Aurora
1 I - A cerimônia de boas-vindas
Notas iniciais
Espero muito que vocês gostem do capítulo. Que suas imaginações possam ser cativadas e ir além.
Alice havia estudado todos os dias durante as férias, oitenta por cento do tempo que estava em casa. Acordou com o celular despertando às oito horas da manhã surpreendida: o alarme nunca tinha sido capaz de acordá-la. Assim que o efeito surpresa passou ela desligou o alarme nervosamente para que suas irmãs dormissem mais, levantou-se, falou com o Pai celeste e então foi tomar seu banho.
Normalmente Alice não se importaria muito com o que vestir, mas parou para pensar: era a cerimônia de boas vindas aos alunos. Colocou uma blusa de manga longa preta. Tirou. Um vestido cinza básico. Tirou. Pegou um vestido de manga longa vermelho que ia até as coxas e botas over-knee, e com um colarzinho preto julgou-se pronta. Olhou em direção à sua irmã, Thalia, na parte de cima do beliche e então para Anna, em sua própria cama: seu coração de se encheu. Acordou primeiro Thalia, com um cafuné. A garota abriu os olhos.
— Psiu. A cerimônia. – Lembrou Alice, em voz baixa.
— Vai ter comida? Você deveria trançar o seu cabelo. Ou amarrá-lo. Vamos ter um cachorro?
A mais velha gargalhou.
— Vamos,levante-se.
Ela desceu e foi acordar Anna, enquanto Thalia já pegava sua toalha.
— Princesa? Acorde. É dia de conhecer os seus novos amigos.
A garota acordou. Diferente de Alice e Thalia, a garota não tinha cabelos loiros, mas ruivos: ela tinha os cabelos da mãe, mas os olhos azuis do tio e de suas irmãs.
— O Sr. Batata pode ir com a gente?— Ela perguntou.
— Eu acho que o Sr. Batata está com muuuuito sono. Talvez você devesse deixá-lo dormir e contar pra ele como foi, assim que chegarmos em casa.
— Tem razão. Você acha que as pessoas da nova escola vão ser legais?
— Eu acho que nós vamos ser muito felizes, independentemente de como as pessoas sejam. Olha pra mim. — Alice suavemente colocou uma mão no rosto de sua irmã mais nova. — Você deve sempre ser forte e sempre estar bem consigo mesma, independente de como as pessoas ajam com você. Seja boa com todos, independente do que façam. Mas não chore por ninguém, e não deixe que te abalem. Você entendeu?
— Entendi. – Respondeu a ruiva, olhando nos olhos da irmã.
Thalia saiu do banho, e Anna preparou-se para entrar. A mais velha se dirigiu então à cozinha, e ao entrar viu um borrão de amarelo e branco: um ovo frito voando em sua direção, e o pegou. Ela olhou para seu pai que estava com a panela na mão com cara de culpado, e os dois gargalharam.
— Esse é meu. – Ela pegou um prato e colocou o ovo, então começou a fazer café, perdida em seus pensamentos. Começou a pensar na nova cidade em que vivia. Ficara as férias inteiras estudando e não tinha saído para conhecer Goiânia a não ser para ir a uma padaria. Mas era a chance dela de se refazer. Não que fosse uma pessoa completamente horrível em São Paulo, mas em corrigir os defeitos que queria corrigir, e em ser vista como queria ser vista, ser quem ela queria ser, e ser conhecida pelas pessoas ao redor como a Alice que queria ser.
Então seus pensamentos foram interrompidos pelo patriarca.
— Você está linda hoje. Sua mãe desejou uma boa cerimônia.
Alice sorriu e terminou o café no momento que o último ovo foi colocado no prato e Thalia entrara na cozinha,então foi ao quarto para terminar de aprontar Anna. Quando chegou ao quarto, a garota já estava pronta, com um coque trançado e um vestido verde claro.
— Uau! Você está uma graça. Quem arrumou seu cabelo?
— Eu. - A garotinha respondeu, olhando a irmã pelo reflexo do espelho, sorridente. Então as duas foram para a cozinha comer com os outros.
