Aurora: a Mestiça

20 CAPÍTULO 18: Excêntricos


Depois de me ensinar como celulares funcionavam, Méilie deu a ideia de passearmos um pouco pelo shopping. A sua verdadeira intenção era passar tempo com Chang. Os dois agora caminhavam na minha frente e conversavam animadamente, parecendo amigos que se conheciam há tempos. Ali caminhava ao meu lado, com a mão tatuada no bolso da sua calça enquanto mexia no seu celular com a outra, sem me dirigir uma única palavra, até que parou de caminhar. Ele olhou para uma vitrine de roupas femininas e chamou por Chang.

— Aniversário da Kaila está chegando, o que você acha desse short como presente? — Ali perguntou com a mão no queixo.

— Acho que ela tem uns dois desses, iguaizinhos. — Respondeu seu amigo.

— Difícil dar uma roupa que ela já não tenha.

— E se fizer com um estilista?

— Fiz isso no ano passado, lembra? Ela detestou o corte e picotou o vestido inteiro. Prometi a mim mesmo nunca mais criar roupa com estilistas.

Chang riu.

— Já pensou em não dar um presente em si, mas um momento? — Falei sem pensar e os dois rapazes olharam para mim, com curiosidade.

Eu podia odiar a Kaila, mas eu devia uma a Ali por tudo o que ele fez por mim até agora. Ele parecia gostar muito dela e era meu modo de pagá-lo pela ajuda contra Olive e Thomas e também pelo celular caríssimo.

— Se ela é uma garota que já tem tudo o que quer, o melhor seria um momento a dois ou com os amigos, fazer algo diferente, acampar, ir a um lugar que sempre quiseram ir ou mesmo levá-la no show da banda favorita dela. O meu melhor aniversário, foi o que tive esse ano em que o meu namorado me levou para o show do Iron Maiden, foi inesquecível e…

Eu percebi que falei besteira quando todos os três olharam para mim, surpresos.

— Então… você não tem um tostão furado, não sabe mexer em um celular, mas a sua “tribo” humana vai a shows de música? — Ali perguntou, erguendo a sobrancelha.

Coloquei a mão na boca, sem reação, como eu pude ser tão burra? Me empolguei com a história do aniversário, esqueci completamente da minha história falsa. Méilie correu para o meu lado e tentou me defender, mas, para minha surpresa, Ali não ficou bravo, mas preocupado.

— Você mentiu para os Valayas não saberem quem são os seus pais? Eu compreendo e você não deve contar pra Kaila quem eles são. Se quer saber, você pode confiar em mim. Seus pais podem vir morar em Tiwi, farei tudo para protegê-los!

Me choquei com sua fala, essa era uma reação que eu não esperava, achei que ele gritaria ou ficaria bravo ou quebraria o celular na minha frente. Mesmo tendo mentindo ele continuou me defendendo.

— Eu não menti sobre meus pais, eu não os conheço. — Decidi contar uma meia-verdade. — Fui criada por humanos, mas não posso dizer de onde venho, por favor, me perdoe e não faça perguntas.

Chang não estava satisfeito com as minhas respostas rasas e queria que eu contasse mais alguma coisa, mas Ali pediu para deixar para lá. Ele parecia chateado e preocupado, ao mesmo tempo, ninguém mais tocou no assunto e nem trocamos palavras durante o trajeto de volta à escola.

***

No quarto, com Méilie, permaneci ainda curiosa com a reação de Ali e perguntei a ela se sabia o motivo de ele pedir para eu continuar guardando segredo e sobre ele proteger os meus pais.

— Você ainda não sabe? — Ela me perguntou enquanto estava prendendo os cabelos.

Balancei a cabeça. Méilie foi até a escrivaninha, pegou um livro se sentou ao meu lado na cama. Era o livro sobre mestiços que eu peguei na biblioteca semana passada. Com tantos trabalhos e tarefas de casa, acabei esquecendo de lê-lo. Ela abriu o livro e passou as páginas.

Parou na página que mostrava os três mestiços registrados no mundo, o coreano, a garota indiana e Ruan. Ela apontou para a mulher e a olhei mais de perto, aqueles olhos negros me eram bem familiares.

— Essa é a mãe do Ali, Aurora. Ela era uma mestiça.

