Aurora: a Mestiça

6 CAPÍTULO 5: Mergulhe


A garota me olhou surpresa. Balancei minha cabeça percebendo o quanto fui indelicada ao ficar encarando e estendi minha mão num cumprimento educado e me apresentei.

— Eu sou Aurora, sua nova colega de quarto.

Ela pousou sua pequena mão na minha. Suas unhas eram longas e pintadas de roxo, a sua pele era macia e delicada. Ela era tão pequena que parecia uma bonequinha ou uma personagem de anime.

Bonjou! — Ela me cumprimentou. — Me chamo Méilie. — Sua voz era doce como um brigadeiro. — Méilie Semitochi. — repetiu, acrescentando seu sobrenome. — Qual o seu clã, Aurora?

Meu clã? Eu não pertencia a clã algum, nem mesmo sentia-me parte daquele mundo. Antes que eu pudesse responder sua pergunta, ela bateu sua mão na testa dizendo o quanto era boba e apontou para o brasão em meu uniforme. Naquele momento reparei que o meu brasão era diferente do brasão em seu uniforme. O dela tinha o formato de um olho.

O o mezanmi! Você é uma Valaya! — Ela parecia surpresa ao conseguir identificar o símbolo. — Não te incomoda que eu seja sua colega de quarto?

Olhei a garota pequenina à minha frente e ela me parecia uma garota normal. Tirando o fato de que ela era uma vampira, não tinha por que eu me incomodar com sua presença.

Padon por ser rude, mas é que os Valayas… não andam apenas com clãs grandes? — Ela me perguntou com o seu rosto ficando levemente avermelhado.

Valaya… foi o que a diretora falou do clã da qual meu pai pertencia, não foi? Então por ele ser um Valaya eu pertenceria ao seu clã? Até mesmo em meu horário escolar esse nome estava escrito. Peguei o papel que estava no bolso da calça que deixei no banheiro e o li. Lá estava, quinta-feira, a segunda aula era de História Valaya, seja lá o que significasse. Méilie me olhou curiosa e quis dar uma conferida no papel que eu segurava.

— São seus horários? — Ela me perguntou.

Eu não me incomodei de lhe entregar o papel. Ela o contemplou com admiração dizendo que teríamos a maioria das aulas juntas, parecia que estávamos no mesmo ano.

— E qual o seu clã? — Eu perguntei sem querer deixar que o assunto morresse entre a gente, e quanto mais eu soubesse daquele lugar, melhor seria para minha sobrevivência de três anos.

— Eu não lhe disse mais cedo? Sou uma Semitochi. Meus olhos não são óbvios?

Olhei novamente para aqueles olhos cor-de-rosa, eles tinham uma cor sobrenatural, mas, ao mesmo tempo, não pareciam falsos. A menina ficou constrangida por eu encará-la por tanto tempo.

— Se puder me evitar olhar assim, eu agradeceria. — Ela pediu. Com sua vozinha era impossível que aquilo soasse rude.

— Desculpa, eu apenas não achei que fosse a cor natural dos seus olhos, são diferentes…

Ela pareceu constrangida e incomodada com meu comentário. Oh céus! Eu devo ter sido rude sem perceber. Imediatamente, pedi desculpas e lembrei-me da história da diretora que ela me pediu para contar, que eu vinha de um grupo nômade de humanos e era uma burra para aquele mundo novo cheio de clãs. A segunda parte até que era verdade, mas a primeira eu precisava memorizar bem para não acabar contando histórias diferentes.

— Você é uma mestiça?! — Seus olhos se arregalaram. — Uau! Agora entendo você não ter percebido que sou uma Semitochi, mas Mezanmi! Você é uma mestiça Valaya, como isso é possível?

Apenas dei de ombros. Achei que mentia mal, mas se aquela garota acreditou em mim, poderia significar duas coisas, ou eu estou aprendendo a mentir, ou ela era muito ingênua.

— Mas não se preocupe, Aurora, eu vou ajudá-la no que precisar, aliás –, ela apoiou suas mãos nas minhas —, sinto que vamos ser melhores amigas daqui pra frente!

Correspondi ao seu sorriso de maneira hesitante. Eu não sabia se seriamos melhores amigas ou o que esse mundo reservava para mim, apenas queria os três anos passassem o mais rápido possível para eu voltar pra casa.

***

Passei o restante da madrugada lendo com o auxílio da luz de uma luminária que ficava ao lado da cama. Queria entender mais sobre aquele mundo, então comecei a ler sobre a aula que teria na noite seguinte, História Geral. O livro era gigantesco e pesado. As primeiras páginas davam uma pequena introdução sobre os vampiros e descrevia uma guerra. Confesso que não consegui entender muito bem, talvez por ter muita coisa passando pela minha cabeça, precisava ler alguns parágrafos mais de uma vez. Estava tão cansada que me deixei vencer.

Pousei o livro na mesa de cabeceira e Méilie apressou-se em fechar as cortinas pesadas do quarto. Eram cinco da manhã e nós nos preparávamos para dormir. Minha colega de quarto vestia um pijama rosa e pegou seu celular para assistir uma série até pegar no sono. Eu vesti um pijama preto e só queria dormir e pensar que tudo não havia passado de um sonho muito maluco.

***

Senti algo em meu braço, ainda sonolenta, me virei. Mas novamente, fui interrompida, o lençol foi arrancado de mim e, quando abri meus olhos, achei que ainda estivesse de madrugada. Quando minha visão se acostumou à escuridão, percebi que não estava no meu quarto e uma menina de cabelos roxos se agitava na minha frente tentando me acordar.