Todos na mesa. André, o pai, usava uma camisa azul clara e gravata azul escura, tinha a barba feita e os cabelos loiros jogados para trás. Thalia usava um vestido preto de renda até o joelho que tinha mangas longas. Alice comia seu ovo com salsicha enquanto Anna, a única de pé, fazia mini-tranças em seu cabelo e prendia atrás, de forma que ela estava com o mesmo cabelo solto, mas a parte da frente estava trançada formando um penteado. Todos conversavam animadamente, e o ouviam o pai dizer como “na época dele os colégios não faziam essas coisas”. Alice, olhando para a sua família, percebeu que eles eram as únicas que sempre estiveram com ela: ela poderia mudar para as pessoas ao redor, para quem conhecesse, para as pessoas novas. Ela poderia ser outra,ela poderia ser ela mesma numa versão melhor do que ela jamais foi. Ser quem ela queria ser. Mas a sua família sempre saberia quem ela era.
Ás 9:20 todos haviam entrado no carro e, em 15 minutos, estavam em frente ao colégio Kings.
Ao lado do portão marrom escuro, que estava parcialmente aberto, na parede marrom do mesmo tom, havia o brasão da Kings em dourado. Parte do colégio tinha dois andares.
Por acaso ou não, entraram no colégio do menor para o maior, em escadinha, de forma que Anna era a primeira e o pai era o último. Logo ao entrarem, sabe-se lá de onde havia saído, uma mulher ruiva elegante de vestido preto e cabelo amarrado os recebeu com um bom dia. Anna era a mais sorridente de todos, e a mulher era simpática.
— Sejam bem-vindos, eu sou coordenadora da Kings, o meu nome é Agnes. Eu creio que o senhor já visitou a escola? Os alunos devem primeiro se dirigir ás suas salas de aula e os professores os encontrarão lá para explicar as regras do colégio e os alunos também serão levados para fazer uma espécie de tour pela escola. Os pais ficarão no pátio e os alunos virão ao seu encontro assim que os professores terminarem de orientá-los, então a cerimônia começará.
— Ah,certo. – André deu um beijo em cada uma de suas filhas. – Muito obrigado. – Ele disse a Agnes, e entrou por uma porta. A mulher começou a falar com suas irmãs sobre onde eram suas salas e Alice começou a olhar em volta. Do lado esquerdo do hall de entrada em que estava havia a secretaria e, ao lado dela, a sala dos professores. Do lado direito tinha a diretoria e uma sala de reunião. Tudo segundo as portas, claro. O chão tinha um carpete de madeira e as paredes tinham um papel de parede que eram de um vermelho vinho. A sala era bem iluminada e fresca. Quando voltou-se para Agnes novamente, Thalia e sua irmã haviam entrado pela mesma porta que seu pai, que ficava no final do pequeno hall de entrada. – Você, mocinha?— A mulher estava com o celular na mão, e pesquisou o que Alice imaginou ser o seu nome no registro do colégio. – Primeiro ano do ensino médio. Você é do primeiro A. Você vai passar por aquela porta e subir as escadas no final do corredor, então vai facilmente achar a sala no andar de cima.
— Ah, certo. Obrigada. – Alice passou pela porta um pouco decepcionada: haviam obras de arte nas paredes que ela queria parar para ver, ela gostava de observar os novos ambientes, queria conhecer o colégio. Ela ficou, então, razoavelmente irritada com o fato de que tinha que estar na sala em pouco tempo e não teria tempo para conhecer tudo o que queria conhecer naquele momento e decidiu andar sem observar nada direito até que fosse livre para observar tudo. Ao passar pela porta, olhou diretamente para a escada que estava no final do grande corredor: haviam cinco salas de aula de um lado, e quatro do outro, e tinha o banheiro e uma rampinha que levava para o pátio, ela achava: não conseguiu deixar de reparar. Ainda que sua curiosidade a estivesse matando, ela foi até o fim do corredor de cabeça baixa e subiu as escadas da mesma forma. Haviam muitas coisas nas paredes, quadros,nomes,informativos, mas tudo passou como um borrão para ela. Ao chegar no segundo andar reparou que o corredor era maior, pois tomava também o espaço do hall de entrada que ficava embaixo, e por isso tinha duas salas de aula extras, tendo, assim, onze, com cinco de um lado e seis do outro. Foi olhando porta por porta até achar o primeiro A, entrou sem cerimônia, com o coração acelerado e esperando ter sido a primeira a chegar.
