Aurora Azul

32 Capítulo 31 - Tortura


Notas iniciais
Olá, lembram do que eu disse, que alguém com as letras 'e' e 'r' no nome iria morrer? Então, fizeram as suas apostas? Vocês vão descobrir nesse capítulo.

As árvores brilhavam á luz do sol, assim como a grama parcialmente cortada.

Eu estava sonhando aquele cenário novamente, o qual eu não fazia ideia do significado. O lago estava seco, o casal continuava a correr pelo campo em harmonia, e seus rostos estavam ocultos como antes. De repente, as folhas começaram a sofrer uma mutação e logo, não eram mais verdes. O gramado foi coberto, rapidamente, por uma, duas, três camadas de folhas secas e sem vida, de uma cor alaranjada. O casal que vestia branco, parou de repente em frente a casa e percebi que a grama não era mais a mesma.

Todo o verde estava se tornando plantas sem vidas. Então, como se não percebessem do que estava acontecendo, continuaram a caminhar e a pular de mãos dadas.

Ao ficar consciente novamente, tive dúvidas se eu realmente estava sóbria. Parecia o pior dos pesadelos, um monstro ocultado há anos, ressurgia no momento.

Meus braços estavam erguidos para cima, presos em correntes de ferro e meus pés, amarrados juntos em correntes mais grossas. Estava com as mesmas roupas, porém sem a jaqueta. Era impossível me mover, todo o meu corpo doía e não fazia ideia de como havia parado ali.

O monstro se aproximou de mim e ao piscar os meus olhos várias vezes, percebi não estar em um pesadelo. Me debati, tentando me livrar das correntes e fugir para o mais longe possível, porém, quanto mais eu me esforçava, mais eu me machucava. Senti uma leve falta de ar ao respirar, pois minha boca estava selada com uma fita isolante.

Jim olhou para mim, me observou, da cabeça aos pés. O meu velho padrasto estava bem na minha frente, segurando o meu cinto de brinquedos. Era mais um motivo para temer o que vinha adiante. Seu físico não mudara em nada, continuava gordo e barrigudo, com alguns fios brancos a mais.

–Olá criança. — disse com maldade. Espremi os meus dedos, tentando passar pelo bracelete de ferro, mas era impossível. — Faz seis anos que você fugiu, muito tempo para ficar longe de casa, você não acha?

Ele largou o meu cinto em cima da mesa e percebi que estávamos em um galpão cheio de jornais, que tapavam a luminosidade do lugar. Olhei para cima e vi que ferros estavam presos nos acabamentos do teto.

–Se eu soubesse que você estava tão... — ele passou a mão pelo meu rosto, arrastando ela até a minha clavícula enquanto apoiava a outra na minha cintura. — deliciosa... — agora as suas duas mãos estavam no meu quadril. — Gostei do cabelo. — Fiquei com nojo de olhar para ele com uma súbita vontade de chorar de raiva. — eu nunca teria parado de procurá-la. — seus dedos empurraram a blusa para cima e apertaram a região do meu estômago.

Então ele puxou a fita isolante. Um barulho. Um grito de dor.

–Porra... — resmunguei, enquanto estava impedida de levar as minhas mãos até a minha boca, que ardia.

–Que palavra feia. Com quem será que você aprendeu? — ele sorriu como se estivesse orgulhoso.

–Por que você está aqui? — ainda não olhava em seus olhos. Tudo naquele porco era um desgosto.

–Pra matar as saudades é claro... — Jim desapareceu do meu campo de visão, caminhando para as minhas costas. — Te levar para casa... eu sinto a sua falta, você sabe disso, não sabe? Eu sempre soube que você seria especial, sabe? Eu via o jeito como você se sentia quando eu fazia aquilo com você. — ele apertou a minha cintura com os braços e apoiou a sua cabeça no meu ombro. Me movi para poder afastá-lo de mim. Mas ele era forte. — É um prazer diferente. — Jim afastou um pouco a minha blusa e chupou o meu ombro. — Sua mãe sabia como me fazer feliz. Dora tinha...

–NÃO FALE DA MINHA MÃE! — Atingi-o com os meus cotovelos. Ouvi Jim se contorcer para trás, urrando de dor.

– Sua puta desgraçada! — ele andou á passos largos até a mesa e pegou um canivete. Quando seus olhos miraram os meus, ele chegou até a mim e enfiou a faca para o fundo da minha clavícula, batendo nos ossos. A dor era insuportável e automaticamente me contorci num grito cortante. — Você merece mais, sabe por que? Vocês me deixaram na merda! Você é uma puta desgraçada igual a sua mãe. Ela não tinha que morrer, caralho! — seu rosto com a barba mal feita ficou vermelho e seus olhos ao se arregalarem, se tornaram duas bolas de ping-pong.

–EU — pausa — JÁ — pausa — DISSE — pausa — PRA — pausa — NÃO — pausa — FALAR DA MINHA MÃE SEU FILHO DA PUTA! Tentei acertá-lo com alguma parte do meu corpo, mas tudo o que fiz foi balançar nas correntes.

Jim acertou o meu nariz com o seu punho. Sangue começou a escorrer dos dois lados e o líquido se juntou ao sangue do corte. Canalizei a dor, sem pensar nela, e cuspi um pouco de saliva e sangue no rosto dele.

