Aurora: a Mestiça
39 CAPÍTULO 38: Se recusando a voltar para trás
Não acredito que Chang contou que se encontrou com Méilie! Ele não podia ter aguardado voltarmos para a escola?
Kaila riu sem acreditar, insinuou que Chang jamais namoraria algum plebeu de clã pequeno, pois era um dos nobres mais importantes de Dagar, país do clã Pasu. Sua declaração fez o sangue de Méilie ferver.
— O Chang não é como os outros nobres! — Méilie gritou. — Ele não se importa com títulos ou origem! — Sua fala deixou todas quietas. — Ele não é como você, que é preconceituosa com clãs pequenos, que não sabe respeitar as diferenças. Você maltrata até o seu noivo, que é um príncipe herdeiro, só por ele ser filho de uma mestiça. Você não presta, Kaila! Você é uma vagabunda!
Méilie permaneceu de punhos cerrados e com o coração palpitando a mil por hora, ela mantinha o peito estufado e o olhar firme, determinada com o que acabara de dizer. O ambiente permaneceu em silêncio, nem lágrimas escorriam mais dos olhos de Elis. Kaila se levantou e ficou frente a frente com a minha amiga, esperávamos um contra-ataque em palavras, mas veio em forma de um tapa. Eu não iria permitir que ela batesse em Méilie, então, de imediato, por puro instinto e raiva, puxei os seus cabelos cacheados, Kaila gritou, depois me empurrou.
— Não encoste em mim, mestiça! — Bravejou.
— Você que nem ouse encostar na Méilie!
Já faz um tempo que queria dar uma boa surra nela, não conseguia me conter mais. Voltamos a nos atacar, foi sua vez de puxar os meus cabelos, lhe dei um tapa para que me soltasse. Méilie e Elis tentaram nos separar enquanto chamavam pelos professores.
Em pouco tempo, algumas professores entraram em nosso quarto e nos separaram.
— Querem ficar sem nota? Se continuarem brigando as mandarei de volta para Plenluno sem nota! — Elas ameaçaram.
Nós duas nos encaramos sem dizer mais nada, em minhas mãos continha um tufo de cachos dourados, ela tinha uma falha no cabelo bem visível, bom saber que os vampiros não recuperavam o cabelo com tanta rapidez. Também sai marcada, ela conseguiu arranhar o meu rosto com suas unhas, uma das professoras precisou comprar uma bandagem adesiva para mim.
Por mais que tenha tomado uma bronca e ainda saído arranhada da briga, me senti vingada depois de muito tempo aguentando os abusos dessa garota! Dormi com um sorriso no rosto, amanhã seria nosso último passeio antes de voltarmos para a escola.
***
O ônibus nos levou até O Monte da Abundância, um dos maiores vulcões inativos do mundo. Muitos alunos resmungaram sobre o último passeio ser para um lugar chato, sendo que o da noite anterior tinha sido incrível. O monte possuía uma vasta floresta, e no topo dele, um templo cheio de monges.
Méilie cutucou o meu braço, assim como eu, ela sentiu o gostinho da vitória na noite anterior, sorriu para mim e eu rir de volta. Ela me puxou para perto e sussurrou no meu ouvido que tinha me mandado uma mensagem. Peguei o meu celular, mas não recebi nada.
— Esse lugar não tem sinal! — Méilie colocou as mãos no rosto cheio de lástima. — Que lugar terrível! Pior passeio de todos!
Realmente, além do lugar ser um tédio, ainda ficaríamos sem celular. O que diabos os professores tinham na cabeça? Méilie me mostrou a mensagem do seu próprio celular, falava como seria legal se Ali e Chang namorasse a mim e ela. Eu apenas revirei os olhos.
Sim, eu tive que contar para ela com quem me encontrei do outro lado do fio vermelho, reforcei que nós dois éramos apenas amigos, eu tinha um namorado, Ali estava de casamento marcado e ponto final. Mas a mente romântica de Méilie não tirava férias.
Ao descemos do ônibus, uma professora me perguntou se eu precisava trocar o curativo em meu rosto, agradeci e disse que não precisava. Alguns vampiros eram respeitosos, ao menos.
Os alunos resmungaram ao avistar uma enorme escadaria que nos levaria ao topo do monte, não tinha elevador. Por que eles reclamariam de escadas se possuíam uma resistência maior do que os humanos? Eu que teria problemas para subir tudo isso.
Subimos os degraus de madeira, os professores contavam lendas sobre fantasmas na floresta, os alunos tentavam conseguir um sinal de celular.
— Tem tecnologia para foguetes, mas não tem para sinal de celular na floresta!
Era uma reclamação que eu tinha que concordar.
