Aurora: a Mestiça

2 CAPÍTULO 1: Nosso Pequeno Grupo Sempre Foi Assim


Todos nós estávamos animados com o fim do primeiro ano do Ensino Médio. Eu passei na média como sempre, com exceção de Educação Física — minha matéria favorita. Era a melhor da turma até mesmo entre os meninos, enquanto meus dois melhores amigos ficaram de recuperação. Paloma faltava muito as aulas de Educação Física, e Renan era péssimo em Química.

Meus amigos estavam chorosos no dia da entrega dos boletins. E confesso que se não fosse a ajuda de Vítor em Matemática, eu teria aulas de recuperação até o natal. Falando nele, o rapaz acabava de nos encontrar. Era um menino de um metro e setenta e cinco de altura, os cabelos castanhos cacheados, com alguns fios caindo sobre os olhos claros, que possuíam um tom que mesclava castanho com verde, sua pele branca tinha sardas por todo corpo e rosto.

Naquela manhã ele vestia uma camiseta da banda Oasis, uma jaqueta e calças jeans escuras com alguns rasgos no joelho, o cinto era ornado com pequenas correntes prateadas, e calçava um All Star preto.

Vítor veio em nossa direção e me segurou pela cintura, cumprimentando-me com um selinho nos lábios. Meus dois melhores amigos começaram a cantarolar uma música sertaneja de romance, fazendo todo o nosso grupo rir.

Ele nos mostrou o seu boletim. Assim como eu, havia passado na média, por pouco não reprovou em Literatura, disse que foi graças aos nossos estudos de última hora que passou nas matérias de Humanas. Impossível não corar quando ele me olhava com aquele sorriso lindo, ele dizia ter vergonha de sorrir devido ao aparelho nos dentes. Eu achava seu sorriso o mais belo de todos!

Fomos comemorar o fim das aulas com um açaí. Sempre comprávamos no Açaí do Valter e depois fomos à praia. Sentamos na areia, observando o pôr do sol e a movimentação das pessoas indo embora já que o sol estava sendo encoberto. Nosso grupo podia ser considerado estranho e as pessoas nos olhavam torto com frequência.

Paloma tinha mechas azuis em seu cabelo curto e escuro, ela usava piercing no nariz, e Laura, uma das meninas mais chatas da escola a chamava de vaca por isso. Vítor e eu nos vestíamos de maneira parecida, sempre de camiseta de banda e calças jeans. Ele tinha uma preferência por All Stars e eu amava meus coturnos. Meus cabelos eram muito negros e curtos em corte chanel, eu quase nunca usava maquiagem. Renan era o único que se vestia de maneira diferente de nós, ele usava calças coloridas e tênis de marca.

Depois da caminhada noturna, cada um foi para uma direção diferente. Vítor me levou até em casa, de mãos dadas, ele me deixou em frente a uma casinha de cor azul, despediu-se com um beijo afetuoso. Nós namorávamos há sete meses e ele sempre se mostrou um rapaz gentil e carinhoso. Podia não ter experiência no amor, ele era o meu primeiro namorado, mas eu definitivamente estava apaixonada.

Destranquei a porta após ver Vítor desaparecer ao virar a esquina. Entrei, não me preocupando em dizer que havia finalmente chegado, ou mesmo em acender as luzes. Caminhei para meu quarto em plena escuridão. Estava acostumada a ficar sozinha por várias noites. Minha mãe é enfermeira e com frequência precisava voltar ao hospital para um plantão.

Naquela pequena casa azul, morávamos apenas ela e eu. Nunca conheci meu pai e ela não gostava de mencioná-lo, respondendo apenas que ele faleceu antes mesmo de eu nascer. Notava uma dor em seu olhar toda vez que tocávamos no assunto, portanto parei de importuná-la com perguntas sobre meu progenitor. Todos os meus objetivos atuais eram curtir as férias de fim de ano, aproveitar o meu namorado e amigos, e aguardar o segundo ano do ensino médio.

***

Era fevereiro, meus amigos e eu planejávamos dar uma volta pelo calçadão da praia de bicicleta. Minha mãe estava em casa naquela noite e quando avisei que sairia com meus amigos, insistiu que eu ficasse com ela.

Minha mãe era uma mulher jovem com um pouco mais de trinta anos, mas sua aparência cansada do trabalho, dava a impressão de ser mais velha. Ela nunca usava maquiagem, suas marcas no rosto eram visíveis, as olheiras eram bem marcadas e seus cabelos castanhos já possuíam alguns fios brancos. Era magra e um pouco mais baixa do que eu.