–Vá pro inferno! Você é um doente. — outro soco. Danna, você não está ajudando...

–Você vai se arrepender! — era impressionante como o seu humor podia mudar. Ele apertou o cabo do canivete com força e furou o meu braço esquerdo. Jim estava próximo demais de mim para que eu o acertasse com a minha cabeça. — Gostou? — ele riu — eu sei que você gosta. — e furou o outro braço. Dessa vez, senti a lâmina raspar o meu osso, me fazendo dar dois gritos seguidos. — Isso, grite, grite mais! Vim aqui para te fazer gritar. — Ele afundou a lâmina mais uma vez no meu braço, fazendo a ponta dela aparecer no outro lado. Meu braço estava totalmente coberto de sangue e eu não sabia mais como era gritar.

Então tive um breve desmaio, com algumas lembranças que enterrara tão profundamente, mas tão profundamente que uma escavação não era o suficiente para resgatá-las. Até aquele momento.

~6 Anos atrás, Brooklyn.~

Danna estava dormindo no andar de cima, tinha apenas quatorze anos e não fazia ideia do que faria da vida quando completasse vinte e um anos. Porém, ela sabia que iria sair daquela casa com a sua mãe, e juntas, iriam fugir para qualquer lugar longe dali.

Os passos que ouvia do corredor, estavam cada vez mais forte e próximos. Sabia que Jim estava bêbado e que logo, teria que sofrer com as consequências que aquele estado iria lhe trazer. Estava pensando em ir embora, mas a sua mãe recusava, em todas as vezes que mencionara no assunto, tudo o que recebia era um ''não podemos''. Ela queria entender o por quê. Também não entendia o por quê de ter se casado com aquele homem horrível.

Então Danna iria ficar pela mãe. Sua mãe valia todas aquelas coisas ruins que Jim lhe fazia.

A porta se abriu e Danna se encolheu mais para dentro de seu cobertor. Mas não adiantava, ele sempre a puxava para fora. Naquela noite não foi diferente.

–Saia da cama criança. — ordenou o homem fedendo a álcool, então ela o obedeceu.

Jim a puxou pelo pulso até a sala. Dora não estava em casa, mas Danna deu graças a Deus por isso, ao contrário, a mãe também iria sofrer. Ele a obrigou a tirar a blusa, ficando semi-nua na sua frente e as mãos gordas do homem tiraram o cinto de sua calça jeans rasgada.

