Aurora: a Mestiça

29 CAPÍTULO 28: Você tem me dado paz de espírito


Vítor e eu saímos juntos para assistirmos a um filme. Há tempos não fazíamos coisas apenas a dois. Demos uma boa olhada nos filmes em cartaz. Eu detestava filmes de besteirol americano e romances água com açúcar, os tolerava apenas por minha mãe. Vítor me levou para olharmos os filmes de terror, que é o meu gênero favorito.

Meu namorado olhou atentamente para os cartazes, ele tinha um gosto menos exigente que o meu, como gostar da franquia Premonição. Preferia filmes de aventura, a saga Star Wars era a sua favorita, mas ele não se importava de ver um filme assustador comigo naquela noite.

— Que tal esse? — Ele apontou para um cartaz de um padre rezando com um terço, cruzes invertidas ornavam a parede e uma mulher gritava ao fundo. Com certeza um filme sobre demônios.

— Parece O Exorcista. Não sendo igual ao filme de 77, eu topo! — Falei, animada.

Vítor riu com o meu comentário e fomos comprar nossos ingressos. Ainda tínhamos algumas horas antes da sessão começar, então decidimos ir até às Americanas comprar algumas guloseimas, ele pegou um pacotão de jujubas e eu preferi batatinhas. Depois brincamos um pouco na área de jogos, o jogo de dança e de hóquei de mesa eram os meus favoritos, eu sempre o vencia nos dois. Para compensa, lhe dava milhares de beijos.

— Admito minha derrota, comprarei um milkshake pra você, qual sabor?

“Qualquer um que não fosse de chocolate.” Quis responder, mas respondi que adoraria um de doce de leite, que era o meu sabor favorito. Não tinha milkshake de doce de leite em Plenluno, e Méilie, supôs que meu sabor favorito era chocolate.

Tomamos nosso shake enquanto observávamos as vitrines de mãos dadas, passamos por uma lojinha de rock e observamos algumas camisetas. O filme logo começaria, então, voltamos para o cinema, compramos refrigerante e entramos na sala. Nos acomodamos nos lugares, nossos dedos entrelaçados juntos no outro, assim como nossos lábios, sua boca tinha gosto do shake de morango. Nos separamos apenas quando o filme começou, abrimos um salgadinho.

A primeira cena mostrava o padre indo até uma casa, pronto para exorcizar um demônio. Ok, um clássico. Mastiguei um salgadinho enquanto mantinha meus olhos vidrados na tela. Uma menina foi tomada pelo diabo e esbravejava insultos ablastêmicos, o padre precisou recitar milhares de palavras em latim e dar um banho de água benta na menina para expulsar o diabo.

Depois do seu trabalho feito com sucesso, o padre voltou para casa, o céu se aproximava do amanhecer, e para nossa surpresa, o padre se dirigiu ao porão, onde lá um caixão o aguardava. O homem retirou a batina e se deitou no caixão. Os espectadores fizeram um coro de “Oh!” no cinema. O padre era um “demônio”, um vampiro.

Quase cuspi toda a minha Coca-Cola. Ah, não! Não! Não! Eu só queria esquecer toda essa história sobre vampiros! Por que estou assistindo a um filme com esta temática?

Vítor notou que eu fiquei assustada e segurou minha mão.

— O que houve? — perguntou, preocupado. — Está achando o filme assustador? Se quiser, podemos sair.

O filme não era assustador, se assemelhava muito à Blade, só que o protagonista usava batina e exorcizava demônios ao invés de passar a espada no pescoço de cada um. O problema é que eu não queria me lembrar do que eu era, do que passei naquela maldita escola, eu só queria ser uma adolescente normal durante as férias.

Todos os estereótipos clássicos de vampiros foram utilizados. O padre usava luvas para não tocar na bíblia e nem nos crucifixos. A água benta que carregava era guardada em um recipiente superprotegido. Temia prata, alho e estacas de madeiras, dormia em caixões e saia apenas a noite.

Não evitei rir dos estereótipos equivocados, muitos alunos gostavam de comida temperada, já avistei alguns alunos com terços no pescoço, além do símbolo do clã Genesi ser uma cruz. E ninguém dormia em caixões, quem diabos faria isso? Um caixão parece tão desconfortável!

Vítor estranhou as minhas risadas, não havia nada na tela que pudesse causar risos. Se ele soubesse… quanta coisa estava errada, também riria. Preferi fingir que lembrei de algo engraçado, ele não ficou muito satisfeito com a resposta, mas aceitou.

Saímos do cinema sentindo emoções diferentes.

— Esse filme me surpreendeu pra caralho! — Comentou Vítor, emocionado. — Não foi tão assustador assim, mas senti um arrepio na espinha em alguns momentos. Fora que adorei a mensagem do filme. O padre precisou enfrentar o seu próprio demônio, que no caso, era ele mesmo. Genial!

Dei uma risada forçada. Não consegui gostar do filme, todos os estereótipos de vampiros de alguma forma me ofenderam. Vítor notou minha cara de decepção e sugeriu de irmos à livraria, onde ele achava que iriam e animar, já que eu gostava de ler e minha matéria favorita da escola era Literatura.