Ela estava exausta dos plantões que fez nas últimas noites e disse que queria ficar comigo nessa sua noite de folga. Mas algo me incomodava, ela não parecia estar falando como se fosse um pedido informal de mãe e filha para vermos Orgulho e Preconceito pela sexta vez seguida. Era mais como uma ordem, quase nunca a via falando naquele tom.

Não éramos o tipo de mãe e filha que brigavam, nunca lhe desobedeci e ela também nunca precisou me colocar de castigo, nós nos respeitávamos e nos considerávamos muito amigas. Ousei perguntar se estava tudo bem com ela.

— Eu só quero passar um tempo com minha filha hoje à noite. — Ela me respondeu sorrindo, mas o seu tom de voz ainda me parecia diferente do habitual.

Olhei para o relógio do meu celular, já eram seis horas da noite. O céu estava num tom azul-escuro e o sol se despedia com seus últimos raios de cor magenta. Meus amigos estavam chegando para me buscar de bicicleta, seria deselegante desmarcar.

— Mãe, eu vou ficar com a turma até as oito e volto para passar o resto da noite com a senhora, pode ser?

Ela mordeu a parte interior da bochecha não convencida. Eu pulei em seus braços e dei um beijo amoroso em seu rosto, esperando que isso derretesse seu coração mole de mãe e permitisse que eu passasse algumas poucas horas com meus amigos. Ela se convenceu e pediu para eu não voltar tarde. Na mesma hora, ouvi uma buzina de bicicleta, eram Paloma e Renan que estavam em frente à minha casa. Coloquei meu capacete lilás e peguei minha bike de cor púrpura para acompanhá-los.

Enquanto caminhávamos pelo calçadão, Renan desabafava sobre os problemas que enfrentava com o namorado. Paloma dava conselhos radicais do tipo “termine logo com ele!”. Eu preferi me distanciar desse assunto, era nova nessa coisa de amor e nunca fui uma menina apaixonada que sonhava com príncipes encantados. Poderia me considerar mais prática, apesar de ter um namorado e gostar muito dele.

Observei o céu enquanto eles discutiam. As luzes da cidade cobriam as estrelas brilhantes, mas a luz da lua naquela noite estava radiante, tão redonda e prateada! Olhei para meu relógio e percebi que eram quase oito horas, disse aos meus amigos que teria de ir. Eles me acompanharam de volta para conversamos mais um pouco pelo caminho.

Por estar distraído e tristonho pelos problemas amorosos que enfrentava, Renan não percebeu que pedalava no meio da pista e não viu quando um carro passou em alta velocidade ao seu lado. O garoto jogou o seu corpo para a calçada por puro reflexo e caiu rolando no chão. Paloma e eu estacionamos nossas bikes e corremos na direção do nosso amigo.

Renan se apoiava pelos cotovelos no chão. Paloma ficou aliviada ao vê-lo bem e disse que ele tinha sorte por estar de capacete, o mesmo não podia ser dito de seu tornozelo, que parecia ter sofrido uma torção e nem de seus joelhos que sangravam. O volume de sangue era pequeno, mas tinha um forte cheiro metálico misturado a outros aromas adocicados que eu não conseguia identificar muito bem. Aproximei-me de sua perna, enchendo meus dedos do sangue que escorria, o garoto gemeu de dor ao meu toque.

Levei meus dedos até as minhas narinas. Era realmente o sangue dele que possuía um cheiro diferente! Por algum motivo, isso se tornou atrativo para mim e eu coloquei um dedo sangrento na boca. Meus olhos negros se arregalaram pela explosão de sabores em minha língua, era um gosto único e perguntei a mim mesma por que nunca havia experimentado antes!

Naquele momento, eu já não tinha mais domínio sobre meu corpo, agarrei a perna dolorida do meu amigo e comecei a lamber seus joelhos. Renan gritava de dor e Paloma também protestava. Sentia vontade de morder aquele joelho, tinha tão pouco sangue. Eu precisava de mais! No momento que mordi sua perna, Paloma me empurrou para longe.

— O que é isso, Aurora? — Ela gritou comigo. — Você virou um zumbi agora pra sair mordendo as pessoas? Olha isso!

Olhei incrédula para o que eu acabei de fazer. Eu o mordi com tanta força que pequenas marcas de dentes se formaram em sua pele, parecia mesmo que um zumbi o havia mordido. Eles me encararam com medo, e mesmo quando Renan soltou uma piadinha sobre estar infectado e que se transformaria em um morto-vivo, não quebrou o clima horrível entre nós três.

Afastei-me e liguei para uma ambulância. Logo a assistência chegou e entramos na ambulância. O cheiro de sangue ainda me trazia diversas sensações diferentes e eu tentei ficar o mais afastada possível de Renan, com a mão cobrindo meu rosto.