–Preparada? — ele perguntou, e ela assentiu, e ele a espancou.

~~~~

A dor me despertou.

Jim continuava a me cortar, agora estava fazendo vários riscos na minha calça, tentando compreender o material, que me protegia de coisas como essas.

Então ele desistiu e me encarou.

–Você está cheia de sangue. — Por quê será...– Deixa eu te limpar. — Me debati fracamente tentando sair de perto dele, e tudo parecia desabar quando eu continuava no mesmo lugar. — Jim pegou um pano de algum lugar que eu não conseguia distinguir e começou a limpar parte da minha pele.

Eu estava com nojo de mim mesma.

–Por favor, me deixe ir, eu vou com você pra casa. — acabei despertando o interesse dele. — Me diz, quem te trouxe aqui?

–Você não sabe? Ora, o amigo do seu pai. — ele continuou com a limpeza e a dor só aumentava.

–Que amigo do meu pai?

–Aquele amigo. — ele sorriu. Ele definitivamente estava doente da cabeça. — Eu vou te deixar ir quando eu terminar tudo bem? Então tudo pode voltar a ser como era antes.

–Terminar o quê? — perguntei, tossindo.

–Te machucar.

–//-

Robert Walker, como um importante jogador de golfe do clube do Novo México, mantinha as mãos presas ao cabo do taco, calculando em uma linha imaginária, a força que teria que fazer ao tacar a bola. Quando ela voou pelos ares, ele tirou os óculos escuros para observar com clareza, a curva que a bolinha tinha feito, até acertar o buraco. Hole-in-One para ele. [n/a: nome dado para o primeiro acerto, no golfe.] Os outros velhos que estavam ao seu lado, começaram a aplaudir com admiração, sem perder o jeito fino de ser.

Como as coisas estavam esquentando em Phoenix, Robert decidiu manter distância daquele lugar, mesmo sabendo que, o Protocolo D estava lá. Ele sabia exatamente tudo o que estava acontecendo lá, através de fontes que ele mesmo criara. E para a sua satisfação, tudo estava correndo como ele queria, desde a chegada de seus inimigos até a captura de Danna. Era assim que devia ser para ele, em seu tabuleiro, Robert era quem ditava as regras e movia seus peões para onde bem entender.

Logo Danna irá descobrir a verdade sobre si mesma e, fará um excelente trabalho para ele. E muito em breve, quando não houver mais opções para William, ele lhe recorrerá e Robert o estará esperando com um sorriso presunçoso no rosto. Era questão de tempo até aquele menino largar o orgulho e admitir precisar da ajuda daquele que ele menos espera. Mas é claro que sim, era isso o que o velho senhor Walker queria.

Robert se agachou para pegar outra bola e a pôs no seu devido lugar. Em não muito tempo, ele estaria partindo, seu tabuleiro só estará completo, com mais uma peça. A peça que esteve esperando esse anos todo.

Aquele cujo o coração estará prestes a bater.

–//-

Peter se sentou na terceira mesa perto da janela, sentindo o cheiro daquela comida mexicana. O que eles comiam? Tacos? Nachos? Ele não fazia ideia, esperava ter a primeira experiência com Dianna ou Danna, não estava acostumado com os dois nomes. Mas o que Peter não podia negar, era que, não conseguia se afastar de problemas. Podia estar no sangue, mas ele queria dizer para ela tantas coisas... Porque tantas coisas aconteceram nesses últimos dias que ele não conseguia acreditar, nem por um segundo.

Os minutos foram avançando, os quais se transformaram em horas e depois, em horas e minutos. Então Peter se sentiu um completo idiota ao ser a única pessoa solitária do lugar com uma rosa em cima da mesa, esperando pelo seu encontro. Ele não sabia porque colocara tantas esperanças naquele dia, talvez Peter só quisesse que as coisas voltassem ao normal. Talvez ainda estivesse confusão com tudo. Ele era apenas um senhor ninguém no meio daquelas pessoas.

''Peter, pessoas perigosas estão nessa cidade e essas pessoas são terrivelmente más. Elas atiraram no meu amigo. E elas querem me matar, se descobrirem que eu tenho algum tipo de ligação com você, significa que você também é uma pessoa morta.'' Foi o que ela disse. Mas e se Dianna ou Danna estiver em perigo? E se... e se ela estiver morta? Peter arregalou os olhos, surpreso por estar pensando naquelas coisas e checou o relógio mais uma vez.

A rosa parecia murchar. O sol estava se pondo. E ela realmente estava dando um bolo nele.

Talvez fosse melhor desistir. Não. Ele não iria. Ele não iria desistir, ou desonraria o nome Peter Mayer, de todos os Peters que existem no mundo. Se os outros podiam ser bravos, por que ele também não? O que os outros tinham que ele não possuía? Afinal, somos osso, sangue, carne e cérebro, não?

Peter estava decidido, ele não iria atrás de Dianna ou Danna. Ele iria atrás de Mitchell ou Will, talvez ele saiba algo sobre ela e aonde poderia encontrá-la.

As pessoas do Arcadia notam cada vez mais a ausência deles, principalmente aquele tal de Jimmy que corria atrás dela feito um louco. Para Peter, ele era uma pessoa legal, assim como muitos daquele colégio. Até os professores como Carmem, que pegava no seu pé em todas as aulas. Aquela mulher nunca parecia satisfeita com nada do que ele fazia, e quanto mais ele trabalhava e se esforçava, menor a nota ficava.

Peter olhou para o sino em cima da porta do restaurante, imaginando-a passando pela porta, desfilando os seus cabelos para dentro do ambiente, com todo mundo o invejando por tê-la em sua mesa.

Mas Peter olhou novamente para o relógio e sabia que ela não iria.

–//-

Era a terceira mesa que ele quebrava naqueles três últimos dias.

