Aurora
1 A Maldição
Notas iniciais
Em algum lugar da imensidão do universo existe um reino. Pouco depois da Terra do Nunca e muito próximo ao País das Maravilhas, mas a história não se passa em nenhum desses lugares. Nós estamos falando sobre o reino que nunca dorme, aquele assolado pela fúria de um exército sedento de sangue e movido por um triunfo que existe até hoje nos corações daqueles que possuem a esperança de voltar para casa. Um triunfo aceso que pressagia há eras a paz ou a escuridão que reinarão aquela terra.
E em qualquer lugar daquele mesmo reino havia uma profecia sobre duas rainhas e um salvador vindo dos céus que traria a paz e o descanso que por tanto tempo o povo almejou. Mas aquele tempo se tornou décadas e aquelas décadas séculos e milênios até que a esperança se dissipasse pouco a pouco no coração de cada um que permanecia vivo mais um dia para contar uma história.
Eu era um contador de histórias e sabia que depois de morto minhas aventuras seriam enterradas comigo (ainda que antes daquilo eu não tivesse nada de interessante sobre o que me gabar). Mesmo que de onde eu venha morrer tenha chances de virar reconhecimento, nunca fui muito fã de saber o que acontece depois de você bater as botas e ver a luz.
Contudo a história não é exatamente sobre mim e muito menos sobre as minhas conquistas. Essa história é sobre ela.... Aquela que brilha como ouro.
Ouvi pela boca de outros que aquele dia havia regado o reino de fé, paz e alegria. O povo sentiu-se abençoado quando percebeu uma brisa refrescante correr em meio a rua e toma-los de um calor aconchegante transmitido pelos raios de sol. A grama verde vinda do Castelo seguia a caminhada durante casas e mais casas prolongando-se até onde os olhos não podiam ver, como se descordasse do ditado em que diz que a grama do vizinho é mais verde que a minha. Era um exemplo irônico de comprovar que naquele dia literalmente tudo eram rosas.
Eu não a conheci antes de todo aquele caos, mas as pessoas diziam que a rainha era incapaz de ter filhos e tornara-se amargurada por isso. Todos acreditavam que aquele era o motivo pelo casamento do rei e da rainha ter se tornado um compromisso aliado apenas a responsabilidade de manter o povo e nada além. Eles diziam que já naquela época os boatos de que o rei traia a rainha corriam pelos vales e os corredores do castelo, e ela sabia.
A verdade era que ninguém sabia o que se passava no castelo até então, mas aquilo não era de importância. Após o nascimento da princesa, foi dado oficialmente um novo recomeço ao reino. O rei e a rainha começavam a aproximar-se com a chegada da filha o povo unia-se para celebrar um evento tão memorável como aquele. Mas o que ninguém sabia era que, ao norte do castelo, no canto mais isolado do reino, em uma torre de pedras tão despedaçada quanto seu coração, havia uma mulher.
A amante do rei agora não passava de uma simples mulher esquecida no canto mais sombrio do reino. Cega pela amargura, a infidelidade e a dor que sentia ao ver o rei com sua nova filha esquecer-se de todas as promessas que havia feito a ela e a seu pequeno filho, Malévola fraquejou diante de suas dores e cedeu a sede de vingança em seu coração.
Ela ergueu montanhas e árvores espinhosas ao redor de sua torre, tornou-a impenetrável e armou um exército de monstros que arrastou a escuridão e as trevas daquele lugar sombrio durante quilômetros e quilômetros de todo o reino. Juntos eles espalharam o caos a mando da nova rainha, que não se dando por satisfeita viajou na névoa negra de sua magia até o castelo do rei.
Pessoas de diversas classes sociais estavam reunidas no salão de batizado. O Rei e a Rainha sentavam no trono diante do berço de forma imponente, e dizem que, quando a névoa tomou a sala, as Três Fadas Boas abençoavam a princesa no topo de sua cama.
Ouviram-se gritos, janelas batendo, vidros quebrando e velas apagando ao tempo que Malévola materializava-se através da névoa diante da princesa. Alguns dizem que viram o espanto no rosto do rei, já eu gosto de pensar que ele sabia exatamente o que estava por vir. Fazer promessas a uma bruxa e abandona-la como se não fosse nada era o pior crime que o rei poderia ter cometido, e a partir dali, sua família e seu povo sofreriam as consequências.
― Que evento brilhante, Rei Stefan ―o meu palpite é que suas palavras saiam como cacos de vidro arranhando o ar, e seus olhos representavam uma fúria que de todos aqueles os reunidos nunca presenciariam novamente.
Malévola vestia um manto de couro que a acompanhava depois de seus pés, arrastando-se de forma graciosa e sombria no chão. A manga de seus braços estendia-se na largura e caia após os joelhos, a gola armada terminava onde deveriam começar os seus cabelos, que eram enrolados no que pareciam ser seus chifres, e suas unhas compridas acariciavam a esfera verde no topo do bastão negro.
