Aurora Azul
34 Capítulo 33 - A carta
Notas iniciais
Uma breve história de Eric Jackson.
Com apenas dois dias de vida, fora abandonado na porta de uma igreja por uma pessoa misteriosa, não se sabe se foi um homem ou uma mulher e nem ao menos deixaram bilhete. As freiras que residiam ali, cuidaram do pobre bebê. Por um mês. A igreja não possuía recursos para se sustentar e logo teve que se transferir para um outro local. Com isso, Eric foi deixado em um lar adotivo.
Aos quatro anos, foi adotado pelo casal Jackson, o qual lhe deu o sobrenome que usa até os dias atuais. A senhora Jackson tentou engravidar por cinco anos e sempre se decepcionava quando o teste lhe indicava negativo. No início, Eric estranhou a sua nova família, já que se acostumara com todos os seus amiguinhos também abandonados que, gostavam de brincar com ele. Na casa em que ele fora morar, não tinha mais criancinhas e ninguém dormia no mesmo quarto, Eric tinha um quarto azul só para ele.
E ele sempre quis um quarto azul.
Por alguns anos, os três viveram felizes. Seus pais o levava para parques e sorveterias, e sua mãe sempre deixava ele escolher os sabores e os formatos dos canudos, o que era muito importante para ele. Depois que começou a frequentar a escola, Eric fez amigos novos, já esquecendo daqueles que viviam no orfanato e, suas festas de aniversário sempre eram super divertidas, com temas que ele mesmo escolhia, como sempre.
Eric estava vivendo tudo o que, seus colegas que ainda estavam no orfanato, não tiveram a sorte de viver.
Foi aos oito anos que tudo mudou. Naquela idade, ele já fazia atividades como futebol e natação, seus pais faziam questão de assistir a todos os jogos em que ele participava. Aos oito anos, Eric conheceu Will.
Willy, como os professores sempre o chamava nas atividades, era alguns meses mais novo que ele, mas ficavam em turmas diferentes. Os dois se tornaram amigos quando disputaram a uma partida de futebol, Eric sem querer chutou na direção do amiguinho de Will e se sentiu tão culpado ao vê-lo caído no chão com as mãos entre as pernas, que passou o dia inteiro se desculpando. Os dois se tornaram bons amigos, ainda mais por compartilharem um sonho igual, proteger o mundo.
George, o pai de Will, chegou para ele com uma proposta. O homem disse que seu filho iria precisar de companhia para os seus dias de treinamento. Eric era apenas uma criança, e achava aquela proposta, uma coisa legal. George visitou os seus pais adotivos e explicou para eles alguma coisa, que ele não sabia o que era, porém, eles concordaram e nada mais importava.
Foi assim durante dez anos.
Até que seus pais adotivos morreram, em uma tentativa de assalto.
O bairro em que viviam, um pouco longe da grande cidade de Nova Iorque, era tranquilo, aquilo não era para ter acontecido.
Então ele foi para as ruas a fim de não voltar para nenhum lar adotivo. Foi inevitável o seu envolvimento no mundo das drogas, foi inevitável o seu envolvimento com Rogers. Esse homem na verdade o acolheu e ele não sabia o por quê.
Também não sabia o por quê de ter sido abandonado.
–//-
Era o dia de ação de graças, e estávamos em Nova Iorque.
Eles me disseram para voltar, que eu precisava me afastar de Phoenix por um tempo, que aquilo estava me fazendo mal.
Eles tinham razão, aquele lugar era ruim para mim e eu precisava de tempo para me recuperar. Eu não sabia do que eles queriam que eu me recuperasse, talvez a minha sanidade? Talvez roubar de volta a inocência da cidade, estando no lugar em que também aconteceram coisas ruins? No lugar onde todas as tragédias aconteceram?
Eles tem razão, eu tinha que voltar.
Há alguns dias atrás, descobri ter um irmão de sangue, que na verdade, era uma pessoa que viveu por durante muito tempo ao meu lado. Será uma coincidência? Pouco provável, na minha vida, não haviam coincidências, e sim, planos. Aquilo gerou uma discussão confusa, ambos estávamos sem reação, mas no final, ele me abraçou e disse que aquilo não mudava nada de acordo com os seus instintos. Alguma coisa não cheirava bem, eu tinha a impressão que algo estava errado. Por que a minha mãe nunca me contou que eu tinha um irmão? Por que Robert nunca comentou comigo que eu tinha uma família e que ela esteve sempre comigo? Que eu não era a única Walker viva? Eu queria ter a resposta para todas essas perguntas, mas as pessoas que poderiam me dar explicações concretas, estavam mortas.
