Aurora: a Mestiça
7 CAPÍTULO 6: Registros de confusão
O professor caminhou em direção à lousa, ligou um notebook e o quadro branco tornou-se digital. Exibiu um lindo plano de fundo de uma floresta. Ele esperou que todos estivessem acomodados e em silêncio antes de começar a falar.
— Wǎn shàng hǎo, classe! Eu me chamo Ming Pasu e serei seu professor de História Geral.
Alguns alunos murmuraram o quanto aquela aula seria chata, outros prestavam bastante atenção, enquanto alguns já colocavam as mãos e a cabeça sobre a mesa prestes a cochilar. Eu estava confusa porque ele falava diferente.
— Hoje nós iremos falar sobre a escola Plenluno, algum de vocês sabe por quê ela foi fundada? — O professor perguntou olhando para todos os alunos da sala.
Um menino na frente levantou a mão. Me senti aliviada ao ver alguém pronto para responder e não tive que me esconder debaixo da mesa.
— Para melhorar as relações entre os clãs e não haver mais conflitos entre eles.
O professor elogiou o comentário do rapaz, e, ao fazer um clique com sua caneta, a tela de fundo da floresta transformou-se em um mapa-múndi. Era bem parecido com o da Terra, mas alguns territórios demarcados eram maiores e outros menores do que eu me lembrava. Por exemplo, onde deveria estar o Brasil, país onde fui criada, parecia não existir, as demarcações eram totalmente diferentes.
— Há milhares de anos vivíamos de maneira isolada, somente seguindo nossos instintos. Entrávamos em diversas batalhas sangrentas e não vivíamos em sociedade. — O professor começou sua aula. — Com o passar dos anos, alguns vampiros perceberam que viver em comunidades trazia uma maior chance de sobrevivência e começaram a criar relações, famílias, vilas e cidades.
Ele clicou em sua caneta mudando a tela mais uma vez.
— Claro que nessa época, os clãs não existiam, eram mais grupos pouco organizados. A partir do momento em que o acordo de paz foi feito pela nossa queridíssima diretora, os clãs foram criados e seus líderes definidos. Depois disso, houve alguns conflitos, como, por exemplo, a invasão Ukidan no território de Tiwi ou dos Valayas que acabaram pôr o fim ao clã Mah, por acreditarem que eles desobedeciam ao acordo de paz.
Mapas mostravam a localização de Tiwi e de onde seria o clã Mah. O professor circulou em vermelho com seu pincel na lousa. Cerrei os olhos tentando imaginar onde seriam tais lugares em meu mundo, uma pena ser péssima em geografia, mas ao menos reconhecia que ficavam na Ásia.
— Mesmo que os Valayas, inicialmente, tenham sido o maior clã por séculos. Dois outros clãs começaram a crescer e são tão grandes quanto. Alguém aqui sabe quais são?
Assim que o professor perguntou isso, eu me encolhi. Esperava que alguém levantasse a mão e respondesse. O loiro do grupo dos garotos populares respondeu sem levantar a mão.
— Jad e Pasu.
— Muito bem! Depois que a paz se instaurou eles se aliaram comercialmente. Sendo países vizinhos, tudo seria mais fácil. Óbvio que o clã Valaya desconfiou dessa aliança e sempre manteve olhos aberto nos dois. No fim, os três tornaram-se aliados. São eles que influenciam nossos gostos, padrões de beleza e a moda. — O professor queria continuar a sua aula, mas acabou sendo interrompido por risadas que vinham do grupo do quarteto de garotos que faziam as meninas se derreterem.
O garoto de óculos colocou a mão na boca, parece que foi ele que riu, depois o loiro e o do cabelo castanho também seguraram os risos e o indiano cobria seu rosto com a mão, tentando fugir dos olhares duros do professor.
— Olha só que coincidência! — disse o professor, olhando para os quartos e todos nós olhamos para eles também. — Se não temos dois Valayas, um Pasu e um Jad juntos ali. Já que estamos falando sobre os seus clãs, por que vocês não vêm aqui na frente fazer uma demonstração das suas habilidades?
O quarteto se olhou, depois os dois que sentaram na frente se levantaram e o garoto do cabelo castanho empurrou o loiro para ir sozinho, os três foram em direção ao professor. Os meninos estavam claramente constrangidos, o rapaz dos óculos mexia as mãos de maneira nervosa, o garoto da lótus cruzava os braços e o loiro revirava os olhos e suspirava o tempo inteiro.
— Se estavam conversando e fazendo piadinhas em minha sala, então já devem saber de tudo, mas nem todos os alunos vêm de clãs grandes como o de vocês, por que não se apresentam? — O professor pediu, sentando à sua mesa e colocando a mão no queixo esperando que os rapazes falassem.
