Aurora | Nárnia
16 Rixa
Emma andava pelos corredores do castelo, seu destino era chegar a war room onde se encontraria com Floy, mais cedo naquele dia a Aurora conversou com os reis e rainhas e chegaram a um acordo sobre quem treinaria os soldados de Arquelândia. Assim que adentrou a sala, abriu as cortinas das duas janelas do lugar, olhou a grande mesa com mapas territoriais e de navegações, abriu um dos livros onde anotava o desempenho dos soldados e suspirou. Está tudo certo, tudo pronto.
— General Sallow chama, eu vou. — diz Floy chamando atenção da garota. — O que houve?
— Tenho uma missão pra você. — ela diz e Floy anda até ela, ficando ao seu lado.
— Diga.
— Conversei com Pedro e os outros, e chegamos a decidir que eu preciso ficar no castelo e cuidar de novas caças aos Ogres. Então eu indiquei o meu melhor soldado para treinar o exército de Arquelândia... — ela sorriu vendo a expressão de surpreso do moreno.
— E esse soldado sou eu? — Floy abriu um sorriso enorme.
— Você já tem suas próprias técnicas, aprendeu estratégias diferentes ao longo dos anos, acho que está pronto pra essa responsabilidade, Floy.
— Vou treinar um exército... — ele diz perplexo, agarrou os ombros da morena e olhou no fundo dos olhos dela. — Eu nunca chegaria aqui se não fosse por você.
Floy intensificou seu olhar, Emma abriu a boca para falar mas fora interrompida, um beijo inesperado e exasperado. Emma arregala os olhos estática, nunca tinha sido beijada antes, a muitos anos atrás até tinha passado em sua cabeça que Floy seria seu prometido, mas aquilo passou e ela apenas o via como um amigo, um irmão, não era ele que ela queria beijar.
O contado dos lábios durou apenas segundos, até Emma com sua força de Aurora empurrar o moreno pelo peito, ele quase voa com tamanha força dela. Floy bateu as costas em uma estante de madeira, derrubando livros e pergaminhos. Emma percebeu que usou força demais, porém fora preciso.
— Emma, desculpa! — Floy se recompõe, arruma sua roupa e olhou para ela. — Me desculpa, eu não queria... — ele para sua fala e sacode a cabeça. — Não posso mentir, é claro que eu queria te beijar. Eu queria isso a muito tempo...
— Floy para! — Emma diz decidida. — Tudo bem, eu sei. Mas, você tem que dar um fim nisso agora. Eu amo você, daria minha vida por você, porque você é meu melhor amigo, você e Cass são meus irmãos, minha família.
Alguns longos segundos de silêncio até alguém conseguir se pronunciar.
— Não é reciproco. — ele engole em seco, seus olhos verdes marejados, baixou a cabeça olhando para as mãos.
— Sinto muito.
— Tudo bem. — ele levanta a cabeça com um sorriso de lado. — Eu vou ficar bem. Se seu coração pertence a outro, espero que ele te ama tanto quanto eu, porque se não eu vou matá-lo.
— Estamos bem? — Emma pergunta, ignorando a promessa do amigo.
— Estamos, bom... eu nem tanto. — Floy coloca a mão nas costas e Emma riu.
— Foi mal, usei muita força. — ela se aproxima e eles se abraçam.
Floy deixou lágrimas caírem enquanto cheirava o cabelo dela, ele continuaria a amando mais que amiga, mas o tempo curaria seu coração partido, aquela fantasia de amor pela Aurora ficaria para trás, ele só não podia perder sua amizade.
[...]
— Já venho aqui antes? — Cass pergunta, olhando o horizonte diante do castelo, ele e Elin estavam na maior torre.
— Nunca passei da terceira escadaria. — a ruiva sorriu animada. — É lindo a vista daqui.
— Sim, esse azul do céu da tarde é um dos meus favoritos. — ele fala e se vira para ela, pegando em sua mão. — Mas, o azul dos seus olhos são os mais lindos que já vi.
Elin corou, mas já estava começando a se acostumar com os elogios do soldado, estava completamente apaixonada por ele, mais ainda depois do baile a quatro dias atrás.
— Acho que preciso te levar para ver o lago depois da colina atrás do castelo, o azul daquele lago quando o sol bate é tão lindo, nunca vi azul mais belo. — ela responde voltando a olhar o horizonte.
— Vou adorar um passeio até esse lago, mas duvido que mudará minha opinião. — ele sorriu de lado olhando a paisagem com ela.
— Podemos ir mais tarde, talvez convidar o pessoal. Pena que Floy não está.
— Ele iria adorar, não perde uma chance para se jogar na água. Espero que ele não fique muito tempo longe, ele faz falta.
