Havia um tempo em que você podia saber se uma pessoa tinha bondade ou maldade em seu coração apenas ao vê-la. Se a pessoa fosse muito feia, era uma maneira de sabermos sobre o perigo apresentado por ela. Meu avô me contou isso. Segundo ele, foi a forma encontrada pelo Divino para nos proteger. Mas um dia isso mudou.

Minha mãe era uma jovem maravilhosa, bondosa e graciosa, espalhava luz por onde passava. Ela, consequentemente, era extremamente bela. Parecia um ser celeste, tamanha a perfeição dos traços de seu rosto.

Um dia, um nobre passou pela aldeia em que ela e meu avô viviam. Eduardo — esse era o nome dele — se encantou pela minha mãe no primeiro instante em que a viu. Não demorou a se apaixonar pelo coração dela também. Ele planejava levá-la para o seu reino e se casar com ela. Porém, seus pais já haviam escolhido uma noiva para ele.

Soraya não possuía tanta beleza quanto minha mãe. Na verdade, ela nasceu com uma marca na costela, tornando-se uma ferida mostruosa com o passar dos anos, sendo o símbolo de sua inescrupulosidade. Somente Soraya e sua mãe sabiam disso, pois ela ficava encoberta, não permitindo a visão dos outros. Dessa maneira, ninguém conhecia seu coração negro.

Eduardo desmanchou o noivado com Soraya, se casando em seguida com minha mãe. Quando ela estava grávida, a ex-noiva se uniu a feiticeiras e pessoas da pior espécie. Essas bruxas planejavam há anos uma maneira de que os maus se tornasssem belos e os bons se transformassem em feios.

Infelizmente, elas conseguiram.

Durante sete dias e sete noites, as pessoas ficaram transformadas. As más eram seres belos enquanto as boas eram feias. O Divino rapidamente agiu, mas desta vez qualquer um podia ser belo ou feio. Sua aparência não dependia mas de seu coração. Todas as crianças nascidas a partir daquela data estariam sujeitas a nova regra, assim como todos os descendentes da humanidade.

As pessoas retornaram à sua aparência original, exceto por meus pais. Por conta de um feitiço de Soraya, eles permaneceram feios.

Quanto a Soraya? Ela nunca mais foi vista, então acredita-se que esteja morta.

E quanto a mim, Aurora? Eu definitivamente não herdei a beleza de minha falecida mãe. Ela morreu quando eu era apenas um bebê, e meu pai veio a falecer pouco tempo depois. Meu avô levou-me, então, para sua aldeia natal, bem longe dali. E é lá que minha jornada enfim começou.