O ambiente de madeira vibrava vida pelos diferentes corpos que lá passavam.

Um grande arco branco divida a área de espera das salas dos detetives e advogados na Delegacia Civil. O chão de mármore rosa misturava-se com o tom alaranjado do sol, que atravessava os vidros da grande janela lateral. No canto direito, do lado oposto da secretária, e ao lado de duas portas, uma criança estava sentada, quieta, com os olhos vidrados no chão e o rosto inchado. Suas mãos pousavam em seus joelho, fechadas.

A garotinha aparentava ter dez anos de idade e tinha uma fita de seda rosa em uma mecha de seu encaracolado cabelo. Sua meia-calça era do mesmo tom que seus cachos e seus grandes olhos: negra. Sua boca era pequena, carnuda e rosa, sua pele brilhava num tom achocolatada e nas suas bochechas se encontrava uma linha de lágrimas. O vestido que a menina usava era vermelho, assim como os machucados em seus dedos e o sangue que saía de seu calcanhar.

Foi quando a secretária saiu de sua mesa e abriu a porta ao lado da garota. Ela entrou na sala e ficou lá por um tempo, a menina não tirou seus olhos do chão. Quando a secretária saiu da sala, ela foi em direção a criança, pousando sua mão no ombro esquerdo da menina.

"Pode entrar, querida."

A menina levantou-se e se dirigiu para a porta à sua esquerda. Quando entrou na sala, viu uma mesa de madeira velha à uma diagonal direita, com um homem sentado atrás. De ambos os lados do homem, haviam armários de metal azuis, abarrotados de papéis ofícios, quase sem espaço para guardá-los. Na mesa de madeira, a mesma situação: mais e mais papéis, criando uma pilha de desorganização.

O homem se levantou, torcendo a ponta de sue bigode marrom e ajeitando seus óculos meia-lua. Ele fez um gesto com a mão, pedindo que a menina se senta-se, quando ela o fez, a porta se fechou atrás.

"Boa tarde, Morena" disse o homem "Meu nome é Loânda, Comissário Loânda. E o caso de seu irmão foi designado à mim."

Morena observou que a cadeira onde estava sentada era um pouco úmida, o seu tom de branco já estava amarelando. Ela se levanta e se senta na cadeira ao lado. O Comissário Loânda só observa o movimento da criança e concerta a sua gravata vermelha.

"Mas isso não vêm ao caso." Ele dá um sorriso e Morena não retribui "Imagino que deve estar se perguntando para onde vai agora, já que seu padastro é um foragido... Bem, nós não conseguimos achar nenhum parente próximo seu que esteja vivo e, bem, isto quer dizer..."

Ele arruma sua gravata mais uma vez.

Morena começa a sentir seu calcanhar pulsar.

"...Isto quer dizer, minha cara, que só temos uma opção."

Orfanato.

"É na Rua Quinze que a Irmã Joice abriu uma nova Casa para Meninas. Um orfanato, por assim dizer. Acreditamos que este seja o melhor lugar para você ficar."

Morena sentiu uma lágrima cair pela sua bochecha, seus olhos começaram a queimar.

"Ora... Não tem porquê chorar, minha querida... a Irmã Joice é uma boa mulher, incrível educadora. Aposto que você encontrará várias amigas lá."

Morena não chorava por causa do orfanato, ela chorava por que a porra do calcanhar dela estava aberto.

"Mertiolate" murmurou Morena.

"O que disse, querida?"

"Será que o senhor tem mertiolate?"

Os olhos dele arregalaram.

"Ah! Sim! Mas é claro..." Loânda abre todas as gavetas possíveis, e pega um frasco de vidro marrom, com um pouco de líquido "Aqui está, minha cara."

Morena pega o frasco e derrama seu conteúdo todo em seu calcanhar, ela sente a ferida queimar.

"Caralho..." ela sussurra.

O Comissário Loânda escolhe não ouvir o que ela disse.

"Quando eu posso ir, então?" a pergunta de Morena pegou o Comissário de surpresa.

"Bem..." Ele engoliu em seco e coçou a garganta "Espere lá fora, querida que eu já, já lhe digo, está bem?"

Morena se levantou e saiu da sala. Ela vai em direção ao banco onde estava sentada e percebe que um homem, pálido e velho, com um terno preto e uma boina do mesmo tom está sentado em seu lugar. Morena faz contato visual com o homem rapidamente e se senta ao lado.

