Aurora: a Mestiça

14 CAPÍTULO 13: E para extinção


Méilie esperou que eu continuasse.

— Eu não entendo nada de vampiros. Nem fui criada por humanos nômades. Nem mesmo pertenço a esse mundo. — Respirei bem fundo antes de continuar. — Eu vim de outra dimensão, porque ataquei um ser humano do meu mundo e descobri que sou uma vampira, passei dezesseis anos vivendo num mundo só de humanos, ok? Por isso que não sei nada, por isso que sou uma burra!

A garota ergueu uma das sobrancelhas e ficou muda por um período que pareceu a eternidade. Senti minhas mãos suarem, se ela não falasse algo logo, iria explodir.

— Tipo, ficção científica? Sabe que essa mentira não é melhor do que a dos humanos nômades, né?

— Você não acha que é absurdo demais pra ser mentira? Estou sendo sincera com você, assim como você foi comigo ontem à noite. Não mentiria pra você, Méilie, porque… você é a minha única amiga aqui.

O meu discurso pareceu emocioná-la. Seus olhos rosados brilharam e ela pulou em meu pescoço para me dar um abraço apertado.

— Você também é minha única amiga aqui! — Ela me espremeu como uma laranja. — Só me conte essa história direito.

Contei sem dizer detalhes das pessoas que fazem parte da minha vida, como eu ataquei alguém, encontrei-me com a diretora e ela me trouxe para cá inventando tal história.

— Me perdoa não te contar tudo, não estou pronta para os detalhes.

— Tudo bem, eu acredito em você. Entendo querer guardar segredo, agora você tem a mim pra te ajudar, então, se precisar perguntar qualquer coisa, eu vou ter o prazer em responder.

Ela me puxou para mais um abraço caloroso. Era muito calor humano (ou vampiresco?) para um dia só! Soltei-me do seu abraço, agradecida, era um alívio me livrar de todo esse peso em meu coração.

— Não entendo porque as pessoas me olham estranho aqui.

— Porque você é uma mestiça. — Ela foi até a mesa e pegou o livro que eu estava lendo mais cedo. — Mestiços são bem raros. — Ela me mostrou a página que eu li na biblioteca. — Até hoje só houveram três mestiços registrados desde a criação dos clãs.

Méilie me mostrou uma página em que havia um desenho e duas fotos de pessoas que eram os únicos mestiços registrados no mundo. De acordo com ela, se passaram mais de mil e quinhentos anos desde a criação dos clãs e era surpreendente de ver que durante todos esses séculos só houveram três mestiços.

O primeiro era o desenho em preto e branco de um homem que vestia roupas tradicionais coreanas, dizia na legenda que ele era um historiador e viajante, seu nome era Hei Mah e tinha a sua data de nascimento e morte. Eu mordi os lábios — Será que ele foi “bebido” por um vampiro?

A segunda era uma foto de boa qualidade, tirada há poucos anos. Era uma mulher indiana, de pele morena, com um pontinho vermelho em sua testa, ela vestia um sári cor-de-rosa com azul e estava ornada de joias, dos pés à cabeça. Na legenda dizia que seu nome era Daru Jad e também havia sua data de nascimento e morte. Oh céus! Não estava gostando muito de ver isso…

A terceira e última foto era de alguém que já conhecia, Ruan Dashu. Embaixo do seu nome havia sua data de nascimento. E ele está vivo até hoje. Que bom!

Em mil e quinhentos anos, houve apenas três mestiços e dois deles morreram. Se o tempo não é capaz de matar um mestiço, então, quer dizer… As lembranças dos meninos me atacando vieram à minha mente. Tanto Ali, quanto Méilie me falaram que era crime beber sangue de outro vampiro de maneira violenta, mas se aqueles dois foram mortos, quer dizer que crimes foram cometidos. Pelo visto, alguns vampiros se arriscariam para serem imortais. Fiquei imaginando se algum dos alunos que ficaram me encarando esta noite teria coragem de me atacar.

Fechei o livro com rapidez. Um medo que nunca senti antes veio sobre mim, eu estava cercada de potenciais inimigos e podia ser assassinada quando estivesse pelos corredores, sozinha. Eu não podia morrer aqui e nem agora, precisava me proteger e sobreviver durante esses três anos.

Méilie me olhou preocupada e apertou a minha mão. Virei para ela de imediato.

— Não tenha medo, você é minha amiga e vou te proteger.

Ela pousou sua cabeça em meu ombro como um sinal de carinho e amizade. Agradeci a ela. Se Méilie quisesse tentar alguma coisa comigo, ela já o teria feito. Nunca se mostrou hostil, acho que tive sorte de ter uma colega de quarto tão boa quanto ela e fiz bem em confiar. Finalmente eu tinha a certeza de ter uma amiga comigo.

***

Na noite seguinte, nós tínhamos aulas juntas, Habilidades Básicas. Nós sentamos no nosso lugar de sempre e pude ver Kaila sentar com Elis na frente. Kaila personalizou seu uniforme, encurtou seu blazer preto, afrouxou sua grava e encurtou sua saia. Pelo menos não tínhamos que ver seu decote.

