Auschwitz
20 Epílogo
Notas iniciais
10 Anos Depois – Natal de 1955
Dimitri cumpriu cada uma de suas promessas que fez ao longo dos anos para Rose. A mais importante delas, a que fez a chama de esperança brilhar outra vez em seu coração, foi cumprida em 8 de junho de 1948, em uma capela em Omsk, na Rússia. Dimitri realmente pediu a mão de Rose em casamento para Eddie e prometeu a Lissa que a faria feliz. Ele até mesmo foi até a lápide de Gisela, dizer a ela que contaria aos seus filhos sobre quem ela tinha sido, sobre como ela tinha os planos mais malucos e de quantas vezes havia o tirado do sério. Ele esperou por Rose no altar, observou ela entrar vestida de branco, com um buque de rosas vermelhas em uma mão, sorrindo para ele, e de braço dado com Ibrahim, que o fez prometer que mesmo que lhe entregasse ela, Rose era sua filha, e que não viveria longe dela outra vez.
Dimitri prometeu a ela amor eterno, prometeu que a protegeria de qualquer coisa no mundo, e que dedicaria cada um de seus dias a faze-la feliz. A cerimonia foi pequena, sem pompa, só a pequena família imperfeita e cheia de cicatrizes, mas estava ali todos os que importavam.
Rose passou tanto tempo sonhado com uma casa, com segurança, que quando Dimitri a beijou naquele dia, no dia em que a tornou sua, ela percebeu que lar não era um lugar, era alguém. E Dimitri era seu lar, sua proteção, sua alegria, seu aconchego. Queria morar para sempre ali, nos seus braços, enquanto o seu som favorito era o do seu coração batendo no mesmo ritmo que o dela.
A primeira filha deles nasceu em março de 1950. Uma menina de olhos escuros, pouco cabelo e bochechas gordinhas a quem Dimitri chamou de Vera, porque foi a fé que os levou até ali. O segundo nasceu dois anos depois, Oleg. Quem escolheu foi Rose. Abençoado. Quando a terceira nasceu, naquela noite de Natal, Vera entrou no quarto para conhecer a irmãzinha e disse, enquanto segurava seu dedinho delicadamente:
— Que nome vão dar a ela?
— Pensei em Natalia – Dimitri contou, levantando a primogênita para colocá-la na cama ao lado de sua mãe, que ninava a caçula com carinho e amor — O que acha? Gosta desse nome? Ela nasceu na noite de Natal.
— Gosto — Vera contou, rindo quando a irmãzinha começou a procurar o peito da mãe — Mas eu gosto de Gisela. Ela se parece com a menina das histórias.
Dimitri olhou para Rose, notando os olhos que viam uma época que rezava todos os dias para que não voltasse. Pedia todos os dias para que os filhos nunca tivessem que sentir nada daquilo. Nunca tinha contato a eles, eram pequenos demais para imaginarem todo aquele horror. Mas, vez ou outra, Rose contava histórias sobre um grupo de jovens que viviam sozinhos na floresta e os planos mirabolantes que Gisela, a protagonista delas, criava sempre que tinham alguma dificuldade. Oleg adorava cada uma das histórias, mas era Vera quem pedia sempre por mais.
— Gosto de Gisela – Rose disse, sorrindo, mas querendo chorar — O que acha?
Dimitri concordou, beijando o topo de sua cabeça e então pegando a bebê em seu colo, para mirar os olhos dela.
— Você não vai me dar trabalho, vai, Gisela? — sorriu, vendo os olhos escuros como os seus quase se fechando, com sono.
Ibrahim entrou no quarto com Oleg no colo, chamando pela mãe e admirou de longe a família que tinha. Achou que tinha perdido a filha, que nunca mais a veria, e agora estava ali, com ela e os netos que nunca imaginou que teria. Havia ganhado até um genro por quem secretamente nutria afeto, e que já havia agradecido sempre que podia por tê-la deixado a salvo.
Havia muito que Rose não tinha mais os pesadelos, mas sempre se levantava de madrugada para conferir se a casa estava fechada e se seus filhos estavam seguros em suas camas. Não falava sobre os dias intermináveis e desumanos que viveram em Auschwitz, mas os números em seus braços traziam os gritos de volta sempre que os olhavam.
Dimitri nunca perguntou nada a Rose, sabia que ela queria esquecer, mas por vezes acordava com ela chorando baixinho, perdida em lembranças e pesadelos. Nesses momentos, só a abraçava com força, e prometia a ela que nada, nunca mais, a faria mal. Eddie sempre aparecia para uma visita, contava sobre Lissa que tinha se mudado para uma comunidade afastada na Áustria, tentando viver uma vida sem dores. Cada um ao seu modo, buscando uma forma de conviver com as cicatrizes que tinham guardadas. A maior parte, em uma mente que nunca esqueceria, mas, que com o tempo, aprenderam a calá-la.
— Rose, — Dimitri chamou após observá-la por um tempo, notando os olhos distantes, quando Ibrahim se entreteve com os netos ao seu redor enquanto segurava a bebê e cantava a ela a mesma canção que ensinara a Rose — No que está pensando?
Ela piscou, lhe dando um sorriso carinhoso e então o chamando para mais perto, até que se sentasse na cama ao seu lado.
— Lembra-se o que me disse quando nos conhecemos? — perguntou, e ele franziu o cenho, confuso — Disse que não poderíamos parar, até estarmos em um lugar seguro.
Ele se lembrava, mas agora era como se centenas de anos tivessem se passado. Assentiu, entrelaçando suas mãos e esperando que continuasse.
— Estava pensando que eu sempre estive em um lugar seguro, porque você sempre esteve ao meu lado.
E com isso, o silêncio se fez novamente entre os dois, um silêncio de uma tranquilidade que só aqueles que tinham sobrevivido à brutalidade da história puderam entender. Não era um silêncio de esquecimento, mas de compreensão mútua. Um silêncio que falava de cicatrizes invisíveis, de dor que se transformava em força, e de um amor que havia resistido às tempestades mais sombrias.
Enquanto os filhos brincavam, os risos das crianças e o canto suave de Ibrahim, fazia Rose sentir que, finalmente, poderia deixar o peso do passado onde ele pertencera: atrás dela. Não mais à frente, ameaçando seu amanhã, mas atrás, como parte da história que a tornara quem ela era. Dimitri, ao seu lado, parecia pensar o mesmo. Seus olhos refletiam uma calma que ela ainda conhecia por completo. Juntos, construíram uma ponte por cima de todos os destroços e escombros do passado. Uma ponte nova, que os sustentava, sem fazê-los esquecer do que havia embaixo dela, mas sólida o bastante para não olharem mais para lá.
O futuro ainda era um lugar desconhecido, mas, ao olhar para o presente, Rose não sentia mais medo. Tudo o que sentia era o amor que partilhavam, o apoio incondicional da família e amigos, e a força das lembranças que, agora, podiam ser guardadas sem consumir as suas vidas.
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