― Quem é essa mulher, Stefan? ― Apesar de perguntar de forma inocente, no fundo ela sabia exatamente quem era a bruxa posta em sua frente e o que queria. E naquele momento, ambas compartilharam um sentimento recíproco em direção ao rei.
― Não me apresentou a sua esposa? ― A bruxa circundava cada palavra antes de proferir, e mesmo assim, tudo soava de maneira natural. ― Nada que não tenhamos vivido antes.
― O que você quer, Malévola? ― O rei Stefan perguntava de forma rígida, pelo o que eu soube, sem dar-se o trabalho de fingir importância ou mostrar um pingo de sentimento a bruxa, e aquilo despertou nela apenas ódio e mais ódio.
A risada de Malévola, eu não poderia negar, ao mesmo tempo em que era graciosa e bonita havia uma parte de maldade e algo que não conseguia até hoje compreender. Talvez fosse a mágoa aprisionada em seu coração de forma tão agressiva, ou dor que a fazia sangrar e que ao mesmo tempo era substituía por perversidade, sendo abastecida pelo rancor e nunca resolvendo seus problemas.
―Devo dizer que me senti magoada quando não recebi o convite para um evento tão importante como esse ― seus olhos maliciosos desviaram-se da princesa e ela ergueu a mão em que segurava o bastão e apontou para todo o povo reunido no salão. ― Realeza, nobreza, cortesão e... ― Seus olhos pregaram-se nas Três Fadas Boas, algumas das responsáveis pelo seu exílio. ―Até a ralé.
Primavera segurava-se para não enfrentar Malévola, que assim como todos os outros naquele salão, era muito maior que ela. Mas mesmo que fosse uma fada, os poderes da bruxa nunca se comparariam ao seu.
― Sinto-me traída ―seus olhos perturbadores dirigiram-se ao rei de forma acusatória, compartilhando algo que estava subentendido. ― Tendo em vista que fui a única a ser esquecida.
― Não é bem-vinda.
A cada vez em que o rei se pronunciava o coração de Malévola era espatifado, e a cada dor causada pelo amor nunca retribuído do rei, a bruxa sugava mais e mais rancor da forma que pudesse abastecer em sua alma.
― Que terrível situação ― a bruxa levou a mão fria, pálida e comprida em direção ao peito, num grande fingimento. ― Sendo assim é melhor que eu parta.
Aliviada por uma falsa esperança, a rainha tornou a perguntar, para a sua infelicidade:
― Não se sentiu ofendida?
― Oh não, não, Majestade ― ela dava passos perigosos em direção ao berço, como uma cobra preparando-se para abocanhar. ― E para provar que lhe digo a verdade, eu também irei agraciar a criança.
O Rei Stefan levantou-se num pulo, implorando para que Malévola fosse embora e lhes deixasse em paz, mas o coração da bruxa sangrava e era tarde demais para qualquer veemência. O salão transformou-se num coro de vozes desesperadas.
― Ouçam bem, todos vocês! ― Ela exclamava com anseio e sua voz tornava-se cada vez mais alta e majestosa. ― A princesa nascerá com graça e beleza, e será amada por todos ao seu redor. ― Seus olhos ergueram-se minimamente, suas pupilas dilataram, o verde tornou-se cada vez mais forte e uma névoa de mesma cor subia e dançava em suas mãos, estendendo-se no chão e envolvendo o berço. ― Mas ao pôr do sol do seu décimo nono aniversário, ela espetará seu dedo no fuso de uma roca de fiar e cairá no sono da morte!
A névoa tornou-se forte como evento e encobriu o corpo de Malévola rapidamente, ao passo em que a voz do rei tentava ser mais alta que sua risada, ordenando a todos os guardas que a prendessem.
O Rei Stefan mandou que destruíssem todas as rocas de todo o reino, reforçou os guardas em todas as entradas e em cada corredor do castelo, e ordenou aos que restaram que encontrassem e trouxessem a bruxa ao rei. Mas todas as tropas morreram e, aos poucos, o castelo estava a mercê de qualquer ataque, assim como o reino, que foi tomado pela bruxa.
O céu se tornou mais escuro, as florestas ganharam vida tornando-se a cada dia mais perigosas e o mato começava a adentrar no Castelo.
Dominado pela pressão e pela perda da rainha recém-falecida, o rei pediu que as Três Fadas Boas a levassem para longe e cuidassem de Aurora como se fosse sua sobrinha, buscando sempre mantê-la longe dos olhos de Malévola, como se fossem meras camponesas. O que o rei Stefan não contava era que sua inocente filha seria seduzida pelo filho de Malévola.
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