Aurora
1 A Tragédia das Nádias - Capítulo 01
Notas iniciais
Vila das Bétulas, Região dos Urais — Rússia
Junho de 1993
A noite densa e fria caiu sem que ninguém percebesse. A grande tragédia ocorrida mais cedo perpetuou o medo por aquela vila. Nádia, uma senhora de idade, moradora da casa 6, foi brutalmente assassinada em plena luz do dia, e seu corpo foi exposto em uma fogueira em frente à sua casa, bem no centro da vila. Apesar de haver suspeitas, ninguém sabia ao certo quem cometeu o crime e ninguém sabia como ela foi parar ali. Apenas a dúvida e o medo pairavam em seus corações agitados naquela noite. As brasas da fogueira ainda estavam acesas, porém ninguém ousou chegar perto dela. Ao entardecer, todos se retiraram para suas casas, levando comida o suficiente para passarem dias ali se fosse necessário, até que os homens mais corajosos da Vila das Bétulas resolvessem remover o corpo de Nádia e investigar sua morte. A família de Iuri, Nádia e Natasha permanecia acordada àquela hora, porém eles não eram os únicos. A pequena Natasha se mantinha ajoelhada à janela, onde tentava limpar o vidro com a manga de seu casaco, para enxergar o lado de fora, enquanto seus pais preparavam o jantar. Ela passou o dia todo ouvindo a vizinhança sussurrar e murmurar o nome de sua mãe, que é o mesmo da mulher que ali faleceu.
— É melhor sair da janela, Natasha. — disse Nádia, a mãe da menina. — Se entrar vento, você pode ficar resfriada.
Iuri, porém, se uniu a ela para ver o que estava acontecendo. Do lado de fora daquela pequena casa, apenas a fogueira e as chaminés de algumas das outras moradias daquele afastado vilarejo iluminavam a noite nublada. A menina, curiosa, tentava enxergar quem era a figura que estava parada em frente à fogueira. Baixo e esquelético, ao remover seu capuz, a menina conseguiu reconhecê-lo: a criança que todos odiavam. Conhecido por seus furtos às casas de praticamente todos os moradores da vila, o menino com o nome de Igor não aparecia na vila há dias. Mais cedo, Natasha ouvira um vizinho falar com seu pai sobre um rumor de que o garoto foi quem assassinou Nádia, porém ao perceber que a menina estava ouvindo, eles encerraram o assunto.
Do lado de fora, as mãos de Igor apontavam para a fogueira onde jazia Nádia. Cuidadoso, porém inexperiente, ele se preparou para conjurar sua primeira magia daquele tipo. Ao ver que seus braços estavam ficando roxos como as cebolas vendidas na vila, ele se assustou e pensa em parar, porém já era tarde demais. As energias dos dois já estavam conectadas. Brilhante, uma esfera roxa de energia se formou em volta da fogueira, fazendo com que o fogo crescesse ali dentro, e com que os braços do garoto ardessem, causando-lhe gritos. Naquele instante, não só Natasha e seu pai, mas todos da vila observavam aquele festival de luzes e sons, todos testemunhavam aquele momento, que parecia nunca ter fim. Toda a energia contida na fogueira foi absorvida por Igor, que continuava sentindo as dores de ter sua pele transformada em brasas. Aos prantos, ele clamou por ajuda, olhando para um lado e para o outro, tentando enxergar os moradores, que agora se retiravam para suas camas. Por um momento, seus olhos encontraram os de Natasha, e foi a última imagem que viu antes de desmaiar.
No dia seguinte, ao acordar, Igor percebeu estar em pé e amarrado a um poste. O sol cegou seus olhos por um instante, mas logo em seguida ele percebeu que todos os moradores da vila o encaravam, apontando e trocando sussurros. Dois homens jogavam toras de madeira e palha aos seus pés, e foi quando ele percebeu que estava prestes a ser queimado em uma fogueira. Ao olhar para os lados, percebeu que um homem estava apontando um longo garfo na direção de seu peito, o que fez com que seu coração gelasse. Porém, o medo não podia pará-lo, ele tinha poder. A energia que sugou no dia anterior deveria ser o suficiente para tirá-lo daquela situação. "Um poder dos espíritos", uma vez lhe foi dito, e assim o cultivou até não se contentar mais com o que tinha, ele precisava de mais, e havia descoberto como conseguir: retirando de quem não precisa.
As vozes se elevaram quando todos perceberam que Igor havia despertado. Algumas pessoas recuaram e muitas mães levaram suas crianças para dentro de casa, por exceção de uma: Natasha, que continuou ali, ao lado de seus pais. Igor a encarou, ele só precisava esperar o momento certo. Os moradores mais ativos na causa chegaram mais perto da fogueira, aguardando o sinal do líder de seu povo para que o ritual começasse. Antes, o líder Ivan conduziu uma uma oração pela segurança e pela paz naquela vila. Seus conhecimentos espirituais eram inquestionáveis por todos ali. Sempre que alguém precisava de alguma ajuda espiritual, buscavam a Ivan. Após o término da oração, Ivan deu o sinal.
Os batimentos cardíacos de Igor ficaram acelerados e sua vista começou a ficar embaçada. Os burburinhos ao redor da fogueira aumentaram, todos estavam ansiosos pela iminente satisfação em ver um criminoso queimar, pagar pelos seus crimes. A expressão do rapaz permaneceu inalterada, como se estivesse tranquilo com essa situação. Ao acenderem o pavio, muitas vozes se elevaram, algumas pessoas viraram os rostos, outras deram passos para trás, afastando-se. Porém, os residentes da vila ansiavam pela queima, como quem faz a contagem regressiva para ver um show de fogos no final de ano. Eles preparavam uma festa de gritos entusiasmados com a tragédia, porém não tinham ideia do horror que estavam prestes a sofrer.
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