Quando chegamos ao topo, pudemos ver um grande templo vermelho e dourado, decorado com luminárias de pedra. Fomos recebidos por um homem baixinho de olhos miúdos, vestido como um monge budista com sua cabeça raspada, seus olhos tinham o mesmo tom de vermelho dos outros Mustas.
— Gasshō. — O homem nos cumprimentou juntando as mãos e curvando-se.
Os professores fizeram o mesmo e os alunos imitaram. Uma professora Musta explicou que alguns homens e mulheres abandonavam a vida mundana para viver em templos, os mais respeitáveis e solitários monges viviam naquele monte.
Admirei a floresta ao redor, ela tinha tons de vermelho e amarelo como o local da qual iríamos entrar, pareciam tão radiantes mesmo naquela escuridão. Seria mesmo um lugar em que fantasmas moravam? O monge nos convidou a entrar.
Por dentro, as paredes do templo possuíam um tom bege contrastando com o marrom da madeira, o chão amadeirado era bem limpo e liso. O monge nos pediu para retirarmos nossos sapatos. Adentramos mais ainda no local, não havia muita decoração, uma planta bonsai aqui e acolá, alguns vasos, e as portas eram de papel com desenhos que representavam a fauna e flora local.
Ele nos levou a uma sala aconchegante, com uma mesa baixa e almofadas no chão, outros monges se apresentaram para nós. Fomos convidados para jantar com eles. Pensei que ser monge e vampiro era algo contraditório, monges pregam a paz e a não-violência, certo? Como vão beber sangue? A resposta para a minha pergunta veio logo em seguida.
O monge que nos recebeu, colocou uma pequena noz em cima da mesa, sua casca era branca, mas por dentro ela era vermelha, parecia muito um pistache, com exceção de sua cor. Ele disse que aquele fruto se chamava rakta e era a única fruta que possuía propriedades semelhantes ao sangue para um vampiro. Nós teríamos nossa primeira refeição vegetariana naquela noite ao bebermos suco de rakta.
Sangue humano ou animal era proibido entre os monges daquele templo. Apesar de não precisar matar para poder se alimentar, justificavam que sugar sangue de um ser vivo era como drenar um pouco de sua alma. Eu nem imaginava que vampiros poderiam ser religiosos!
O monge narrou histórias sobre monges e budas do passado, como foram essenciais para cuidar de vampiros e humanos nos tempos de guerra, eram muito agradecidos por Sofia ter tomado a iniciativa de paz no mundo.
— Ruim! — Ouvi Méilie resmungar ao beber sua janta.
Me distrai tanto com as histórias que esqueci de tomar o suco, provei, o gosto era amargo e longe de ser saboroso como o sangue humano. Poucos foram os alunos que aprovaram a bebida, a maioria fez careta.
Uma professora interrompeu o monge para explicar que apesar de uma alternativa, a rakta não podia substituir um sangue humano para nós adolescentes, já que estávamos em fase de desenvolvimento. Rakta tinha propriedades menos nutritivas para nós, isto deixa os vampiros mais fracos, para adultos e em tempos de paz, como o nosso, se tornar vegetariano não era um problema. Tal assunto, fez o monge voltar a contar suas histórias de guerra.
Enquanto todos ouviam os contos ou conversavam entre si, notei Oliver e Thomas saírem discretamente da sala. Eu devia chamar um dos professores, mas eles estavam tão vidrados na história e bebericavam o suco com calmaria, que fiquei com dó de incomodá-los. Decidi fazer o mesmo que os meninos e me arrastei para debaixo da mesa e saí pela mesma porta de papel que eles, sem fazer barulho. Qualquer coisa, eu tinha o spray de pimenta no bolso.
Segui os meninos que sussurravam entre si. A pouca iluminação do ambiente feita pelas lanternas de papel fez suas sombras parecerem assustadoras. Esperava que eles não me notassem.
— Tem certeza de que é por aqui? — Perguntou Thomas.
— Ya, esses monges acolhem humanos fugitivos, eles devem estar em algum lugar desse maldito templo. Aquela frutinha não saciou a minha fome.
— Nem a minha. Preciso de sangue humano!
Ouvi bem o que eles disseram? Eles planejavam atacar humanos? Torci para que Oliver estivesse equivocado sobre ter humanos naquele lugar, não desejaria que nenhum deles fossem atacados. Continuei seguindo os meninos em silêncio.
Thomas parou o outro e cheirou o ar, depois apontou para uma porta de madeira. Oliver apertou a maçaneta, mas ela não abriu.
— Certeza? — O loiro perguntou ao outro.
— Estou sentindo o cheiro, pode acreditar. Tem humanos aí dentro.
Oliver puxou a maçaneta com força e a porta se quebrou. O estrondo assustou as pessoas de dentro da sala, homens, mulheres e crianças, de diversas etnias, com roupas semelhantes à dos monges que se preparavam para dormir em suas camas no chão se assustaram com a presença dos adolescentes.
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