Era Natal.


Sirius torceu a boca em desprezo, ao ver sua mãe e Druella se moverem de um lado ao outro, encantadas e cegas ao ambiente externo. Cegas não, cego é aquele que não vê, elas estavam apenas escolhendo ignorar. Elas estavam ocupadas com os preparativos da comemoração, que seria na mansão principal naquele ano. Os elfos corriam apressados, sob os rosnados de ordens e mais ordens.


A família Black amava viver de aparência.


Obviamente estavam finalizando os mínimos detalhes de uma comemoração que não seria suficiente para cobrir a ausência de sentimentos para a formação de uma família normal. Mas era inadmissível que a nobre casa dos Black não fizesse uma festa hiper luxuosa para reafirmar seu lugar na elite bruxa.

O pequeno Sirius estava sentado no sofá, arqueando o corpo para trás, de forma que seu tronco não encostava mais no móvel e suas pernas ficavam livres para expressar a frustração e o tédio. Existia uma árvore, não a clássica do Natal trouxa, mas uma decorada com fadas mordentes voando ao seu redor, luzes douradas faziam sua trilha até o topo. E tinha brilho. Muito brilho. Regulus não conseguia tirar os olhos dela nem por um segundo, e Walburga sempre lançava um olhar de satisfação ao assistir o seu caçula entretido com a decoração.

— Vamos, Sirius. — ele se sobressaltou ao ouvir a voz da mãe, que saiu de seu posto para ir a seu encontro. Rapidamente ele deixou o corpo ereto e olhou para a matriarca, esperando o próximo passo. — Assim você vai abarrotar o terno lindo que seu pai nos trouxe de Veneza, isso é alta costura da Aurum Atelier!

Ela não estava prestando mais atenção nele, e sim nas vestes que Órion Black trouxe aos filhos. A Aurum Atelier era uma marca italiana famosa, que confeccionava roupas que acompanhavam o crescimento da criança, repeliam sujeira e ofereciam proteção contra feitiços leves. Walburga ficara encantada quando as vira. Não ter que se preocupar com a sujeira na roupa dos filhos, e evitar danos físicos oriundos de pequenos duelos clandestinos entre as crianças eram absolutamente preciosos.

— Está bem assim, mamãe. — ele resmungava enquanto Walburga tentava um feitiço para abaixar seus cachos rebeldes.

— Sirius, nós somos as estrelas. Seu nome é uma estrela, devemos estar como elas, sempre brilhantes e no alto. A aparência é a chave, meu filho.

Ela saiu andando antes que ele tivesse a chance de pensar. Sirius amava sua mãe, mas às vezes ela lhe parecia distante, diferente das outras mães que ele via. E então ele sentiu algo segurar o seu braço, o pequeno Regulus estava tentando chamar sua atenção.

— Óia, Silius. A boboleta na fadinha.

— Mas tinha uma exatamente assim no último natal, Reg, se lembra? — ele revirou os olhos, em divertimento, porém ainda assim, acompanhando seu irmãozinho.

Sirius amava Regulus. Ele se divertia com suas primas, mas elas eram muito mais unidas entre si do que com ele, apesar de morarem juntos. No entanto, quando Walburga Black e Órion trouxeram à família seu segundo herdeiro, para a decepção de seu irmão mais novo, que almejava há muito um herdeiro homem para chamar de seu, ele se sentiu, enfim, completo. E Regulus lembrava-o muito de si mesmo, ele tinha os mesmos cabelos e mesmos cachos. As mesmas bochechas e até os mesmos olhos de negro intenso.

Ele fez companhia ao irmão no pé da árvore enfeitada, até que ouviu o barulho das escadas que estivera esperando desde cedo. Seu coração de criança parou e começou a bater com força em milésimos de segundos, denunciando sua excitação. Por que diabos as meninas demoravam tanto para ficarem prontas?

Sua mini raiva passou tão rápido quando chegou, quando ele viu as primas descerem as escadas. Druella sorriu satisfeita quando suas três filhas apareceram em sua frente, tão impecáveis quanto a mesma. Andromeda parecia um anjo, com seus cabelos encaracolados marrom deslizando por suas costas graciosamente, quase flutuando. O vestido de seda verde fazendo um contraste com a pele pálida. Ela sorriu amavelmente em direção a mãe.

