Aurora: a Mestiça

30 CAPÍTULO 29: Eu odeio me sentir assim


Paloma e eu fomos comprar roupas de banho para a festa de aniversário de Laura. Comprei um biquini preto. Paloma comprou um maiô verde e óculos escuro.

— Não podemos esquecer do protetor solar — disse ela. — Você tá mais branca do que antes, amiga. Não tinha sol na Europa?

— Nem! Lá é frio, amiga — menti, na verdade eu só não andava mais durante o dia.

Aproveitamos mais do nosso tempo juntas para comprar bijuterias. Paloma questionou o fato de eu ainda não ter decidido furar minhas orelhas, ela amava brincos e tinha um piercing no nariz.

— Prometi pra mamãe.

A verdade é que minha mãe não queria que eu furasse nada, só depois dos dezoito.

— Filhinha da mamãe! — Brincou. — Você tem sorte de ter uma mãe tão amável. A minha foi uma vaca que me abandonou. — Ela deu de ombros, sem se importar. — Não faça essa carinha triste, amiga. Eu amo os meus pais. E você também tem um pai babaca, não é? Ele abandonou você e sua mãe.

— Ela disse que ele morreu.

Paloma me encarou profundamente, ela nunca acreditou na história de que meu pai faleceu antes de eu nascer, achava que eu e minha mãe fossemos abandonadas. Talvez fosse isso que nos aproximou e nos tornamos amigas.

— Deixa desse papo triste, a ajudei a escolher um par de brincos!

Paloma saiu de lá com três pares de brincos e temeu que recebesse um castigo por gastar em excesso do que seus pais tinham permitido.

***

O dia da festa chegou. Acordei naquela manhã animada. Desde que me mudei para aquele mundo sobrenatural sentia falta de um churrasco, o mais próximo disso foi salgadinhos barbecue.

Vesti meu biquini e uma roupa casual por cima, desta vez usaria um short e não uma calça, como de costume. Peguei minha mochila e corri para fora assim que ouvi a bicicleta chegar. Antes de sair, dei um beijo na minha mãe, que sorriu ao me ver tão feliz.

Com rapidez, coloquei meu capacete e subi na garupa da bicicleta, beijei meu namorado e passei meus braços por ele.

— Nossa! Eu vou comer até estourar! — Exclamou Vítor enquanto pedalava.

Encontramos meus amigos no portão, com cara de decepção. Estacionamos a bicicleta e perguntamos o que houve, eles responderam que para entrar na festa eram necessários convites, algo que ela não explicou nos stories. Maldita! E ainda gastamos nosso dinheiro comprando um presente!

— Ah não! Eu vim até aqui e só saio com um espetinho na mão! — Vítor disse, indignado.

Ele foi até os fundos da casa em busca de uma nova entrada, demos de cara com a porta que levava direto para a piscina. Ele pegou na maçaneta e a abriu. Isso! Já podíamos ouvir as pessoas brincando na piscina e sentir o cheiro de churrasco. Sem esperarem por nada, meus amigos e Vítor avançaram para dentro. Eu, por outro lado, fui impedida por uma força invisível. Não consegui atravessar a porta, tentei usar todas as minhas forças para entrar e fui jogada para fora.

Meus amigos voltaram, espantados com o que acabaram de ver.

— Isso foi algum tipo de convulsão? — Questionou Renan, muito preocupado.

Vítor correu até mim e levantou a minha cabeça, perguntou se tinha me machucado. Coloquei a minha mão na cabeça, confusa. Por que eu não consigo entrar na casa? Quando criança eu sempre vinha aqui. Então me lembrei de uma fala de Chie “cada pessoa tem a sua lista de indesejados. Eu estava na lista de indesejados de Laura? Era bem capaz. Que droga! Ela precisa me convidar para entrar.

Pedi que chamassem a Laura. Meus amigos protestaram, explicando que ela me odiava, e ao me ver, seria capaz de me mandar embora. Não importava muito se ela me expulsasse agora, eu não conseguia entrar de qualquer maneira. Após muitas exigências, Paloma e Renan entraram na casa novamente para chamá-la. Vítor ficou comigo.

— Não dormiu bem por conta do fuso horário? — Ele segurou as minhas mãos com firmeza. — Eu vejo você online até três da manhã…

— Eu dormi bem essa noite, foi só uma tontura.

— Você nunca tem tonturas, amor!

Tentei me levantar, Vítor insistiu para que eu permanecesse sentada. Lhe expliquei que estava bem, já não me sentia mais tonta. No momento da nossa discussão, ouvi alguém chamar o meu nome.

— Aurora?

Bem diante de nós, estava Laura. Ela vestia um biquini cor-de-rosa, que realçavam o tom de castanho dourado da sua pele. Seus olhos cor de mel me encararam com desdém, ela não desejava minha presença ali, dava para sentir. Jogou seus longos cachos castanhos presos num rabo de cavalo para trás, num gesto esnobe.

— Que agradável surpresa! — Ela disse sarcasticamente enquanto mexia no seu anel de prata no dedo. — Achei que estivesse na Europa.

— Voltei para as férias, não poderia perder seu aniversário, sabe que adoro churrasco — respondi no mesmo tom.