Os meninos populares também entraram na sala e sentaram no fundão como sempre, os que pareciam orientais na frente e os Valayas atrás. Pelo visto, os quatro ainda andavam juntos.

O professor entrou na sala. Ele vestia uma camisa xadrez azul, calça jeans e tênis, era bem moderno. Se apresentou como Radesh Jad, ele começou a falar sobre os tipos de poderes que tínhamos. Vampiros podem suportar uma grande quantidade de peso, por isso era importante manter-se em boa forma, tínhamos visão noturna, cura rápida (com exceção de mestiços), resistência a mudanças climáticas, velocidade, criação de portais e os cincos sentidos eram mega apurados, fora nossas habilidades especificas de cada clã.

Radesh também explicou que todas essas habilidades só são possíveis se estivermos bem alimentados. A ausência de sangue humano na nossa alimentação não nos mataria, mas nos deixaria mais fracos e vulneráveis a mudanças climáticas e nossa cura seria mais lenta, além de diminuir a eficiência dos nossos poderes

Fiz cara de nojo. Apesar de ter me acostumado a beber o sangue da cantina, nunca tinha parado para pensar que essa era minha nova dieta. Caramba! De onde vinha aquele sangue? Estremeci só de imaginar um tipo de frigorífero humano. Queria recusar tomar sangue, infelizmente, não era possível, não conseguia me controlar ao sentir o cheiro, o sabor.

Ele também falou sobre uma coisa chamada torpor. Tinha ouvido Méilie falar sobre isso uma vez, mas não prestei atenção. O professor explicou que era um estado de “coma” quando um vampiro sofre um dano muito forte e não pode se recuperar em poucas horas. O vampiro adormece por algum tempo até seu corpo se recuperar totalmente, poderia levar dias, meses ou anos (que poderiam ser de centenas a milénios).

Naquele dia só tínhamos aula de Habilidades Básicas, portanto depois da primeira aula teórica, a segunda seria prática na quadra poliesportiva externa. Méilie e eu saímos da sala, desanimadas, com a ideia de uma aula prática.

Enquanto bebíamos no refeitório, a diretora fazia um anúncio. Os clubes e empregos de meio-período foram liberados para os alunos, poderíamos nos inscrever nos painéis expostos no corredor principal.

O o mezanmi! — Méilie expressou animação. — Qual clube escolher? Há tantas opções!

Ela pegou seu celular e entrou no aplicativo da escola, analisou minuciosamente as opções do clube. Eu não tinha a mínima vontade de participar de um clube, mas infelizmente, era obrigatório. Eu não fazia ideia de qual me inscrever. A lista de opções parecia infinita, passando pelos clássicos clubes de música e pintura, até os mais diferentes como arco e flecha e esgrima.

Os alunos se levantaram e foram em direção ao corredor principal. Méilie não queria que nos atrasássemos e disse que decidiríamos tudo na hora. Ela me puxou pelo braço e caminhou animada. Encontramos todos ao redor de quatro painéis digitais. A pessoa pegava a caneta, escolhia o clube e assinava. Méilie voltou a me puxar em direção à multidão ao avistar Chang com seus amigos se inscrevendo para um clube.

C'mon! Nós nos inscrevemos em dança, vocês não vão fazer? — Oliver perguntou para Ali, que mexia na tela em busca de algum curso interessante. — Dança é o que hoje chama atenção das gostosas!

— Eu não sou um passarinho pra fazer dança com intuito de atrair fêmeas — respondeu Ali, mordendo de leve a pontinha da caneta, pensativo.

— Ou um morcego. — Chang disse rindo. Isso fez com que Ali e Thomas caíssem na gargalhada também.

— Vocês ainda tão nisso? — O rosto de Oliver ficou vermelho como um pimentão. — Dança tá na moda, todas as meninas gostam de caras que dançam.

— O que acha do clube de xadrez? — perguntou Chang apontando para a tela, ignorando Oliver.

— Estou um pouco enjoado disso, quer dizer, passei os últimos meses jogando todo dia com a minha prima, que ficou viciada. Prefiro algo que saia da minha zona de conforto. — Ali mexeu na tela novamente. — Que tal teatro?

— Isso não vai soar estereotipado demais pra você? Sabe como é, Jads e atuação, tão dramáticos! — Oliver comentou.

— Você querer me levar pra dança também não seria me estereotipar? — perguntou Ali encarando o garoto.

— Vocês estão demorando demais! Decidam logo isso! — gritou algum menino no meio da multidão.

— Ok, ok, vamos de teatro, então? — perguntou Chang.

Méilie ouviu toda aquela conversa com atenção e continuou empurrando as pessoas para que saíssem do seu caminho e ela pudesse chegar até os garotos populares. O ruim é que ela me arrastava junto, puxando-me pela manga do uniforme.