Aurora - Correntes da Liberdade
1 Prólogo
Notas iniciais
Estava escuro e tudo parecia quebrado, não só o vidro espalhado, os potes fragmentados, o metal retorcido, as máquinas faiscando, queimadas e amassadas, ou as lâmpadas acima de suas cabeças que haviam estourado, nem mesmo suas roupas rasgadas ou seu corpo ferido, mas também sua mente parecia destroçada. Algo estava errado dentro dela, podia sentir. Suas lembranças, o que enxergava, o como enxergava, tudo parecia distante, descontruído e errado. Alterado. Perdido.
Seus joelhos tocavam o chão e podia sentir cacos de vidros abaixo deles, e assim como nas pontas dos dedos de suas mãos, sentia o sangue escorrer quente e doloroso. Ao menos a dor ainda era real. Sabia que não era mais aquela garotinha, não era mais a Aurora. Não acreditava mais em liberdade, e talvez, soubesse agora que esta ideia era uma verdadeira bobagem, um sonho infantil. Sabia que era a hora de todos os sonhos terminarem, assim como sabia que era a hora de Aurora não existir mais.
Suas lágrimas salgadas escorriam pela face, uma de cada vez e depois aos montes, acumulando-se e transformando-se em um rio de desespero. Era o fim. Tinha de ser. Podia ouvir ao longe os passos acelerados e sabia que tudo terminaria de um jeito ou de outro. Esforçando-se para não perder o resto da Aurora que ainda existia nela, aguentando com um esforço sobre-humano, temendo que não houvesse mais tempo, implorou.
— Me mate. – Disse ela olhando seu atirador, seu assassino e sua esperança.
Quando sentiu o cano frio da arma metálica encostar sua testa, por um segundo, sentiu-se feliz. Olhou uma última vez para suas mãos, manchadas de um sangue que não estava lá, era como um sinal fraco e cheio de estática em imagens que se passavam numa televisão antiga prestes a queimar. Fechou os olhos aguardando o som que encerraria sua vida medíocre cujo mal poderia ser chamada de humana, e na escuridão de sua mente confusa, memórias que lhe pareciam perdidas ou fragmentadas começaram a emergir.
Como algo real e presente, como se estivesse vivenciando aquele momento, naquele instante, vira um campo de guerra em meio ao nada. Trincheiras dividiam e colonizavam aquele enorme campo de terra e sangue festejado e arruinado com explosões e brilhos amarelados para todos os lados. A terra que saltava com as explosões era perfurada por munições de armamento militar, armamentos que cruzavam os dois lados. Lados divididos, lados escolhidos por homens que acreditavam defender a liberdade. Liberdade que hoje Aurora sabe não existir, e ainda assim, lá estava ela, em sua lembrança, em meio ao caos, em meio a guerra, em pé, em meio ao nada. Gritos não perfeitamente audíveis, um choro de criança que parecia não se encaixar e então como duas lembranças juntas que pareciam não ter qualquer conexão, Aurora vira em sua mão um coelho de pelúcia. Ele era cinza e embora seu corpo fosse magro, sua cabeça era grande e gorda com botões negros no local dos olhos. Aurora segurava o coelho pela sua orelha longa e quase rasgada na base que conectava à cabeça.
Não entendia o que era aquilo e nem se era real, mas estava ali. Aquele tempo em frente ao cano da arma, estando prestes a morrer, pareceu uma eternidade, assim como a escuridão a qual se refugiara nestes últimos instantes parecia infinita e poderosa, coberta de memórias. Novamente, outra cena lhe surgira: Uma mulher, mais especificamente um sorriso de uma mulher. Aurora podia ver sua pele branca, lábios rosados, sorriso bonito e cabelos loiros, mas não via mais do que isto, não podia lembrar de mais do que isto, e como se nunca houvesse existido esta lembrança, fora rapidamente substituída por outra. Um arco tinha sua corda puxada com uma flecha perfeitamente alinhada, era possível ouvir o som duro e potente da corda metálica sendo puxada, faziam-se estalos. A ponta da flecha era prateada e tinha um formato de “X”, como duas lâminas cruzadas. Como parte da lembrança, uma voz perguntou-lhe ao fundo: “Belo arco, garota. Têm idade para ter um destes?”. Tudo mudou novamente.
Era branco como a neve, quente como calor humano, e seu coração batia rápido. Se remexia enquanto o rabo balançava de forma frenética e seus pequenos olhos negros brilhavam cheios de amor e felicidade. Seu focinho era gelado e molhado, ela lembrava, assim como seus dentes brancos e língua rosada. Seu pelo cacheado, branco e macio era lindo, estava maravilhada, era a primeira vez que vira algo assim. Seu coração batia quente e rápido, como o do animalzinho a sua frente. Estavam conectados. Uma voz, diferente da anterior disse-lhe ao fundo, e embora parecesse distante, era alta e clara: “Você é uma arma”. Sentindo seu coração apertar, Aurora pôs uma de suas mãos ensanguentadas no peito, apertando-o como se segurasse seu coração acelerado que aguardava o disparo. Outra lembrança lhe veio à mente, e desparecera tão rapidamente quanto surgira.
A face de um garoto com seus cabelos castanhos e um sorriso triste, seus olhos verdes brilhavam e o queixo contraía enquanto suas pontas internas das sobrancelhas eram erguidas. Uma voz, a mesma da lembrança anterior parecia falar em berros grossos e autoritários: “Você foi feita para matar! Para cumprir ordens! Então mate!”. Uma série de lembranças rápidas passou pela sua cabeça após esta e Aurora sentia que estava prestes a perder o controle. Muitos corpos de crianças mortas, um homem que parecia furioso tendo seu pescoço apertado por sua mão esquerda enquanto Aurora segurava uma faca na direita, portões se fechando com o que parecia ser uma sigla: “PMCWE”. Aurora podia ouvir o som dos militares se aproximando cada vez mais e isto desencadeou uma última lembrança, um grito que parecia ter sido lançado há muito tempo, um grito desesperado, um grito de alguém que queria lhe proteger: “Corra Aurora!”.
Como se lembrasse de algo que havia perdido, ou alguém que houvesse esquecido, olhou assustada para o homem que apontava a arma para sua cabeça, como se o quisesse ver por uma última vez, sabendo que aquela seria sua última oportunidade. Ouviu então, uma última palavra antes que tudo ficasse escuro e todas as suas lembranças fossem queimadas.
— Não. – Disse a voz grossa, porém jovial do homem que finalmente disparara a arma.
E com um som ensurdecedor, um baque do corpo daquela jovem menina que um dia acreditou na liberdade, bateu ao chão. Era o fim para Aurora, um fim para a liberdade. Tudo havia acabado enfim. Havia, não havia?
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