— Floy é como um irmão para você. Deu para ver quando se despediram, até parecia um adeus. — a ruiva quase riu ao lembrar do drama.
— Sempre foi assim, quando um de nós se afasta. Ninguém sabe quando pode ser a última vez. — deu de ombros. — Mas hoje foi diferente, estou com um pressentimento estranho.
Cass tocou o coração franzindo o cenho e Elin ficou curiosa. Se aproximou mais dele, tocando em sua mão em um gesto carinhoso e preocupado.
— Como assim?
— Eu não sei, pode ser besteira. — sorriu se virando para ela. — Estamos vivendo a era de ouro em Nárnia, e quero vive-la inteira com você se quiser.
— Bom, estou pronta quando estiver pronto.
— Acho que estive pronto desde o dia que te vi pela primeira vez nesse castelo. Sonhando em tocar seus cabelos vermelhos como brasa de fogo. — Cass tocou uma mexa do cabelo e depois segurou o rosto dela, acariciando a bochecha. — E sabia que seria irresistível ficar tão perto de você e não querer beijá-la.
O beijo venho logo em seguida, Elin passou as mãos pelo peito do soldado e levantou o pé direito enquanto ficava na pontinha do pé. O primeiro beijo deles foi o mais romântico, suave e doce que poderiam imaginar. Assim que se afastaram os rostos com sorrisos e olhares profundos, ela suspirou.
— Ouça... — ela diz olhando o céu — Até pássaros cantão por nós.
Os dois riram se abraçando, mas junto com os pássaros outro barulho foi ouvido, Elin seguiu o olhar para baixo da torre onde podia ver os portões do castelo sendo abertos, de lá ela viu entrar quatro cavalos pretos, três dos homens vestiam roupas de soldados com símbolo da Calormânia e outro usava capa e coroa, a ruiva franziu o cenho.
— Cass, o que eles fazem aqui?
— Quem?
Elin aponta para baixo e Cass franziu o cenho, olhou os soldados e depois focou na coroa sobre a cabeça do mais magrinho e branco, ele era novo demais para ser o rei que conhecia do reino da Calormânia, mas o mais estranho era a presença deles ali.
— Eu não faço ideia. Mas coisa boa não pode ser. — respondeu ficando na defensiva. — Vamos ter que adiar nosso passeio ao lago, Elin.
[...]
— Por Aslam, o que eles fazem aqui?! — Emma diz assim que chega ao salão principal junto com Kaia, pararam aos pés da escadaria que levava aos tronos, os quatro irmãos estavam lá.
— Vieram em paz e com um propósito. — Pedro diz calmo descendo as escadas com os irmãos logo atrás.
— E desde quando um calormâno tem paz? — a Aurora não disfarçava a fúria que sentia, nunca mudaria seu jeito de ver os Calormânos desde antes da guerra que fez inúmeras Auroras morrerem.
— Fique calma, vamos ouvir o que eles tem a dizer. — Susana fala, a Aurora suspira pesadamente.
— Eles estão em nosso território, nada vai acontecer. — Edmundo coloca a mão sobre o ombro de Emma para tranquiliza-la.
— Vocês não os conhecem como eu conheci, são capazes de tudo.
— Vamos conhece-los e talvez eles tenham mudado desde que você foi embora. — Lúcia fala.
— Pelas jubas do leão, o que aqueles bárbaros estão fazendo aqui? — Cass adentra o salão logo atrás de Emma com Elin ao lado.
— Acho que todos estão se perguntando o mesmo. — Kaia resmunga de braços cruzados.
— Por favor, se comportem. — Pedro diz olhando os dois mais agitados. — Vamos ouvi-los antes de julgar.
Emma mesmo relutante concordou, ela ficou ao lado de Lúcia e Cass ficou ao lado de Edmundo na outra ponta, ambos com a mão sobre o cabo da espada na cintura. Elin e Kaia ficaram no canto esquerdo perto das colunas de pedra para observarem e não atrapalhar na conversa. Um soldado apareceu anunciando a chegada.
— Altezas, o rei Rowan de Calormânia.
Eles franziram o cenho, eles não tinham conhecimento daquele nome, a última vez que checaram o rei se chamava Rabadash e era um homem mais velho que eles. Porém, Rowan parecia ter a mesma idade que eles, era magro, cabelos escuros com ondulações, olhos verdes e aparentemente tinha 1,80 de altura. Além de características óbvias, Lúcia e Emma viram frieza em seus olhos, uma postura reta com desdém e passos firmes sem medo ou leveza. Os soldados atrás dele calmos e sem aquela típica postura de defesa, algo estava errado.
— Seja bem-vindo a Cair Paravel. — Pedro é o primeiro a falar e se aproxima ao outro. — Sou Rei Pedro, O Grande.