Falsa expectativa: já haviam cerca de quinze alunos na sala de aula. Todos estavam calados: Kings era uma escola nova, de forma que todos ali eram novatos. Todos tímidos,esperando pelo bendito professor que entrasse na sala. Alice teve vontade de dar uma gargalhada ao olhar para as caras de todos eles. A sala parecia estar segurando a respiração. No canto, um garoto estava com as mãos entrelaçadas na altura do queixo, olhando fixamente para o quadro branco á sua frente. O garoto de trás estava relaxado observando as outras pessoas, e parecia, como Alice, muito entretido. A garota atrás dele tinha o cabelo cacheado e estava olhando pela janela, com o rosto ansioso. O resto da sala estava olhando para baixo, noventa por cento deles estava tenso. O silêncio era total. A sala tira o mesmo papel de parede liso que o hall e o corredor, mas era azul escuro ao invés de vermelho. Alice colocou o pé direito dentro da sala de aula, e acabou pisando em uma estalinho que ela não reparou que estava ali, de forma que se assustou com o barulho, ainda mais por que estava debaixo de seu pé. Deu um grito de susto e um pulo, e três garotas do fundo gritaram em suas cadeiras e pularam ao mesmo tempo que ela. As pessoas caíram na gargalhada, inclusive Alice, mas menos as três garotas: elas respiravam fundo e escondiam o rosto com as mãos. Uma garota no fundo começou a rir alto, mas a risada dela era sinistra, era uma espécie de soluços misturados com gritinhos e a sala começou a rir da risada da garota. Alice se sentou na segunda carteira e ficou observando a sala enquanto sorria. As pessoas já estavam em silêncio novamente após algum tempo, mas a atmosfera agora era agradável. Era perceptível que a garota do fundo ainda tentava segurar sua risada. A loira, então, resolveu observar pelo menos o ambiente de sua sala. Na parede oposta à da porta, havia muitas janelas: havia janelas por toda a extensão da parede. No fundo, atrás das carteiras, ainda havia espaço: era uma sala larga, de forma que eram seis fileiras, com quatro alunos cada. No fundo, haviam vários livros didáticos e havia câmeras perto do teto. Nas paredes haviam informativos sobre coisas do primeiro ano, mapas, moléculas, coisas do tipo. Não era um quadro negro, mas uma lousa branca à frente dos alunos. Depois de Alice, quatro ou cinco alunos tinham chegado. Então entrou um professor na sala de aula. Ele tinha cabelo preto, era alto, pardo.
— Bom dia! - Ele entrou e deu o bom dia entusiasmadamente. Toda a sala respondeu. — Meu nome é Fausto Silva e eu sou professor de história e geografia de vocês. Eu vou explicar algumas regras da escola, vou apresentar a equipe que ajuda vocês por meio de alguns slides e então a gente vai conhecer toda a escola. Depois vocês vão sentar com seus pais, vai haver a cerimônia de recebimento, vocês vão comprar uniformes, receber cartões e todas essas coisas, então ficarão livres para se conhecerem e passear pela escola. Certo?— Ele deu ênfase na última sílaba. Novamente, todos responderam. — Primeiro vamos para as apresentações. Por fila. Você vai dizer o seu nome completo e uma qualidade sua, por que os defeitos a gente conhece depois.
— Eu sou Pablo, e eu sou bem-humorado. – Disse um garoto que tinha um cabelo na altura do ombro, levemente bagunçado.
— Eu sou Davi, e eu sou disposto. – Disse o da carteira de trás.
Todos os alunos se apresentaram. Alice era Alice, e era determinada. As três garotas que gritaram quando Alice entrou já estavam relaxadas, e eram Ester, Ayla e Athena. A garota que ria alto se chamava Luna, e era realista. Alice teve vontade de questionar essa qualidade,mas resolveu fazer isso depois. Alguns dos alunos disseram o seu sobrenome junto, para mostrar que eram ricos ou coisa do tipo.