— Nǐ hǎo! Eu sou Chang Pasu — começou o menino dos óculos. Eu achava que ele seria o último a falar por aparentar ser o mais tímido. — Clã Pasu tem habilidade de se transformar em animais e eu sou especialista em aves. — Ele parecia animado ao falar aquilo.
Méilie puxou o meu braço e sussurrou o quanto ele era lindo e fofo. Eu a olhei com os olhos arregalados, ela tinha mesmo uma quedinha por aqueles meninos. Pedi que ela se acalmasse, para não sermos as próximas a recebermos bronca do professor.
Chang respirou fundo e fechou seus olhos. A sala inteira ficou em silêncio, todos prenderam a respiração, aguardavam um espetáculo. Quase caí para trás ao ver o que surgiu diante de meus olhos. Olhei para os lados e percebi que muitos na sala estavam boquiabertos.
O rapaz encolheu, seus braços adquiriram plumas brilhantes e azuladas, seu pescoço se alongou e um bico surgiu de sua face. Um pavão desfilava diante de nós, exibindo as belas penas de sua cauda. Fiquei chocada com a transformação! Vi alguns alunos impressionados também, mas os outros dois rapazes ao seu lado não estavam nem um pouco surpresos. A maioria das meninas aplaudiram e elogiaram. O que fez o pavão virar a cabeça parecendo constrangido. Quando ele voltou a sua forma original, seu rosto estava corado com tantos elogios.
— Hey! Eu também sei me transformar numa ave! — O loiro disse, com ciúmes do outro ter recebido muitas atenções. — Me chamo Oliver Valaya e o poder dos Valayas é invocar um círculo dourado. — Nesse momento ele estalou os dedos e um círculo surgiu no chão ao seu redor. Tive que me levantar para ver melhor, outros alunos fizeram o mesmo e o professor não reclamou. O círculo era de um dourado cintilante e cercava o garoto. — E com isso posso fazer qualquer coisa, inclusive me transformar numa ave.
Oliver também começou a se transformar, não virando uma bela ave, mas sim um morcego que voou pela sala toda, assustando algumas meninas. Confesso que ri, era engraçado ver pessoas que se diziam vampiros com medo de morcegos. Ele voltou ao seu lugar e adquiriu sua forma original.
— Morcego não é uma ave! — Chang o criticou.
— What? Aquela coisa voa! — retrucou Oliver.
— Você é burro? Morcegos são mamíferos!
O último rapaz resmungou alto o suficiente para parar a briga entre os outros dois. Ainda de braços cruzados, ele deu alguns passos para frente e se apresentou.
— Good evening! Eu sou Ali Jad e posso dizer que o clã Jad possui duas habilidades. Nós conseguimos ler mentes, acessar memórias e modificá-las. Além disso... — Nesse momento, a sua voz vinha atrás de nós e nos viramos para encontrá-lo na porta da sala. — Somos os vampiros mais rápidos. — Ele disse dando um enorme sorriso, mostrando bem as suas presas brancas.
O garoto retornou a frente. As meninas sussurravam o quanto eles eram incríveis. Confesso que minha paciência para todos esses murmurinhos estava acabando! Não entendia o que eles tinham demais! Além, é claro, do fato de poderem se transformar em pavões, morcegos, e correrem como a própria luz, mas isso deveria surpreender apenas a mim, não é verdade?
— Xiè xiè meninos. E espero que vocês prestem mais atenção nas aulas, principalmente você, Oliver, por achar que morcego é uma ave.
Depois do que o professor disse, todos caíram na gargalhada, inclusive os amigos do garoto. Os meninos voltaram aos seus lugares e ficaram em silêncio. Aprendi naquela aula que cada clã tinham habilidades únicas e um líder para representá-los.
***
Eram onze da noite e Méilie me levou ao refeitório. Os alunos podiam tomar uma garrafa de sangue. Pegamos as nossas bebidas e sentamos em um lugar disponível. Confesso que relutei em beber. Méilie abriu sua garrafa e deixou o líquido escorrer para um copo, o cheiro metálico tornou-se atrativo ao meu olfato, estava com muita fome e aquele odor me fez salivar.
Tentei enxugar minha saliva com os dedos de maneira discreta. Abri minha garrafa e despejei o sangue assim como Méilie fez. Relutante, levei o copo à minha boca e tomei um gole. O gosto era uma delícia e a culpa que eu sentia foi-se embora assim que os sabores explodiram na minha língua.
Nós duas bebemos quase tudo enquanto conversamos. Ela adorava falar e contava sobre a série que estava assistindo agora, um grupo de adolescentes Valayas e ricos estava sendo chantageados por um influenciador que mantinha sua identidade secreta, contando todos os seus segredos. Por algum motivo, eu acho que há uma série bem parecida no meu mundo, mas não conseguia lembrar o nome. Ela contava de maneira empolgada o que tinha ocorrido nos últimos episódios e eu só podia achá-la uma fofa.
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