Will estava totalmente fora de si, desde o dia em que vira Danna desaparecer no chão e a única coisa que pode fazer, foi tirar Tereza dali antes que a bomba fizesse o seu terrível trabalho. Ela estava bem, como prometera a Danna, ele a tirou de lá, porém Tereza continua abalado pelo o que aconteceu, e por incrível que pareça, não dera um pio desde quando entrou na base. Os médicos que a analisaram, não detectaram algum risco, apenas poucos arranhões e ao ser questionada sobre o que aconteceu no dia, ela se fechou e começou a chorar.

A única pessoa que conseguia chegar perto dela, era o próprio Eric, que agora estava lúcido. Ele estava tão lúcido que ajudava nas buscas, com o corpo ainda dolorido, não fazia esforços a não ser utilizar o cérebro para funcionar, estava com raiva por estar tão debilitado, ainda mais por Danna estar em perigo.

Will chutou a mesa até que ela se quebrou ao meio e continuou a chutar até a frustração passar, o que era bem difícil. Se ao menos ela tirasse aquela pulseira, ele poderia localizá-la, através do chip. Danna não podia estar fora do Arizona, seu pai bem sabia que qualquer voou tinha que ser registrado, a não ser que saíssem do estado com um automóvel. Porém, aquela opção estava fora da lista porque ao sair do galpão, ordenou que as equipes ficassem de vigia na entrada e saída de veículos do Arizona.

Era o segundo dia e ele não tinha nenhuma informação, nem mesmo os agentes mais experientes conseguiam alguma coisa. Assim como Zachary, seu pai estava fora do radar, como se tivessem virado pó.

Will sabia o que devia fazer, a única pessoa que poderia ajudá-lo, seria ninguém mais ninguém menos que Robert Walker. Will toparia trabalhar com o inimigo para salvar Danna. Hayden entrou em contato com o velho e sem questionar muito, topou em ajudar. Se for uma armadilha, Will não se importava com isso, só queria encontrá-la e matar os homens que a sequestraram. Ele sabia que não era uma boa ideia, Will se torturava com esse pensamento todos os dias, afim de odiar mais a si mesmo por isso.

Robert Walker chegou na agência com uma patrulha de vinte homens, todos altamente treinados, se julgados pela aparência. Sua presença no meio daquelas pessoas, fez com que um grande desconforto emanasse por todo aquele local. Mas era exatamente isso o que queria. Will o analisou, pela primeira vez, o estava encontrando pessoalmente e é claro, Robert tinha as suas diferenças com as fotografias, mas estava um pouco mais velho.

–Farei o possível para ajudar a minha neta — disse, se locomovendo pela sala oval. Will estava no seu posto, bem em frente a sala, debaixo de um grande painel com os braços cruzados. — Levará um tempo por conta daquela maldita pulseira — falou em um tom crítico como se aquilo fosse uma acusação para Will.

–Eu sei que você fará o possível.

–Filho, não ouve me subestimar. — Robert olhou em volta — Ah, esse lugar, está muito bem conservado. — ele lançou um sorriso carismático para Will e continuou: — Vocês estão indo muito bem pelo visto.

–Podemos trabalhar, por favor? — pareceu relutante ao dizer aquela palavra mágica.

–Ah, mas é claro. Preciso de uma sala com um computador de serial número 13011992-a.

Will não perdeu tempo com questionamentos, e deu para ele o que pediu.

–Aliás, como vai seu pai? — Will o ignorou e saiu da sala onde colocou o computador que pedira. Ele também ficara chocado ao ouvir que Robert queria ficar sozinho, sem nenhum segurança. Mas Will não confiava nele, por isso ficou o analisando pela câmera.

Para Robert, aquela era uma de suas casas e, estando ali naquela sala, era um de seus desejos.

–//-

Estava cada vez mais difícil para mim.

Meus olhos não me obedeciam mais e a cada negação de resposta do interrogatório que Jim estava fazendo, meu coração desacelerava. O chip já não podia lidar com todas aquelas feridas, e eu senti que poderia morrer a qualquer momento.

Eu não sabia se Jim deixava o galpão, pois apagava muitas vezes durante o dia, e na manhã daquele dia, havia sido acordada por um jato de balde gelado. Se eu não morresse de hemorragia ou infecção, iria morrer por frio e fome. Jim não me alimentava, só continuava a fazer perguntas sobre o Protocolo D e onde estava o verdadeiro chip.

–Acorda. — doente.

Tossi o sangue para fora. Suas torturas não envolviam mais facas, suas torturas, eram mentais. Eu não queria abrir os meus olhos. Estava com medo do que poderia ver, do que estava vindo a seguir. Me perguntei várias vezes nesses últimos três dias se Will não vinha. Talvez ele não venha... Talvez esse é realmente o fim que você merece. Mas eu sabia que a pulseira bloqueava qualquer tipo de sinal. Com as mãos amarradas, eu não podia me mexer e nem mesmo conseguia me debater quando Jim me tocava, ás vezes indo longe demais.

Um pedaço de lixo havia me transformado em um pedaço de lixo. Eu não poderia estar com mais nojo de mim mesma do que agora. O homem porco mudara nesses anos, ás vezes, quando estava aqui comigo, dava ataques cerebrais, como se o homem mandão e rabugento não estivesse mais aqui.

Eu não iria falar nada para ele, se eu tiver que morrer, morrerei com todos as informações.

–Você está um horror. — disse — Olha para você, banhada de sangue com esse odor horrível...

E um silêncio se estendeu por um tempo.

–Vamos fazer o seguinte. — senti seus passos para perto de mim. — Vou passar isso no seu braço, se você não me responder, vou continuar. — Meus braços estavam dormentes, eu não os sentia mais, nem ao menos conseguia mexer um dedinho. A câimbra dominara as minhas pernas também. Eu estava um desastre.

