Aurora: a Mestiça

41 CAPÍTULO 40: Lide com isso


Cheguei em frente à sala da diretora como o vento e abri a porta com todas as minhas forças, ignorando se minha presença era desejada ou não. Eu faria qualquer coisa para proteger a minha mãe, seria capaz de matar a periguete da Kaila se fosse preciso.

Todos na sala se assustaram com a minha presença abrupta. Com a minha respiração ainda ofegante, encarei a sala cheia, todos sentados, conversando como seres civilizados que fingiam ser. Estavam presentes Sebastian e as mulheres que o acompanharam, Thomas e um casal, um casal desconhecido, Ali e seu pai.

— Olha só! A bitch de quem falávamos apareceu — disse Kaila, cruzando os braços.

A garota tinha um novo penteado, do qual escondia o lado da cabeça onde arranquei tufos do seu cabelo dourado. Ela sentava no meio de duas mulheres, as mesmas que acompanharam Sebastian na noite em que o vi.

— Sem palavras de baixo calão, Kaila! Ainda estamos na escola. — A diretora a reprimiu.

A loira não disse nada, contentando-se em revirar os olhos. Uma segunda pessoa conhecida veio na minha direção, Ali também se fez presente naquela reunião, ele retirou o blazer do uniforme que vestia e me cobriu.

— Você não devia andar pela escola vestida assim.

Olhei para baixo e corei ao perceber que usava a manta hospitalar, torci para não ter mostrado minha bunda para todo mundo. Aceitei o blazer com timidez e o amarrei na cintura. Ali também me ajudou a me sentar numa poltrona, ele permaneceu em pé ao meu lado.

Diante de Sofia, achei que a diretora brigaria comigo por eu ter chamado toda a atenção, mas ela apenas me deu um sorriso doce.

— Agora que está aqui poderia nos contar sua versão dos acontecimentos — pediu.

— Nada disso! — Uma mulher loira a interrompeu. — Ela machucou o meu bebê, não há outra versão dos fatos. — Provavelmente a mãe de Oliver.

— Ali nos contou uma versão diferente da de Thomas — disse Sofia. — Mas só quem esteve presente naquele momento foi Aurora e Oliver, então, devemos ao menos ouvi-la.

Ali apertou os meus ombros e pediu que eu me acalmasse, ofereceu uma bebida, mas eu não sentia fome, pelo contrário, estava muito enjoada. Respirei fundo, ignorei os olhares sobre mim e pouco a pouco as memórias retornaram a minha mente, relatei tudo o que eu pude com detalhes, como os garotos atacaram os humanos, depois avançaram sobre mim e a confusão final.

— A história dela bate com a de Ali — concluiu Sofia.

— Meu Thomas nunca mentiria! — A mulher sentada ao lado de Thomas protestou.

— Então a senhora está insinuando que o malik de Tiwi é um mentiroso? — Desta vez foi o pai de Ali que falou, lançando um olhar duro à mulher.

Impotente na presença do monarca, ela apenas abaixou a cabeça e pediu desculpas. Voltou a se sentar com as mãos no rosto, sentindo culpa e vergonha. Olhei para Ali e perguntei o que estava acontecendo.

— Se a senhora não acredita em mim, posso pedir que um outro Jad leia a mente de Thomas para comprovar se ele está mentindo ou não. — Ali me ignorou para se dirigir a mulher.

Seus olhos se arregalaram e ela pediu desculpas novamente. Incrível como a monarquia tinha poder sobre os outros!

— Ainda acho que ela deva ser punida! Ninguém invoca Raios Solares como modo de defesa, isso foi claramente um ataque! — Foi a vez do pai de Oliver falar.

Raios Solares?! O que é isso?

— Punir uma princesa? Vocês não estão falando sério? — A voz grossa e assustadora de Sebastian ecoou pela sala.

Os pais de Oliver se encolheram diante de Sua Majestade. Tentaram me encarar, mas seus olhos não se sustentavam sobre mim, pude sentir raiva vindo deles, mas espera um momento! Princesa? Como assim uma princesa?

Kaila pareceu perceber a minha confusão e soltou um riso.

— A coitada nem sabe o que é Raios Solares — debochou. — Você, Aurora, consegue fazer os Raios Solares, quer dizer que você pode invocar uma luz tão poderosa quanto o sol, capaz de transformar qualquer vampiro em pó, os únicos que tem tais habilidades são os Valayas da família real. Parabéns! Você é uma princesa.

Me levantei de repente sem acreditar no que dizia, a Kaila gostava de mentir, eu não podia ser uma princesa… eu não aceitava ser parente da Kaila! Encarei Sebastian, que mantinha o semblante sério. Ele não era o meu pai, era totalmente diferente da foto que Sofia me deu.

— Aurora! — A diretora me chamou. — O seu pai se chamava Derek Valaya, ele era um príncipe, filho do meio de Sebastian, ou seja, você é uma princesa. — Ela abaixou as sobrancelhas.