O homem tem cheiro de carvalho molhado e seus olhos são de um tom de azul esverdeado. Sua barba é grisalha e bem esculpida, seu cabelo é ralo e quase esconde a sua careca. Ele olha para frente com o nariz empinado e um ar de superioridade. Morena vira sua cabeça para a esquerda, para olha-lo mais uma vez, mas o homem vira seu rosto e Morena desvia o olhar, envergonhada.

Ela resolveu que seria melhor ficar mais preocupada com seu corte do que com o homem ao lado.

Mas eu nunca vi ninguém tão elegante, pensou a menina.

Ela virou seu rosto mais uma vez e percebeu que o homem tinha uma postura impecável e segurava uma bengala com a cabeça de um leão em cima. Seu dedo anelar direito tinha um anel com o mesmo leão, de olhos vermelho-fogo.

"Bonito, não é?" o homem diz, Morena vira o rosto e olha para o mármore rosa.

"Não há porquê se assustar comigo, pequenina. Meu nome é Elias Casablancas." Ela já havia escutado esse nome "E eu soube da sua terrível história, Morena."

A garota arregalou os olhos e virou seu rosto para o homem, que sorria.

"Eu sei como é viver assombrado por um monstro em sua família. O seu padastro era um monstro. E eu estou feliz que ele não está mais perto de você." Morena lembrou das vezes que sua mãe a alertava sobre falar com estranhos, mas ela não estava dizendo nada, então não deveria ter problema, certo? "Meu pai batia em minha mãe. Todo dia. E eu achava que era normal. Todos os maridos batem em suas esposas, certo? E então minha mãe morreu e ele começou a me bater. E eu pensava... 'Tudo bem, todos pais batem em seus filhos, certo?', no fim, eu só queria que ele não batesse em meu irmão..."

Irmão. Meu irmão. Lucca.

"...Então quando ele levantou a mão para ele, eu tive que fazer o que fiz." O homem suspirou e tirou um pano branco de seu blazer, entregando-o a Morena.

Ela não havia percebido, mas lágrimas caiam sobre suas bochechas mais uma vez, criando novos desenhos e riscos sobre a sua pele.

Wagner matou Lucca, ele tentou me matar. Lucca. Meu irmão Lucca.

Foi quando uma mulher loira, de vestido preto e boina do mesmo tom sentou-se do lado do homem. Ela sussurrou no ouvido do homem e ele suspirou levemente.

"Eu espero que se sinta feliz para onde você vai, pequena. Mas se não..." ele se levantou e fez um gesto com a mão. A mulher loira do lado dele tirou um cartão preto com letras prateadas da bolsa e entregou a Morena "...Eu estarei pronto para ajudá-la."

A mulher aproximou-se de Morena e lhe disse: "São as coisas mais tenebrosas que nos faz mais fortes. Você tem a oportunidade de se tornar invencível, Morena Luz."

E, com isso, e mulher e Elias Casablancas saíram das vistas de Morena.

O Comissário Loânda saiu de sua sala, arrumando a sua gravata mais uma vez e guardando seus óculos meia-lua no bolso de seu blazer.

"Então, minha cara. Pronta?"

Morena olhou para Elias indo embora, o que chamou a atenção de Loânda.

"Ah sim... O Senhor Casablancas. Dono das empresas de produtos químicos. Filantropo. Um bom homem." Ele suspirou "Enfim. Vamos?"

Morena guardou o cartão no bolso de seu vestido, segurou a mão do Comissário e seguiu para a Casa para Meninas da Irmã Joice."

I

O flash de luz tomou conta da visão de Alma que, um segundo estava em seu quarto, querendo quebrar o novo tablet, e no outro estava no fim de uma escadaria de cimento escura.

Alma sentiu sua cabeça pesar e tentou lembrar de uma reza à Alah. Ela abriu os olhos e observou o espaço ao redor dela. À sua esquerda, uma escada mal cuidada, em sua frente e trás, uma parede de cimento, na sua direita, uma porta de madeira, no teto, uma pequena lâmpada branca, piscando.