— Certo. Agora eu gostaria de falar da escola em que vocês vão estudar por esse ano. A escola visa o bem-estar de vocês: nem os professores e nenhum funcionário quer que você tenha uma vida chata e se sinta obrigado a estudar. Ninguém quer que você ache que é uma droga vir pra cá. Vocês vão ficar aqui de segunda a sexta das 7h às 15:30 , então nós queremos que vocês sintam que essa é uma segunda casa para vocês. Porém nós temos algumas regras. Primeiramente eu vou apresentar quatro carinhas muito legais pra você. – No slide, apareceram as fotos de quatro homens, e os seus nomes estavam na foto. – Ricardo, Bernardo, Daniel e Marcos: eles são fiscais. Isso quer dizer que eles estarão rondando a escola, principalmente durante os intervalos, para perceber se você está fazendo algo errado. Lembrem-se também de que pelo menos um deles estará de olho nas câmeras. Eu acho que vocês sabem como se portar. Quero lembrar vocês também que educação vem de casa. Ao longo do bimestre será escolhido um presidente e um vice-presidente: os dois melhores alunos da sala, para cuidar de tudo. Ele será responsável por ajudar vocês a entender as matérias que não estejam entendendo, e serão o porta-voz da sua sala. Por isso não basta que o representante seja bom aluno: ele deve ser comunicativo e ser alguém disposto a ajudar. Claro, ele ajudará a fiscalizar vocês.
Então, no slide, ele apresentou as fotos de todos os professores e disse o que sabia sobre cada um deles. Foi quando uma mulher loira com um coque arrumado entrou na sala de aula.
— E essa é a diretora de vocês.
— Bom dia!— Ela era jovem,e falava entusiasmadamente, como Fausto. Ela passava boa energia e estava com um vestido branco ombro a ombro, estampado com flores vermelhas. — Eu me chamo Carmel. Eu estou aqui para ajudar vocês em tudo o que estiver ao meu alcance, ouvir suas sugestões e reclamações, e para garantir o bem-estar de vocês. Eu espero que vocês possam ver a Kings como um lugar que acolhe vocês, e que te dá todas as oportunidades de que precisa. Tudo o que nós mais visamos no nosso trabalho é a felicidade de vocês enquanto estiverem aqui. Fausto vai levar vocês por um tour pelo colégio,para que vocês conheçam a escola. É um recomeço. É um novo lugar para vocês, o qual vão passar um bom tempo. Façam amigos. Estudem muito. Comam bem. Sejam alegres.— Ela deu um aceno de cabeça e a sala bateu palmas. Então ela se dirigiu á próxima sala de aula.
— Muito bem. Vamos, por fila, saiam para o corredor.
Obedientes, os alunos saíram quietos da sala.
-Nesse corredor... não há nada de mais, além de salas de aula. Desçam.
No andar debaixo, Alice pôde voltar a observar. Nas paredes do corredor havia mais obras de ante: era como se a escola fosse um acervo. Ela amou isso, pois quando morava em São Paulo ela estava toda semana no MASP. Toda escola era bem iluminada e fresca. No meio do corredor havia uma passagem com uma rampa. Por ali, eles se depararam com o pátio/refeitório. Logo que terminava a rampa havia uma parte de concreto que levava a três salas de aula que eram acessíveis subindo cerca de cinco degraus, que depois Alice descobriu que eram duas salas de vídeo e um laboratório. Algumas mesas de refeitório ficavam do lado de fora das salas de aula situadas atrás da cozinha.
Mas á sua frente, dando alguns passinhos,Alice pisou na grama: as mesas do refeitório eram como mesas de parque, mas a madeira era pintada de rosa bem clarinho. Era metade coberto, metade ao ar livre. Havia um palco lá na frente, para a cerimônia. Acima das mesas, haviam várias lamparinas japonesas, e havia várias velas perfumadas. A decoração era muito simples, mas era muito agradável. Foi quando Alice entendeu a parte de querem que eles fossem felizes ali: tudo, ao ar livre, a floresta, as salas do jardim eram decoradas todas como qualquer criança poderia sonhar. As coisas não eram luxuosas ou caras, mas eram elegantes, boas e bonitas, e pareciam dizer que ser feliz não custava tão caro. As mesas estavam nas laterais, e no centro havia um grande mesa, onde haviam vários docinhos. Do lado direito do refeitório/pátio ficava a cozinha, e a poucos metros à esquerda dela, estava a biblioteca: entrando lá, Alice ficou boquiaberta. Algumas das janelas iam do teto com chão, mostrando as árvores do lado de fora. Algumas paredes eram totalmente cobertas por estantes. Atrás de cada, cozinha e biblioteca, haviam três salas de aula, de forma que eram seis salas de aula, uma oposta á outra. Já do lado esquerdo do refeitório era uma área que tinha playground, árvores, grama e um lago: era um mini-parque dentro da escola. Não tão “mini” assim: em frente ao pátio e oposto de onde Alice tinha vindo, havia uma grande quadra.Tinha o campo de futebol, ao redor dele, pista de atletismo. Ao lado tinha uma grande quadra, que servia para vôlei e basquete. Grande mesmo. As árvores iam desde o lado esquerdo do pátio e a trilha dele levava até a quadra, mas ainda tinha árvores em volta dela, e o parque continuava até a área da biblioteca, envolvendo todos os lugares da escola que não estivessem no primeiro corredor. Era um lugar perfeito para colocar seus livros e estudar. Ou fazer um piquenique. Ou ficar sozinho com seus fones. Ou ler um livro. Ou sentar e conversar. Ou fazer qualquer coisa,por que era ao ar livre! E em outro ponto perto da floresta, havia também uma grande sala, mas estava vazia, e ninguém sabia para o que era. Ela era toda do que parecia ser madeira, e era elegante e fria. Ao lado da cozinha tinha uma hortinha, e os alunos ficaram sabendo: aquela hortinha era responsabilidade deles, por que de lá vinha o seu lanche, e não era pago. Eles teriam que regar as plantas e, ás vezes, adubar.