A imagem do meu pai adolescente invadiu a minha mente, naquela foto ele me parecia um menino comum, mas ele era um príncipe? Filho do Sebastian? Ele era irmão da Kaila?! Era tanta informação invadindo a minha mente que fiquei tonta. Ali me segurou nos braços e me ajudou a sentar novamente.

— Sendo Aurora uma princesa, ela não deve ser punida, mas sim aqueles que a atacaram. Durante todo o ano escolar, Oliver e Thomas a ameaçaram e há provas. Fui testemunha de um destes ataques e ela relatou suas perseguições no jornal da escola. — Ali me defendeu na frente de todos. — Se há alguém para punir devem ser Oliver e Thomas, eles ameaçaram e atacaram um membro da monarquia. Qual a sentença para este tipo de crime no clã Valaya, rei Sebastian?

Sebastian não esperava pela fala de Ali, ele colocou a mão no queixo e observou os dois casais acompanhado de Thomas, o menino ficou branco igual um fantasma enquanto aguardava que sua majestade falasse.

— A sentença é a morte.

A mãe de Thomas se jogou no chão e começou a chorar, implorando pela vida do filho. O rapaz tentou segurar o choro ao se encolher no sofá.

— Aurora. — Ali pousou suas mãos em meus ombros. — Você é a princesa quem eles perseguiram e atacaram, a decisão de anistia ou punição é sua.

Continuei confusa com tanta informação, não conseguia decidir nada naquele momento. A mãe de Thomas puxou o marido para ficar de joelhos no chão e os dois se arrastaram até os meus pés e os beijaram enquanto imploravam perdão. Aquela cena me deu uma grande vergonha alheia.

Odiava Thomas, desejei que ele morresse várias vezes, mas naquele momento, vendo sua família se humilhar na minha frente, me fez ter um pouco de pena. Eu não queria que ele morresse de verdade, mas também não queria que saísse impune.

— E-eu… — Minha garganta estava muito seca. — Não há outra opção além de punir com a morte?

Sebastian me encarou diretamente nos olhos pela primeira vez, os mesmos olhos negros como obsidianas de Kaila e do meu pai.

— O que tem em mente? — Ele perguntou.

— Trabalho comunitário. Quando eu trabalhava para Ruan, eles atrapalhavam o meu serviço e zombavam de mim, agora eu quero que eles sirvam, não somente a Ruan, mas aos humanos também que frequentam a sorveteria também.

Pude ver um pequeno sorriso se formar nos cantos dos lábios de Sebastian, a humilhação devia diverti-lo, pois ele concordou. Thomas e Oliver teriam trabalhos considerados indignos.

A mãe de Thomas voltou a beijar os meus pés enquanto declarava o quanto eu era benevolente. Eu apenas queria que ela parasse de babar em mim!

O marido a levantou do chão. Sofia pediu que os pais de Thomas e Oliver se retirassem da sala, restando apenas a família real Valaya e Jad. De repente o ar da sala mudou, tornando-se pesado e frio.

— O que pretendem fazer com a Aurora? — Ali encarou Sebastian. — Se derem a ela o mesmo castigo de Derek, saibam que ela não nasceu em Daiyra, as regras do clã não se aplicam. Também dou a minha palavra de levá-la para Tiwi e protegê-la.

— Não ousaria fazer mal algum. — Sebastian respondeu. — Ela é parte da família, pretendemos levá-la para casa e tratá-la como tal.

— Diz isso, mas foi capaz de matar o próprio filho. — O pai de Ali interrompeu.

— Oras, Zahir. O meu filho descumpriu as leis do clã e teve que ser punido, mas nós nunca tivemos leis contra mestiços, pois nunca houve um em nosso clã até agora. — Sebastian olhou para mim antes de continuar a conversa com o imperador de Tiwi. — Não é culpa dela ter nascido e não podemos deixar um membro da família desamparado. Eu seria um tipo de monstro se a deixasse sozinha, não acha?

Com um gesto de mãos, a mulher de cabelos castanhos ao seu lado se levantou e aproximou-se de mim, pegou em meus braços, temendo que eu fosse um fantasma, suas mãos tocaram o meu rosto e deixou que lágrimas escapassem pelos seus olhos azuis.

— Você tem os olhos dele, do meu Derek. — Ela chorou em meu colo.

Eu não sabia o que fazer, pedi ajuda para a diretora. Não aguentava mais mulheres chorando em cima de mim! Quem veio ao meu socorro foi Sebastian, que puxou a mulher com delicadeza pelos ombros fazendo-a se levantar. Ela enxugou suas lágrimas com os dedos.

— Como podem ver, não ousamos fazer mal algum. Adoraríamos conversar com Aurora após as aulas acabarem. — Sebastian disse olhando para os dois Jads e depois para mim.

Me senti envergonhada. Já não tinha mais a adrenalina que me fez correr todo o percurso até a sala. A diretora achou melhor eu voltar para a enfermaria, concordei, ao me levantar senti dor nos pés. Ali me segurou pelo braço e se ofereceu para me levar de volta.

— Chame uma enfermeira, não é trabalho de um príncipe. — Kaila encarou seu noivo.

— Eu quero fazer isso. Ela é minha amiga e quero conversar com ela. Vamos, devagar.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.