— São sete e meia! Você ainda precisa se arrumar. As aulas começam às oito! – Ela me apressou puxando minhas pernas para fora da cama.

Para uma menina baixinha e magrinha ela era forte. Lutei sem muita força para continuar na cama. Ela me deu um puxão e eu caí com a minha cara no chão, aquilo doeu! Méilie pediu padon em meio às risadas. Confesso que me deixei ser contagiada pelo seu riso e entrei na gargalhada. Ela já estava vestida com o uniforme da escola. Os cabelos bem penteados e, novamente, com o laço na cabeça, usava pequenos brincos e seus lábios tinham brilho de gloss.

Me arrumei rapidamente. Méilie me esperava enquanto batia seus pés impacientemente com os seus tênis coloridos. Ao terminar de me vestir e pentear meus cabelos, coloquei os livros na mochila.

— Não vai se maquiar? — Méilie perguntou.

Olhei para ela. Comparado nós duas, ela estava bem mais arrumada do que eu.

— Não uso maquiagem. — Eu disse, e era verdade.

Paloma, uma vez, tentou me ensinar a usar maquiagem. Seus pais eram cabeleireiros, então ela entendia muito bem de cabelo e make, mas eu não tinha paciência alguma para aquilo. Demorava muito tempo para fazer e eu nem conseguia ficar tão bonita. Comecei a aceitar minha feiura natural.

— Ah! Mas se você quiser que eu faça uma maquiagem em você um dia, me avise. Hoje não, porque já estamos quase atrasadas, vamos!

Méilie me puxou pela mão e nós corremos numa velocidade sobrenatural. Meus cabelos agora estavam todos desarrumados devido à corrida. Ao chegarmos à sala indicada, muitos alunos estavam do lado de fora, a maioria deles conversava casualmente e uns poucos mexiam em seus celulares de forma solitária.

A minha colega de quarto pareceu aliviada ao perceber que o professor não havia chegado ainda. Nós entramos e a sala estava tão cheia quanto o lado de fora. Méilie queria sentar na frente, de acordo com ela, se tivéssemos um professor bonitão poderíamos admirá-lo de pertinho. Fiz uma careta com aquele comentário, eu não esperava por aquela justificativa, mas eu consegui convencê-la a sentar no meio da sala comigo.

Estar na fileira da frente era constrangedor! O professor te encarava e esperava que você fosse o melhor aluno e o mais comportado. No fundo da sala também não era uma boa ideia, as pessoas só se sentavam no fundão para conversar ou ficar trocando cartinhas. O meio, por outro lado, era perfeito! Nem muito na frente para o professor achar que você era super inteligente, nem muito atrás para você se meter com as pessoas erradas.

Enquanto eu pegava meu livro e caderno da mochila, observei os alunos da sala, alguns estavam sozinhos e outros conversavam em grupos de amigos. Todos os seus uniformes tinham brasões, havia uma diversidade incrível de desenhos e eu só conhecia dois deles: Valayas e Semitochis.

Notei que o brasão Valaya estava presente em muitos alunos, os do Semitochi, apenas, notei em outras duas meninas. Era isso que ela queria dizer sobre clãs grandes e pequenos? Quantidades de pessoas? Antes que eu pudesse continuar pensando sobre os desenhos e seus símbolos, ouvi gritinhos de felicidade de garotas, como se elas vissem algum Idol.

Méilie e eu, instintivamente, nos viramos para trás. O motivo dos gritos das garotas acabava de entrar na sala. Era um grupo de quatro meninos.

O primeiro deles era o típico padrão de garoto bonito, branco, com leves sardas pelo rosto, seus cabelos eram loiros e seus olhos tinham tons claros. Ao invés do blazer do uniforme ele usava um moletom azul com um grande Gukke escrito, que suspeitei ser a marca da roupa. Em seus pés havia um tênis de cano médio azul neon.

O segundo deles era um rapaz também branco, de cabelos castanhos e lisos. Ele usava um alargador na orelha esquerda. Seu blazer estava amarrado na cintura, estando apenas com a camisa branca do uniforme, exibindo seus braços fortes e bem definidos, o cinto das suas calças tinha pequenas correntes e a gravata frouxa.

O terceiro garoto se assemelhava com alguém vindo do leste asiático, tinha o cabelo e olhos negros, era o mais magro do grupo. Usava grandes óculos quadriculados. Seu blazer era ornado de bottons de nomes e desenhos que eu não sabia o significado, ao contrário dos dois anteriores eu consegui identificar o seu brasão, era um dragão. As suas calças não iam até o fim das suas pernas, exibindo um pouquinho da sua pele que o tênis branco não conseguia cobrir.

O último deles tinha a pele morena e os cabelos negros ondulados, parecia um rapaz vindo da Índia. Possuía pequenos brincos dourados em cada orelha. As mangas de seu blazer iam apenas até os cotovelos, exibindo tatuagens em seu braço esquerdo. O brasão do seu uniforme era uma flor-de-lótus e ele usava calças pretas e o seu tênis era preto com solas brancas.

As meninas não paravam de olhar para eles, inclusive Méilie. Os quatro meninos sentaram-se juntos, os rapazes brancos atrás, enquanto os que pareciam asiáticos sentaram-se à frente, os quatro conversaram entre si. Algumas garotas tomaram iniciativa de ir falarem com eles. E era impressão minha ou o rapaz de cabelos castanhos parecia flertar com todas elas?

— Eles não são lindos? — Ouvi Méilie suspirar.

Os flertes foram interrompidos com a presença do professor que acabara de chegar.