Aurora: a Mestiça
22 CAPÍTULO 20: Se escondendo no escuro
Méilie e eu saímos do quarto e seguimos pelos corredores do dormitório. Alguns alunos se divertiam ao ar livre, jogavam cartas, outros deitaram na grama para observar as estrelas. No caminho, encontramos Chie carregando diversas sacolas de compras.
— Konbanwa meninas! Estão tão bonitas! — Ela nos elogiou.
Chie vestia uma camiseta bege com um vestido de alça listrado preto por cima, calçava uma sapatilha preta com um lacinho e seus longos cabelos prateados estavam presos num rabo de cavalo.
— Aurora estava se sentindo pra baixo hoje, então resolvemos dar uma voltinha. — Disse Méilie, abraçando o meu braço.
— Por que não jantam com a gente do clube de jornalismo? Acabei de comprar um monte de bebidas, se não tiverem tomado nada… — Chie nos convidou, levantando as suas sacolas de compras.
— Você quer dizer com os veteranos?!
— Isso mesmo!
Méilie ficou radiante com a oportunidade de beber com os alunos mais velhos. Chie era uma aluna do segundo ano e fazia parte do clube de jornalismo, onde a maioria era veterano. Óbvio que minha amiga aceitou e eu acabei concordando. Fazia um bom tempo que não bebia em grupo. Éramos sempre Méilie e eu na praça de alimentação. Pode ser uma boa ideia não termos um jantar solitário.
Chie nos levou até a sala do clube de jornalismo que ficava no segundo andar do prédio. Quando ela abriu a porta, os alunos de dentro da sala comemoraram a sua chegada, esperavam ansiosos pelas bebidas. Deveriam estar com muita fome.
Um rapaz Musta, tímido e baixinho ajudou Chie com as sacolas.
— Arigatou, Tatsu-Kun.
O rapaz corou enquanto ajudava a distribuir as bebidas. Todos sentaram no chão, formando um círculo, as cadeiras e mesas foram amontoadas nos cantos para dar espaço. Um garoto Pasu se afastou para que nós três pudéssemos sentar. Chie sentou ao seu lado, Tatsu ao lado dela, depois foi Méilie e por fim, eu fiquei ao lado de uma Genesi.
Uma menina de cabelos vermelhos e olhos castanhos entregou copos de plásticos para Chie. Ela abriu uma garrafa e começou a encher os copos, o cheiro que subiu às minhas narinas não eram apenas metálicos, mas alcoólico.
Chie passou os copos para cada um nós. Todos aceitaram, inclusive Méilie. Não queria ser punida por estar descumprindo as regras da escola. Eu não tinha problemas em beber álcool. Vítor adorava cerveja e sempre quando íamos a um churrasco ou a um show de rock bebíamos um pouco. O problema é que estávamos fazendo isso em uma escola, se algum adulto nos pegasse…
Um copo vermelho parou a minha frente. Chie esperava que eu o pegasse. Aceitei. Olhei para todos os alunos que começaram a conversar e tomar goles, se eu fosse pega ali, todos seriam punidos, não somente eu. Não querendo parecer um peixe fora d’água naquele grupo, dei um gole na bebida e tossi.
— Cuidado! É saquê — disse Chie, dando tapinhas leves nas minhas costas. – Eu trouxe bebidas mais suaves se preferir.
— Não, é gostoso, só não esperava que fosse forte… E mistura sangue nisso?
— A maioria dos adultos bebe sangue assim, então é bem comum vender nos mercados.
Nunca imaginei que sangue poderia ser misturado com bebida alcoólica, ainda mais saquê, e ser comumente consumida entre eles. Dei mais um gole e Chie pareceu satisfeita com meu apresso por sua bebida.
— Essa bebida é original do meu país, Taekon. — Ela me contou.
Os adolescentes conversaram entre si, falaram do clube de jornalismo, as matérias que tinham feito ou pensavam em produzir. Perguntaram para mim e Méilie o que achávamos do jornal e o que tinha de interessante no clube de teatro. Minha colega contou que estávamos fazendo a peça O Vampiro e A Donzela, e que Ali e eu éramos os protagonistas. Isso os deixou animados.
— Ukh ty! A mestiça vai beijar o príncipe na peça, isso eu quero ver! — Falou a garota de cabelos vermelhos.
Só de lembrar que no final da peça havia um beijo me causou arrepios, pedi para Chie encher meu copo mais uma vez. A donzela beija o vampiro após ele ser ferido por uma arma mágica feita pelo ex-namorado ciumento, isso salva a sua vida, como um conto de fadas.
Tentei mudar de assunto, perguntei quais foram os últimos acontecimentos da escola. Eles falaram que um casal do segundo ano havia se separado depois de quase dois anos de relacionamento, contaram que um professor era um fanático por cobras e tinha vários delas em um aquário. A garota de cabelos vermelhos mostrou para nós uma foto de um homem com uma cobra enrolada nos braços.
— Também ficamos sabendo que o relacionamento entre Chang-Kun e Elis-Chan não está indo muito bem. — Disse Chie.
Méilie quase se engasgou com a bebida. Era tudo o que ela precisava ouvir, uma crise de casal para ela ter alguma esperança em seu crush. Encurralou Chie e pediu todos os detalhes.
— Ouvi Elis-Chan dizer que o Chang-Kun está andando muito com as pessoas do clube de teatro e não tem tempo pra ela. Foi uma DR viu? — Chie parou de falar para tomar mais um gole do seu saquê. — O casal real brigou feio também, pelo que fiquei sabendo.
— Eu nunca levo a sério esse “brigar feio” entre Kaila e Ali. — Disse a garota de cabelos vermelhos. — Essa semana mesmo vi os dois quase se devorando nos corredores.
