desmoronar em meus braços, lágrimas também começam a preencher meus olhos sem permissão e eu as deixo cair livremente.

Um barulho abafado de chave do lado de fora nos tira de nossa bolha de melancolia e nos encaramos enquanto enxugamos nossas lágrimas.

— Boa noite tia Maggie — Lexie fala olhando além de meus ombros, meio sem graça.

— Ah, oi mamãe! — Digo dando um sorriso franco. Eu tinha saído do jantar um pouco antes dela que preferiu ficar nas confidencias com a mãe de meu melhor amigo.

— Oi meninas! — Ela nos analisa cuidadosamente e posso ver pela sua expressão que muitas perguntas passam pela sua cabeça, mas ela não as externa.

— Tudo bem a Lexie dormir aqui hoje? Estávamos pensando em fazer uma festa do pijama.

— Claro querida! Lexie é sempre bem-vinda aqui. — "Mas depois vou querer saber mais sobre o que esta acontecendo" o olhar dela completa.

Assim que terminamos de preparar tudo, subimos para o meu quarto e nos empoleiramos na minha cama onde maratonamos filmes de romance clichê do Netflix e nos entuchamos de sorvete. No intervalo entre um filme e outro conversamos sobre nossas vidas amorosas — quer dizer, a que eu imaginei que teria mas fui tombada antes mesmo de levantar da última queda — e minha amiga me conta que ela e Matthew tinham feito uma promessa de fazer o relacionamento a distancia funcionar e que tudo parecia estar indo bem até o final do ano passado quando ele começou a ficar mais distante e frio, mas ela imaginou que era apenas por ele estar na fase final do semestre com provas trabalhos e que logo tudo se encaixaria no entanto, mesmo depois de terminar o ano letivo ele não veio passar o ano novo com ela como fazia sempre e desde então tem respondido suas mensagens de forma vaga até que finalmente mandou uma mensagem para ela dizendo não ser mais capaz de continuar com o relacionamento a distância e que seria melhor que terminassem.

— Que grande idiota! — Digo com a boca cheia de sorvete.

Também compartilho o fiasco que a minha noite havia sido.

— Ah, pode deixar que aquele garoto estrelinha vai se ver comigo — Rio alto com suas palavras.

No dia seguinte, minha mãe nos deu carona até a escola e, assim que entramos vamos direto nos enfurnar na biblioteca para mais um dia no nosso pequeno — só nos duas mesmo — clube de estudos.

Como de costume ocupamos a mesinha no canto perto da janela e espalhamos nosso material iniciando os estudos. Um silencio reconfortante paira entre nós enquanto me dedico as anotações da aula sobre Estequiometria — que eu não tinha prestado nem um pouco de atenção ocupando meus pensamentos com o jantar e olha onde isso tinha me levado.

Não sabia dizer ao certo quanto tempo tinha passado até perceber uma cabeleira castanha familiar passar pela porta da biblioteca, meu celular cai no chão e ele olha para minha direção. Vou para debaixo da mesa para procurar o celular demorando um pouco mais que o necessário.

— Chewei!!! — Levo um susto e bato a cabeça com força na mesa de madeira grossa ao perceber o quão rápido foi para ele chegar ali — Você está bem?

— Sim eu estou ótima. — Falando isso sinto um líquido quente escorrer pela minha testa, tento me levantar mas minha cabeça começa a girar e minha visão escurece completamente.

>>>

Acordo e olho em volta, estou em uma maca na tímida sala branca da enfermaria. Na cadeira ao lado da maca Austin fitava ao longe pela pequena e única janela do cômodo que dava para a quadra descoberta, com uma expressão preocupada. Tento me levantar, mas o esforço lança fortes latejos no topo da minha cabeça me fazem gemer de dor. Ao olhar para baixo percebo que minha blusa esta manchada de sangue. Minha agitação chama a atenção de meu velho amigo.

— Ei, Bela Adormecida! — Sua expressão se ilumina. — Você acordou. Como esta se sentindo? — Pergunta sério se levantando rapidamente e me ajudando a me ajeitar na dura maca.