Já Narcisa era toda pompa. Suas mãos levantavam cada lado do vestido rosa, como uma atriz agradecendo ao público. Os cabelos loiros, diferente do usual preto da família, estavam presos num singular rabo de cavalo, com um laço rosê, e algumas mechas ao redor do rosto. Uma voltinha era o suficiente para Walburga e até mesmo Druella, sorrirem em aprovação.

Bellatrix, a mais nova das irmãs, era duas coisas diferentes ao mesmo tempo. Suas vestes violeta não combinavam, pareciam deslocadas em seu corpo. Seus cabelos revoltos, Sirius assistiu com admiração, também eram alvos de feitiços de uma obstinada Druella, se certificando de que sua filha mais nova não tivesse com um fio de cabelo fora do lugar devido. Mas nem isso era capaz de tirar dela o rosto e olhar marcante, a postura empinada, desafiante. Bella parece um retrato.

Ela bufou, espantando um cacho que estava na frente do seu olho, lançando a Sirius um olhar de tédio. Ele segurou o riso.

Foram para a grande mesa do Largo Grimmauld. Os homens da família os esperavam com um copo de Whisky de fogo na mão. A cozinha dos Black era enorme, toda ornamentada com tapeçarias de diversos lugares do mundo, orgulhosamente exibidas por Walburga. Na mesa, cabiam 10 lugares, contando com as cabeceiras. Órion e sua esposa as ocupavam. Druella e Cygnus se disponham em lados opostos, do lado do herdeiro Black mais velho. As irmãs Black sentavam ao lado da mãe, e o mesmo padrão seguia com Sirius e o pequeno Regulus.

— Como vai Hogwarts, Andromeda? — Walburga comentou, casualmente, enquanto recebia as refeições entregues por uma elfa idosa, Mimí. — A sonserina continua a mesma respeitável casa?

Andromeda parecia feliz de ser notada, de forma que prontamente respondeu:

— Sim, Sra. Black. A sonserina é linda, absolutamente imponente. Eu me sinto numa mansão. As pessoas também são bastantes gentis, sempre me tratam bem. E estamos para ganhar a taça das casas pelo 2º ano consecutivo!

— Muito bem, Andromeda. — entre um gole e uma garfada, Órion observava a mesa com perspicácia. Gostava de colecionar os feitos da família. — É muito bom ver que desde sua entrada em Hogwarts, a sonserina tenha bons resultados.

— Não vejo a hora de ser minha vez, mamãe. — Narcisa tinha brilho nos olhos, sob os olhares de aprovação de Druella e Walburga. — Também trarei orgulho à sonserina, assim como Andie.

— E à família, Narcisa. — Cygnus pontuou.

Antes que o clima pudesse pesar de novo, Andromeda amenizou.

— É claro, Cissy. Você vai ver como vai se tornar a sua 2ª casa. E há tanto a se fazer! Jogos de quadribol, aula de herbologia… — ela suspirou — Será bom ter você comigo no próximo ano.

— E então será minha vez, e de Six. Entraremos juntos na sonserina. E a faremos ganhar muitas taças das casas! — Bella se empinou, orgulhosa. — É uma pena de Regulus seja tão novo.

Por aquele momento, e somente naquele pequeno momento, eles pareciam iguais a todas as famílias. Comemorando uma data especial, se divertindo, sorrisos. Mas Sirius sentia que ainda não eram verdadeiros. Faltava o brilho no olhar, o calor no sorriso, as palavras carregadas de carinho. Quando ele olhava suas primas, elas pareciam… puras. Simplesmente crianças. E Regulus, bem, Regulus era a coisa mais preciosa que Sirius tinha. E quando ele o encarava com os grandes olhos redondos e negros, ele se sentia um super herói.

Seus pensamentos foram interrompidos, pois o jantar terminou. E foram à sala, para o momento de socialização.

Ele e seu irmão se uniram então às suas primas, para o momento do dia que Sirius tanto ansiava. Era a parte do dia em que eles brincavam como crianças que eram. Tudo bem, Andie era quase uma adulta de 14 anos, mas ela ainda os entendia e participava das brincadeiras, sempre com seu instinto de proteção.