Jim despejou um líquido no meu braço com alguma coisa de borracha e automaticamente, berrei. O líquido se arrastava numa linha até o meu ombro e no seu rastro, deixava uma linha de queimadura. Eu sentia a fumaça, eu sentia o cheiro de algo sendo cozinhado. Eu sentia o ácido entrando em contato com a minha carne e todo o meu corpo se contraiu, causando ainda mais dor. As lágrimas que saíam dos meus olhos, eram de aflição.

–Me fale, aonde está esse maldito Protocolo D, ou você quer que eu deforme o seu outro braço?

–//-

Robert trabalhou no computador por horas e finalmente, conseguiu a localização.

Ele não estava fazendo aquilo pela sua neta, mas sim, pelo triunfo de certas consequências. Em sua volta, haviam olhares curiosos de agentes com expressões duras, como se aquilo que estava acontecendo, fosse culpa dele. Tolos, se não fosse pelo trabalho suado de Robert, eles não estariam aonde estavam. E aliás, aquilo era realmente culpa dele. Mas com uma bela leitura estrelar e uma grande aposta pelo destino, tudo estava correndo muito bem. Os inimigos não iriam matá-la, não enquanto ela não abrir a boca, coisa que ela não faria.

Robert fez alguns ajustes no computador, pequenas informações finais, caso haja algum imprevisto, sempre esteve preparado para problemas. Sua segurança era extremamente importante para a sobrevivência daquelas agências e o mais importante: para o equilíbrio da criminalidade. Robert não fugira por mais de uma década atoa, tinha um propósito, e logo, quando tudo estiver no seu lugar, ele dará o golpe final.

Ele teclou por mais alguns segundos e lançou o conteúdo para a tela principal, mostrando a localização exata de Danna. Se fora ele quem projetara aquele maldito chip, quem poderia o impedir de localizá-lo?

Robert observou as pessoas ao seu redor, tão jovens e cheios de saúde, algo que ele tivera faz um bom tempo. Eram bons tempos, se tivesse mais, talvez pudesse desenvolver algum tipo de máquina que altere o tempo, porém levaria talvez um século e ele não tinha esse tempo. Outros poderiam continuar o seu trabalho, como tinha planejado.

Logo, a sua porta foi aberta e observou o caos lá fora. William passava o plano em voz alta para os soldados, pelo que Robert podia ouvir, eles chegariam em grupos separados para não acontecer o mesmo que houve na negociação. Senhor Walker estava bastante surpreendido pelo desempenho de William Palmer, considerando o sua adolescência rebelde por conta da ausência dos pais, ele evoluíra bastante e podia ver um homem em sua pele. De uma fisionomia espetacular, William de alguma maneira lembrava o Robert de cinquenta anos atrás.

–Você! — gritou ele em sua direção — reúna os seus homens e venha conosco. — disse autoritário. Mesmo não gostando de receber ordens, aprovou o tom que usara.

–Tic-tac.

–//-

De uma coisa Peter tinha certeza, o lugar onde seu GPS lhe indicara era o fim do mundo.

Como tinha decidido, começou a procurar por Mitchell ou Will ou sei lá quem, e parara em frente á um galpão ou um prédio ou um não sei o quê meio oval de frente de uns vinte metros ou trinta de altura. Na verdade, Peter não achara o local, na verdade, o seu GPS não tinha a localização daquele terreno, apenas indicara o final da estrada e ele seguiu andando até achar aquele lugar, que pelas histórias de Danna ou Dianna, tinha certeza ser aquele.

Como achara aquele lugar? Bom, é uma longa história, mas ele meio que teve a ajuda de um hacker que estudava no Arcadia e com algumas informações, levou algumas horas para descobrir a localização. Tudo bem, não era uma longa história, mas de qualquer forma, o celular do grandão recebeu um vírus quando o hacker entrou no seu sistema, um daqueles bem brabos. Mas idaí? Ele não era rico? Comparado com o dinheiro que tinha, aquele celular seria um trocadilho para o caixa do McDonalds.

Peter se pôs em frente à linha que parecia dividir dois lados de uma porta bem gigante. E observou. Como diabos iria entrar ali? Ele poderia bater na porta até abrir, mas aquilo soava bem estúpido e ele só iria pagar mico. Peter pensou por mais alguns minutos, o Sol caía bem na sua nuca e ao invés de estar em casa estudando para os exames de final de ano, para poder ter um natal feliz, estava procurando por encrenca. Peter colocou as mãos em cima da testa para tapar o sol e quis bater com a cabeça no ferro da porta para se punir por ser tão idiota.

Então algo de estranho aconteceu. A porta tremeu e ele pulou num susto, procurando por um abrigo onde ninguém o notasse. Seu coração palpitou violentamente e ele quase jurou ter borrado as calças. Mas ele não queria ser visto? Não estava ali para ser visto? Mas que diabos? Peter se escondeu atrás de um aglomerado de plantas secas, e para esconder todo o seu corpo, teve que se deitar de bruços no chão, sujando a sua blusa, a sua calça, o seu tênis, o seu rosto... Aquilo estava parecendo um filme de espiões para ele e não pode se sentir orgulhoso por bancar o espião deitando atrás de folhas para observar o inimigo. Ok, chega disso, pensou.

Peter observou sequências de caminhonetes pretas saindo em alta velocidade para o mesmo caminho que ele andou. Será que notariam a sua lata velha na estrada? Pouco provável. Peter logo pressupôs que algo estava acontecendo, algo de ruim. Ele viu Will atrás do volante de um carro e mais algumas caminhonetes atrás. Seu sexto sentido lhe mandou segui-los, se Will estava saindo naquela pressa, com certeza Danna estava dentro do carro. Era a sua chance de falar com ela.