Eu estava no apartamento de Will, no centro de Manhattan. Era a primeira vez que eu pisava em seu lar, onde era o seu aconchego, o seu refúgio e eu era a primeira pessoa a estar ali. A sala dominava um espaço extremamente amplo, com uma vista panorâmica para a Quinta Avenida, um manto de asfalto sem fim. Os móveis eram simples e sofisticados, nada que tirasse o reflexo de sua personalidade, com tons quentes, dominados pelo vermelho. Logo ao lado tinha a cozinha e não haviam paredes para separar o cômodo, como no meu antigo apartamento no Brooklyn, que foi incendiado.
Seu apartamento era lindo, mas eu ainda preferia a minha casa, em Phoenix, que também foi incendiada, ou seja, eu poderia me juntar á comunidade dos sem tetos para eles não explodirem mais nenhuma casa minha.
Eric e Tereza seguiram para a casa dela, onde será a ceia.
–Vou deixar as malas no nosso quarto. — disse Will, seguindo para o corredor.
–Nosso quarto? — sorri, seguindo ele.
–Sim, nosso quarto. — ele me devolveu o sorriso. — Você não quer ficar aqui comigo?
–É claro que sim. Só não estou acostumada com isso.
Will entrou no quarto, que também era bem amplo, tinha uma grande cama de casal, bem arrumada com um cheiro de hortências. Ele largou as malas no banco do pé da cama, retirou um controle do criado mudo e apertou em um botão que fez o vidro das janelas escurecerem. Lá fora, o clima estava um pouco frio, o inverno se esquivava para perto.
Ele jogou o controle em cima da cama e caminhou até a porta, onde estava com o corpo apoiado na parede.
–Então comece a se acostumar.
Seus lábios tocaram os meus com paixão, seus mãos acariciavam cada lado das bochechas e nossas bocas se colidiram com força, provocando e atraindo um ao outro. Me afastei depois de um tempo para respirar.
–Acho que já está na hora de visitar Rogers.
Ele assentiu com a cabeça e me acompanhou até o carro novamente, com os braços envoltos na minha cintura, protetor e com medo de que eu desabe no chão. Antes de seguir pelo caminho, passamos para comprar flores. Will dirigiu por durante meia hora até chegar ao cemitério e senti um frio na barriga assim que passei pela entrada. Minha mãe estava enterrada ali. Em silêncio, paramos em frente á uma lápide com o nome de Rogers onde vinha logo em baixa as famosas palavras significativas.
COMPANHEIRO E PAI
1955-2013
Fiquei feliz por Will ter colocado a palavra pai. Me agachei para colocar o buquê de rosas brancas junto com as outras flores que murchavam ao lado. O que significava aquelas palavras? Poderia ter vários significados para todas as pessoas, mas para mim, era um legado. Rogers deixou o legado paternal para mim e era tão importante... Uma lágrima escapou e outras a seguiram. Will me apertou com força contra si e escondi o meu rosto no seu casaco, deixei que mais algumas lágrimas rolassem para não precisar chorar mais, eu queria soltar tudo para fora e depois parar, mesmo sabendo que não temos um estoque para cada situação.
Continuei a esconder o meu rosto para que ninguém visse a dor estampada nele, Will continuou a me apertar num abraço consolador, acariciando os meus cabelos e apoiando o queixo na minha cabeça. Seu abraço tinha o incrível poder de fazer a dor ser minimizada. Eu queria que ele tivesse me abraçado todas as vezes passadas em que tive o mesmo sentimento.
–Não se preocupe, eu estou aqui com você. — Ele beijou os meus cabelos — Danna, quer voltar para o carro?
Balancei a cabeça. Me afastei e limpei o rosto com as mãos.
–Preciso deixar uma flor para a minha mãe.
Caminhamos em silêncio novamente até á sua lápide, dessa vez, eu o conduzia.
Quando paramos em frente a pedra retangular que era tão familiar, me ajoelhei e passei os dedos em cima das letras, uma por uma.
–Feliz dia de ação de graças. — limpei o resto das lágrimas e me levantei, puxando o braço de Will para me reconfortar.
–Queria tê-la conhecido. — murmurou.
–Você iria amá-la, Will. Ela era a melhor pessoa do mundo. — encarei as flores no chão e imaginei elas murchando em algumas horas. — Eu me lembro das viagens até o Central Park no período da páscoa, ela não só escondia ovos para mim, como para as outras crianças, e eu tinha ciúmes disso.
–Era a sua mãe que escondia os ovos?
–Sim, por quê?
