Auroras em tempo de guerra
5 Capítulo 4
As três meninas estavam paradas ao lado do caminhão, os braços entrelaçados, os corpos tensos. Tremiam — mas não era pelo frio. A adrenalina ainda vibrava sob a pele como eletricidade. A luz fraca projetada pelos faróis militares tingia a neve de um amarelo estranho, deixando tudo com um ar irreal, como se tivessem sido transportadas para dentro de um pesadelo congelado.
Ninguém dizia uma palavra.
Os dois soldados que as haviam encontrado trocaram um olhar rápido. Um terceiro homem apareceu por trás da carroceria, ainda com as luvas nas mãos e a respiração acelerada. Tinha o rosto mais jovem e uma expressão alerta, como se estivesse sempre pronto para reagir.
— O que está acontecendo aqui? (em finlandês)
— Turistas brasileiras — respondeu o ruivo, sem tirar os olhos das meninas. — Perdidas na floresta. (em finlandês)
— Brasileiras? — repetiu o mais novo, lançando um olhar avaliador de cima a baixo nelas. (em finlandês)
O soldado mais sério manteve o tom impassível:
— Isso não muda nada. A missão continua. (em finlandês)
O ruivo respirou fundo, tentando manter a calma:
— Já decidimos isso, Jari. Não vamos deixar elas aqui. Não outra vez. (em finlandês)
Jari apertou a mandíbula, mas não respondeu. Apenas desviou o olhar, como se engolisse a própria objeção.
O ruivo, agora com mais firmeza, se virou para as meninas.
— Entrem no caminhão. Fiquem abaixadas. E em silêncio. (em inglês)
Sofia hesitou por um segundo, depois assentiu. Apoiou Camila pelo braço, guiando-a em direção à traseira do caminhão. A lona foi erguida com um puxão rápido, revelando um espaço apertado entre caixas de suprimentos, mochilas pesadas e algumas armas presas nas laterais. O cheiro ali dentro era forte: gasolina, metal frio, couro suado.
Camila subiu primeiro, trêmula. Sofia veio logo atrás, lançando um último olhar para a floresta escura antes de desaparecer sob a lona.
— É temporário — disse o ruivo, olhando para Isabela, a última na fila. — Só até acharmos um ponto seguro. E não liguem os celulares. Eles podem atrair sinal. (em inglês)
Isabela parou um segundo antes de subir.
— Obrigada. Por não deixarem a gente. (em inglês)
O soldado a encarou com seriedade, mas sua voz foi suave:
— A gente não deixa ninguém para trás. (em inglês)
Ele abaixou a lona com cuidado, e Jari, do lado oposto, a prendeu em silêncio.
O caminhão rangeu quando os soldados subiram na cabine. Jari assumiu o volante. O ruivo — Mikko, como logo saberiam — tirou as luvas e girou lentamente o botão de um rádio preso ao painel. Um estalo. Depois estática. Fragmentos de voz entrecortados.
— Estão bloqueando tudo… — murmurou Mikko, quase para si mesmo. (em finlandês)
Lá dentro, as meninas estavam sentadas entre as caixas, os rostos pálidos sob o jogo de sombras projetado pelas frestas da lona. A escuridão parecia mais espessa agora, como se o próprio ar tivesse engrossado.
— E agora? — sussurrou Camila, abraçando o próprio corpo.
— A gente espera — respondeu Sofia, com a voz baixa. — E reza pra que esse caminhão não esteja indo pro lugar errado.
O motor rugiu de repente, vibrando sob os pés delas. O caminhão começou a se mover, avançando lentamente pela trilha coberta de neve. Do lado de fora, o mundo permanecia em silêncio — quebrado apenas pelo som mecânico e distante da guerra que se espalhava pelas sombras da Lapônia.
As três se entreolharam no escuro. Pela primeira vez desde que tudo começou, não estavam mais sozinhas.
Mas a dúvida ainda pairava no ar como a neve suspensa: estariam sendo salvas… ou levadas para algo ainda pior?
--
O caminhão avançava lentamente pela estrada coberta de neve. A floresta ia ficando para trás, apagada pela escuridão. O motor roncava constante, abafando o silêncio inquieto da noite. Dentro da cabine, a luz fraca do painel pintava de verde-azulado os rostos dos quatro soldados — marcados pela exaustão, pelo frio e por algo mais difícil de nomear.