Então Peter correu agachado em direção à sua lata velha.

–//-

Eu estava tendo apagões.

Minha consciência se desligava por um momento e voltava horas depois, era assim que a minha vida estava seguindo naquele momento, a dor era tanta, que o único jeito de ocultá-la, era dormindo. Mas se dormir significava apagar a dor, então eu queria dormir para sempre.

O meu cérebro parecia estar dando voltas no meu crânio, como se estivesse desenvolvendo uma maneira de me deixar acordada por mais um tempo. Depois das primeiras horas em que estive presa, a minha barriga já não reclamava mais da fome e da sede, minha saliva era a minha única fonte de líquido, junto com o meu próprio sangue. Meus lábios estavam secos, como rachaduras no chão durante uma seca. Meus cabelos estavam oleosos e duros por conta do sangue, que endurecera, como parte da sujeira vermelha do meu corpo.

Eu estava ruiva novamente.

Estava difícil respirar... respirar doía.

Minhas costelas doíam, minhas feridas estavam entrando em uma infecção e tudo o que eu conseguia pensar, era se Will viria me salvar.

Por que ele estava demorando tanto?

Eu estava morrendo, e nenhum chip do mundo me salvaria dessa morte rastejante. Eu já não lutava mais contra Jim e as coisas que ele fazia para me machucar. Eu nunca me sentira tão horrível na minha vida, e fraca, e... morta. Eu estava pensando em morte, se ela seria gentil em me deixar ir, sem sofrer mais algum tipo de dano, se ela me faria sofrer mais um pouco ou se ela me puniria com mais alguns dias de vida. Meus olhos se fechavam, sem forças para abrir novamente, se eles quereriam tanto o Protocolo D, significava que era um bom motivo de morrer com ele enterrado junto ao meu corpo. Se eles queriam, eles não deveriam ter.

–Você está horrível — A voz era um mero som cortante que atravessava pelo meu ouvido, um mero zumbido que me deixava confusa. — Você não está morrendo... está? O ami... — eu já não conseguia captar o som.

Uma mão tocou de leve nos meus ombros e automaticamente os meus músculos se contorceram, mas logo recuraram. Outra mão parou na minha cintura, escorregando de leve até a minha coxa. Ele... ele não sabia que estava doendo? Por que ele não sabia que estava doendo?

As mãos do monstro tocaram as minhas coxas, alisando-as ao mesmo tempo, senti o calor de seu corpo atrás de mim, como um aquecedor. Seus dedos eram gordos, sua barriga grande cutucava as minhas costas e sua respiração parou em minhas costas. Por um momento, meu corpo ficou rígido, em modo de defesa e de repente, as suas mãos pararam num lugar onde não pertenciam.

A dor ainda era arrebatadora, pensei estar chorando sangue. Mas sabe, não era sangue, eram só lágrimas que refletiam a minha dor, aquela que eu nunca sentira, aquela que eu nunca pensei que chegaria a sentir na minha vida, ou talvez eu nunca havia imaginado que aquela dor existia. Por que que essa dor, tão... tão... ridiculamente absurda existia? Por que esse monstro não podia apenas... me matar?

–O que você está fazendo? — era um outro som, outra voz de outra pessoa. Então um reflexo de esperança apareceu, logo depois se dispersou como fumaça quando soube quem era.

Os dedos gordos saíram do lugar que não lhes pertenciam e meu rosto, depois de... eu não sabia quanto tempo estava presa, minhas lágrimas foram as únicas que esquentaram o meu rosto. Elas eram as únicas que estavam me acolhendo.

–Tenho que dizer que você fez um trabalho bem... Sujo. — disse — Mas se aproveitar de uma garota nessa estado? Você realmente é um doente.

–Você ainda vai me pagar?

–É claro que eu vou te pagar, sou um homem que honra com as suas palavras.

–Obrigado.

Eu não sabia o que estava acontecendo, meus olhos continuavam pesados.

Então eu ouvi passos.

–Minha querida, as coisas seriam tão mais fáceis se você apenas falasse... — senti o ar quente que saia da boca de Zachary bater no meu rosto. — Tudo o que você precisa fazer é falar, falar falar... só isso, falar! Não é difícil é? Seu querido avô não te deu essa lição? Falar? — Os passos se distanciaram — Não quero ser rude, me perdoe por não ter me apresentado antes, meu nome é Zachary Hill, e desde quando você entrou no meu caminho, as coisas não tem sido fáceis. Primeiro de tudo, você partiu o coração da minha filha, — seu tom estava se alterando, um tom de voz bem falso — ela se sentiu tão mal depois que soube que você estava interferindo no relacionamento dos dois... — ele soou falsamente magoado — Gostou do presente? Jim está aqui para lembrá-la de que você nunca deveria ter fugido de casa. Não seria mais fácil? Brooklyn... Vida normal... — ele suspirou. Eu estava fazendo esforço para entendê-lo — Fazer o quê né? — um barulho de uma lâmina deslizando de algum metal chegou na minha audição — Agora é a hora. Eu preciso que você fale, senão... — ele se aproximou, provavelmente com a lâmina na mão. — terei que cortar a sua língua. Pra quê uma língua se você não sabe falar?

O pânico atacou novamente. Então a morte escolhera me dar um fim doloroso.

Zachary apertou a minha mandíbula e juntei alguns pingos de força para não abrir os lábios. Mais passos ecoaram de longe.

–O que você está fazendo? Larga ela seu filho da puta! — Era uma voz tão familiar...

Os dedos afrouxaram a minha mandíbula e lutei para abrir as pálpebras. Ao abrir os olhos, me senti zonza e minha visão estava turva.

–O quê você está fazendo aqui? Eu te alertei para não se envolver nos meus assuntos! — então o lugar foi coberto por gritos.