–Minha mãe também me levava até lá para procurar ovos, Zoey também, ela me dizia que o coelhinho da páscoa aparecia só de noite para colocar os ovos e que depois voltava para a toca na Terra das cenouras. Tenho certeza de que ela sabia que esse coelhinho era a sua mãe. Zoey vai ficar muito irritada quando eu estragar a infância dela contado sobre a sua mãe. — Estava com saudades de sua irmã, mas ambos concordamos que ela ficaria fora disso até que tudo acabasse.
–Ah é? Você por acaso era aquele garotinho sardento que roubava os ovos da minha cesta?
–Não, claro que não. Eu não sou um ladrão. — ele riu e eu não pude evitar em sorrir ao ver seu largo e belo sorriso. — Eu não acredito que você morava na Terra das cenouras, por que você nunca me levou pra lá?
–Ela nunca me deixou ir pra lá.
Olhamos para o nome de Dora por um instante e depois ao nosso redor, procurando por visitantes nesse feriado. O céu estava cada vez mais escuro por conta das nuvens carregadas de neve, logo a tempestade estaria aqui.
–Eu sinto muito, Danna. — Ele se retraiu por um instante e senti a sua voz ficar cada vez mais longe. Will estava apertando a minha mão, como se estivesse com medo de uma possível fuga. — Por tudo o que a minha família fez para a sua.
–Nós nãos vamos falar sobre isso agora. Você não tem que se desculpar. Se o homem culpado não for corajoso o suficiente para se redimir, o filho não deve tomar o seu lugar. Seu filho precisa ser melhor do que ele. E Will, você tem tudo o que o seu pai não possui. — Me virei para ficar de frente para ele. — Você é uma pessoa maravilhosa.
–Não diz uma coisa dessas. Eu também sou horrível, de várias maneiras, eu já fui ruim, até para você.
–O que importa é o que você é agora, e não o que você foi. Eu só me importo com o Will que estou olhando dentro dos olhos bem agora e quem estou prestes a beijar.
Seus lábios, frios, não se moveram, nem os meus, apenas deixamos eles encostados e balançamos nossas cabeças para dar um beijo de esquimó. Então eu consegui explorar a sua boca assim como ele a minha.
Meu corpo ainda enviava ondas de dor para as feridas recentemente costuradas, então abaixei o meu braço para acabar com a câimbra.
–Você está com dor?
–Não — Menti para não preocupá-lo.
–Você não está me contando a verdade Danna Walker. Você está com dor e não quer me dizer, isso não está certo.
–É mesmo? E o que você vai fazer? — falei erguendo uma sobrancelha.
–Bom... — em um rápido movimento com o braço, Will me carregou, um braço para as pernas e o outro para as costas. Por mais que o movimento tenha sido ágil, Will conseguiu ser suave e cauteloso.
–O que você está fazendo? Eu consigo andar!
–Eu sei que você consegue. — Will sorriu, divertido.
–Então me deixe andar! — Ele começou a andar em direção á saída. — Por favor, você está me constrangendo! As pessoas estão olhando... Will... — ele estava descendo por um caminho inclinado. — Will... nós vamos cair... Will!
–Shi... estamos em um cemitério, deixe que os mortos descansem em paz. — Então ele começou a andar mais rápido. — Eu não vou deixar você cair, você não vai cair.
–Eu juro que... — Então eu estava no chão outra vez.
–O que você estava dizendo?
Soquei o seu braço.
–Babaca.
–//-
A nossa próxima parada era em Columbia Heights, numa casa de quatro andares onde Rogers morava.
Will parou o carro em frente á casa avermelhada, fazia muito tempo que eu não vinha aqui. Talvez uns três anos e meio e pela aparência, nada mudou. A rua estava pouco movimentada, como a maioria das ruas longes da cidade, a única companhia que uma pessoa solitária poderia ter naquele momento eram as árvores com os galhos secos e sem folha. Sempre me perguntei como essas pobres árvores sobreviviam no inverno e em como elas mudam de acordo com a estação. Em alguns meses, dois no mínimo, esses galhos terão folhas novas e se tiverem sorte, flores também.
Ao contrário de muitas pessoas, a minha estação favorita do ano não é a primavera e sim o outono. Nele, é como se as coisas velhas e ruins fossem embora junto com as folhas que caem, para mim, o outono é a passagem para uma oportunidade de começar alguma coisa nova, porque logo viria o inverno.
Subimos os sete degraus de escadas e empurrei a porta de madeira. Alguém deixara a porta aberta antes mesmo de virmos e adivinhei que talvez algum de seus homens o tenha destrancado.
