Aurora: a Mestiça

21 CAPÍTULO 19: Pegue um pincel e coloque um pouco de maquiagem


No meu primeiro ensaio no clube, eu estava tão nervosa que me sentia uma boba por ser a protagonista, os outros alunos pareciam atuar bem melhor do que eu em seus papéis menores. Um rapaz do clã Musta, Kenichi, subiu no palco a pedido de Mirela para ensaiar a sua cena. Ele fazia o papel do pai da protagonista. Ele se retraiu no começo, seus movimentos eram duros e ele gaguejou em alguns momentos, Itálo conseguiu acalmar o rapaz, na sua terceira tentativa já estava mais calmo e atuou fingindo invadir os jardins e roubar uma rosa invisível.

— É o aniversário de dezenove anos da minha amada filha — disse. — Não tenho dinheiro para dar-lhe um presente, por isto penso que esta rosa será apropriada. Ela é tão bela quanto minha amada primo gêmea!

Todo mundo riu com a fala. Ítalo logo tratou de corrigi-lo.

— É primogênita e não primo gêmea. Você sabe o que é primogênita?

Kenichi corou tanto que ficou da cor dos seus olhos, a fala foi repetida mais algumas vezes até sair satisfatório aos olhos e ouvidos de Mirela. Continuaram as cenas seguintes. Ali entrou no palco, como um vampiro assustador de olhar sombrio, ele atuou tão bem que assustou o garoto Musta em alguns momentos, e para nossa surpresa, Mirela disse que queria muito ver essa reação de terror na cara de Kenichi no dia da peça.

— Tadinho do Kenichi. — Uma das meninas murmurou.

Após algum tempo chegou a minha vez de atuar no palco. Minha primeira cena era com Jamal Jad, ele era o meu ex-namorado inconveniente que tentava reatar o relacionamento, minha função era fugir dele. Para uma primeira cena foi divertido e não tive nenhuma dificuldade. O garoto também atuou bem e nós acabamos nos divertindo. Não tive que repetir a cena. Ufa!

Depois eu atuava sozinha. Foi a cena mais difícil e tive que refazê-la várias vezes. Falava como sentia falta do meu pai, que sumiu alguns dias e não tinha voltado para comemorar o meu aniversária. Era pra ser uma cena simples, mas era difícil fazê-la quando não tinha alguém com você no palco.

Eu olhava para os veteranos a minha frente e virava meu rosto para não ver seus olhares julgadores. Tentei atuar olhando para Méilie, mas ela conversava animadamente com Chang. Não perdia tempo aquela garota!

Estava ficando cansada, mas ainda tinha uma última cena para praticar naquela noite. Fingi invadir a mansão do vampiro em busca do meu pai. Méilie subiu no palco e sua personagem ajudava a minha, levando-me até o garoto Musta sentado de joelhos no chão, fingindo estar preso. Me aproximei dele e fingir estar desesperada para resgatá-lo. Então Ali aparece e está zangado com todos nós, ele puxa Méilie pelo braço.

— Querida irmã, por que ajudastes estes humanos vis a invadirem minha mansão?

— Oh irmão! Ele é apenas um homem velho, o tempo de vida humana é tão curto! Tive dó que ele não pudesse mais ver as suas filhas. — Méilie segurou uma risada enquanto atuava, precisava mostrar seriedade nesta cena.

Me levanto e o enfrento, pude ver um pequeno sorriso no canto da sua boca, ele parecia se divertir e eu não pude evitar sorrir também. Como haviam mais pessoas no palco desta vez, tudo se tornou bem mais dinâmico.

Souple, lorde vampiro! Permita-me trocar de lugar com meu pai. Dizem que o sangue de uma virgem é o mais saboroso e precioso. Aqui está uma donzela diante de ti. Torne-me sua serva em troca da vida de meu pai.

Eu decorei tudo isso? Caramba! Talvez eu tivesse algum talento escondido para o teatro no fim das contas. Estava de joelhos, me curvando para o vampiro. Ali me levantou, e me olhou friamente.

— Se queres tanto assim tomar o lugar de teu pai. — Ele se aproximou de mim. — Então devo provar teu sangue, para saber se és realmente melhor.

Com rapidez ele me puxou pela cintura, seu rosto aproximou-se do meu pescoço. Eu podia sentir a sua respiração quente na minha pele, que se arrepiou. Meu coração acelerou ao seu toque firme em minha cintura. Lembro do roteiro dizer que ele a mordia, mas achei que seria no pulso, não me lembro de ter sido no pescoço.

Estando ou não no roteiro, os veteranos adoraram a cena com aplausos.

Fantastik! Sua expressão de terror ficou ótima, Aurora! Quero vê-la assustada assim no dia da peça! — Mirela me elogiou.

Oras, eu mostrei terror porque estava assustada de verdade! Aí, aí! Ali deu aquele seu sorriso malicioso para mim. Ele alterou a cena de propósito apenas para me provocar? Que idiota!

