Aurora: a Mestiça

40 CAPÍTULO 39: Corra, coelhinha, corra


Um homem corajoso se levantou, fez a mesma saudação que o monge fez para nós quando chegamos. Com toda a serenidade na voz e olhar, perguntou o que os rapazes desejavam. Os vampiros alargaram um sorriso assassino.

— Seu sangue! — Respondeu Oliver ao avançar no pescoço do homem.

Gritos ecoaram pelas paredes de madeira, as mulheres correram para pegar as crianças, homens tentaram revidar, mas os rapazes usaram seus poderes para jogá-los contra a parede. Thomas agarrou uma mulher que tentou fugir e rasgou seu pescoço.

Não consegui ficar parada observando tal atrocidade. Tinha poderes e iria usá-los!

— Parados aí! — Gritei.

Os rapazes largaram suas vítimas no chão. Oliver limpou os filetes de sangue do canto dos seus lábios, já Thomas estava coberto de sangue por sua vítima ter tentado lutar.

— Além de sangue fresco parece que vamos conseguir um sangue muito especial esta noite — disse Thomas, lambendo os lábios.

— Quietos! Ou vou usar meus poderes em vocês — ameacei, já preparando os dedos para estalá-los.

Eles riram da minha coragem, tentei não demonstrar fraqueza. Já logo invoquei um círculo nos pés de Thomas e o rapaz congelou como uma estátua, mostrando seus dentes num largo riso sangrento.

— Oh! A bravinha está tão corajosa! — Oliver debochou. — Mas será capaz de lutar contra nós dois? Você? Uma mestiça, com as piores notas da turma?

Continuei fingindo que suas palavras não me atingiam, foquei em manter Thomas congelado, mesmo sentindo que ele lutava para se libertar. Oliver apenas observou aquilo com toda a calmaria e depois soltou um riso maligno.

— Se lembra daquela noite em que eu disse que quando estivesse sozinha nós iriamos te pegar? Então… acho que esta noite chegou. — Oliver mostrou suas presas para mim.

Achei que era capaz de enfrentá-los, mas aquele seu olhar faminto era assustador! Era como se a minha frente estivesse uma onça selvagem pronta para me devorar.

Oliver pulou em cima de mim, me derrubou no chão, sua boca tentava alcançar o meu pescoço, usei toda a minha força para mantê-lo longe de mim, precisava ser rápida, pois Thomas logo se recuperaria do meu ataque. Pensei rápido e usei minha perna para chutar Oliver no meio das pernas, o garoto gritou de dor, apesar de ser um vampiro, ainda era um menino com bolas frágeis.

— Corra, coelhinha, corra, pois quando te pegarmos vamos te devorar. — O ouvi ameaçar às minhas costas.

Segui correndo pelos corredores desconhecidos. Não sabia para onde estava indo ou se dava voltas, em um momento eu ia para a esquerda, em outros, para a direita. Os ouvia vindo atrás de mim e eu não podia vacilar. Ziguezagueava na tentava de despistá-los. Aquilo era um verdadeiro jogo de caça.

O templo parecia muito mais um labirinto, me sentia tonta, mas eu não podia parar, ou seria o meu fim. Decidi entrar na primeira próxima porta de papel que encontrei e entrei. Tentei conter minha respiração e agitação. Precisava ser racional, tinha de ter um jeito de avisar aos professores.

Peguei o celular do bolso, meus dedos tremiam de adrenalina e foi um sufoco para diminuir a luz e ainda pior para digitar, disquei o número de Méilie. Telefone fora de área, não havia sinal naquele monte. Maldito lugar inóspito!

Ouvi passos, os dois meninos sussurravam entre si. Minha agitação impedia de compreender suas palavras, eles se divertiam como caçadores. Peguei o spray de pimenta do meu bolso e apertei firme contra o peito, agora era a hora de usar aquilo!

— Coelhinha? Cadê você?

Os rapazes pararam diante da porta, podia ver suas sombras. Oliver abriu a porta de papel, avancei, acertando-o com o spray em seus olhos, o menino gritou. Empurrei Thomas contra a parede e voltei a correr pelos corredores. Infelizmente eu não era rápida o suficiente e Thomas conseguiu me alcançar jogando-me contra a parede de madeira, para minha sorte ainda tinha o pequeno frasco em meus dedos e lancei um jato nos olhos claros dele.

Consegui me soltar de seus braços e voltei a correr. Parei diante de uma porta no fim de um corredor, rezei para que ela estivesse destrancada. A porta de madeira se abriu, revelando as árvores coloridas da floresta fantasmagórica, para tornar tudo ainda mais apavorante chovia forte e a lua não mostrava seu brilho. Sem pensar duas vezes, me lancei em direção a floresta. Preferia enfrentar os espíritos malignos a dois vampiros selvagens.

A chuva dificultou a minha visão noturna, eu não era acostumada a andar descalça, então as pedrinhas no caminho machucavam os meus pés. Ouvi um rugido selvagem, de congelar a espinha. Virei-me para trás e avistei um rapaz de cabelos claros e com os olhos azuis vermelhos pelo spray de pimenta, mas ele já não era o mesmo de antes. Não era um simples vampiro adolescente, era um monstro selvagem. Seu rosto se contorceu de forma assustadora, suas mãos possuíam longas garras e suas presas estavam mais longas que o normal. Não sabia dizer se era minha imaginação, a verdade é que eu congelei

Ele avançou sobre mim, derrubando-me no chão. O spray deslizou da minha mão e sumiu no meio das folhas secas que caiam sobre a terra. Tateei o chão em sua busca enquanto Oliver continuava a me agarrar. Consegui me soltar, deixando meu blazer em suas mãos e me levantei para continuar correndo.