Kalevi dirigia com as mãos firmes no volante, os olhos azuis fixos na estrada branca à frente. Sua expressão não se alterava. Calado como sempre, com o rosto anguloso e o cabelo loiro liso preso atrás da nuca, era como uma extensão da máquina — preciso, focado, quase inumano. A cada curva, ele manobrava com leveza, como se conhecesse cada centímetro daquelas trilhas geladas.
Ao seu lado, Jari estava inclinado sobre um tablet militar, o rosto iluminado pela tela cheia de pontos vermelhos. Seus olhos azuis — frios, calculistas — mal piscavam. O cabelo castanho, cortado rente, estava milimetricamente alinhado mesmo depois de horas sob o capacete. Alto e de postura ereta, com a mandíbula cerrada, exalava uma autoridade silenciosa. Era como se sempre estivesse três passos à frente, mesmo em meio ao caos.
No banco improvisado atrás, encostados na lateral metálica da carroceria coberta, estavam Mikko e Tapio.
Mikko, 1,85m, ruivo, com os cabelos úmidos pela neve e os olhos azul-claros refletindo inquietação, encarava a lona que os separava do compartimento de carga. Os músculos tensos por baixo da roupa de frio sugeriam prontidão constante, mas havia algo mais ali — uma gentileza contida, quase em conflito com o uniforme. Estava quieto, mas não ausente. Observava. Pensava.
Ao lado dele, Tapio, mais baixo que os outros, cabelos loiros bagunçados e olhos azuis sempre ligeiramente arregalados, tamborilava os dedos contra o coldre da perna. Era o mais jovem e isso transparecia — no modo como se mexia demais, no sorriso que teimava em surgir até nas piores horas. Seu casaco estava aberto até demais para o frio.
Por alguns instantes, ninguém disse nada.
Até que Tapio quebrou o silêncio com seu tom habitual — uma mistura de sarcasmo e leveza. (diálogo em finlandês)
— Acha que elas sabem onde se meteram?
Mikko respondeu sem desviar o olhar da lona.
— Sabiam o suficiente pra fugir da cidade. Já é mais do que muita gente conseguiu.
Tapio soltou um suspiro, sacudindo a cabeça com um meio sorriso.
— Turistas... Aposto que só vieram pela neve. Ou pra ver rena de perto. (faz um gesto com os dedos imitando chifres)
Jari não levantou os olhos da tela.
— Não estamos em posição de fazer piadas.
Tapio ergueu as sobrancelhas e recostou-se melhor no banco.
— Alguém sempre tem que ser o gelo da equipe...
Kalevi falou pela primeira vez, sem tirar os olhos da estrada:
— Melhor o gelo do que o fogo. (olhou rapidamente para Mikko pelo retrovisor)
Mikko arqueou as sobrancelhas.
— Ei, eu pensei antes de atirar dessa vez.
— Meio segundo antes — Jari rebateu com frieza. — Um dia, esse “meio segundo” vai custar a vida de alguém.
Mikko apertou os lábios, mais sério.
— Mas não foi hoje.
Tapio tentou desviar o rumo da conversa:
— Sabe o que me dá mais medo? O silêncio. Sem rádio, sem retorno. Parece que estamos jogando um jogo às cegas.
Kalevi murmurou, quase para si:
— Porque estamos.
Mikko olhou para os colegas
— A gente só tem esse mapa, essa estrada... e três civis assustadas na traseira. Se isso der errado...
Tapio levantou a mão, como se espantasse o pensamento.
— Não vai dar. Já passamos por coisa pior. Lembra daquele cerco na fronteira leste?
Jari finalmente ergueu os olhos do tablet, a voz cortante:
— Isso aqui não é só um cerco. É uma guerra real. Não temos retaguarda. Nem comando direto. É diferente.
Tapio, ainda tentando suavizar o clima, deu de ombros
— Pelo menos agora temos companhia feminina. Faz anos que não ouço uma voz que não seja de vocês.
Kalevi, seco, jogou um olhar pelo retrovisor.
— Se elas ouvirem você dizendo isso, voltam a pé pro Brasil.
Mikko soltou uma risada abafada.
— Deixa elas em paz, Tapio. Ninguém pediu por isso. Nem elas, nem a gente.
Um silêncio denso se instalou por alguns segundos. Só o ronco do motor preenchia a noite, e os feixes de luz dos faróis recortavam o branco infinito da neve.
Jari voltou a focar no tablet.
— Vamos levá-los pro posto antigo, perto da estação de radar. Se ainda estiver de pé, temos abrigo, comida pra dois dias... e talvez um rádio que funcione.