Tomei o livro de sua mão e olhei bem para a foto, dava para ver alguns traços dela em Ali, como a cor da sua pele e os olhos grandes e escuros. Era difícil acreditar que ela era uma mestiça. Méilie tomou o livro de volta e passou as páginas até uma foto onde a indiana mestiça estava ao lado de um homem vestindo como um príncipe indiano de turbante plumado na cabeça, ela vestia um longo sári azul com rosa, e no meio deles tinha um garotinho sorridente.

Meu Deus! Aquele menino era Ali! Essa era a família dele. Ao virar a página, encontramos um longo texto sobre filhos de mestiços, e que só havia um único caso registrado. E lá estava a foto de Ali mais velho, como nós o conhecíamos agora. Era verdade! Ele era filho de uma mestiça.

Era por isso que ele me defendia? Por que de alguma forma ele era um pouco como eu? Por que eu poderia lembrá-lo da sua mãe? Agora as ações dele faziam sentido em minha cabeça. A sua fala quando nos encontramos naquela rua escura “Acredite em mim, eu sou o vampiro com quem você vai estar mais segura”. Era sobre isso?

— Se ele é um pouco como eu, por que a Kaila namora ele? Tipo, ela foi horrível quando falamos do Ruan, ela me odeia e fez uma cena hoje no clube.

— Porque o Ali não é um mestiço, ele tem todas as características de um vampiro, ele tem presas, apesar de conseguir se manter acordado durante o dia, não pode ficar no sol e ainda por cima é um príncipe. Aliás, Kaila e Ali estão em um casamento arranjado, eles teriam que se casar mesmo que se odiassem.

— Casamento arranjado?! Isso ainda existe?

— Por aqui, entre os nobres e a realeza sempre existiu. Só nós plebeus que temos a oportunidade de se casar por amor. Por que acha que o clã Jad é tão popular? Por causa desse “amor proibido” de um vampiro com uma mestiça e um casamento por amor.

Olhei, novamente, para a foto em família de Ali. Os pais dele se casaram por amor e não por um casamento arranjado como era a maioria dos casos dos nobres, ainda por cima, a mãe dele era uma mestiça. Fiquei imaginando o quão escandaloso isso não foi. Mas deve ser triste estar num casamento arranjado sabendo que seus pais se casaram de uma maneira mais romântica.

Lembrei-me de Ali pensando em comprar um presente para Kaila. Do momento em que nos encontramos pela manhã e ele disse que passou a noite com ela. Quando estávamos no mercado, ele comprava as camisinhas e o vinho, provavelmente, para uma noite romântica entre os dois. Ele parecia gostar dela, mesmo que fossem muito diferentes. Ou era apenas fingimento por conta do casamento?

— Não fique triste, essas coisas acontecem. Você não é uma princesa pra se preocupar em ter um casamento arranjado, é uma plebeia como eu, vai poder escolher com quem se casar. — Méilie disse, tentando me animar.

A garota bocejou e subiu para o beliche de cima, me desejou um “bonjou” e se deitou. Continuei lendo sobre o meu salvador naquele livro até adormecer.

***

Com um celular em mãos, Méilie me fez criar uma rede social e posar para diversas fotos, logo adicionou colegas da escola para serem meus amigos e quase teve um ataque quando viu que Ali e Chang nos seguiram de volta.

Chie também começou a me seguir e mandava mensagens perguntando se eu havia mudado de ideia sobre a entrevista. Como ela podia ser inconveniente?

Meus horários semanais se tornaram cheios. Depois das aulas, eu trabalhava na sorveteria de Ruan às segundas, quartas e sextas. Enquanto tinha o clube de teatro às terças, quintas e sábados. Sobrando apenas domingo, que eu usava para estudar com Méilie. Para nossa surpresa, Chie se juntava a nós algumas vezes, ela já estava no segundo ano e vinha nos auxiliar em algumas matérias.

Trabalhar no Ruan era tranquilo, limpava algumas mesas, varria o chão. Só comecei a ter problemas quando Thomas e Oliver me viram trabalhando no local e divulgaram aos outros alunos que vinham no meu dia de trabalho apenas para sujarem o ambiente de propósito. Nem Ali e nem Chang os acompanharam, quando os rapazes vinham à sorveteria, me davam gorjetas a mais.

Infelizmente os Valayas não viam com bons olhos o meu trabalho de meio-período, os ouvia dizer que aquilo era trabalho que somente os humanos faziam. No começo, os risinhos e as fofocas me incomodavam, mas como ganhava dinheiro parei de me importar com os comentários com o tempo.