As meninas me encararam, algumas me perguntaram se eu não gostaria de trocar de papel. Por mais trabalhoso que fosse, eu gostei de ser a protagonista. Mesmo que elas tenham ciúmes ou inveja por eu atuar com Ali, elas não me tratavam mal como os alunos Valayas, que durante as aulas me mandavam recadinhos maldosos, já peguei Kaila me jogando algumas bolinhas de papel. Ela se faz de patricinha perfeita e imaculada, mas era uma criança mimada e esnobe!

Percebendo os ataques, Méilie sempre me defendia e aconselhava que eu falasse com a diretora. Nunca sofri bullying na minha antiga escola, então era estranho pra mim. Achei que se eu falasse com algum adulto sobre isso, a situação pioraria. Preferi ignorar, eles só querem chamar atenção, é isso.

O melhor dia da semana era domingo. Eu não tinha o clube de teatro, mas também não tinha Kaila, nem Thomas e Oliver para me atazanar. Era apenas Méilie e eu. Ela geralmente colocava suas músicas favoritas para tocar, que me lembravam muito de Taylor Swift e Ariana Grande. Ela dançava de pijama no meio do quarto e me puxava para sacudir junto.

Não era o estilo de música que eu costumava ouvir, mas estando com minha amiga não importava. Amava nossos momentos! Fazíamos performasses como se estivéssemos em Rupaul’s Drag Race e caiamos exaustas no tapete felpudo de tanto dançar.

Queria mostrar minhas músicas favoritas a ela também. O problema é que se eu pesquisasse na internet sobre eles, não conseguiria obter nenhum resultado, as minhas bandas não existiam naquele lugar. Lembrei do meu celular antigo. Eu o mantinha desligado o tempo todo na minha mala com dó de descarregar sua bateria.

Puxei minha mala do armário e busquei pelo aparelho. Só tinha que rezar para que ele ainda ligasse, para minha sorte, a luz acendeu, ainda tinha vinte por cento de bateria. Se eu conseguisse passar todas as músicas por bluetooth com esses vinte por cento, estaria satisfeita.

Méilie olhou meu antigo telefone com curiosidade.

— Você tinha um celular esse tempo todo?

— Ele não funciona nesse mundo, servia de nada. Meu carregador não se encaixa com as tomadas daqui.

Quando os arquivos finalizaram de passar, a tela de descanso do meu celular ficou a mostra. Logo veio um aperto em meu coração, era uma foto minha com Vítor, tirada no pôr do sol em uma praça, eu o beijava no rosto. Aqueles seus olhos que mudavam de cor na luz, de um verde para castanhos claros eram lindos demais naquela luz!

Mezanmi! Quem é esse? — Méilie perguntou.

— Vítor, meu namorado.

Eu já confiava em Méilie o suficiente para não ter que precisar mentir. Ela nunca contou a ninguém sobre eu ser de outra dimensão e não acho que vá contar sobre meu namorado agora.

— Ele é bèl anpil! — Ela admirou a foto.

— O quê? — Perguntei, confusa.

— Significa bonito, entendeu? Seu namorado é um sapão!

— Não é só bonito, é gentil e carinhoso!

— Só qualidades esse menino.

Nós demos risadinhas. Observei a foto mais uma vez por alguns minutos, fiquei imaginando como ele estaria agora. Será que notou minha ausência? Paloma teria contado a ele o que fiz com Renan? Como será que ele reagiu? Teria raiva e medo de mim ou não acreditaria?

Sem perceber, meu rosto começou a ficar molhado, não consegui controlar as lágrimas e nem a dor que eu sentia em meu peito. Méilie me puxou para um abraço e eu chorei em seus braços parecendo uma criança com saudades de casa.

— Você gostava mesmo dele, non? Não é o fim do mundo, vocês podem morar em Plenluno, aqui as leis dos clãs não são válidas, então vocês vão poder se casar!

Eu não pude evitar sorrir com os romantismos de Méilie. Ela era tão positiva e apaixonada! Como se tudo pudesse ser resolvido com um beijo, igual nos contos de fadas.

— Que tal a gente ir tomar um ar? Ficamos tempo demais nesse quarto. — Ela sugeriu.

Méilie se levantou e me puxou até o banheiro, sem escapatória, eu seria obrigada a passar por uma sessão de cabelo e maquiagem de Méilie. Desliguei o meu antigo telefone e deixei que ela me maquiasse e me vestisse naquela noite.

Minha amiga vestiu um cropped de manga longa colorido, calças jeans folgadas com a bainhas dobradas e calçava um tênis amarelo. Seus cabelos tinham trancinhas no lado direito. Eu vesti uma camiseta da banda Queen, uma jaqueta vermelha por cima e minhas clássicas calças jeans com um tênis preto.

A minha colega de quarto me maquiou com uma leve sombra prateada nos olhos, um forte delineador preto e pintou os meus lábios de vermelho para combinar com a jaqueta. Sua maquiagem era mais delicada e colorida.

Nós duas estávamos prontas para curtir a noite!