Aurora Springs
1 Capítulo 1 - Parte 1
Aurora Springs, CA. Frequentemente abreviada como AS.
12 DE AGOSTO
Aquele seria o ano perfeito. Paula Prata simplesmente conseguia sentir aquilo. Quer dizer, sua vida andava extremamente ótima ultimamente. Capitã das líderes de torcida. Um namorado perfeito e bonito. A garota popular – sem precisar ser do tipo bitchy, que nem nos filmes. E agora, lá estava ela se preparando para seu primeiro dia do seu terceiro ano no ensino médio. “O ano das “good memories”, huh?” ela pensou para si mesma, olhando seu reflexo no espelho. Sabia que deveria provavelmente parecer um pouco obcecada, mas só queria que tudo estivesse perfeito. Conferiu o cabelo, as roupas, a maquiagem leve, porém que ressaltava seus melhores pontos. O som da buzina a assustou levemente, fazendo com que desviasse o olhar do espelho. Foi até a sacada, mas já sabia quem era: seu namorado esperando para levá-la. Com um sorriso, ela pegou sua mochila e desceu as escadas.
A algumas quadras dali, alguém também era chamado por uma buzina. Mas, diferente de Paula, Maria estava com um mau humor terrível. Não sentia que aquele seria seu melhor ano – nah, talvez fosse o pior. Sinceramente, a garota preferia muito mais continuar mais algumas horas – quem sabe anos? – na cama. Mas a segunda buzina a tirou do torpor, fazendo com que levantasse num salto da cama. Não conseguia acreditar que havia perdido a hora. Xingando os céus e os infernos, vestiu a primeira roupa que viu, um jeans, all star, camisa – oh, wow, muito original, Maria – mas pelo menos não era tão ruim assim. Depois de uma dose de higiene, desceu as escadas correndo, após ter prendido o cabelo apressadamente em um rabo de cavalo.
Apoiada no carro estava sua melhor amiga, parecendo irritadíssima enquanto esperava pela garota. Ela vestia jeans, jaqueta por cima de uma regata preta e uma bota com um leve salto, para compensar a questão da altura. Agnes bufou dizendo um “finalmente” que soou abafado enquanto ela dava a meia volta no carro e entrava no banco do motorista.
– Não acredito que vamos nos atrasar pro primeiro dia. Eu já estava prestes a entrar e te buscar pelos cabelos, sabe – Ela comentou enquanto girava a chave, ligando o carro.
– Eu não acredito que aceitei que você me desse carona. Você provavelmente vai me matar nisso aí, de tão sutil que é. – Maria revirou os olhos enquanto abaixava o espelho para dar uma olhada. Não estava tão ruim assim, glória aos céus. – Você mal completou dezesseis, e tem essa cara de quatorze. Não sei nem como passou pelo teste de motorista.
– Ei, ei, ei. Já faz três meses que fiz dezesseis. Tem gente que sai dirigindo antes. E passei com todas as honras, muito obrigada. – Agnes parecia meio impaciente ao parar no sinal vermelho, então se voltou para a amiga. – Não fique assim tão emburrada. Não vai ser tão ruim. Pelo menos pior que o ano passado não fica, certo? – Maria revirou os olhos, mas acabou concordando com um sorriso. – Você já sabe se pegou o primeiro horário comigo?
– Hmmmm... eu meio que... ainda não tenho o horário?
– Oh, wow, o que você andou fazendo na última semana?
– Coisas.
– Tá, tá. De qualquer forma, vai que você cai numa sala com uma certa pessoa?
Aquilo fez o ânimo de Maria rapidamente aumentar.
– Siiiiiiiiiim, um certo Caio que tenho uma crush-mor por alguns anos. É, talvez não seja um ano tão ruim assim.
De alguma forma realmente estranha, conseguiram chegar a tempo, embora não tenham pegado uma vaga lá muito boa, longe da entrada. Mas isso significava rever alguns amigos pelo caminho, então, por que reclamar?
– Bom, a maior parte são seus amigos, então sei lá. – Maria se apressava para percorrer o caminho do estacionamento; Agnes não havia percebido que havia dito o pensamento em voz alta. – Sinceramente, não sei como consegue ser amiga de tanta gente.