— Sou grato pela simpatia, é bom enfim conhece-lo. Sou Rowan, novo rei de Calormânia. — o moreno faz um gesto com a cabeça que Pedro repete em cumprimento.
— Esse é Rei Edmundo, Rainhas Susana e Lúcia, meus irmãos. — Pedro diz apontando aos respectivos logo atrás que acenaram com a cabeça.
— Quatro, é novo e meio confuso. — Rowan franziu o cenho olhando para cada um.
— Nós quatro fomos coroados, mas Pedro é O Grande. — Susana exemplifica.
— De qualquer forma creio que o que vim conversar seja com todos. — Rowan diz baixando brevemente a cabeça.
— Pois diga, estamos dispostos a ouvi-lo, mesmo com certa discórdia entre nossos reinos no passado. — Pedro fala.
— Não tão passado assim. — Emma diz baixo ainda encarando Rowan quase sem piscar, mesmo a fala baixa ela conseguiu ser ouvida por pelo menos metade daqueles que ali estavam. Rowan olhou de lado para ela colocando um sorriso pequeno de compaixão.
— Está certa, não tão no passado assim, e eu sinto muito. — a frase surpreende a morena. — Você seria...?
— Emma, general do exército de Aslam. — ela responde alto e curta.
— A Aurora que matou a Feiticeira Branca, a última lenda viva. Sei muito sobre você, minha mãe costumava contar histórias do passado e falava muito bem das Auroras, tem meu respeito Srta. Emma. — Rowan fala suave e coloca a mão no coração fazendo revência.
— Com todo respeito, mas, quem é você? Nós não sabíamos que Calormânia tinha um novo Rei. — Edmundo se pronuncia assim que percebeu que Emma ficaria calada ou apenas se preparava para falar algo nada respeitoso.
— Rabadash era meu pai... — ele começa a dizer olhando para o chão. — Ele morreu a algumas semanas, uma doença do coração. Como único herdeiro, tive que ceder ao trono.
— Sentimos muito. — Lúcia diz com sua voz doce e gentil. — E a Rainha?
— Minha... minha mãe morreu a alguns anos, uma gripe. — ele tentou forçar um sorriso, respirou fundo e adotou uma postura mais séria. — Mas, eu vim por motivos mais urgentes e sérios.
— Diga.
— Eu não sou como meu pai, não quero guerra com vocês ou Arquelândia. Quero uma aliança, vivermos em paz, ajudando um ao outro como sempre deveria ser.
— Concordo. — Pedro assente.
— Porém, algo está para acontecer. Algo muito ruim. — Rowan adota uma expressão nervosa. — Um portal será aberto perto de Beaversdam, por um mago que tinha uma aliança com meu falecido pai.
— Que tipo de portal? — Pedro semicerrou os olhos.
— Um portal para onde? — Emma deu um passo a frente, desconfiada.
— Eu não tenho certeza, mas, antes de morrer ouvi meu pai mencionar as Terras Sombrias. — apenas a menção ao nome já deixou o clima a volta mais sombrio e tenso. — Eu tentei fazer o mago desistir, mas ele não me ouviu e fugiu de Calormânia.
— Como esse mago pretende abrir um portal? Achei que só feiticeiros podiam fazer isso. — Edmundo se pronuncia com o cenho franzido.
— Ele pegou algo que pertencia a minha mãe, uma antiguidade de família, a pedra Turquesa. — Emma foi a primeira a ter uma reação.
— Uma antiguidade de Arquelândia, sua família roubou a pedra dos reis do passado! — Emma avança para mais perto de Rowan, mas nenhuma reação ele teve, Pedro segurou a mão de Emma sem ninguém perceber.
— Sinto muito, eu não sabia disso. — Rowan diz indiferente.
— Não podemos focar nisso agora. — Pedro diz observando Emma encarando Rowan, aos poucos ela recuava mais para o lado do loiro. — Do que a pedra é capaz?
— Faz conexão com qualquer lugar do mundo, até outros mundos diferentes se tiver canalizado uma grande energia. — Susana fala, chamando a atenção de todos. — Eu li em um livro. — ela deu de ombros.
— Precisamos impedi-lo, antes que abra o portal ou será tarde de mais. Precisamos evitar uma batalha direta. — Pedro fala pensativo e destemido.
— Desculpe, Pedro. — Emma diz, chamando atenção do loiro. — Mas ainda não confio nessa história. — ela olha de relance para Rowan.
— O que sugere?
— Uma prova que é real. — responde.
— Concordo que temos que ter certeza antes de sair do castelo. — Lúcia se pronuncia.
— Pois bem... — Rowan respira fundo.