Desfrutaram do tempo juntos com vários jogos e brincadeiras mágicas. Até que em uma, de se esconder, Bella o encontrou. Mas ela não era o bicho papão, e então ele a recebeu no seu esconderijo super secreto que era a enorme cortina cor de vinho do corredor do 2º andar.

Pouco depois, suas mães apareceram e se sentaram nas cadeiras da pequena vista que havia para a praça trouxa. Eles ficaram ali, sem saber o que fazer, e sem ter muita opção, até que escutaram a conversa.

— … Isso é ótimo, Druella. Narcisa e Lucius Malfoy fariam um excelente par, e ambos irão para o mesmo ano em Hogwarts, a aproximação será inevitável, com os dois na mesma casa. Como andam os preparativos do acordo?

Bella e Sirius se encararam, com uma expressão debochada de nojo, pensando juntos que casamento era nojento. Ainda mais um com Lucius Malfoy.

— De certo, irmã. As negociações de Bella e Andromeda seriam promissoras, após o casamento bem sucedido da irmã. A família Malfoy é tão pura como nós, devo admitir. Também tão ricos. E quanto ao casamento de Sirius com a jovem Grengrass?

Sirius não ficou para ouvir o que seria do seu futuro matrimônio, pois se desviou das cortinas como vento, e correu para fora do cômodo. Sua cabeça parecia tão cheia, de repente tão quente… as paredes dos corredores, as cabeças dos elfos, as escadas. Tudo passou por ele como um vulto.

Ele não queria casar com uma menina boba e feia, mesmo que fosse uma Grengrass. Seja lá o que isso fosse. Mas só de pensar de ter que deixar sua casa, suas primas, e Regulus para trás… ele não conseguiria lidar com a separação. Quem iria ensinar Reg a jogar e brincar com as coisas que valiam a pena?

Antes que pudesse argumentar contra, porque ele certamente o faria, ele sentiu a mão de Bella puxando o seu termo pra trás, e grito do andar de baixo os alarmou.

Walburga e Druella rapidamente desceram até o socorro de Andromeda, que estava no andar de baixo, com um Regulus mole no colo.

— Mas o que é isto? — Walburga se exasperou, as vestes do vestido erguidas para conseguir correr. Mas ela nunca corria, somente se locomovia mais rápido.

— Regulus estava brincando na árvore, e tentou pegar alguma coisa, mas as fadas o atacaram. — Narcisa apontou para a trilha de brilho que outrora estava na árvore, dessa vez no chão, sem vida.

Sirius correu de encontro ao irmão, abraçou o corpo pálido de Regulus, que ainda respirava.

— Mamãe, não deixe ele morrer! Salva ele! Olha, ele ainda tá respirando. Não deixa ele morrer, não, por favor!

Naquele momento tudo lhe parecia finito. Nada tinha sentido se ele não tivesse seu Regulus. A vida era tão injusta! Tinha que ser ele, logo agora que ele tinha consigo seu presente?

— Isso é apenas a reação de um feitiço defensivo da árvore, Sirius. — Druella sempre uma Rosier, com toda a sua calma e postura de quem habitualmente tinha o controle, esclareceu. — Regulus deve ter ativado um contra feitiço de proteção. Ele está apenas desacordado, provavelmente assustado com o ataque das fadas. Enevarte!

E com o comando, com o poder da magia, seu irmão lhe fora devolvido. Quando Regulus acordou, trouxe de volta pra ele seus grandes olhos de felicidade, embora ainda estivesse confuso. E então o coração de Sirius acalmou, e ele pôde sorrir.

Ele apertou o irmão contra si, protegendo-o como se quisesse criar um escudo invisível ao seu redor. Walburga olhou para a cena por um breve momento, seus olhos escurecendo com uma mistura de preocupação e reprovação, antes de virar para Druella e murmurar algo sobre a importância de reforçar as proteções mágicas ao redor das decorações.

— Sirius, leve Regulus para o quarto e certifique-se de que ele descanse. — disse ela, tentando retomar sua compostura habitual. — Não quero mais nenhuma cena dessas hoje.

Sirius assentiu rapidamente, pegando Regulus pela mão e ajudando-o a se levantar. Enquanto subiam as escadas, ele manteve o irmão perto, com um braço ao redor de seus ombros. Bella e Narcisa os seguiram a uma distância segura, como se quisessem garantir que não haveria mais problemas.