— Péssima. Oque aconteceu? — Balbucio tentando me sentar enquanto seguro a parte de cima de minha cabeça, sentindo a superfície áspera do curativo.

— Você enfiou a cachola com gosto na mesa. Se não te conhecesse diria que minha presença te deixou nervosa — Ele pisca para mim com um sorrisinho no canto dos lábios. Reviro os olhos, tentando fingir que ele não havia acertado em cheio. Aos poucos me recordo do aconteceu e meu rosto fica vermelho de vergonha.

— A enfermeira que cuidou do seu ferimento falou que o corte não foi muito fundo e disse que seria normal ter dores de cabeça, confusão, insônia como efeitos colaterais. — Completa voltando a sua expressão séria.

— Lexie! Onde ela esta? — Pergunto me lembrando de minha amiga. As dores voltam a pulsar.

— Você diz a garota desesperada que estava com você na biblioteca? Eles não permitiram que dois alunos perdessem o dia de aula então insisti que fosse eu já vou ser um voluntário de qualquer forma nas férias. — Austin encolhe os ombros. Sorrio ao imaginar a cena de Lexie em seu estado de desespero.

Parecia que o universo estava me pregando peças, a última pessoa que eu queria ver naquele dia estava bem na minha frente. Não culpava meu amigo por não corresponder meus sentimentos, até por que mesmo com tudo isso e com a distancia que tinha se formado entre nós ainda éramos amigos e nada mudaria isso, mas estar perto dele era simplesmente doloroso.

— Espera, você disse "perder o dia de aula"? — Pulo alarmada e me arrependo instantaneamente sendo atingida por uma tontura desestabilizante. — Que horas são? — Procuro pelo grande culpado de todo o reboliço: meu celular.

— Aqui. — Meu amigo me entrega o aparelho que exibia uma tela com grandes rachaduras. Perfeito! O dia não poderia ficar melhor.

— Obrigada. — Digo sem ânimo passando o dedo pelos riscos fundos estampados na tela.

— Ele estava todo espatifado chão quando você desmaiou antes de traze-la eu o coloquei no bolso e depois o montei. Provavelmente as configurações de hora e data não estarão certas — Ele pega seu próprio celular — Esta quase no final do intervalo — Volta o aparelho ao bolso.

Nossa! Ele tinha ficado todo esse tempo ali? Isso significaria perder umas cinco aulas. Mais uma vez o silencio desconfortável que vinha nos acompanhando ultimamente volta a nos fazer companhia.

— Bom, agora que acordou estou mais tranquilo. Vou deixar você descansar um pouco. — Ele diz de repente, se levantando e dando um beijo delicado em minha testa logo em seguida saindo pela porta. Fecho os olhos sentindo um formigamento onde seus lábios tinham encostado.

Alguns minutos depois, uma batida à porta anuncia a entrada de um furacão... Quero dizer, Lexie.

— Lisa! — Minha amiga grita correndo para me abraçar. — Quer me matar de susto sua maluca! — Diz segurando meu rosto e avaliando o curativo tosco no topo de minha cabeça com a expressão em um misto de desespero e alívio.

— Desculpe mamãe. — Ela me analisa por alguns segundos e abre a boca algumas vezes, mas nada sai. Era como se ela estivesse tentando escolher as palavras certas para me dizer o que quer que esteja em sua mente.

— Austin te trouxe até aqui, literalmente. — Minha amiga enfatiza a última palavra e me lança um olhar significativo. Franzo o cenho. O que ela quer dizer com isso? Ao perceber minha confusão ela saca seu celular e desliza seus dedos rapidamente pela tela dele, procurando por algo até que finalmente vira o aparelho para mim — Aqui.

Aperto os olhos um pouco para enxergar melhor e meu queixo cai. Era um site de fofocas onde a foto de capa era Austin me carregando desacordada em seus braços pelos corredores da escola. Bufo e escondo meu rosto entre minhas mãos. É com certeza meu dia tinha acabado de ficar melhor.

Notas finais
Hehehe essa Lisa não tem um minuto se sossego. Qual o tamanho da repercussão que essa fofoca vai ter hein?