–Minha filha é meu assunto! Por que você está fazendo isso com ela? — Uma figura correu até o meu lado — Danna, Danna... você está bem? Eu vou tirar você daqui, eu prometo. — Rogers começou a mexer nas correntes, sem sucesso. — No momento em que soube que você estava mantendo ela refém... — ele estava soltando faíscas.

–Rogers, saia daqui ou eu juro que tomarei medidas drásticas... — Eu não percebera que haviam dois guardas distantes.

–Isso não é humano! Nem mesmo para mim Zachary, isso não é humano, ela está morrendo, você não está vendo? Ela está morrendo!

–Saia! — Zachary o empurrou e pela minha visão embaraçada, pude ver uma briga. Os guardas levantaram Rogers e o espancaram. — Você não me ouve não é? Você e George, vocês não me ouvem! E ela... — ele apontou para mim com a navalha — ela não é a sua filha de verdade, por que insiste em protegê-la?

–Você sabe quem é o pai dela, Danna merece muito mais do que teve, e eu a criei como se fosse minha. — Eles se entreolharam e pisquei os meus olhos mais algumas vezes, Rogers estava preso pelos braços com os dois guardas o segurando. — Se fosse a sua filha nessas correntes, você não tentaria salvá-la?

–Olhe para você Rogers, olhe para ela, o que vocês tem em comum?

–Solte-a! Ela é inocente, é só uma garota de dezenove anos, o que ela sabe? Você acha mesmo que aquele velho iria contar alguma coisa para ela?

–Não subestime as coisas Rogers.

–Ela precisa saber a verdade... por mais que doa... não posso mais protegê-la de saber...

Então Zachary mirou o estômago de Rogers com a navalha e ela ficou presa lá, abrindo passagem para a libertação do sangue.

Tudo o que restara de mim fora um grito. Um grito que cortou a minha garganta seca, que seria capaz de explodir um vidro.

–Ah, então ela fala... Eu avisei para ele sobre isso, mas vocês são teimosos... — Zachary tirou a faca de seu estômago, os guardas largaram os seus braços e o homem de cabelos grisalhos veio em minha direção. — É o seguinte, — então as correntes já não prendiam mais os meus braços e as minhas pernas. Desabei no chão, ainda com lágrimas nos olhos, com certa dificuldade em me levantar. Zachary puxou os meus cabelos e gemi de dor mais uma vez — você vai me falar aonde está esse maldito Protocolo D, ou eu juro que te matarei e em seguida, todos aqueles que você ama, começando por aquela ruiva que valeu pela troca. Depois pelo seu querido Eric e depois Will. — Ele teria coragem de matar o filho de George? Eu não sabia, tudo o que eu conseguia pensar, era em Rogers morto no chão.

–Senhor! — gritou um guarda de longe — Estão nos cercando! Temos que sair daqui! — Zachary se virou para a porta, que tombou no chão em um estrondo.

Ele me encarou, olhou no fundos dos meus olhos, que continuavam não nítidos. Seus olhos com certeza eram azuis como os de sua filha, ele ergueu a mão com a navalha e fechei os olhos para não olhar para o que ele estava prestes a fazer.

Porém, tiros e gritos vieram da porta e uma das balas acertou nos dedos de Zachary, e ele teve que largar a arma, correndo para as escadas. Vendo o inimigo correndo para longe, me arrastei até Rogers, que não estava longe de mim. Primeiro, peguei no seu braço e então, joguei o meu corpo para cima do seu, soltando lágrimas de dor, as amargas.

–Há... — ele disse, me ergui para encará-lo e solucei.

–Não morra — consegui dizer.

–Eu... — ele tossiu — Há uma... carta, em casa. — ele levantou o seu outro braço e pôs a sua mão em cima da minha, apertando os meus dedos.

–Po-po-po-por que você fez isso? — senti que a minha boca poderia rasgar por conta do choro.

–É o que qualquer pai faria pela filha — sorriu, do mesmo jeito que fizera quando eu estava no hospital, um bom tempo atrás.

Minhas lágrimas cessaram.

Rogers fechou os olhos.

Ele largou os meus dedos.

Então peguei-os para apertá-los como ele fizeram e desabei novamente em cima dele, gritando e berrando como nunca fizera. Rogers... Rogers...

''-Obrigado — falei

–Pelo quê?

–Devo praticamente a minha vida á você, Rogers, e... você tem sido um verdadeiro pai pra mim — meus olhos ficaram úmidos.

–É o que qualquer pai faria pela filha — sorriu''

O flash back da cena do hospital surgiu na minha cabeça e percebi que, nenhum barulho de tiro ou de qualquer outra coisa em minha volta, era maior do que a minha dor, o barulho que ela causava, tão silenciosa e fatal por dentro, que quanto mais eu chorava e gritava, mais doía por dentro.

Encostei o meu ouvido desesperadamente por um sinal cardíaco, mas não havia nada. Não havia coração batendo, não havia nada, absolutamente nada.

Mãos tomaram conta de mim e me puxaram para trás, mas eu não ligava, eu realmente não ligava. Meus dedos agarraram na blusa de Rogers e acabei o puxando comigo. Rogers não podia estar morto... ele não tinha o direito de estar morto, ele não tinha o direito de me deixar... por que ele estava morto? Por que seu coração não podia voltar a bater? Por quê? Por favor... volte a bater... volte a palpitar...

Eu queria uma máquina do tempo, e senti raiva por ainda não o terem inventado.

As mãos me puxaram para trás, cada mais mais forte e finalmente cedi porque estava doendo. Mas eu não ligava.

Meu pai acabara de morrer.

–Danna... — era Will — fique acordada, não apague, não... apague — ele me abraçou e afastou os fios de cabelos para longe do meu rosto. Seus braços me seguravam cuidadosamente como um casulo, e de repente, ele ficou rígido. — Leve-a para fora. Agora! — murmurou e outros braços de apoderaram de mim.