Alma imaginou que estava dormindo. Talvez no seu quarto ou talvez no hospital. Provavelmente o mp3 de Danton parou de tocar Formation e uma musica macabra começou. Uma musica que cite escadas de cimento com buracos, uma porta preta entranha e um cheiro de mofo.

Ela agachou e tentou respirar fundo. Agora, ela mandava uma mensagem para si mesma: acorde. Mas isso não parecia ajudar.

Ao mesmo tempo que aquilo aprecia um sonho, tudo parecia real. Alma sentia tudo como se estivesse acontecendo com ela, o cheiro de mofo, o gelado das paredes de concreto, a dificuldade de enxergar que era consequência da iluminação... Tudo parecia muito real, mais real do que se está presa em um sonho.

Foi quando ela escutou um barulho de metal vindo por trás da porta. Como se correntes estivesse sendo puxadas. Alma olhou para a maçaneta e resolveu virá-la. A porta abriu e dela um brilho branco e forte tomou conta dos olhos de Alma. Com o tempo, seus olhos se acostumaram com a iluminação e ela conseguiu enxergar o corpo de um homem de costas para ela.

O corpo estava erguido pelo teto, com a ajuda de uma corrente de metal. O homem tinha cabelos negros e curtos, usava uma camisa social branca, que estava quase toda coberta de sangue. O corpo se mexia de um lado para o outro, fazendo a graxa do sapato do homem fazer um desenho semi-circular no chão branco.

Alma aproximou-se do corpo e, de repente, o rosto do homem virou. Ela gritou e o homem franziu o cenho. Ela achava que ele estava morto.

Ela chegou mais perto dele para perceber que o ombro esquerdo dele estava perfurado por um gancho de metal, ligado às correntes. Aquilo era o que estava o mantando em pé e Alma ficou horrorizada.

"Quem é você?" perguntou o homem.

Alma sentiu dua garganta fechar, o mais perto que ela chegava dele, mais seu rosto parecia familiar.

As bochechas dele estavam completamente rubras, seus olhos, azuis claros, assustados e seu cablo pigando de suor. Seus lábios eram finos e vermelhos, ele parecia estar em grande dor.

"M-meu nome é Alma" ela disse, quase sem conseguir se escutar.

O homem aprece confuso.

"Você trabalha para ele?"

Alma franziu o cenho.

"Nuer" diz o homem.

"Quem? N-não" ela não sabia o que fazer ou dizer, estava em choque.

Pelo amor de Deus, Alma, você é uma médica. Por que não tira ele deste lugar? Por que não consegue mexer suas pernas? Faça alguma coisa!

"Certo" o homem luta para enunciar cada palavra "Alma, eu preciso que você me ajuda, certo?"

Alma mexe a cabeça, positivamente.

"Ótimo" ele lambe os lábios e faz uma careta, Alma percebe que ele está lutando para se manter erguido.

Se ele soltar as correntes, seu ombro vai rasgar. Ele precisa de ajuda., Alma pensou, Quem será que o colocou aqui? Será que ele fez alguma coisa? E se ele for a pessoa má?

"Alma eu preciso que você corte essas correntes e depois de ajude a sair daqui. Pode ser?" Alma assentiu com a cabeça "Ótimo, muito obrigado. Agora, por favor, procure algo que possa cortar essa corrente."

Ela tirou as mãos dos lábios e olhou em volta: viu uma mesa pregada no chão na sua diagonal esquerda e uma fileira de sacos de lixo pretos da sua direita. Alma foi até a mesa e abriu a gaveta e encontrou um alicate de metal.

Ela pegou esse alicate e foi até o homem.

"Perfeito. Agora, corte as correntes."

Alma pegou uma cadeira, subiu nela e começou a tentar cortar o metal que segurava o homem para cima.

Esse sonho tá estranho pra caralho.

Mas as correntes não cortavam só amaçavam, muito pouco. Alma percebeu que isso não adiantaria.

"Você está indo muito bem, continue tentando" disse o homem.

A medida que Alma colocava mais força no alicate, o homem gemia de dor. Ela sabia que, naquele ritmo, eles nunca sairiam de lá.

Ela olhou para cima e percebeu que a corrente estava presa em outro gancho no teto. Esse gancho era menor e mais enferrujado, era como um gancho de rede de praia. Ela pensou que poderia tirar a corrente de lá, mas não era alta o bastante.

"Isso não vai funcionar" ela murmurou.