— Nos deixe entrar, precisamos falar com os reis e rainhas agora mesmo! — a voz inconfundível de Sigrid é ouvida a grande distancia na entrada do grande salão.
— Deixem entrar! — Pedro diz, os soldados logo obedecem.
Sigrid e o filho mais velho adentram o salão, a mulher com lágrimas nos olhos e o filho sendo arrastado pela mão desajeitadamente. Emma estranhou a intromissão de Sigrid, a cozinheira sempre respeitou os reis e rainhas, só interromperia uma conversa daquelas se algo sério estivesse acontecendo...
— Sigrid, o que houve? — Emma pergunta, segurando as mãos tremulas da mulher assim que ela se aproxima.
— Folkie... meu menino foi capturado. — a primeira reação foi de Lúcia, soltou um arquejo assustado. — Conte a eles Tolkie!
— Eu e Folkie fomos abordados por ogres e soldados, pensei que seriamos saqueados, mas levaram apenas ele e me trouxeram vendado até perto da vila de Nárnia. — Tolkie diz rapidamente, o rapaz ainda tremia.
— Os soldados tinham identificação? — Pedro pergunta sério.
— Hum... não. Nunca tinha visto trajes daqueles, parecem mestiços. — franziu o cenho.
— Não eram Calormânos, Tolkie? — Cass pergunta com certo preconceito no tom de voz, ninguém percebeu mas Rowan contraiu o canto da boca olhando de relance para o soldado Chadburn.
— Não, como disse, nunca vi antes.
— Precisam encontrar meu menino! Por favor majestades! — Sigrid implorava voltando a chorar, Emma e nem Lúcia conseguem aguentar e abraçam a mulher com carinho.
— Vamos encontra-lo. — Emma responde.
— Você lembra de mais alguma coisa, Tolkie? — Edmundo pergunta.
— Hum... Ah! Tinha um mago, eu nunca realmente vi um pessoalmente, mas certamente ele tem todas as características de um. Acho que ele era o líder.
Todos no salão, tirando os dois últimos que chegaram, olharam para Rowan. Perguntavam em silêncio, esperando o rei calormâno reagir.
— É ele, o Mago Sonrase é o único na região. Ele vai abrir o portal, temos que ir o quanto antes. — o Rei calormâno responde.
— Emma, dê instruções para montarem guarda no castelo, precisamos ficar na defensiva enquanto saímos. Mande um recado para Arquêlandia fazer o mesmo e alguém se encontrar conosco na entrada de Beaversdam. Susana e Lúcia, vocês ficam. — Pedro diz.
— Eu vou! — Susana e Lúcia dizem ao mesmo tempo, Pedro respira fundo se voltando para elas.
— É arriscado, e precisamos que alguém fique cuidando das coisas.
— Quanto menos de nós formos é mais seguro. — Edmundo fala. — Não se preocupem, vamos ter ajuda.
— Eu preciso encontrar o Folkie, é meu melhor amigo, Pedro! — Lúcia implorou.
— Sinto muito por isso Lúcia, mas vamos encontra-lo e trazê-lo de volta. — o mais velho responde. — Susana, nem preciso dizer o quanto é importante você ficar no castelo.
— Precisam me deixar informada pelo menos. — ela pede, olhando de Pedro para Ed que concordam, por último olhou para Emma, a Aurora entendeu o recado e acenou.
— Eu espero vocês nos portões. — Rowan diz, ele se virou mas Emma o parou.
— Não vai conosco. Agradecemos a ajuda mas daremos um jeito daqui pra frente. — ela diz recebendo um olhar de reprovação de Pedro e Rowan deixou um riso baixo escapar.
— Vão precisar de mim, Aurora. — Rowan se aproximou de Emma, ficando um passo de seu rosto.
— Porquê?
— Porque eu tenho o mapa das duas localizações que meu pai pretendia abrir o portal, com isso a caça ao mago Sonrase será mais rápida. — Rowan ergue a mão para trás e um dos seus soldados entregou um rolo de pergaminho.
— Demorou para dar essa informação, Rei Rowan. — Emma usa ênfase como tom de ironia e nojo.
— São muitos acontecimentos em poucos minutos, mas eu garanto que não pretendo esconder nenhuma informação que possa nos ajudar. Mas, saiba que não me sinto desconfortável com seus olhos queimando em mim, em Calormânia é bem mais quente. — Rowan sorriu de lado com ironia e Emma se segurava para não falar besteira ou arrancar o sorriso dele com seu punho.
— Agradecemos, Rei Rowan. — Pedro se aproxima puxando a mão da morena. — Emma, por favor, temos que sair o quanto antes.
— Como quiser, majestade. — ela tira os olhos de Rowan e se vira para Pedro. — Tudo ficara pronto para a partida em uma hora. Cass, Kaia, me sigam!
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