Eu não iria ganhar deles em velocidade e o spray não me salvaria, precisava lutar, usar todo o conhecimento que consegui nas aulas práticas e teóricas. Havia um mix de emoção em meu peito, uma mistura de medo, angústia, solidão e raiva, entre outros mil sentimentos que eu não conseguia definir com clareza, só desejava que ele sumisse da minha vista, que ele desaparecesse e nunca mais ousasse a me atacar. Desejava que ele morresse e virasse pó!

Virei-me para encarar o garoto, ergui os meus dedos em posição de ataque. Oliver se aproximou, soltou um riso animalesco ao me ver tentando lutar. Não sei dizer até que ponto sua nova face era verdadeira ou apenas fruto da minha imaginação.

— O que vai fazer comigo, coelhinho? Hun? Acha que vai conseguir lutar?

Não sabia o que faria, nenhum dos ensinamentos de Hilary vinham na minha mente, nem mesmo conseguia proferir palavras. Só conseguia sentir, ódio, desprezo, um desejo insaciável de que ele tinha que morrer, virar pó.

Com um estalar de dedos invoquei o círculo dourado a seus pés, e como uma luz divina, um clarão dourado surgiu em meu círculo. Oliver caiu no chão gritando de dor, um cheiro de queimado adentrou pelas minhas narinas e a pele clara do rapaz adquiriu queimaduras e bolhas vermelhas. Por mais assustador que aquela cena pudesse parecer, ela me deu uma sensação de alívio e eu não conseguia parar. Para mim, ele tinha que sumir!

— Aurora!

Alguém me chamava, eu não me importei em ignorar ao seu chamado.

— Aurora! Para!

Meu único foco agora era transformar aquele maldito Valaya em poeira.

— Aurora!

A voz tornou-se mais forte e alguém apareceu em minha frente, me envolvendo em um abraço. Meus braços foram abaixados e o círculo com a luz dourada cessou. Sentia-me tonta, minha visão embaçada impedia de ver quem era a pessoa a minha frente, seus lábios se mexiam, mas tudo o que ouvi foram zumbidos. De repente, tudo escureceu e eu apaguei em seus braços. A última coisa de que me lembro foi do cheiro doce de âmbar.

***

Uma chuva grossa caía sobre uma floresta noturna e fantasmagórica. Alguém gritou o meu nome no meio de um clarão dourado. Não conseguia ver nada, apenas senti o cheiro de sangue, âmbar e dor. O que era tudo isso? Não! Faça parrar! Isso dói!

Gritei ao acordar, meu peito subia e descia com rapidez, coloquei minha mão no pescoço e pude respirar ao senti-lo inteiro. Assim que minha visão se adaptou as luzes fracas, observei ao meu redor, cortinas brancas, uma maca, cheiro de álcool e remédios. Estava na enfermaria da escola?

Pressionei os dedos sobre minhas têmporas tentando entender o que aconteceu. Oliver e Thomas me atacaram? O que foi aquele clarão? Por que estávamos de volta na escola? Não tínhamos viajado? Tudo foi um sonho?

As cortinas se abriram, e de lá, Méilie e Chie se revelaram com seus olhos coloridos marejados. A Semitochi pulou em cima de mim para um abraço apertado, ela derramou rios de lágrimas sobre mim, pedi que se afastasse, pois sentia que seu abraço me quebrar em pedacinhos. Chie a ajudou a se controlar.

— O que aconteceu? — Perguntei ao notar suas caras de preocupação.

As duas trocaram olhares cúmplices.

— Ficamos com medo de te perder. — Méilie não parava de chorar.

— Estão dizendo que você atacou o Oliver-San, ele está tão machucado que foi internado num hospital em Daiyra. — Chie falou com uma voz rouca.

Senti minha cabeça dilatar, flashes de memória voltaram a minha mente. Pude ouvir os gritos de Oliver e ver sua pele se transformar em carne viva. Eu o machuquei? Mas como eu fiz aquilo? Ou ficamos tanto tempo fora do templo que amanheceu?

— Todo mundo tá fofocando que você vai ser expulsa. — Chie continuou.

Non! Não quero que você vá embora! Você foi minha primeira amiga, eu amo você, Au, não deixem que te levem! — Méilie chorou em meu colo.

— A Kaila-San também surtou, disse que descobriu quem são seus pais. Estamos temendo por você, de ser morta, de seus pais serem mortos… — Pude perceber medo em sua voz. — A família real Valaya está toda reunida na diretoria agora.

O quê?! Kaila descobriu sobre os meus pais? Ela sabia da outra dimensão? Não me importava de ser expulsa, só não permitiria que ela ou qualquer Valaya que fosse fizesse mal a minha mãe!

Ignorando toda a dor que eu sentia, me levantei da cama, cambaleei tonta, mas devido ao medo e a adrenalina, eu saí em disparada para fora da enfermaria, nem Chie, Méilie ou qualquer enfermeiro conseguiria me impedir.