Auditoria
1 Prólogo, ou como gosto de chamar, como a merda começou.
Notas iniciais

— Talvez seja o cabelo. Se eu fosse da auditoria, com certeza desconfiaria de alguém com um corte que mais parece obra de um cabeleireiro em pleno Katrina.
Casualmente, tomei um gole de café. Droga, alguém precisa avisar a dona Maria que existem diabéticos neste setor. Fazendo uma careta com tamanha doçura (isso que sou a fanática por açúcar número um deste Brasil), voltei a olhar para Matheus.
Que, por um sutil acaso, soltava ácido pelos olhos.
— Desculpe, Alicinha, contudo eu não tenho o tempo livre que vossa senhoria tem para ir aos melhores salões de todo o sul. Afinal, também tenho uma coisa chamada responsabilidade.
Ó, desculpe. Que grosseria enorme a minha, querida leitora¹. Simplesmente lhe joguei em uma cena sem nem prestar atenção no enredo. Que feio.
Meu nome é Alice, trabalho em uma empresa que é tão chata que em quatro anos aqui aperfeiçoei minha técnica de desenho do nível boneco de palito para o estilo realista. Juro. Acontece que, de semestre em semestre, os chefões resolvem tirar uma com nossa cara e enviam uma auditoria para cada uma das filiais. Para eles, é uma missão super secreta. Para nós, é perder o cu ao ver um bando de caras mais velhos, dignos de fios grisalhos e tudo, andando pelos corredores e fingindo conhecer todo mundo desde o maternal.
Tirando toda essa parte melodramática e digna dos Bracho², há três anos entrou neste mesmo setor um rapaz chamado Matheus. Gato para caralho, vou ser sincera. A cabeça é uma merda, distraído que só ele, porém quando se trata de bater meta, não há melhor. Ele é capaz de duplicar números como se essa tarefa fosse automática, inventando maneiras de converter clientes que só deus³ sabe. Logo, saiu de estagiário e foi efetivado.
Ganhando, assim, a porra da mesa ao lado da minha. E eu jurando que poderia furtar aquela cadeira para esticar as pernocas até que a aposentadoria chegasse...
Maldito.
E, como se esse grande monte de bosta não fosse suficiente, virei testemunha de suas diversas manias. Enganam-se as moças e moços do setor de criação que o acham “tímido e fofo”. Os olhos podem ser grandes, de tom não identificado (astigmatismo fode até nas conquistas, ô raios), com aspecto inocente e o escambau. Porém a alma...
Ah, a alma. Digna de inúmeros pitacos, tiques medonhos quanto ao posicionamento de post-its e o irritante tec tec tec da caneta. Custava a empresa comprar Bic? A antiguinha, velha amiga, transparente e com tampinha?
Mas nããão. É tudo um grande complô para ver quem consegue fazer a Alice descascar o esmalte primeiro.
Agora, com as explicações quase completamente dadas (afinal, não queira comer o recheio antes da massa), voltamos ao meu estupendo xingamento.
— Escuta aqui, Matheus Luiz-
— Alice Gonzaga. Matheus Luiz Andrade.
Como uma lince, meu colega ergueu-se da cadeira e me ofereceu a mão. Ignorei e me levantei, levando – obviamente – o café comigo. Largo o emprego, largo a família, mas jamais largo o café. Meu inestimável amigo, mais útil que muita gente.
Vindo em nossa direção, um dos mil modelos da linha velhaco-de-terno-cinza-e-grisalho sorria falsamente. Em sua mão esquerda, uma pasta em tom amarronzado. A outra mão, muito desidratada para meu gosto, estava erguida em direção ao Matheus.
Claro, porque deus me livre cumprimentar a mulher primeiro. Obrigada, machismo nosso de cada dia. Ridículo.
— Prazer, sou Augusto. Faremos as entrevistas de auditoria em poucos minutos, e gostaríamos que fossem para a sala de conferências até o momento da mesma.
Gostaríamos, do latim, ou façam ou perdem seus empregos que sustentam famílias e gatas famintas clamando por Whiskas sachê.
E é assim, queridas amigas, que finalizo esse prólogo. O café está esfriando, e Matheus está sutilmente me cutucando para ir na frente. Mesmo que vocês só existam em minha cabeça como amadas ouvintes, espero trazer notícias logo. Adeus (mundo cruel).
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