Audaciosos - Interativa

22 Precipícios ao Vapor


Notas iniciais
Iae, como que vai essa força de vocês?
Trouxe um capítulo fresquinho, porque no domingo não ta fácil pra ngm. Enfim, queria agradecer a linda da A menina que roubava livros pela recomendação. Vou te mandar um abraço virtual, senta lá e aguarde chegar.
Espero que estejam gostando e pra quem não leu ainda as notas anteriores, vou repetir: Mandem os medos de seus personagens por MP.
Até os próximos!

Nathan encarava a madeira corroída da beliche de cima, submerso em seus próprios penamentos.

Tinha acordado junto ao sol de tão perturbado. Todo dormitório ao seu redor ainda roncava, aproveitando máximo possível antes que Híria viesse apitar em seus ouvidos. Mas ele não conseguia mais acompanhá-los. Ainda pensava na luta entre Griffin e Corinne e involuntariamente estremeceu.

Os fracos só são de fato fracos se não tiverem coragem o suficiente para enfrentar os fortes. Ouvira por acaso uma vez e desde então carregou essa frase consigo. Mas nunca imaginou que chegaria o momento de realmente utilizá-la em uma reflexão.

Porém esse momento acabou de chegar.

E de acordo com ela, Corinne era agora uma das fortes. Nathan se sentia quase que traído com isso. Não que ele tivesse preferido ver a amiga desacordada, mas ela parecia tão... frágil. Ele cuidou dela por conta disso. A protegeu das provocações alheias. Apenas para depois descobrir que ela não precisava de nada daquilo. Que poderia quebrar Griffin com as próprias mãos, mesmo ele tendo o dobro de seu tamanho.

Que talvez, até, estivesse o enganando com sua meiguice.

Olhou para a sua esquerda, e mesmo depois de duas camadas de beliches, viu a própria adormecida, ressonando levemente e agarrando o travesseiro junto ao peito. Seu rosto delicado estava borrado pelas manchas pretas, roxas e vermelhas das pancadas do dia anterior. As madeixas caiam em um lençol de cetim pelos ombros. Frágil. Era o quê ela parecia, assim de relance.

Ou apenas parecia.

Sua cabeça latejava, e a verdade e a mentira eram congruentes agora, o confundindo. Isso seria fruto de quê? Uma paixão cega? Ou apenas insegurança competitiva?

Paixão. Essa palavra sim era um problema. Não sabia mais dos seus sentimentos. Se pegou até, incontáveis vezes, encarando Cassy. Ela era linda, e aquele jeito teimoso e desinibido o fascinava, mas não sabia o quê seria. Do mesmo jeito de que não sabia o quê seria com Corinne.

Abaixou os olhos e ao ouvir os passos dos coturnos de Híria do lado de fora do dormitório, os fechou para se camuflar. O apito estridente ecoou e Terr assustada, no colchão de cima, tropeçou nos cobertores e despencou, se espatifando no chão ao seu lado.

– Terr! — Nathan empurrou as cobertas para o lado e ajudou a garota a se levantar. O caroço entre seu cabelo ruivo parecia ter inflado com a pancada, mas ela disse que estava bem quando ele lhe perguntou.

– Você está bem? — Híria repetiu a pergunta e a franca assentiu pela segunda vez. — Ótimo. Mesmo procedimento, pessoal! Volto em uma hora! — E abandonou o salão.

– Obrigada — Terr sorriu de canto e caminhou até o banheiro feminino. Nathan retribuiu o mesmo. Estava prestes a recolher a roupa que iria trocar quando Corinne surgiu ao seu lado, vestindo uma camisola bege, levemente apertada na cintura.

– Ela era bonitinha — Comentou, com um tom de voz mais aberto. — Pena que aquela depressão na testa estragou tudo.

Nathan a encarou.

– Qual o seu problema? — Corinne franziu as sobrancelhas e sua serenidade anterior desceu em uma cortina desajeitada sobre seu rosto — Até ontem você só comentava coisas boas dos outros — A boca do rapaz se tornou uma linha reta de reprovação — Já hoje, só por causa que ganhou do Griffin fica se achando no direito de comentar coisas ruins.

– Nossa, Nathan — A cortina se arrumou em sua expressão e a face inocente retornou — Eu estava apenas brincando. Por quê está agindo assim comigo? Eu apenas venci uma luta. Não é como se tivesse matado alguém.

Nathan limpou a garganta. Estava ficando paranoico com tanta pressão?

– Desculpe — Disse — Só estou nervoso com a luta de hoje.

Corinne puxou o canto dos lábios em um sorriso.

– Tudo bem, está desculpado — E se inclinou para beijar seu rosto. Por mais que Nathan tentasse se contar, não conseguiu segurar um suspiro. O toque o fez estremecer inteiro. Ainda mais porque o canto de sua boca foi tocada pela dela, de propósito.

Corinne esboçou um último sorriso e recuou para o banheiro.

– Cassy esganaria vocês dois se tivesse visto o quê acabei de ver — Delly estava na fileira da frente, penteando os cabelos molhados com um pente grosso.

– Por quê?

– Desculpe, conquistador — A garota riu — Mas é coisa confidencial.

– Conquistador? — Ouviu a própria risada seca engasgar em sua garganta. — Não me diga que Ca...

– Se é confidencial é óbvio que não vou dizer — Delly pousou o pente em uma mochila — Se não ela iria me esganar também.

Já estava prestes a insistir no assunto quando o grito de Híria retornou.

– Quinze minutos!

– Vá — Delly disse, fazendo uma trança desgrenhada no cabelo.

– Mas essa conversa não acabou aqui! — Delly apenas riu novamente e Nathan adentrou no banheiro masculino, logo após, em um compartimento com o chuveiro isolado. Se despiu e deixou o vapor da água o envolver antes de se molhar.

Nem se ensaboou direito antes de sustentar a cabeça na parede de ladrilhos e tentar raciocinar direito o quê estava acontecendo.

Deveria confiar em Corinne? Ele gostava mesmo dela? Ela poderia estar usando-o, como provavelmente tinha feito até agora.

Ou ele gostava de Cassy e só veio se tocar desse sentimento oculto depois de saber, por Delly, que era correspondido.

Ou ele gostava das duas.

Ou ele estava ficando realmente louco com tantos ou.

A água escorria em rios de lágrimas doces por sua pele e por mais que turbulentos seus pensamentos fossem, conseguiam adquirir estabilidade com todo aquele vapor e água. Como se o líquido não varresse apenas a sujeira, mas também suas inseguranças.

Porém a maior delas era exceção.

Estava divido entre dois precipícios que não teriam mais saída depois da queda. Dois precipícios, chamados Cassy e Corinne.