Eles terminaram o tour e foram liberados para sentar-se com seus pais. Thalia e Anna já estavam na mesma mesa que André, e Alice foi se sentar com eles.
— Sorria! – Disse o seu pai, se levantando com uma câmera na mão. – A sua mãe não está aqui por estar no trabalho, mas ela exigiu fotos lindas. – Ele se ajoelhou e tirou uma foto de Alice, sorrindo como nunca. Olhando ao redor, Alice via algumas crianças dos jardins correndo de seus pais para escapar até o playground. A sala do jardim era o terceiro lugar favorito de Alice naquela escola, depois de biblioteca e mini-parque: lá tinha ursos do tamanho dela. Ursos de pelúcia enormes. Quem precisa ter quatro anos para amar ursos de pelúcia enormes? Os seus devaneios foram interrompidos por um toque de piano repentino. Todas as pessoas nas mesas voltaram os olhares para o palco, enquanto panelas e panelas de comida e pratos descartáveis estavam sendo colocadas na grande mesa. Haviam várias mulheres com vestidos longos no palco ao lado do pianista, e a melhor parte de todas: elas começaram a cantar Oh Happy Day! Todos na mesa de Alice começaram a cantar juntos em cochicho, rindo e dançando sentados. Todos bateram palmas e a diretora subiu no palco, seguida dos coordenadores, fiscais e professores.
Fora do microfone, Carmel deu uma pigarreada elegante: Alice queria aprender a fazer aquilo. Tinha certeza de que somente ela percebeu.
— Bom dia! – Ela saudou-os com um sorriso sincero, e pareceu que aquele momento era eterno: Alice começou a formar a idéia em sua cabeça de que era impossível uma pessoa não gostar de Carmel. — Eu nunca fui em uma cerimônia de boas-vindas escolar. E eu não sei direito o por que resolvi fazer isso, mas pareceu certo, e agora eu vejo que é. É necessário recebê-los propriamente. Há coisas que precisam ser ditas. Ser feliz não custa caro. Nós estamos aqui para ajudar vocês a subir os degraus da vida, e chegarem mais alto. Estamos aqui para que façam isso com esforço,mas alegremente. Estamos aqui para ensinar vocês não só como subir os degraus até o topo, mas a não cair dele. Há pessoas que são tão pobres, mas tão pobres que só possuem dinheiro. Vivam melhor do que isso. Vocês passarão o dia inteiro na escola, de sete horas da manhã até ás seis e meia da tarde: é quase metade do seu dia. Use a outra metade para a sua família. Para os seus sonhos. Para serem felizes. Esse ambiente escolar foi todo criado pensando em desenvolvimento... mas não como se fôssemos robôs. Desenvolvimento com alegria, por que eu não resolvi ter uma escola para ver um monte de caras de estudantes depressivos e mal-humorados. A Kings está aqui, alunos e pais, para estender a mão a vocês. Por isso nos apresentamos a vocês. O meu nome é Carmel, e sou diretora. – Ela passou o microfone, e cada professor disse o seu nome e a disciplina que ensinavam, cada funcionário, incluindo as cozinheiras e bibliotecárias, disse o seu nome. Então Carmel teve o seu microfone de volta. — Nós somos a Kings, e estamos de braços abertos para vocês. Tenham um bom tempo. Comam com alegria, conversem, conheçam coisas novas: conhecer e descobrir coisas e pessoas é uma das melhores formas existentes de ser feliz. Principalmente vocês, alunos: estão diante das pessoas que vão estar com vocês pelo resto do ano. Quanto tempo vão esperar para conhecê-los? Eu escolhi fazer a cerimônia pela manhã. Só não marquei o horário na aurora porque achei que não gostariam de acordar naquela hora. Mas... aurora: Aurora significa o primeiro raio de sol. É quando começa o dia. Este é o começo. Este dia representa a Aurora. A Aurora em minha vida, e na de vocês: é um novo começo. Façam valer a pena, desde a Aurora: não deixe que chegue a noite para você resolver começar. Celebrem. Tenham um bom começo. Aproveitem a Aurora. Muito obrigada. – Carmel se curvou para as pessoas que estavam assistindo e todos bateram palmas. Os funcionários deram as mãos e fizeram o mesmo. Carmel desceu do palco primeiro, e todos a seguiram em fila. Então o cara do piano voltou, e as mulheres também. Os fotógrafos saíram tirando fotos de cada mesa, de cada momento que os parecesse felizes o suficiente para serem eternizados. As famílias pegaram seus pratos e comeram juntos, e então saíram por aí, conhecendo, conversando uns com os outros.