— Trouxemos um presente. — Vítor nos interrompeu, entregando uma sacola a ela.

Laura aceitou o presente com doçura, já que era de Vítor. Ao abri-lo, viu que era um perfume Lily Eau, o que ela sempre usava. Nós quatro juntamos nossas economias para comprá-lo. Sem o convite para entrar, Vítor ameaçou de irmos embora. Apertei sua camisa e pedi para que repensasse.

— Não tem churrasco na Europa — murmurei. — Não tire este prazer de mim! Pense nos espetinhos.

A garota colocou o presente de volta na sacola, nos encarou mais uma vez, enquanto rodava o anel prateado com desenho de uma coruja de um lado para o outro. A conhecia bem o suficiente para saber que aquele gesto significava que ela pensava seriamente sobre o assunto. Ganhou aquele anel de seu pai, disse que era uma herança de família, toda vez que ficava nervosa ou pensativa, ela o girava.

Seus dedos pararam e ela deixou o anel em paz, concordou em me deixar entrar. Como se um campo de proteção invisível houvesse se desfeito, eu finalmente, pude colocar meus pés dentro da casa.

Tinha me esquecido o quanto a casa de Laura era grande, a piscina possuía uma área exclusiva para crianças, onde irmãos menores de alguns colegas brincavam acompanhado de suas mães. Os homens preferiram ficar mais perto da churrasqueira para abocanhar a comida com mais rapidez.

Paloma e Renan já escolheram seus lugares junto com outros colegas e nos chamaram para sentar com eles. Vítor e eu puxamos algumas cadeiras brancas de plásticos e levamos para mesa, Laura se separou de nós para entrar na piscina com suas amigas, que a esperavam.

A trilha sonora era composta, em sua maioria, por Leo Santana e Wesley Safadão, infelizmente nada de rock. Os colegas que sentaram conosco me perguntaram sobre meus estudos na Europa e como eu tinha conseguido a bolsa de estudos. Ótimo, além de mentir para uma escola de vampiros, vou ter que mentir para a minha antiga escola também?

Um menino ofereceu cerveja para nós, Vítor disse que eu não iria beber naquela tarde e pediu um suco de goiaba para mim. Não importa o quanto de cara feia eu fizesse, ele não mudou de ideia, não desejava que eu ficasse tonta novamente. Deixei passar, por ser uma atitude muito fofa.

Garçons passeavam com as carnes em longos espetos, tanto eu quanto Vítor nos empanturramos de comida. Paloma preferia comer frango, enquanto Renan adorava fígado e coração. Quando era por cerca de quatro da tarde, fomos para a piscina, o sol já não estava tão violento naquela hora. Renan e Paloma disputavam quem pulava espirrando mais água. Vítor e eu só ficamos nadando, relaxando e nos beijando.

Infelizmente, não foi possível conter o barulho do roncar da minha barriga. Opa! Virei para os lados desejando que ninguém sangrasse.

— Ainda está com fome? Depois de tudo aquilo de carne? — Vítor riu. — Esfomeada!

Não estava no clima de brincadeiras, lhe dei um beijo e pedi licença. Saí da piscina e à passos rápidos fui pegar minha mochila, infelizmente tinha muita gente ao redor, corri para o banheiro, trancado. Decidi ir beber lá fora, saí pela mesma porta que entrei. Observei os lados e não vi ninguém, abri a mochila e peguei a garrafa de sangue que guardei em uma bolsa térmica. Quando senti o sangue escorrer pela minha garganta senti um grande alívio. Aquela bebida era mágica! Saciava não somente a fome e sede, como qualquer angústia que sentia.

O o mezanmi!

Ao ouvir a expressão que Méilie tanto falava, me engasguei. Ela estava aqui? Ou foi fruto da minha imaginação? Não podia ser! Eu não estava com tanta saudade assim de Plenluno. Méilie podia ser um amor, mas não era motivo forte o suficiente para que me desse vontade de voltar para a escola. A voz continuou:

— Seu avião atrasou de novo?!

Segui o som e observei Laura no telefone. Senti um alívio no meu peito, não era nenhum vampiro daquele mundo esquisito. Era só Laura conversando com o pai ao telefone. Seu pai era estrangeiro, de acordo com ela, francês. Por isso ela falava algumas expressões em outras línguas com ele, já que foi criada num lar bilingue. Voltei a beber, fingindo que não a ouvia.

— Essa é a mesma desculpa que me deu no ano passado!

Uma pausa.

— Não me importo com os presentes, eu queria o meu pai aqui! Estou fazendo dezesseis anos! É tão injusto!

Ela desligou o telefone com raiva, o apertou com força, se tivesse força de um vampiro teria quebrado. Rangendo os dentes, pegou o anel de seu dedo e o jogou no chão. Segurou as suas lágrimas com força e recitou um mantra. Ao se acalmar, ela se abaixou e pegou o anel de volta.

Laura seguiu o caminho para entrar na casa e me encontrou, ela elevou seus lábios e debochou o fato de eu estar bebendo sozinha, imaginando que eu tinha trago alguma bebida alcoólica. Apenas a ignorei e voltei a beber, ela entrou, sem dizer nada. Esta era a minha atual relação com minha ex-melhor amiga de infância.