Aurora: a Mestiça

13 CAPÍTULO 12: Um passo mais perto


Decidi aproveitar a noite de domingo para ver a diretora. Ainda bem que Méilie preferiu ficar no quarto assistindo às séries. Prometi que lavaria o blazer que ela me emprestou na noite anterior.

Os corredores continuavam agitados e caminhei até a diretoria. Respirei fundo. Esperava que ela pudesse me atender e que estivesse em sua sala. Era domingo, ela poderia muito bem estar de folga. Ter ido à praia, quem sabe, estar em um encontro. Bati na porta, esperando receber uma resposta.

— Entre. — Era a voz dela.

Entrei em sua sala amadeirada e gótica. Ela mexia em seu notebook e organizava papéis na mesa. Sofia me convidou para se sentar, logo me atenderia. Fiquei um pouco triste de vê-la trabalhando em pleno domingo.

— O que a traz aqui nesta bela noite de domingo? — Ela me perguntou sem tirar os olhos da tela do computador.

— Muitas coisas, na verdade — respondi.

Ela parou de digitar e dirigiu toda sua atenção a mim, esperando que eu continuasse.

— Estou numa situação desconfortável em relação ao dinheiro. — Eu sabia que não tinha uma família vampira para me bancar e não poderia ficar sem um sustento durante os três anos que passaria aqui. — Posso trabalhar na escola em qualquer coisa, até durante o dia, se precisar. Fora que… a minha colega de quarto está desconfiada de mim por eu não saber de nada deste mundo, talvez eu precise de mais informações. —Decidi não contar sobre os meninos, estava me sentindo envergonhada demais para falar sobre o ataque.

Sofia ponderou sobre tudo isso, confessando ter esquecido sobre a questão do dinheiro. Voltou a digitar em seu notebook e imprimiu um papel para mim. Disse que era uma indicação como aluna de Plenluno, e que eu poderia procurar por Ruan Dashu, pois ele buscava alguém para ajudá-lo com a limpeza da sua loja. Se eu não me importasse, poderia trabalhar lá.

— Sobre o outro fato — disse a diretora. — Posso te dar uma lista de livros para ler, eles se encontram na biblioteca.

Ela digitou novamente e mais uma impressão foi realizada. Era uma pequena lista de livros, alguns tinham a ver com as aulas que teria naquele ano, outros não faziam parte do material escolar. Prometi que iria à biblioteca, começar a estudar.

Antes de sair, a diretora reforçou que eu não devia contar a ninguém sobre o meu mundo e recontar a história dos humanos nômades do sul.

Com a indicação em uma mão e com a lista de livros na outra, me perguntei qual dos dois devia fazer primeiro. Talvez estudar fosse mais importante. Eu não queria começar a minha entrevista e parecer uma pessoa burra. Fui em direção à biblioteca. O que notei naquela noite, foram os olhares estranhos que os alunos dirigiam a mim, acompanhando de sussurros. Será que aquela piriguete teria inventado alguma fofoca sobre mim? Ou foram aqueles dois idiotas que falaram alguma coisa? Não importava agora. Eu tinha que estudar!

Achei a biblioteca após algum tempo procurando. Essa escola precisa ser melhor sinalizada. Esse lugar tinha mais de cinco andares, e não deixava claro aonde ficava o quê. Fácil de se perder.

Ao entrar, percebi o quão enorme ela era. Tinha três andares, cheio de estantes de livros com quase dois metros. Fui até um computador para pesquisar em quais seções estavam os livros que eu buscava.

A seção ficava no segundo andar, na área de Biologia. Havia um livro exclusivo sobre mestiços. Peguei-o e o levei até uma mesa, onde havia uma garota de cabelos brancos sentada. Comecei a ler, ignorando-a.

O livro introduzia um pouco de Biologia Vampírica. Citando o nome de alguns cientistas, que eram difíceis de serem pronunciados. Vampiros tinham uma certa dificuldade de ter filhos, e o clã Genesis trabalhava duro para criar facilidades nesta área. Enquanto um casal de humanos leva cerca de um ano para ter um bebê, um casal de vampiros mais sortudo, poderia ter o primeiro filho após cinco anos de tentativa. Isso ocorre porque as mulheres vampiras não possuem um ciclo menstrual. Ah! Isso explicava por que eu não tinha menstruado ainda. E mamãe dizia que era “normal”, já que a sua menarca também demorou a descer.

Logo após essa introdução, havia a descrição de que uma relação de vampiros sempre irá gerar filhos vampiros. Enquanto que um vampiro com humano irá gerar, na maior parte das vezes, filhos humanos. Raramente nasce um mestiço, um vampiro com condições genéticas especiais. E nunca nasce um vampiro desta relação.