–Você está toda machucada! — disse a outra voz. Então me virei para encarar seu rosto, surpresa e interrogativa. -É uma longa história, vamos, temos que sair daqui.

Peter olhou ao redor, e segui seus olhos até a escadaria barulhenta pelos passos pesados de soldados. Um longo barulho de motor e de hélices acima de nossas cabeças e soube que Zachary estava fugindo pelos ares. Consegui olhar de relance para duas sombras e vi Will confrontando Jim.

As duas mãos seguiram me puxando para cima, mas eu não conseguia largar o corpo de Rogers, eu não queria.

–Vamos Danna, pelo amor de Deus! — sua voz soava assustada e me perguntei confusa sobre a sua presença ali.

–Eu... — limpei as lágrimas do meu rosto com as costas das minhas mãos e me desvencilhei das mãos de Peter, tropeçando para a frente. As minhas pernas ainda estavam fracas e meus braços continuavam dormentes, com um deles furado, sem poder fazer nada, a não ser ficar deitada no chão. Puxei um grande conjunto de oxigênio para dentro do meu pulmão, ignorando todas as pontadas de dor, evitando chocar os meus braços queimados por ácido no chão e evitando usar muito o meu ombro machucado. Puxei o braço de Peter, que ainda estava assustado e o obriguei a me levantar.

–Meu Deus, Will pediu para que eu te levasse para fora, vamos! — pediu, mas eu o ignorei por completo. Com o seu corpo como suporte, manquei até aonde Will e Jim estavam, e tudo o que eu podia ver era a morte, aquela que eu estava prestes a provocar.

Will o estava espancando com socos e pontapés, eu nunca o vira tão exaltado e raivoso, tão pirado que o batia com o intuito de matá-lo. Mas eu não podia deixar que ele o fizesse.

–Espere. — murmurei baixo, mas ele se virou e percebi a sua respiração acelerada e suas veias se destacando por todo o seu corpo. — Não... — tossi e uma mistura de catarro e sangue foi jogado para fora.

–Eu disse para tirá-la daqui, Mayer! — ele gritou.

–Deixe que eu o faça. — deixei o corpo de Peter para me sustentar em Will. Ele estava vermelho e quente.

Enquanto Will me agarrava com firmeza para que eu não desabasse, agarrei sem forças a armas presa em seu cinto e mirei.

Jim estava inconsciente no chão, com vários hematomas roxos e vermelhos, tão graves que haviam sangramentos. Seu olho se inchara e sua bochecha também. O monstro merecia muito mais, mas não havia tempo, o meu estava se esgotando.

–Isso é por mim e pela minha mãe.

Então eu atirei e tudo o que eu consegui distinguir depois, foi uma escuridão com uma lembrança.

~5 anos atrás~

Era a quinta vez naquela semana que Danna sentava na cadeira em frente ao diretor Kidman. O que tinha aprontado? Pichara todas as portas do colégio, marcando elas com insultos. Rogers como sempre fora chamado para presenciar o grande e tedioso sermão do diretor.

–Temo que pedirei ao senhor que a transfira para um internato ou uma casa para delinquentes, nosso colégio não irá mais tolerar esse tipo de comportamento.

Danna estava sentada com as pernas esticadas, com os braços cruzados, soprando os fios rosas que pendiam para fora da touca e mascando um chiclete. Fazia bolas de vez em quando só para as estourar porque o barulho irritava o diretor.

–Diretor Kidman, dê mais uma chance para Danna, — Rogers a encarou, mas não de cara feia -Ser pai solteiro não tem sido fácil para mim, ela começou a adotar esse tipo de comportamento desde quando sua mãe faleceu e acho que está tentando provar alguma coisa para si mesma.

–Compreendo. — O diretor alisou o queixo e olhou severamente para Danna, que acabara de estourar outra bola. — Será a sua última chance mocinha. — ele anotou alguma coisa na pauta e murmurou sem olhar para a cara dos dois. — Podem se retirar.

–Tenho certeza que ela não fará novamente.

Rogers se levantou e Danna arrastou a cadeira de propósito. Ela sorriu de relance para o diretor e tirou a touca para provocá-lo ainda mais com o seu cabelo tingido de rosa. Ela sabia que aquilo o deixava irritado e ela sentia um certo prazer ao vê-lo ferver que nem um camarão.

Ela seguiu Rogers pelo corredor, ele estava silencioso e parecia estar irritado, mas quando ele se virou para encará-la, ela viu o oposto.

–Danna, você não é assim.

–Eu não pedi para você vir de qualquer forma... — ela enfiou as mãos nos bolsos dos jeans e deu de ombros.

–Eu sei o que você está fazendo.

–Você acha que eu quero provar alguma coisa? Sim, você está certo, eu quero provar alguma coisa.

–Você sabe das circunstâncias, não sabe minha filha?

–Você não é o meu pai.

–Eu não sou o seu pai de verdade, mas você precisa de um. Danna, você faz essas porque acha que ninguém se importa, que você está sozinha e acha que pode me afastar fazendo essas babaquices. Mas quanto mais você tenta me empurrar para longe e achar que ninguém se importa, mais eu vou tentar ser o seu pai.

Danna se sentiu como uma idiota.

–Eu sou um caso perdido. — ela riu. — Não perca seu tempo comigo.

–Todo mundo precisa de uma chance, minha filha. E eu estou aqui para te dar todas as chances necessárias, até que comece a dar uma chance para si mesma.

Danna se sentiu estranha ao ouvir aquilo. E provavelmente não faria muito diferença para ela. Mas o que Rogers disse, fez. Ela, dali em diante, iria considerá-lo mais, Danna notou que ele era um homem bom para ela. Então ela nunca voltou a pichar as portas como Rogers disse ao diretor.

Ela passou a pichar os muros.''

Notas finais
I really don't know what to say... I just hope to see you in the next chapter and to see you in the end of this story, It'll be ending soon.