Kalevi completou, sem emoção:
— Se não explodiram ainda.
Mikko virou o rosto para a janela, vendo o céu estrelado surgir entre as árvores.
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O caminhão desacelerou, os pneus rangendo contra a neve endurecida. O motor ainda vibrava sob o capô quando Kalevi puxou o freio de mão com um estalo seco. O farol iluminou a construção adiante: uma estrutura baixa, de concreto envelhecido, meio encoberta por neve e parcialmente oculta entre pinheiros.
O letreiro enferrujado pendia torto sobre a entrada: POSTO DE COMUNICAÇÕES 14-B.
— Chegamos — murmurou Jari, guardando o tablet no bolso interno do casaco. (em finlandês)
Mikko foi o primeiro a descer. O ar cortante da madrugada o atingiu como uma lâmina. Ele ergueu a gola do casaco e seguiu até a traseira, erguendo a lona.
— Já podem sair. Mas devagar, e sem falar alto. (em inglês)
As três hesitaram por um segundo antes de se mexer. A madeira da caçamba estalou sob os pés de Sofia quando ela desceu, seguida de Isabela e Camila. O frio parecia ainda mais cortante fora do abrigo improvisado. Um vento agudo levantava a neve como poeira prateada.
Tapio já estava com a lanterna em mãos, indo na frente com passos leves demais para a situação. A luz tremeluzia contra as paredes do prédio, revelando pichações antigas e uma antena enferrujada ao fundo.
— Porta trancada. (em finlandês) — ele informou, depois de tentar a maçaneta.
Jari se aproximou. Um golpe rápido com a coronha da arma quebrou a fechadura. O som reverberou seco na neve.
— Vão! Rápido. (em finlandês)
Eles entraram. O interior era escuro, úmido e cheirava a mofo e ferrugem. Parte do teto tinha desabado nos fundos, mas o salão principal — uma antiga sala de rádio — ainda estava de pé. As paredes tinham mapas pregados, fios soltos pendiam do teto, e algumas estantes metálicas tombadas formavam sombras distorcidas.
Kalevi acendeu uma lanterna maior e começou a examinar os cabos expostos e os painéis quebrados.
— Se o gerador ainda estiver aqui, talvez eu consiga puxar energia suficiente pro rádio. (em finlandês)
Mikko virou-se para as meninas.
— Fiquem juntas. Não toquem em nada. E fiquem aqui dentro.
Sofia assentiu em silêncio. Camila se encostou a uma das paredes, sentando-se sobre a mochila. Estava exausta. Isabela, por outro lado, mantinha-se em pé, olhos atentos, como se esperasse ter que correr novamente a qualquer momento.
Tapio apareceu com um sorriso enviesado e uma garrafa térmica na mão.
— Chá? Alguém? — perguntou, como se aquilo fosse um piquenique.
Sofia ergueu as sobrancelhas, surpresa.
— Vocês sempre foram assim... descontraídos no meio do caos?
Tapio deu de ombros.
— Alguém tem que quebrar o gelo. Literalmente.
Mikko lançou-lhe um olhar de aviso.
— Isso aqui não é um acampamento de férias, Tapio.
— Mas pode virar um se a gente achar café — rebateu ele, já vasculhando uma caixa metálica no canto.
Enquanto isso, Jari examinava as janelas cobertas por placas de madeira. O som de algo arranhando o telhado o fez parar. Ele ergueu a mão em sinal de silêncio. Todos congelaram.
Kalevi, ainda agachado perto dos cabos, sussurrou:
— Gelo caindo. Só isso. (em finlandês)
Mesmo assim, os rostos permaneceram tensos.
Mikko passou por Sofia e se aproximou do rádio. Apoiou as mãos no painel, os olhos fixos nos mostradores quebrados. Murmurou, mais pra si mesmo:
— Espero que o Kalevi consiga da um jeito nisso.
Jari se afastou da janela, retomando o controle:
— Temos duas horas antes de tentar contato de novo. Se o sinal não voltar... seguimos. (em finlandês)
A lanterna de emergência projetava uma luz amarelada contra as paredes descascadas da sala de rádio. As meninas estavam sentadas próximas umas das outras, como se o calor entre os corpos pudesse enganar o frio que teimava em vazar pelas frestas. Lá fora, o vento assobiava, carregando flocos pesados contra os vidros cobertos de tábuas.
Por um tempo, nenhuma delas disse nada. O silêncio ali dentro era quase confortável — como o momento depois de uma tempestade, em que o corpo ainda está alerta, mas a alma já pede descanso.