"O quê?" disse o homem.

"Como disse que seu nome era mesmo?"

"Eu não disse" o homem engoliu em seco "É Bala. Alexandre Bala."

Alma deixou um riso sair. Então ela desceu da cadeira e começou a rir.

"Ei! Por que você parou?!" A risada de Alma ficava mais alta "Você tá rindo? Mas por que você... Ei! Pare de rir! Alguém pode te escutar!"

Alma pôs a mão na sua barriga, que doía. Seus olhos começaram a lacrimejar e ela estava bêbada de risada.

"Alma!"

"Esse é o sonho mais louco que eu já tive na minha vida!" ela riu mais, Alexandre Bala franziu o cenho.

"Sonho? O quê...?" Bala estava muito confuso.

"Meu inconsciente deve estar me avisando de alguma coisa... Talvez ele queria mito que eu fale com meu pai", Alma disse a si mesma.

"Você é louca" sussurrou Bala, observando Alma "Você está trabalhando com ele."

"Você não entende?" Alma ainda ria "Você é uma projeção da minha mente, bobo!"

Bala olha para seu lado e percebe que a cadeira está próxima, ele começa a mover seu pá, para puxá-la para mais perto.

"Isso tudo é um sonho! Você não é de verdade."

"Alma, pelo amor de Deus. Eu sou de verdade. E tem um homem, muito maluco, que colocou isso no meu ombro..." Alma observou Bala "...ele quer me matar! Ele vai me matar e eu vou morrer, ao menos que você me ajude! Entende isso?"

Alma dá uma pequena risada.

"Puta que pariu, você deve tá chapada, não é possível"

A perna de Bala bate na cadeira, que cai para o lado.

"Merda!" Ele grita.

"Tá. Calma. Vou ajudar." Alma pega a cadeira e a levanta de novo. Ela sobe nela e pensa: Já que eu não quero acordar, melhor eu seguir a maré.

"Isso pode doer um pouco" diz ela.

Bala olha para ela, confuso: "O quê? Por quê?"

Antes de responder, Alma começa a bater no gancho do teto com o alicate de metal. Tal movimento repercute no gancho que está perfurando o ombro de Bala, fazendo balançar. Bala geme de dor.

"O quê... que... você... está... fazendo?" ele luta para que cada palavra saia de sua boca.

"Calma. Vou tirar você daqui. Só aguenta um pouco."

Ela bate mais algumas vezes e o alicate cai da sua mão. Ao invés de pegá-lo mais uma vez, Alma puxa a corrente para baixo, fazendo uma pressão no gancho que faz ele se soltar do teto. Em consequência, Bala cai no chão, gritando de dor.

Uma corrente de choque desce do ombro de Alexandre para seu corpo inteiro. Ele não consegue sentir mais nada além dessa dor, nem mesmo o impacto do seu corpo no chão foi sentido, apenas esse machucado dilacerante em seu ombro é percebido. Bala tenta respirar quando Alma se agacha perto dele e ele consegue observá-la mais perto.

Alma tem cabelos negros como a noite, presos em um coque. Seus olhos são de ressaca e esverdeados, sua pele bronzeada e seus lábios carnudos e molhados. Se não fosse pela dor, Bala estaria maravilhado.

"Vamos. Você tem que sair daqui" Bala sente as mãos da sua salvadora tomar seu corpo. Ela tenta levantá-lo e coloca seu braço direito sobre seus ombros. O braço esquerdo de Alma abraça o tronco de Bala e ele tenta se erguer. Quando seus pés tocam no chão, Bala cede, tropeça e cai mais uma vez. Alma suspira.

"Vamos Bala. Você não disse que alguém quer te matar? Precisamos sair daqui, não é? Se ele quer te matar, ele vai querer me matar também, certo?" E apesar de estar num sonho eu não quero ter meu ombro perfurado por um gancho de metal, muito obrigada.

Bala tenta se levantar, mais uma vez, com a ajuda de Alma. O gancho ainda está no seu ombro, ligado a corrente, agora solta do teto, e, apesar dele sentir o peso desse objeto, ele sabe que se ele tentar tirar o gancho ele pode perder o braço.

Alma leva Bala até a porta e a abre. Os dois sobem a escada de cimento em espiral, com muita dificuldade.