— Mas é raro Elis e Chang brigarem. Eles estão namorando há quanto tempo? Seis meses? — Perguntou um menino.
— Por aí!
Méilie parecia esperançosa com as notícias que acabou de ouvir. O seu crush brigou com a namorada e eles quase nunca discutiam, não era uma relação tão longa para que eles decidissem continuar juntos por comodidade e nem tão curta para se manterem juntos pelo fogo da paixão.
Apenas lancei um olhar sério a Méilie, que ela levou com reprovação. Adorava a minha amiga, mas achava feio ela ter um crush em um rapaz que namorava. Há tantos caras solteiros na escola, por que justo o que namora?
Os amigos de Chie eram divertidos e a conversa foi longa, falamos sobre diversos assuntos, até o questionamento sobre seres de outro planeta foi abordado. Ao ver Méilie fechando os olhos e quase desabando no chão por ter bebido demais, decidi sair e levá-la logo para a cama. Me despedi dos veteranos e saímos com Méilie fazendo sinal de coração com os dedos.
Ajudei Méilie a andar, ela cambaleava e se apoiava nas paredes, parou de repente, pediu para que eu a soltasse, colocou as mãos na barriga e correu em direção ao banheiro. Eu suspirei cansada e a esperei do lado de fora, também estava enjoada, não podia imaginar que saquê podia ser tão forte. Tinha medo que ao ver Méilie passando mal, eu passasse também e quem poderia cuidar de nós duas?
— Bravinha!
Reconheci aquela voz sebosa. Virei a cabeça para o lado devagar, sem querer ver Oliver, com um largo sorriso mostrando suas presas sem nenhum pudor. O garoto veio na minha direção. Como eu poderia me livrar dele se estava bêbada?
Oliver me prensou contra a parede, impedindo que eu saísse. Seu rosto se aproximou do meu.
— Não há como escapar.
— No meio da escola? Vão pegar você! — Ameacei.
— Não tem ninguém aqui, quem vai saber que fui eu?
Tentei fugir e percebi que estava tão mal quanto Méilie. Tudo girava ao meu redor, não devia ter bebido tanto. O garoto percebeu o meu estado e riu, me empurrou contra a parede, jogou a minha jaqueta vermelha no chão e se aproximou do meu pescoço.
— Don’t! Don’t! Não admito isso!
Fui salva por um grito feminino. Nós dois vimos duas sombras no final do corredor. Oliver resmungou e olhou bem fundo nos meus olhos.
— Se eu te ver sozinha de novo… não vai escapar.
Ele correu pela direção contraria das sombras. Decidi ir em direção às sombras, ao me aproximar, percebi que não tinham me salvado de propósito, era Ali e Kaila discutindo, decidi dar meia volta até ouvir o meu nome ser citado.
— Você tem que sair do clube de teatro! — Kaila ordenou e parecia séria.
— Por quê?
— Não está vendo o que aquela bitch está fazendo? Está enganando todo mundo com seu papinho de órfã coitada. Sendo que ela e os pais são uns criminosos.
— Você está exagerando, ela não tem culpa do que os pais dela fizeram.
— Dumb! Até você caiu nos papinhos dela. Soube que está ajudando ela. É, eu fiquei sabendo do celular, naquele dia em que me deixou sozinha. E sabe o que é pior? Você quer desviar do assunto com ingressos do show da Katy Pasu pro meu aniversário. — Ela tirou dois ingressos amassados do bolso e os rasgou no meio.
Ali olhou para a destruição dos ingressos em silêncio, eu lembro de ele ter dito que não era a primeira vez que ela destruía um presente de aniversário na frente dele.
— Eu dei um celular porque ela não tem dinheiro pra comprar um e precisa se comunicar com o pessoal do clube. Comprei esses ingressos porque achei que seria um ótimo presente de aniversário. Katy Pasu não é sua cantora favorita?
— Se você me desse mais atenção sabia que deixei de gostar dela há uns dois meses.
— E se fizermos assim então… — Ali pegou nas mãos dela e tocou-lhe o rosto, numa tentativa de amansar a fera. — Vamos para o shopping, você compra o que quiser, eu pago, depois podemos ir jantar no seu restaurante favorito e encerramos a noite num motel cinco estrelas, o que acha?
— Sério? — Ela soltou as mãos dele. — Eu não como há oito meses, engorda, sabia? E não é sempre isso que a gente faz? Como vai ser especial no meu aniversário?
— Accha… até quando vai continuar chateada comigo?
— Até você desistir de ser amiguinho da mestiça. Não importa se você acha que ela não tem culpa de nada. Se meu pai foi capaz de matar um dos próprios filhos por quebrar as regras do clã, acha que ele vai deixar passar? Se fosse eu fazendo algo errado… — Os olhos de Kaila se encheram de lágrimas. — … acha que ele me perdoaria? Claro que não!
O olhar de Ali amoleceu ao vê-la daquele jeito.
— K, isso não tem nada a ver com ela…
Ele tentou abraçá-la, mas ela andou para trás, desviando de seus braços.
— Você não acha mesmo injusto que eu deva seguir todas as regras enquanto ela pode sair por aí fazendo o que quiser sem consequências por que… — Oh tadinha! Foi criada por animais, não sabe nada de vampiros. — Kaila afinou a voz.
Ali ficou mudo, deixou que as lágrimas de Kaila rolassem por seu rosto, até que ela resolvesse empurrá-lo e correr para longe. O rapaz continuou parado no mesmo lugar, sozinho, passou as mãos pelos seus cabelos negros. Eu não entendi bulhufas do que aquela discussão se tratava, resolvi ir embora antes que ele me visse.
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