Camila foi a primeira a falar, baixinho:
— Você acha que todos conseguiram se salvar?
Sofia olhou para o chão, depois lentamente para as outras.
— Não sei. Talvez... se correram na hora certa. Talvez alguém tenha conseguido ajuda.
— E o nosso quarto... — murmurou Isabela, puxando os joelhos para perto do peito. — Deixei tudo lá. Meus documentos, meu passaporte, o celular com as fotos do passeio com os cães da neve...
Camila soltou um riso breve, sem humor.
— Eu deixei meu casaco de verdade. Aquele que aguenta até menos trinta. E vim com o de patinação. Chique, sim... mas agora quero matar a estilista.
Sofia esboçou um sorriso cansado.
— A gente só queria uma noite de inverno perfeita, né? Patinar no lago congelado, chocolate quente, aurora boreal...
— E agora estamos escondidas num bunker com cheiro de mofo, com soldados armados e sem saber se vamos sair vivas daqui — completou Isabela.
Camila engoliu em seco.
— Eu só... não queria ter saído assim de casa. Sem me despedir da minha mãe. Sem saber que talvez... fosse a última vez.
O silêncio voltou, mais denso.
Sofia esticou a mão e apertou a de Camila.
— A gente ainda vai sair daqui. Vai contar tudo isso, escrever um livro, dar entrevista na TV.
Isabela riu com um som abafado.
— E vender os direitos pra Netflix. Com certeza vão fazer um filme. Um filme ruim, com gente bonita demais nos papéis.
— E atores falando português com sotaque gringo — completou Camila, rolando os olhos.
As três riram, dessa vez de verdade. Rápido, nervoso, mas verdadeiro.
Então, um barulho atrás delas. Um rangido leve.
Mikko estava de pé ali, com Tapio e Jari logo atrás. Eles encaravam as três com sobrancelhas franzidas, como se tentassem decifrar códigos secretos.
— Tudo certo? — perguntou Mikko, em inglês.
Sofia assentiu, ainda sorrindo.
— Sim. Só... conversando.
Tapio deu um passo à frente, curioso.
— Vocês estavam falando... em português?
— Sim — respondeu Isabela. — Nosso idioma.
Tapio cruzou os braços, fingindo suspeita.
— Isso é muito suspeito. Três civis cochichando num idioma que ninguém aqui entende. Isso parece... plano de fuga.
— Ah, claro — disse Camila, ironizando. — Vamos dominar o posto, pegar as armas, pilotar o caminhão e nos infiltrar atrás das linhas inimigas. Super realista.
Tapio sorriu.
— Então você tem um plano.
Mikko sacudiu a cabeça com um meio sorriso e se aproximou.
— Falem em inglês daqui pra frente, por favor. Só por segurança. A gente já está no escuro demais aqui.
Sofia assentiu, mais séria.
— Agora que estamos em um lugar "seguro — falou fazendo aspas com as mãos, — e temos que falar apenas inglês para vocês entenderem. Podemos pelo menos saber quem são vocês?
Os soldados trocaram olhares. Tapio deu de ombros e então começou.
Tapio apontou para si mesmo com um leve sorriso torto, a lanterna presa no colete refletindo nos olhos azuis vívidos.
— Eu sou Tapio. Responsável por logística, montagem de acampamento, e por manter o bom humor desse grupo de caras fechadas aqui. Se tiver uma mochila pesada, é comigo. Se precisar rir no meio do fim do mundo... também.
As meninas esboçaram sorrisos. Sofia ergueu as sobrancelhas, brincando:
— Tipo um guia turístico armado?
— Exatamente — disse Tapio, abrindo os braços. — “Lapônia: florestas, gelo e drones hostis. All inclusive.”
Ele então gesticulou para Mikko, que estava encostado à parede, observando a interação com uma expressão contida, quase envergonhada.
— Esse aqui é o Mikko. Nosso atirador mais rápido — quando não está sendo impulsivo demais pra pensar antes — mas com o coração mais mole de toda a Finlândia. É sério. Uma vez ele tentou salvar um esquilo ferido no meio de uma missão.
Mikko revirou os olhos, sem negar.
— Eu salvei elas também — murmurou.
Tapio riu e apontou para ele com um gesto dramático.
— Viu? Confirmação oficial. Mikko: ruivo, educado, e perigosamente gentil.