É quando eles chegam em outra porta e Alma percebe que eles estavam e um porão esse tempo todo. Ela abre esta porta e eles sem em um corredor branco de uma casa pós-moderna.

A casa está decorada em tons de laranja e pastel e, ao invés de paredes, ela é cercada por janelas de vidro. Do lado de fora, pode-se perceber que a casa fica em cima de um morro e que está nevando. Alma franziu o cenho.

Um sonho muito estranho de verdade.

"Não faça barulho" avisa Bala "Ele pode estar aqui ainda."

Alma leva Bala pela casa, devagar. Quando chegam na sala, eles percebem que a televisão está ligada e que em cima do sofá tem um prato com pedaços de biscoito em cima.

"Ele estava comendo enquanto eu estava lá embaixo, morrendo de dor..." Bala comentou "Que doentio"

Alma concordou. Quando ela ia para a saída, Bala pediu para pela pegar alguma coisa da casa, alguma coisa que possa ter digitais. Alma colocou Bala no chão e voltou para a sala. Ela observou a cena mais uma vez: a televisão, o prato e os biscoitos e ela pegou o controle.

Quando ia embora, ela percebeu uma coisa: a televisão estava ligada no canal de notícias, e ele mostrava uma conferência política, com um homem, bem arrumado e maturo, falando algo. Alma aumentou o volume e percebeu que ele falava sobre o Ministério da Fazenda.

Este não é o Ministro, pensou ela.

Ela leu o que estava escrito debaixo do rosto do homem e lá dizia: Presidente da República. Alma respirou fundo. Aquele sonho estava muito estranho mesmo.

Estou impressionada com a minha capacidade de mudar o rosto do Presidente do país.

"Alma?" Bala chamou. Alma desliga a televisão e vai encontrá-lo. Ela o levanta e o apoia em seu ombro mais uma vez.

E, quando eles estavam prestes a sair, ela vê dois faróis se aproximando.

Merda.

"Merda" disse Bala "Ele voltou"

"Vamos pelos fundos", Alma dá meia volta e leva Bala para a cozinha.

Um homem de estatura média, cabelos castanhos longos e lisos sai do carro. Ele pega algumas sacolas de mercado e vai em direção à sua casa. Ele entra na sala enquanto Alma chega na cozinha.

Ela tenta abrir o que achava que era a porta, mas, na verdade, só era outra "parede de vidro".

"Eu odeio casas modernas" comenta ela.

O homem tira sua jaqueta vermelha e põe as compras no sofá. Ele está indo a direção contrária da cozinha quando ele para subitamente e olha para sua televisão. Ele não a tinha desligado.

O homem corre em direção ao porão.

Alma acha a porta da cozinha, mas ela não abre. "Merda, está trancada."

"Procura a chave nas gavetas", diz Bala.

Eles escutam os paços do morador pela casa.

"Rápido Alma."

O homem está perto da porta do porão quando ele escuta um barulho vir da cozinha: Alma deixou alguns talheres caírem.

Fudeu, pensou Bala.

O homem muda de caminho e tira um revolver da parte de trás da calça.

Alma acha um molho de chaves e vai até a porta para abrir. Ela tenta a primeira chave, mas não abre. Tenta a segunda, e também não abre.

"Rápido Alma, ele está perto!" diz Bala.

"Estou tentando" ela começa a ficar nervosa. Ela pega uma chave aleatória, a menor e coloca no feche.

A chave cai como uma luva e abre a porta.

"Consegui!" ela diz.

"Cuidado!" grita Bala.

Alma se vira e vê um homem de cabelas castanhos apontando uma arma para ela, o homem dispara a arma e ela desvia. A bala passa pelo o vidro; quebrando a porta completamente. Alma se levanta e joga o molho de chaves no homem, que fica confuso.

Alma pega Bala de novo e os dois passam pela porta.

O homem dispara a arma mais duas vezes e depois fica sem munição, ele volta para a sala e pega uma espingarda.

Quando saíram da casa, Alma e Bala sentiram o ar gélido tomar o corpo deles, a neve queimava pelos pés de Alma, que não estava usando sapatos fechados. Ela começou a sentir o frio como milhares de facas sendo enfiadas pelo seu corpo. Seus pés começaram a doer em pouco tempo.