É possível que um vampiro e um mestiço possam ter filhos juntos, há um único caso registrado de um filho dessa união. Portanto, não há informações certeiras. Uma relação entre dois mestiços nunca foi registrada.

Folhei as páginas, tentando me manter concentrada, algo me incomodava. Era uma sensação de que alguém me observava. O spray de pimenta que Ali me deu estava em meu bolso. Se alguém tentasse me atacar na biblioteca, iria gritar bem alto e sacaria o spray. Ao abaixar o livro, vi que a menina de cabelos brancos sentada à frente me encarava com descaramento e curiosidade.

Me impressionei com a cor de seus olhos, eram vermelhos, nada comparado aos tons rosados como os de Méilie. A menina não parecia ter vergonha alguma em me olhar daquela forma, deixando-me bem desconfortável.

— Oi? — chamei.

A garota finalmente piscou, tomando um leve susto. Também reagi, dando um pequeno pulo da cadeira.

— Oh! Gomenne! Você é a Aurora Valaya, não é? — Ela me perguntou com os olhos brilhando de admiração. — Majide! Nunca vi um mestiço antes. Eles pareciam seres mitológicos na minha cabeça. Estou surpresa!

De novo isso! Eu odiava chamar atenção. Sempre fiz o possível para ser discreta à minha maneira. Agora todos na escola me olhavam como se eu fosse um bicho esquisito em exposição. Isso não podia estar acontecendo.

A garota deu um leve beliscão em meu braço, para saber se eu era de verdade.

Majide! — Foi o que disse após me beliscar e perceber que eu era real. — Eu me chamo Chie Musta, sou a responsável pelo jornal da escola este ano. Você não teria interesse em ser entrevistada?

O quê? Nem pensar!

— Não, obrigada. — Tentei recusar da maneira mais educada possível.

A menina encheu as bochechas e cruzou os braços, não satisfeita com a resposta. Chie tentou me convencer de alguma forma, mas continuei recusando. Ela se deu por vencida no final.

Chie olhou para o que eu estava lendo e sentou ao meu lado. Ela me perguntou por que eu lia aquele livro se nem fazia parte da nossa grade curricular. Era tão vergonhoso mentir e continuar com aquela história ridícula, infelizmente, tinha que ser feito. Mostrei a lista que a diretora me deu. Chie disse que, como vivia na biblioteca, iria me ajudar. Mostrou-me onde ficava cada cessão e onde se encontrava cada livro da lista.

Ela era um pouco inconveniente, se surpreendia com qualquer coisa que eu fazia, dizendo coisas como: “— Nossa! Você respira! Que diferente!”. Mesmo com esse pequeno defeito, ela parecia uma boa pessoa e me ajudou com todos os livros. No final, insistiu para que eu passasse meu número de telefone.

— Eu não tenho celular.

— Ah, qual é! Acha que vou cair nessa? Vários garotos já me deram essa desculpa e sempre consegui seus números. Anda! Me passa o seu telefone.

Quando ela percebeu que eu não estava mentindo, falou “gomenasai” novamente. Sem pedir, ela anotou o seu número num papel e disse que quando eu mudasse de ideia sobre a entrevista, podia ligar, que eu seria bem-vinda ao clube de jornalismo.

Com livros em mãos, decidi levá-los para o quarto. Méilie ainda vestia seu pijama, deitada em sua cama, com os olhos vidrados no celular, mas ela parou imediatamente ao me ver e olhou com curiosidade os livros que eu carregava. Ela desceu do beliche e foi até a escrivaninha, onde coloquei os livros.

— Vai precisar de tudo isso pro relatório? — Ela me perguntou, curiosa.

Eu esqueci do maldito trabalho para sexta-feira! Méilie pegou os livros e notou que não faziam parte da nossa grade curricular. Tinha um livro para cada um dos maiores clãs, um sobre mestiços, alguns livros de história e livros para crianças.

— Você entrou em torpor durante dezesseis anos pra não saber o básico do básico? — Ela debochou, pegando um livro infantil da mesa.

Tomei o livro de suas mãos rapidamente. Agora ela sabia que eu escondia alguma coisa. Pelo visto, os humanos, por mais longe da civilização que vivessem, não deveriam ser tão tontos assim, para não terem conhecimento algum sobre vampiros.

O olhar acusatório dela me deixou acuada. As palavras da diretora sobre eu não contar a ninguém ecoavam na minha cabeça, mas era tão ruim guardar tudo para mim. Méilie era minha colega de quarto. Ela não saiu espalhando pela escola que eu era uma mestiça, e sim aqueles idiotas. Se eu precisava de alguém ao meu lado, era ela. Sabia que não nos conhecíamos bem, e que não me sentia cem por cento pronta para contar tudo, mas talvez, um pouquinho, só para ela poder ficar ao meu lado e me sentir menos solitária…

— Méilie… na verdade, eu tenho um segredo.