Depois virou-se para Jari, que mantinha os braços cruzados, observando tudo com a expressão fria e alerta de sempre.
— Esse é Jari. O cérebro da operação. Ele provavelmente já analisou as rotas de saída, o perfil psicológico de cada uma de vocês e o ponto mais fraco dessa estrutura só com esse olhar de “não tenho tempo pra piadinhas”.
Jari manteve o silêncio, mas Tapio piscou para as meninas.
— Ele não fala muito. Mas se ele disser “corram”, vocês corram. Sem discutir.
Por fim, indicou o soldado que estava agachado de volta aos cabos, ajustando os fios com paciência.
— E aquele ali é Kalevi. Piloto, mecânico, engenheiro improvisado, e provavelmente o motivo de termos alguma chance de contato com o mundo de novo. Se tiverem algum aparelho eletrônico quebrado, deixem com ele. Se tiverem emoções demais, deixem pra outro.
Kalevi apenas levantou os olhos, assentiu uma vez em silêncio, e voltou ao trabalho. Tapio ainda sorria, satisfeito com sua performance de mestre de cerimônias.
Foi então que Jari, com os braços ainda cruzados, olhou diretamente para Sofia e falou pela primeira vez em um tom mais informal:
— E vocês? Como se chamam?
A pergunta simples pareceu pegar o grupo de surpresa.
Sofia se endireitou um pouco, como se aquilo fosse parte de uma entrevista.
— Sofia. Jornalista. E… a responsável por essa ideia maravilhosa de férias na Lapônia — disse, com um sorriso meio irônico.
— Aventura demais pra uma só viagem, hein? — comentou Tapio, baixinho.
Isabela falou em seguida, com a voz firme, embora baixa.
— Isabela. Enfermeira. Eu vim pra descansar. Irônico, né?
Camila soltou um suspiro leve antes de falar, como se estivesse tentando transformar tudo aquilo numa cena de filme.
— Camila. Professora. Eu só queria ver neve de verdade. Patinar num lago congelado. Sabe? Tipo em filme europeu antigo...
— E acabaram num filme de guerra — murmurou Mikko.
— Sem dublagem — completou Tapio.
Sofia cruzou os braços, observando cada um deles antes de voltar a encarar Jari.
— Agora que vocês sabem quem somos… dá pra contar um pouco mais sobre o que está acontecendo lá fora?
Os soldados trocaram olhares. Um daqueles silêncios densos se formou no ar. Mikko pareceu buscar palavras, mas foi Jari quem falou primeiro.
— A missão inicial era simples — disse, a voz seca. — Reconhecimento. Marcar pontos de movimentação, instalar sensores no perímetro, recolher provas.
— Provas? — perguntou Isabela.
Jari completou, o tom sério de volta:
— Tecnologia nova. Sinais que não eram locais. Alguns até achavam que era só espionagem, outros falavam em exercícios de outro país... nada confirmado.
— Mas então... tudo explodiu. Literalmente. Drones invadiram o espaço aéreo, bases foram atingidas. O rádio parou. A rede caiu. E a missão virou outra. — Disse Tapio sentando-se no chão, apoiando os braços sobre os joelhos
— Caçar e sobreviver — disse Kalevi, sem tirar os olhos do painel danificado.
Mikko fez que sim.
— Perdemos contato com o comando depois de eles passarem a nova missão, logo após o bombardeio. Ninguém atende o rádio. As estações de monitoramento ficaram em silêncio. Equipes de resgate foram enviadas, mas... não tivemos contanto também.
— Agora o foco é localizar e neutralizar o máximo de armamento e presença hostil possível. E encontrar sobreviventes. Se existirem.
Camila abraçou os próprios joelhos.
— Vocês acham... que o país foi mesmo invadido?
Silêncio.
Jari encarou o chão por um instante, depois falou com a frieza de quem já aceitou o pior:
— A gente não tem certeza de nada. Só sabemos que estamos sozinhos. E que o quartel... pode não estar mais lá.
Sofia apertou os lábios. Seu olhar se voltou para as sombras projetadas pelas lanternas nas paredes de concreto manchado. Isabela tocou o ombro dela, um gesto mudo de apoio.
— Mesmo assim — disse Isabela, com firmeza — obrigada por não nos deixarem pra trás.
Mikko ergueu os olhos para ela, sério.
— A gente não deixa ninguém pra trás.
— Vamos dormi e amanhã nos levaremos vocês para algum lugar seguro com outros sobreviventes. — Disse Jari pegando a arma e indo para uma das janelas.
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