Assim que chegaram ao quarto de Regulus, Sirius o acomodou na cama e sentou-se ao lado, segurando sua pequena mão com força. Bella, agora mais séria, sentou-se no chão próximo, observando em silêncio, enquanto Narcisa, já aborrecida com o ocorrido, ficou encostada no batente da porta, ajeitando o laço do cabelo.

— Você tá bem, Reg? — Sirius perguntou, seus olhos brilhando com preocupação.

Regulus acenou lentamente com a cabeça, mas seus olhos ainda estavam arregalados, como se tentassem processar o que havia acontecido.

— Eu... não queria assustar você, Silius. Só queria pegar... a boboleta.

— Você é um bobo, sabia? — Sirius suspirou, soltando uma risada nervosa — Da próxima vez, deixa que eu pego essas coisas, tá? Você é pequeno demais pra essas aventuras.

Regulus fez um biquinho, claramente ofendido, mas antes que pudesse protestar, Bella interrompeu:

— Você precisa aprender a ser mais esperto, Regulus. As coisas na nossa casa nem sempre são seguras, sabia? Essa família toda adora colocar armadilhas por todo lado. — Ela falou com uma mistura de ironia e uma ponta de sabedoria precoce, como se já tivesse aprendido isso por experiência própria.

— Bella, não assusta ele mais ainda! — Sirius repreendeu, mas sabia que ela não estava exatamente errada.

Regulus finalmente relaxou, encostando a cabeça no travesseiro. Sirius continuou segurando sua mão até que ele pegasse no sono, seus pequenos dedos ainda agarrados aos dele. Naquele momento, Sirius sentiu um peso enorme em seus ombros, uma responsabilidade que ele não sabia se estava pronto para carregar, mas que faria de tudo para honrar. Porque, por mais que sua família não fosse perfeita, ele tinha Regulus. E isso era tudo o que importava.

Bella, ao perceber que Regulus dormia profundamente, levantou-se e deu um leve toque no ombro de Sirius.

— Vem, Six. Ele vai ficar bem.

Sirius hesitou por um instante, mas então se levantou, deixando Regulus descansar. Ao sair do quarto, olhou para Bella e Narcisa e sorriu levemente, um sorriso tímido, mas sincero. Mesmo que as circunstâncias fossem difíceis, ele sabia que podia contar com elas.


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Bella o encontrou mais tarde, quando todos já tinham ido dormir, sentado na árvore que fora novamente acessa, sozinho. Ela se aproximou e sentou-se ao seu lado, fazendo companhia e criando um silêncio gostoso. Ele tomou a palavra.

— Por que querem sempre falar de casamento, Bells? Eles sempre tratam isso quando estamos juntos.

— Eu não sei. — Ela deu de ombros, indiferente. — Parece que essa pureza de sangue é importante pra família, e achar um marido rico. Mas sinceramente, eu não quero um marido! Mesmo que seja rico. — ela fez bico.

— Vamos fugir! — ele sugeriu de repente, os olhos brilhando. — Mas vamos levar o Reg. E Andie.

— E a Cissy?

— Sim, ela também. Apesar de ser chata.

Bella tirou o bico para dar lugar ao sorriso que Sirius veria com frequência no seu rosto lindo, aquele sorriso carregado de muitos significados.

— Tá bom. Mas só se você me prometer que não vai casar com nenhuma menina Grengrass. — ela cruzou os braços, fingindo estar chateada.

— Muito bem, mas só se você me prometer que não vai casar com nenhum marido rico. — ele imitou o gesto.

E então eles gargalharam. Não simplesmente riram. Toda as duas preocupações, o peso da responsabilidade e o sentimento de distanciamento involuntário da família, tudo isso desapareceu.

— Você também não tem vontade de mudar o mundo, Six? — ela o perguntou, e mesmo no escuro, ele sentia o olhar dela pra ele.

— Sim, eu gostaria de mudar muita coisa.

Ela juntou o mindinho com o dele, significando um ato de cumplicidade.

E enquanto deitavam lado a lado, no chão frio da sala, Sirius prometeu a si mesmo que, um dia, encontraria um jeito de escapar daquele mundo sufocante e criar algo diferente. Algo que pudesse chamar de verdadeiro.



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