Aurora Goldwin and The Rise of Night
20 Eu Me Torno Sorveteira
Notas iniciais
Dessa vez, Nico havia se sentado ao meu lado no banco de trás do carro. Ariana estava com sua atenção voltada completamente para a estrada a sua frente, e dirigia muito rápido. Ela devia estar com a mesma sensação que eu, de querer terminar o mais rápido possível essa missão.
Eu ainda me sentia tensa. Senti Nico se mexer ao meu lado e então envolver minha mão com a sua. Olhei de relance para ele, mas ele não me olhava, apenas encarava a estrada com o rosto levemente rosa. Olhei para nossas mãos entrelaçadas; Nico tinha dedos longos e pálidos, sua mão era tão fria quanto o gelo, mas isso era bom, contrastava com minha pele que era sempre quente. Ele usava o anel de prata em forma de caveira no dedo indicador.
Honestamente, eu tinha uma queda, uma queda enorme por Nico di Angelo, e depois de meu encontro com Eros, essa queda havia evoluído o suficiente para que eu começasse a achar que estava apaixonada pelo filho de Hades. Bem, em meus quinze anos de vida, somente um garoto havia conseguido despertar isso em mim, Stephen... mas eu não gostava de me lembrar dele. O problema é que ele tinha uma coisa em comum com Nico: ambos usavam um anel de prata em forma de caveira. Pelo menos as semelhanças paravam por aí.
Ri mentalmente; uma filha de Apolo e um filho de Hades juntos; isso seria... muito diferente.
***
Salt Lake City começava a aparecer. Ariana mantinha o pé no acelerador.
— Ariana, vai mais devagar. — pedi — Podemos acabar atingindo as pessoas ou assusta-las.
— Eu quero mostrar para elas o que é velocidade. — a filha de Ares riu, mas diminuiu quando entramos na cidade.
Paramos um pouco em uma vizinhança calma e pequena, com árvores e gramas bem aparadas. Por alguns minutos, Ariana, Nico e eu ficamos admirando aquele lugar, que parecia calmo e em paz. E então, eu olhei para o relógio digital no painel do carro. Ali marcava 15:02 da tarde.
Impossível, aquilo não poderia estar certo, o sol estava prestes a se por e sumiria no horizonte em menos que uma hora!
Ariana olhou para mim e então para o horizonte com seus olhos flamejantes.
— Conforme Nix se torna mais forte, os dias se tornam mais curtos. — ela disse.
Minha pulsação falhou por um segundo; duas horas mais curtos?
Isso queria dizer que ela era poderosa e isso me deixava assustada. Se ela era forte o bastante para cortar duas horas do dia, ela não era um inimigo que seria derrotado facilmente. E eu já sabia que seria um desafio!
Ariana me olhou simpaticamente e apertou minha mão.
— Você vai conseguir. — ela sorriu.
Sorri para Ariana. Ela não parecia uma filha de Ares... ela era tão boazinha. Bem, ela era boazinha até subir em uma arena, aí ela cortava seus braços fora.
— Acho melhor irmos pegar comida. — disse Nico, olhando ao redor.
Eu não queria sair dali onde estávamos. A sensação esquisita ainda estava comigo.
— Vão vocês dois na frente. — falei — e me tragam alguma coisa — olhei para o sol, que se aproximava mais e mais do horizonte.
Eu precisava, mais que qualquer coisa, de um tempo sozinha para pensar.
Ariana assentiu e eu peguei minha mochila e sai do carro.
Eu andei até um banco que havia perto das árvores e me sentei. Na verdade, eu me deitei ali, usando minha mochila como apoio para minha cabeça. Pensei em meu chalé, o Chalé 7, todo dourado e em meus irmãos ouvindo música e cantando. Suspirei; agora eu estava sentindo falta de não ter nada para pensar e em minha única preocupação ser pensar em estratégias para ganhar a Captura da Bandeira.
Um som me tirou de meu devaneio; era um som que costumava me fazer sorrir e me deixava feliz quando eu era mais nova. A música do carro de sorvetes. Mas dessa vez, a música fez um arrepio descer a minha coluna vertebral.
A sensação estranha aumentou e eu senti meu estômago embrulhar.
Eu vi o carro de sorvete parar e crianças indo em direção a ele, animadas, com dinheiro na mão. Umas seis ou sete crianças ao todo.
E então eu vi a sorveteira, que ainda estava atrás do volante; seus cabelos sedosos estavam presos em um coque e seu rosto era bonito. Pelo menos foi isso o que eu vi, até ela se virar em minha direção.
Seus olhos vermelhos se encontraram com os meus e ela sorriu perversa, com suas presas brancas. Eu soube na hora o que ela era. Uma Lâmia. Cabeça de mulher e corpo de serpente. Se alimentava de crianças.
Eu precisava fazer alguma coisa. Eu precisava ajudar essa crianças.
Quando ela desviou seu olhar vermelho do meu, provavelmente para se preparar para se alimentar de algumas criancinhas, e me ergui sacando uma de minhas facas douradas e corri até o carrovan. Abri a porta do lado passageiro e me joguei para dentro. A Lâmia ainda não havia aberto as portas de trás do compartimento para distribuir os sorvetes, e se virou sibilando.
Não pensei, só ataquei com a faca em minha mão, do jeito que Ariana me treinara no Acampamento. Mas a Lâmia era mais ágil do que aparentava. Me empurrou e eu quase tropecei no sorvete. Pulei, furiosa, me jogando em cima dela, que se assustou com minha súbita fúria. A esfaqueei três vezes até ela se desintegrar.
Então eu respirei fundo.
Olhei para todos os sorvetes que haviam ali dentro e examinei cada um deles. Senti que não havia veneno. Aquele sorvete não poderia ser desperdiçado.
Abri as portas do compartimento traseiro do carrovan e olhei para a crianças que estavam lá fora, confusas.
— E então, o que estão fazendo parados aí? — falei na voz mais animada que consegui — Venham e peguem seus sorvetes! Eles são de graça! Estamos generosos hoje!
— Aonde a outra moça foi? — perguntou um garotinho.
— ela está no horário de folga. — menti por uma boa causa, mas mesmo assim me senti mal.
Todas as crianças avançaram em minha direção.
Conforme eu ia dando os sorvetes para as crianças, suas mães vinham e eu precisei inventar uma história rapidamente.
— Minha mãe e eu estamos dando os sorvetes porque iremos começar a nos dedicar a nossa loja de roupas na cidade. Mas nós tínhamos esses sorvetes todos ainda, então podem pegar o que quiserem. — falava.
Uma bela parte do sorvete já havia ido embora, mas ainda restavam bastante quando o som de um carro acelerado surgia na rua. Com certeza era Ariana, e ela estacionou na calçada ao lado. Ela desceu do carro me encarando com as sobrancelhas erguidas. Nico arregalou os olhos.
Ariana me entregou uma embalagem.
— Hambúrguer de cheedar, sem picles e batas fritas. — ela disse, ainda olhando o carro de sorvete.
— Perfeito. — suspirei — E essa será nossa sobremesa. — apontei para os sorvetes.
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