— Ei, vocês duas. Não conheceram ninguém ainda? Vamos, levantem-se, conversem. As pessoas não mordem.— Alice incentivou suas irmãs, que permaneciam sentadas.
— Algumas mordem sim. – Comentou Anna, rindo.
— Vamos, há muitas pessoas interessantes.— Alice disse olhando nos olhos de Anna. O momento foi interrompido por uma voz de garota:
— Anna, venha brincar com a gente! – Uma garotinha de cabelos castanhos chamava Anna de longe.
— Vá. Mas muito cuidado com as brincadeiras, Anna. Eu estou de olho em você. – Avisou Alice, e Anna assentiu, logo correndo junto com a nova amiga. Alice se voltou para Thalia.
— E quanto a você? – perguntou a mais velha.
Thalia olhou atrás de Alice,para uma garota que estava sentada sozinha em sua mesa. Ela se levantou e beijou o rosto da irmã, então foi se sentar ao lado da garota. Alice suspirou e se dirigiu de volta ao hall de entrada: ainda queria observar as obras de arte, uma por uma. O primeiro ficava na parede da diretoria, bem no meio. Era todo colorido: um casal de costas, suas cabeças escondidas por um guarda-chuva. Era de Leonid Afremov, assim como os outros dois,e parecia que o pintor tinha um certo amor por cores e guarda-chuvas: o segundo e o terceiro ficavam um de cada lado da porta que levava para o grande corredor que tinha o segundo andar. No segundo, o céu não era o céu que conhecemos, mas um monte de cores misturadas. Assim também eram os prédios, mas eles eram possíveis de se distinguir. Havia uma mulher na rua, com um guarda chuva, de costas. O chão estava molhado, de forma que era um reflexo de todas as cores. Então Alice foi para o terceiro quadro. Um homem. Um guarda-chuva. Mas ele estava de frente, e de cabeça baixa. Estava ao lado de várias árvores, e o chão também era reflexo: a mistura de luzes amarelas de céu azul. Já havia muitas interpretações em sua cabeça quando foi interrompida.
— Ahhh...ei? – Um leãozinho estava ao seu lado. Era Pablo.
— Pablo. Oi! – Alice voltou-se para ele.
— Argh. Eu odeio esse nome. Você já leu O Senhor dos Anéis?
— Já!— Ela arregalou os olhos. — Você leu? – Ela disse entusiasmada.
— Ah, sim. – Ele disse sem muito entusiasmo. Ela deu um abraço repentino nele, acompanhado de um “eu não acredito!”. Ele inclinou a cabeça.
— Desculpe. Eh, eu sou assim. Não, não sou não. Na verdade... eu nunca encontrei alguém que tivesse lido e....enfim.
— Por que não nos chamamos por nomes fictícios? O meu pode ser Legolas. Eu odeio Pablo. O-d-e-i-o.
— Certo! Então eu posso ser... Galadriel?— Legolas sorriu.
— Tudo bem.— Ele olhou de relance para a pintura. — Gosta de arte?
— Pintura? Sim. De todo tipo de arte.
Legolas olhou de novo para a pintura.
— Você é dessa cidade? – Ele perguntou de repente.
— Sou de São Paulo. Você percebeu?