A casa estava bastante abafada, e por incrível que pareça, estava quente ali dentro. Will estava atrás de mim e estava surpreso ao sentir o cheiro de madeira velha vinda dos cômodos.
–Ele gostava de coisas rústicas. — falei.
Por dentro, não havia nada fora do lugar. Exceto um papel branco que estava bem abaixo dos meus pés. Will se agachou para pegá-la e me entregou.
–Obrigado. Não pensei que fosse tão fácil...
–Ele devia saber o que estava por vir.
No momento após ter feito a descoberta de que Eric era o meu irmão de sangue, decidi ler a carta de Rogers antes de caçar por respostas. Alguma coisa dentro de mim, estava dizendo que Rogers da verdade, esse tempo todo.
Abri-a e li em voz alta. Estava com a sua caligrafia.
''Querida Danna,
eu nunca quis que as coisas fossem acontecer desse jeito, tão fora de controle, do meu controle. Quero pedir desculpas por ter mentido para você todos esses anos, porém nunca menti quando disse que a amava, nunca e espero que me perdoe.
Tudo começou quando concordei em ajudar George a dar um golpe no presidente do banco central para que ele pudesse substituí-lo. Naquela época, eu era conhecido por ser um grande golpista e por nunca ter falhado em nenhum caso. Foi oferecido para mim, cinco milhões de dólares e um meio lucrativo caso conseguisse realizá-lo e acabei conseguindo. Com todo esse dinheiro, entrei para o tráfico de drogas pois sabia que o lucro era bom e que as substâncias químicas estavam na moda naquela época.
Eu nunca pensei que seria procurado de novo, não tão cedo e muito menos para fazer um trabalho que não envolvia golpes. Naquele dia, George Palmer e Zachary Hill foram juntos a minha procura com outra proposta milionária, mais dez milhões de dólares caso eu acolhesse duas crianças, dois irmãos, mais proteção para a minha pessoa, ou seja, eu nunca seria pego pelo FBI ou pela CIA. Então eu me perguntei, quem será essas crianças, que valem mais do que dar o golpe no presidente do banco central? Então eu aceitei, estava curioso em saber mais sobre essas crianças. George me informava a hora e o local onde eu devia ir para acolher essas duas crianças e me disse para manter tudo em segredo.
O acordo também envolvia Will. Eu teria que ficar de olho nele e deixá-lo fora de alcance dos inimigos, que no caso era Robert. George Palmer me deixou com três crianças para cuidar, a cada ano que se passava, eram adicionados mais sete algarismos na minha conta e eu finalmente descobri a verdade sobre você e Eric.
Tudo parecia fazer sentido para mim no final, já que os dois se pareciam tanto com George. Sem ele saber, fiz um teste de DNA com o material genético dos três e o teste deu positivo. Você e Eric são filhos de George, por isso que ele vivia sempre tão preocupado em esconder vocês dois, por causa do adultério que a sua mãe, Dora, cometeu duas vezes.
Eu tentei dar o melhor de mim para cuidar de vocês dois, como se realmente fossem os meus filhos de sangue, e o meu carinho por ambos, é ainda maior do que eu posso explicar. O empreendimento que Robert Walker construiu era o maior alvo dos dois, juntos, tentaram derrubar aquele velho por anos e mesmo com a minha ajuda, não conseguimos. Até executarmos Joseph, o seu único filho. Essa foi a brecha deixada pelo velho e os dois tomaram parte dessa agência como outro meio insano de lucro.
Eu falhei em deixar você longe de todas essas coisas, não era para você ter interferido no dia em que estávamos com William, mas teimosa e valente como é, tirou um cara desconhecido de uma falsa encrenca. Fiz toda aquela cena porque queria conhecer o outro filho, aquele que ele não abandonou e criou com todo o orgulho do mundo. Mas eu não a culpo por isso, muito pelo ao contrário, se vocês dois se encontraram naquele dia, foi porque estavam predestinados a isso.
E por último docinho, tome muito cuidado com pessoas como essas, elas são perigosas e vocês vão acabar sendo mortos, como eu. Não deixe que a raiva tome conta de você, pois já vi e me lembro da garota rebelde que foi um dia, transforme isso em força para te ajudar a acabar com essa guerra de poder que vem acontecendo há tanto tempo. Eu não fui uma pessoa boa, tampouco sei do significado de ser bom, matei muitas pessoas para acabar morto também, não seja como eu, nem como eles. Seja você mesma, a sua bondade e determinação vão vencer, não desafie a sua vida, nem coloque tudo acima de si, a sua vida é valiosa, a de todas nós, a de todos.
Seja corajosa.
Eu sempre vou te amar,
Rogers.''
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