– Uh, não é tão difícil, sabe. Mas, na realidade, você nunca sabe o que pode conseguir da maioria. – Agnes sorriu de canto enquanto acenava para alguns que saiam dos carros, outros que chegavam de ônibus ou simplesmente a pé. – Mas você me conhece. Sou apenas social, com pessoas que eu vejo digno de socialização. Caso contrário, eu preciso ficar sozinha e isolada das pessoas estúpidas que só são bons o suficiente para serem meus seguidores. – Ela balançou os ombros. – Mas para isso, você primeiro precisa conquistá-los, entende?
– Ou isso, ou ser como a Paula. Linda, magra, alta, cabelos perfeitos ao vento, piruetas ao céu, flexionando as pernas para o namorado gato que está jogando hockey.
Agnes não conseguiu segurar uma risada.
– Ou incrivelmente irritante como ela. – Maria completou ao observar uma garota passando em sua frente.
Agnes não sabia quando e por que a treta entre as duas havia começado, mas desde que o céu era céu e Esther gostava de álcool, Maria Clara e Thaisa se odiavam. Esta passava colada a sua (atual?) melhor amiga, Cristye e mandou um beijinho para Maria enquanto entrava na escola.
Visto o que estava prestes a acontecer, Agnes sentiu Maria cerrando os punhos e ameaçando partir na direção da garota. Respirou fundo e prensou a garota contra a parede da escola, segurando-a.
– Ei, ei, você não pode bater em todo mundo com quem tem um problema!
– Bom, eu posso tentar!
Agnes soltou a garota, rindo, até que percebeu que o olhar de boa parte da multidão que chegava estava centrado em uma direção. Um pequeno grupo de alunos circundava o diretor da escola, parecendo receber algumas informações. Eram, de primeira vista, alunos normais, segundanistas, provavelmente, mas havia uma grande questão.
E tal questão é que o colégio público de Aurora Springs nunca tinha alunos novos. Veja, a cidade era minúscula, com provavelmente uns dez mil habitantes, norte demais na Califórnia, portanto, sujeita a grandes períodos de frio. Tinha lá belas praias, mas não era o maior atrativo, nem de longe.
Então ninguém se mudava para lá. Se alguém fazia – o que era raro – rapidamente a cidade inteira descobria o nome, seu passado, interesses, hobbies; e tal pessoa ficava na boca do povo por pelo menos um mês. Então era um choque para adolescentes de 14 a 18 anos, que se conheciam a vida inteira, receberem do nada um grupo relativamente grande de alunos novos.
Agnes distinguiu alguns garotos, mas a maior parte do grupo era feminina. Percebeu o olhar da maior parte das garotas em um garoto com uma blusa da tardis, e deu uma cotovelada em Maria.
– Parece que aquele ali deu azar. As garotas parecem que vão cair em cima.
– Ele tem cara de idiota. –Maria balançou os ombros. –Podemos entrar agora?
– Bruno Bond.
Uma voz assustou as duas, fazendo com que se virassem para encarar duas garotas. Era Bianca Doin, vindo colada na sua cara-metade Isabela Rapp. Agnes não se surpreendeu que ela já soubesse do nome do pobre garoto.
– Eles são alunos transferidos. Parece que deu algum incidente muito louco na escola aonde estudavam, e todos foram jogados para cidades vizinhas aleatórias.
– Ninguém mais estuda lá. – Acrescentou Isabela, com uma voz rapidamente histérica. Lembrava-lhe muito de um coelho, por mais que ela nunca tivesse detido um.
–Vocês conseguem imaginar o que pode ter lá causado isso? – Era Bianca.
– Ughhhhh, estou morrendo para saber. – Isabela.
– Mas até agora só conseguimos descobrir o nome do pessoal.
– Enfim, temos trabalho a fazer. Byeeeee.
As duas observaram enquanto as duas saiam apressadas, rindo.
– Sinceramente, o que acabou de acontecer? – Agnes perguntou, voltando a andar.
– Sei lá. Nunca entendo as duas. Parecem que estão sempre drogadas. Vamos logo. Não é como se não estivéssemos atrasadas o suficiente. E, veja só — Maria apontou para uma tabela no celular — temos o primeiro horário juntas.
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