— O seu sotaque não é daqui.
— Sentiu cheiro de tinta? Sentiu? – Um garoto parou do lado de Alice.
Alice olhou para o quadro.
— Ahhh...não. A tinta não deve cheirar depois de tanto tempo.
— Ah, é? É que pintou um clima.
Alice e Legolas olharam para o garoto, fixamente. Legolas começou a balançar a cabeça negativamente,mas Galadriel sorriu.
— Galadriel, este é Smaug.
Alice olhou para Legolas, incrédula.
— Isso é algum tipo de RPG da vida real?
Smaug riu.
— Só para o clube de pessoas que odeiam seus nomes.
— Não odeio meu nome! Mas gostei disso.
— O seu nome é?
— Alice- ela respondeu.— Mas para você eu sou Galadriel.
— Cara, você ‘tá ouvindo esse som?— Ele começou a dançar.
Alice riu. Eles tinham trocado a música clássica por uma música eletrônica. Pelo que parecia, a festa também tinha DJ.
— Você tem gingado! – ela começou a imitar ele, e Legolas levou a cabeça para trás, rindo alto. Os três começaram a rir, mas Legolas não dançava.
— Ei,cara. Vamos. Dança com a gente. — Smaug incentivava.
— Nah. Olha lá.— Ele indicou para atrás dos dois.
Havia duas garotas olhando fixamente para Galadriel e Smaug, dançando ridiculamente.
Smaug deu de ombros, e Alice começou a piorar as coisas, sem se importar. Legolas olhou pra baixo, morrendo de vergonha, e os outros dois riram dele.
Eles ficaram dançando, ridiculamente, ali, sozinhos. Alice não disse, mas tinha vergonha de dançar no meio de muita gente. Mas Legolas era legal, e Smaug também. Ela não estava preocupada. Legolas pegou um refri e começou a tomar, e os outros dois só dançando.
— Vocês trouxeram suas famílias?— Alice perguntou aos dois.
— Ah,sim. Meus pais estão aí.
— Eu trouxe meus ‘irmão’, e meus pais também.
— Seus irmãos irão estudar aqui?
— Sim,mas ele é do jardim. Eu estou na sua sala, sabia? Mas é por que eu cheguei meio atrasado, sabe?
Alice riu.
— É. Só um pouquinho.
Os três ficaram conversando por mais alguns minutos, até os pais de Legolas aparecerem.
— Olá, querido. Vamos lá, comprar o seu uniforme? Eu e seu pai precisamos trabalhar. – Ela vestia um vestido roxo muito bonito, e tinha bastante postura.
— Certo. Estes são Alice – A mulher e Alice se cumprimentaram com um beijinho, e ela apertou a mão do pai de Legolas. Eles foram bastante simpáticos. – e Smaug.
A mãe de Legolas hesitou ao ouvir o nome, e Smaug segurou o riso. Ele cumprimentou ela com um “muito prazer” e um aperto de mão, e o pai da mesma forma.
Então o pai de Alice apareceu.
Ele cumprimentou Smaug.
— Ei, você fez um amigo? Venham para uma foto. Aproveitem que estão chiques e cheirosos hoje.
Eles se juntaram: Smaug, Galadriel, Thalia, Anna, o pai,Carmel, Carol( a garota que Thalia conheceu) e Sofia( a amiga de Anna). A foto foi feliz assim como aquele dia, então todos se despediram e Alice e sua família foram comprar os uniformes. Anna deu gritinhos: o uniforme era lindo! Era como ela sonhava: Uma saia preta ou branca, meia calça preta, blusa ou camisa de manga longa. Tinha blusas vermelhas,brancas, azuis e pretas. Sem falar na blusa listrada. O uniforme de Anna, do quinto ano, era uma blusa branca de manga longa e a saia preta. A de Thalia era a blusa azul de manga longa e uma saia preta. A de Alice era com a blusa vermelha e uma saia preta: as coisas mudavam de série para série. Algumas tinham a saia branca.
Então eles foram para a casa, e Alice voluntariamente fez o almoço favorito da mãe dela.
Notas finais
Estou muito feliz com a história. Sintam-se livres para comentar suas opiniões,críticas, expectativas,se vocês acham que a história teve algo bom ou que tenha te chamado a atenção. Falem! De quem gostam mais, de quem gostam menos, o que gostariam que acontecesse... vamos conversar. Até o próximo capítulo, pessoal!
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