Atrás deles, o homem apontou sua espingarda e atirou. Alma se jogou no chão com Bala e os dois desceram morro abaixo. Alma bateu sua cocha numa pedra e sentiu o sangue sair.

Eu não sabia que machucados doíam tanto assim em sonhos, ela pensou.

Ela se levantou e percebeu que Bala estava caído mais em baixo.

O homem disparou mais uma vez, acertando uma árvore perto de Alexandre.

Pedaços de madeira acertam o rosto de Bala, que ronronou de dor. Alma o segurou pelo corpo mais uma vez e o levantou. Bala a puxou para dentro na floresta e depois Alma entendeu que lá o homem não conseguiria atirar mais neles.

Outros dois tiros foram escutados, ecoando pela floresta, mas nenhum pegou neles.

Agora, Alma estava mais preocupada em achar um hospital para Bala.

O machucado na cocha dela estava doendo um pouco mais. O frio da neve aprecia adentrar seu corpo pela ferida e o sangue que saía dela congelava rapidamente. Alma começou a se sentir muito desconfortável e seus pés, desprotegidos, doíam mais ainda.

Ela não sabia por mais quanto tempo ela poderia ajudar Bala.

Alma conseguiu avistar uma estrada, mais atrás da floresta e foi para lá que eles seguiram. Quando chegaram na estrada, que era mal iluminada, Alexandre pediu com que ela seguisse para o lado contrário da casa de onde eles estavam.

"Deve ter alguma coisa por lá" ele disse.

Alma concordou e assim fez.

Alguns quilômetros depois, os dois encontraram um posto de gasolina e resolveram parar lá. Alma deixou Bala sentado em um banco do lado de fora e entrou na lanchonete do posto.

No caixa, um menino que aparentava ter quinze anos de idade estava lendo uma Playboy. Ele olhou para Alma e tomou um susto.

"Moça... a senhora tá bem?"

"Eu preciso usar um telefone..."

"Sua coxa tá sangrando..."

"...por favor."

O menino olhou por cima do ombro de Alma e engoliu em seco.

"O quê aconteceu com ele?!"

Ela olhou para atrás e viu Bala sentado, sua camisa branca estava completamente suja de sangue agora, o gancho ainda estava em seu ombro.

"Precisamos de ajuda, por favor."

O menino concordou e pegou o telefone.

"Sim, Olá. Tem duas pessoas feridas aqui. Eles precisam de ajuda..."

Alma virou as costas e percebeu que Bala entrava na lanchonete.

"...Sim. Ela tem um machucado na coxa e os pés estão congelados, e ele..." o menino ficou em silêncio. Bala o encarou. Alma franziu o cenho e olhou para o menino "...ele é Alexandre Bala."

Alma estava muito confusa.

"Alexandre Bala... na lanchonete do meu pai!" O menino riu e depois lembrou do telefone "Ah! Sim! Ele tem uma coisa no ombro dele! Meu Deus..."

Alma olhou para Bala e foi até ele.

"Quem é você?" Ela perguntou. Bala estudou o rosto de Alma, engolindo em seco. Ele começou a se sentir um pouco tonto.

Quando ela se voltou, a televisão da lanchonete ficou mais alta. Estava passando um jornal e a comentarista falava de um homem desaparecido. Logo depois de sua fala, uma foto de Bala apareceu no seu lado e uma escritura em vermelho em branco surgiu: Alexandre Bala desaparecido há dois dias. Amigos preocupados.

Foi quando Alma sentiu um frio na espinha.

O menino desligou o telefone.

"Eles estão mandando uma ambulância" ele disse "Meu Deus... Alexandre Bala!" ele ri.

Alma começa a tremer: "Você é o personagem."

"O quê?" Bala responde, cambaleando para o lado.

"Você é o personagem do meu pai."

Bala cai no chão, desacordado. Ele perdeu muito sangue.

O menino pula o balcão do caixa para socorrer Alexandre Bala, mas Alma só anda para trás em choque. De repente, sua coxa e seus pés parecem doer mais ainda, seu corpo formiga e sua visão fica turva. Antes de desacordar, ela podia ter jurado ter visto palavras aparecerem no canto direito do seu olho: Continua...

Notas finais
Próximo capítulo falará mais sobre a relação de Morena com Bala, como será o dia de Alma depois desse primeiro encontro, a reação dos fãs de Aurora Rubra e também de seu escritor.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.