Começamos a olhar os lançamentos, a maioria eram livros de romance água com açúcar, que eu detestava. Só aceitava Orgulho e Preconceito porque era o favorito de minha mãe.

— Olha aqui! Esse livro do Lestat você ainda não tem, não é? — Vítor me mostrou um livro da coleção de Anne Rice, uma das minhas autoras favoritas.

Infelizmente eu já não conseguia ver os seus vampiros com os mesmos olhos, eles eram assustadores, sexys e muito góticos, mas os verdadeiros… eram tão semelhantes aos humanos que se tornavam piores. Pedi para Vítor guardar o livro, não iria levar.

— Achei que você fosse fã da Anne Rice, amor. Seu filme favorito não é Entrevista com o Vampiro?

— Eu ERA fã da Anne Rice — disse. Chega dessa coisa de vampiros! — Essa coisa de vampiros é muito chata, já chega!

Vítor arqueou as sobrancelhas. Ele sabia que eu amava criaturas sobrenaturais na literatura, sejam vampiros, lobisomens ou bruxas. A maioria dos livros que estavam na minha cabeceira de cama tinham essa temática.

— Você enfrentou algum vampiro na Europa? — Ele debochou. — Você é uma caçadora de vampiros e não pode me contar por que pode ser perigoso?

Queria que isso fosse verdade, me imaginei atingindo Kaila no peito com uma estaca de madeira. Um sorriso macabro escapou dos meus lábios, como eu queria que isso fosse possível. Ela merecia! Saboreei meus lábios ao pensar em Oliver e Thomas sendo queimados por crucifixos e água benta.

— Oh! Como descobriu? — Entrei na brincadeira, fingi que tudo era verdade. — Tem alguns vampiros que gostaria de caçar. — Não era mentira.

Saímos da livraria rindo, criávamos histórias de caçada de vampiro enquanto aguardávamos um Uber nos levar para casa. A primeira parada foi em minha casa, ao vê-la, senti um alívio no peito. Estava de volta! Que alegria! Vítor me deu um beijo de despedida e disse que mandaria uma mensagem quando chegasse em casa.

Desci do Uber e admirei minha casa por um tempo. Amava esta vida e não gostaria de trocá-la por nada neste mundo.

***

Tive que me dividir entre passar um tempo com minha mãe, meus amigos e Vítor. Algumas vezes, Vítor me acompanhava nos rolês com meus amigos, como naquele final de semana em que fomos jogar Just Dance na casa de Renan.

O cheiro de tapioca vindo da cozinha me fez salivar, por mais que não matasse a minha fome, não deixava de aproveitar os prazeres da culinária humana, e a culinária brasileira era a melhor de todas! A mãe de Renan era uma ótima cozinheira e nos servia tapioca com café naquela tarde.

Renan e Paloma disputaram uma dança de nível alto de uma cantora pop, já sabíamos o resultado antes da partida começar. Apesar de todos naquela sala serem roqueiros, Renan era viciado em Just Dance e sabia rebolar com todas as músicas do jogo.

A garota resmungou com a derrota.

— Quase! Quase venci! — declarou.

Renan fez careta e a chamou de perdedora. Ambos se sentaram no sofá, ela jogou uma almofada nele, todos nós rimos. Era a minha vez de desafiar Vítor. O ganhador enfrentaria Renan. Vítor escolheu uma música antiga da Rihanna de ritmo lento.

— Covardes! — Renan nos provocou.

Tentamos não nos distrair das provocações do nosso amigo, mas ele usou o golpe baixo de gritar e nos mandou parar. Ele nos mostrou pelo seu celular, um story de Laura, uma menina que sempre nos provocava na escola, o seu aniversário seria no final de junho e ela daria um churrasco em sua casa.

— Como você está nos melhores amigos dela? — Paloma questionou.

— Ela deve ter me colocado por acidente, você não sabe o quanto de fofoca já descobri por esses stories… — respondeu ele. — Então, nós vamos, não vamos? A casa dela tem piscina! Seria uma ótima oportunidade de perturbá-la.

Paloma topou a ideia na hora, adorava provocar Laura, já que a menina a vivia chamando de vaca por conta do piercing que usava. Eu olhei para Vítor pedindo para que fosse conosco, sempre que ela me via com ele tinha um colapso, já que dizia que eu era uma ladra de namorados.

Antes de Vítor e eu namorarmos, ele conheceu Laura em uma festa, onde tocou com sua banda pela primeira vez. Seus dotes musicais conquistaram a garota e eles se beijaram, mas não passou nada além disso, algumas semanas depois, nós nos conhecemos e começamos a namorar, o que irritou Laura profundamente.

Sei que ele não era tão maldoso quanto nós e não gostava de perturbar Laura, mas insisti.

— Vai ser churrasco! — Fiz meu melhor olhar de filhotinho abandonado.

— Tudo bem, mas acho bom levarmos um presente para não sermos chamados de penetras.

Pulei em meu namorado e agradeci com um beijo. Compramos o presente e aguardamos até o dia do aniversário.