Aurora
2 A Tragédia das Nádias - Capítulo 02
O barbante flamejante se aproximou e Igor não conseguiu acreditar: sequer um músculo foi movido para lhe acudir em meio a toda aquela multidão, que o queria morto. Ele não poderia perdoá-los, ninguém poderia. O fogo tocou seus pés e tudo incandesceu.
— Meu deus, o fogo se espalhou! — gritou uma senhora.
Todo o corpo de Igor entrou em chamas, suas amarras se desfizeram em cinzas e ele se libertou, imediatamente afastando todos à sua volta com labaredas que se espalharam por todo o lugar. Cada morador daquele vilarejo correu para longe dali, tudo iria queimar através da palha espalhada pelo chão, inclusive eles, se não saíssem. Buscando com seus olhos, agora vermelhos, Igor encontrou o alvo mais fácil. Sem precisar entender como, ele apontou sua mão em direção à família de Natasha, e um círculo de fogo foi formado ao redor deles, porém Iuri caiu para trás, onde instantaneamente se formou outro círculo de fogo ao lado do primeiro.
— Natasha! — Iuri gritou, recompondo-se.
Natasha e Nádia se abraçaram para evitar as chamas, que cresciam como se o chão da vila estivesse banhado em óleo. Os três olharam ao redor e percebeu que todos conseguiram fugir, então encararam a figura que minutos atrás era a criança que iriam executar. A energia contida no fogo era desequilibradamente controlada pelo menino, que queimava enquanto incendiava tudo ao seu redor, sem a menor maestria.
— Você... — foi tudo que Igor conseguiu pronunciar enquanto olhava Nádia nos olhos. A mulher apertou sua filha contra si enquanto Iuri tentava escapar do fogo, sem sucesso. Ainda com o braço estendido em direção às duas, Igor fechou sua mão, furioso.
Nesse instante, o fogo deslizou para dentro do círculo como uma serpente e cobriu os pés de Nádia, afastando sua filha e deixando-a imóvel. A mulher se assustou mais com a imobilização do que com o calor em seus pés, o medo e o suspense a fizeram gritar enquanto tentava desesperadamente mover suas pernas. Natasha tentava ajudá-la.
— Para! Para com isso! — a menina gritava enquanto tentava puxar sua mãe para fora daquela prisão de fogo.
Igor não parou. Ainda segurando sua mão fechada no ar, ele começou a puxá-la, como quem puxa uma corda à longa distância. As labaredas subiam pelas pernas da mulher, fazendo-a gritar enquanto deslizavam para dentro de seu vestido. Seus espasmos desesperados ensurdeciam sua filha, que se equilibrava entre gritar "para, por favor!", tapar os próprios ouvidos e ao mesmo tempo tentar ajudar sua mãe. Iuri assistia à cena, ajoelhado, com as mãos na cabeça, sem acreditar no que estava vendo. Uma linha de fogo começou a sair da boca de Nádia, que começou a se engasgar e se retorcer, com sangue saindo de seu nariz. Igor puxou a corda até que pudesse tocar o fogo.
E, assim, no momento em que a energia o encostou, ele começou a sugar todo o fogo através do corpo de Nádia, que entrou em chamas, assim como o de Igor estava. Natasha se encolheu no chão, mas não conseguia evitar todas as chamas que estavam à sua volta e também as que saíam do corpo de sua mãe. Por instinto, ela optou por se manter próxima da figura maternal ao seu lado, o que resultou em queimaduras torturantes em seu braço e em todo o lado esquerdo de seu corpo.
Enquanto isso, Iuri caminhava lentamente entre as chamas, que pareciam congelar seus pés, eram pesadas e grudentas, como que intencionalmente para causar sofrimento contínuo. Ao alcançar sua filha, Iuri a pegou no colo, ambos ainda se queimando, mas ele caminhou para, sem olhar para trás, conseguiu sair das chamas e fugiu com Natasha, que assistia ao final do ritual enquanto seu pai a carregava, chorando.
Todo o fogo foi sugado por Igor, inclusive o que o queimava. O corpo de Nádia ficou completamente carbonizado, assim como quase tudo naquela vila.
— Energia! — Igor pronunciou em voz alta, enquanto notou que sua pele estava novamente intacta e, graças aos céus, ele estava vivo. Seu corpo estava revitalizado e energia corria por suas veias, estava feliz.
Seus pensamentos foram interrompidos quando um raio o atingiu.
— A justiça divina lhe encontrou. — disse a voz em sua cabeça antes que desmaiasse.
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No plano espiritual, dois espíritos se comunicavam quando um terceiro se aproximou.
— O equilíbrio foi quebrado, chegou a hora. — disse Aramid, interrompendo a reunião do espírito superior com o espírito escolhido. — Por ora, ele foi contido, mas não sabemos se seus poderes foram completamente removidos. Aurora precisa encarnar.
O sol batia sobre eles naquele momento.
— Acalma-te, Aramid. — disse o espírito superior, calmamente. — Não há sequer um acontecimento que eu não tenha acompanhado desde a última chegada de Igor à Vila das Bétulas. As condições de nascimento deste espírito jovem já foram escolhidas por ele próprio, e sua missão e as recompensas desta expiação já foram concordadas. Aurora deve agora ser concebida em um corpo que possa ser útil para sua missão.
— E se ela falhar, senhor? — perguntou Aramid, apreensiva.
— Ela não irá. — ele respondeu. Então, se virou para Aurora. — A concepção será feita, chegou a sua hora.
E assim, Aurora brilhou, desaparecendo, rumo ao plano terreno.
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